
O presente episódio, já que sucedido com pessoas reais, omite os nomes verdadeiros dos envolvidos.
É a história verídica do casamento e dos fatos subseqüentes ocorridos com meus tios.
Morávamos em Marília, no Interior do Estado de São Paulo. O tio Juca era muito ligado ao meu pai e freqüentava a nossa casa sempre que podia. Na verdade trabalhava com meu pai, transportando máquinas de costura e rádios, entregando em toda a Alta Paulista e no Mato Grosso.
Era ainda solteiro, alto e distinto.
Certo dia foi convidado a trabalhar para o dono de umas terras loteadas que estavam sendo vendidas em prestações para todos aqueles que se aventurassem a sair das cidades e partir para o campo, bastante longe de Marília – uns 120 quilômetros.
Foi ficando, ajudando o proprietário das terras – Fortunato da Cruz Campante - no que podia, a tal ponto que até a caminhonete do senhor Campante ele dirigia para todos os lados, no cumprimento de suas tarefas.
A propósito, a divisa do senhor Campante era: “Fortunato da Cruz Campante – o nome que vale por uma escritura definitiva”. Cá entre nós, somente na propaganda...
Mas, voltando ao Tio Juca: na sede do povoado que levava o nome de Guaraciaba morava com seus pais uma jovem simpática e bonita – a Mariquinha, minha futura tia – para quem o Tio Juca começou a arrastar a asa, cortejando-a.
Ela correspondia aos seus galanteios, de tal sorte que acabaram se casando.
Ah!, só que ela pensava que ele era rico, muito rico, pois vivia dirigindo aquele veículo lindo, último tipo, e dava ordens para uns e para outros, como se fosse dono das terras e de tudo o mais.
Só conheceu a realidade quando ele deixou de trabalhar com o senhor Campante e retornou para Marília para voltar a trabalhar com o meu pai.
Mas aí a coisa já estava feita e não adiantava chorar sobre o leite derramado!
Ela, por sua vez, o ajudava bastante, pois era exímia costureira e atendia as pessoas – geralmente do sexo feminino – em suas encomendas de vestidos, toalhas, bordados e outras coisas.
Uma coisa que marcou e que até hoje não sei como ele conseguia: teve de extrair todos os dentes – todos – e não se acostumou com as próteses totais que lhe permitiriam comer normalmente e lhe dariam uma boa estética ao rosto. Assim, ficou sem nenhum dente na boca, totalmente banguela. E comia, até muito bem.
Quando se aposentou, o casal veio morar em São Paulo e foram levando a vida. Meu tio foi acometido de um mal que lhe tirou a força dos músculos, especialmente os do pescoço, de sorte que ficava sentado em um sofá com a cabeça pendida para frente, ou para trás, ou do lado.
Aí minha tia Mariquinha vinha e delicadamente ajeitava sua cabeça.
Cuidou dele até o fim, com resignação e ao mesmo tempo com carinho.
A superação que experimentou desde o momento que o conheceu e durante toda a vida foi algo de extraordinário.
E ele sempre foi muito divertido. Ia à nossa casa logo de manhã, quando eu ainda estava dormindo, pegava uma fibra de piaçava da vassoura e ia fazer cócegas em meu pé, até me acordar. E eu ficava furioso...
Guardo boas lembranças dele.