
Franklin Távora
A história de Pernambuco oferece-nos exemplos de heroísmo e grandeza moral que podem figurar nos fastos dos maiores povos da antigüidade sem desdourá-los. Não são estes os únicos exemplos que despertam nossa atenção sempre que estudamos o passado desta ilustre província, berço tradicional da liberdade brasileira. Merecem-nos particular meditação, ao lado dos que aí se mostram dignos da gratidão da pátria pelos nobres feitos com que a magnificaram, alguns vultos infelizes. Entra neste número o protagonista da presente narrativa, o qual se celebrizou na carreira do crime. Autorizavam-nos a formar este juízo do "Cabeleira" a tradição oral, os versos dos trovadores e algumas linhas da história que trouxeram seu nome aos nossos dias envolto em uma grande lição.
A sua audácia e atrocidades deve o renome deste herói legendário para o qual não achamos par nas crônicas provinciais.
Com a simplicidade irrepreensível que é o primeiro ornamento das concepções do espírito popular, habilitam-nos esses trovadores a ajuizarmos do famoso valentão pela seguinte letra:
Fecha a porta, gente,
Cabeleira aí vem,
Matando mulheres,
Meninos também.
De parceria com um pardo de nome Teodósio, que primou na astúcia e nos inventos para se apossar do que lhe não pertencia, percorriam José (o "Cabeleira") e Joaquim o vasto perímetro da província em todas as direções, deixando a sua passagem assinalada pelo roubo, pelo incêndio, pela carnificina.
Um dia assentaram dar um assalto à própria vila do Recife.
O assalto foi resolvido em secreto conciliábulo dentro das matas de Pau d'Alho Na mesma hora aperceberam-se para a temerária tentativa e, com o arrojo que lhes era natural, puseram-se a caminho contando de antemão com o feliz sucesso em que tinham posto a mira.
À notícia da sua aproximação a maior parte dos moradores, deixando os povoados, então muito fracos, emigrou para os matos; tais houve que, não tendo tempo ou recursos para fugir aos cruéis visitantes, lhes deram hospedagem como meio de não incorrerem no seu desagrado.
Ao declinar do dia seguinte eram eles na Estância.
- É muito cedo para entrarmos na vila - disse o "Cabeleira". - E não será até melhor que o Teodósio vá primeiro que nós para assentar ainda com dia no meio mais certo de realizar a empresa?
- Tens razão, José Gomes, - acrescentou Joaquim. - O Teodósio, que é macaco velho, deve ir adiante a sondar as coisas.
"Cabeleira" podia ter vinte e dois anos. A natureza o havia dotado com vigorosas formas. Sua fronte era estreita, os olhos pretos e lânguidos, o nariz pouco desenvolvido, os lábios delgados como os de um menino. É de notar que a fisionomia deste mancebo, velho na prática do crime, tinha uma expressão de insinuante e jovial candidez.
Joaquim, que contava o duplo da idade de seu filho, era baixo, corpulento e menos feito que o Teodósio, o qual, posto que mais entrado em anos, sabia dar, quando queria, à cara romba, uma aparência de bestial simplicidade e a mais refinada hipocrisia.
- Entendo que é bem lembrado o que dizes, "Cabeleira" - acrescentou o cabra levantando-se. - Corro sem demora armar o laço para apanhar o passarinho.
- E onde depois nos encontraremos? - perguntou Joaquim, vendo que o Teodósio se achava já de marcha para a vila.
- Não será o mais custoso. Esperarei por vocês debaixo da ingazeira da ponte.
Teodósio, não estando mais para conversa, conchegou o chapéu de palha à cabeça para que o vento não lho arrebatasse, e desapareceu em rápido marche-marche.
Antes que o sol descesse ao horizonte e as trevas envolvessem de todo a natureza, meteram-se o pai e o filho pelo caminho onde um quarto de hora atrás havia desaparecido o outro companheiro.
A solidão estava sombria e triste.
Contavam-se então as casas por aquelas paragens. Em torno delas o deserto começava a aumentar antes de pôs-se o sol. Uma lei cruel, a lei da necessidade, obrigava os moradores a trancar-se cedo por bem da própria conservação. Os roubos e assassinatos reproduziam-se com incrível freqüência nos caminhos e até nas beiradas dos sítios.
Sólidas habitações não tinham sido obstáculo ao assalto dos malfeitores.
A vila estava em festa. Foi no primeiro domingo de dezembro de 1773. Era governador Manuel da Cunha de Meneses, depois conde de Lumiar, jovem fidalgo a quem a igreja pernambucana deve distintos benefícios.
Com a data do 1° daquele mês tinha ele feito publicar uma comunicação pela qual ordenara aos moradores que pusessem luminárias em demonstração da alegria que causara à nação portuguesa a abolição dos jesuítas em todo o orbe cristão, pelo santo padre Clemente XIV.
No lugar onde hoje existe a formosa ponte Sete de Setembro que liga o bairro do Recife ao de Santo Antônio, via-se nessa época uma ponte de madeira.
Era uma rica construção, nada menos do que uma rua suspensa sobre as águas do rio Capibaribe, que passa aí reunido ao Beberibe, depois de um curso de oitenta léguas por entre matas, por sobre pedras e ao pé de pitorescas vilas, povoações e arrabaldes.
Com a fundação das casinhas teve por fim o governador de criar uma fonte de rendas destinada à conservação das pontes da província, quase todas nesse tempo em deplorável ruína.
Na boca da noite os dois aventureiros chegaram à parte do bairro da Boa Vista que é de nós conhecida por Ponte Velha. Raras casas mostravam-se então aí.
