
(Janeiro de 2008)
Você acha possível ter um amigo que não se via há mais de cinqüenta anos e continuar a chamá-lo de amigo?
- "Como pode ser isso?".
Eu explico:
Davi foi parte importante da minha infância - Davi Ulhôa Cintra. Eu teria meus oito, nove ou dez anos, não me lembro muito bem. E esta é a história do meu relacionamento com Davi, um excelente contador de histórias à semelhança das histórias e dos narradores criados por Malba Tahan e Lobato.
Depois aconteceram mudanças nas nossas vidas, transferências minhas para outras localidades – ele sempre continuou na mesma cidade e no mesmo endereço.
Só sei que eu morava na Rua Sorocaba, na cidade de Marília, ao lado do Parque Infantil Municipal, também de gratas recordações.
Davi tinha um dom para contar episódios inventados por ele mesmo, ou seja, se era uma história, os capítulos se desenrolavam com uma naturalidade impressionante. Se a narrativa era de uma aventura, idem. Muitas vezes o personagem era conhecido dos jovens e adolescentes, mas a história, essa sim, era dele (ou melhor, era nossa!).
Reuníamo-nos à noite, logo após o jantar. Éramos três: Davi, Adinor (o “Zinho”) e eu. Ansiosamente esperávamos a hora dos “contos”.
Ele devia ter uns dois anos mais que nós, e esse fato dava-lhe um ar de especialista e também de superioridade.
A aventura que mais nos emocionava era a história de Tarzan, sempre contada em capítulos, desde o seu nascimento, a ida com seus pais para a África, sendo ele ainda um bebê, o naufrágio do navio em que se encontravam, a morte dos pais, etc.
Aquilo nos deixava embasbacados e de boca aberta.
Ah, quando ele voltou ao local do naufrágio e encontrou a faca que havia sido do seu pai! Que emoção. Especialmente porque o achado implicava em que Tarzan mergulhasse nas águas do rio até a embarcação.
E tudo ia saindo com uma grande espontaneidade.
O interessante era que, chegando um ponto emocionante ou de perigo, ele interrompia a narrativa.
- Bem – dizia ele, - continuamos amanhã às mesmas horas.
- Mas – reclamávamos – conta só mais um pedacinho.
- Não!
- Por favor...
- Nada disso. O capítulo acabou e só teremos a continuação amanhã à noite.
E não cedia, não falava mais nem uma palavra da história. Aliás, mudava de assunto.
Somente iríamos saber o que estava para acontecer com Tarzan e seus animais naquela densa selva localizada em um planalto que era como uma propriedade dele (a “Escarpa Mústia”) no dia seguinte.
Ah, como era bom aquilo. Fez parte da minha vida.
Bem, falemos do Davi. Era bem alto, talvez um metro e noventa. Praticava basquete e se dava bem nesse esporte em razão da altura. Fazia o curso escolar regular no Ginásio Amílcare Mattei. De boa prosa, dava-se bem com praticamente toda a cidade. Mas conosco era diferente - era uma coisa mais sólida, um relacionamento muito próximo.
Claro está que, passado tanto tempo do nosso último encontro, não sei de algumas particularidades como, por exemplo, onde morava ultimamente, se casou, se teve filhos.
Tenho tantas ligações com ele que, para você entender, sua mãe, Dona Saula, foi minha professora de Inglês no Curso Ginasial.
Finalmente, por que falar do Davi?
É que fiquei sabendo que ele faleceu há alguns dias, deixando muitas saudades, não só na família (Lia, Lílian, Delfino, etc.), mas também nos amigos como eu.
Agora você vai entender como se pode ter amigo que não se vê há mais de cinqüenta anos.