A pouca distancia para o sul do lugar onde existira a antiga ponte, levantava-se na margem uma ingazeira idosa e ramalhuda. Debaixo desse teto protetor as águas corriam sempre mansas e bonançosas, e, sem primeiro descer ao pé do gigantesco vegetal, era difícil descobrir, pela densidão da sua folhagem, qualquer objeto ou ente que à sombra desta se acolhesse, ainda que estivesse o sol dardejando os seus luminosos raios. Fora este o ponto de reunião indicado por Teodósio aos companheiros.
Dar com as primeiras casas iluminadas foi para os dois valentões motivo de justo espanto e receio. Não sabendo do regozijo oficial, e tendo bem presentes na consciência os crimes que haviam cometido, logo lhes pareceu que seriam descobertos ao clarão das luzes, não se demorando o clamor público, se assim acontecesse, a denunciá-los às justiças de el-rei.
Joaquim, cuja temeridade não conhecia limites, foi fazer alto ao pé da ingazeira sobredita, tendo atravessado para chegar a este ponto as ruas mais públicas do nascente bairro da Boa Vista.
Profundo silêncio reinava no vasto areal que guarnecia o rio por aquele lado. As águas mal se moviam. Desceram os dois à margem a ajuntar-se ao Teodósio conforme o convencionado, mas a sua expectativa foi iludida; não havia aí viva alma; unicamente se mostrou aos seus olhos um corpo negro, oscilando debaixo da folhagem, ao brando ondear das águas: era uma canoa que estava presa por uma corda ao tronco da ingazeira.
Depois de alguns momentos de espera não sem inquietação para os recém-chegados, um ruído que veio interromper o silencio reinante na margem obrigou-os a pôr-se em armas por precaução. A corda rapidamente encurtando atraiu sem auxílio visível a canoa à margem, e um corpulento canoeiro, nu da cintura para cima, arrastando uma vara pela mão, saltou à frente dos malfeitores.
- Sou eu, "Cabeleira", sou eu.
- Teodósio! Meteste-te em boas.
- Eu estava escondido dentro da canoa para fazer um susto a vocês.
- A bom diabo te encomendaste hoje que o meu bacamarte mentiu fogo duas vezes - disse "Cabeleira".
- Não falemos mais nisso - acudiu Teodósio; - celebraremos depois o caso. Para agora vamos ao que importa.
- Que é que há?
- Não me estão vendo em figura de canoeiro? Vamos a ela enquanto é tempo.
Teodósio inclinou-se para passar aos dois um segredo que em pouco tempo foi por ambos compreendido, e que entrou no mesmo instante a ser posto em execução pelos três. O pai e o filho foram guardar as suas armas de fogo na canoa, e o cabra saltou novamente dentro dela e fez-se ao largo. Quem visse um instante depois o lenho resvalando na vasta superfície do rio à claridade dos astros da noite, juraria que nessa sombra fugitiva, nesse ponto que se perdeu por fim nos seios da escuridão, não ia mais que um canoeiro, sabedor das manhas das águas e senhor dos meios de as vencer.
Estes dois últimos, tanto que o cabra se afastou da margem, atravessaram a ponte da Boa Vista e, ladeando o canal que pelo lado ocidental, passaram em frente do palácio do governador e entraram na ponte do Recife que apresentava uma vista majestosa e deslumbrante. Colunas e arcos triunfais profusamente iluminados tinham sido ali erguidos a iguais distâncias. Ao som das músicas marciais, o povo percorria o aéreo passeio entre risos e folgares.
Ainda bem não se haviam os malfeitores confundido com os passeantes, quando se ouviu um grito arrancado pelo pânico terror de um matuto que os conhecera.
- O "Cabeleira"! O "Cabeleira"! Grandes desgraças vamos ter, minha gente! - clamou o mal avisado roceiro.
Estas palavras caíram como raios mortíferos no meio da multidão que se entregava, descuidada e confiante, ao regozijo oficial.
A confusão foi indescritível. Às expansões da pública alegria sucederam as demonstrações do geral terror. Homens, mulheres, crianças atropelaram-se, correndo, fugindo, gritando, caindo como impelidos por infernal ciclone. A fama do "Cabeleira" tinha, não sem razão, criado na imaginação do povo um fantasma sanguinário que naquele momento se animou no espírito de todos e a todos ameaçou com inevitável extermínio.
Ouvindo aquelas palavras e sendo assim surpreendidos por uma ocorrência com que não contavam, os dois malfeitores instintivamente bateram mãos das parnaíbas primeiro para se defenderem, por lhes parecer que corria a sua liberdade iminente perigo, que para investirem contra a massa ingente, que fugia. Os seus gestos concorreram para aumentar o terror da multidão, a qual imaginou que ia ter começo a carnificina.
- Sim, é o "Cabeleira", gente fraca. Ele não vem só, vem seu pai também - gritou José Gomes, cujo rosto começou a anuviar-se.
Joaquim, feroz por natureza, sanguinário por longo hábito, descarregou a parnaíba sobre a cabeça do primeiro que acertou de passar por junto dele. A cutilada foi certeira, e o sangue da vítima, espadanando contra a face do matador, deixou aí estampada uma máscara vermelha através da qual só se viam brilhar os olhos felinos daquele animal humano.
José Gomes, por irresistível força do instinto que muitas vezes o traiu aos olhos do carniceiro pai, voltou-se de chofre e lhe disse:
- Para que matar se eles fogem de nós?
- Corram, minha gente, "Cabeleira" aí vem. Ele não vem só, Vem seu pai também.
- Matar sempre, Zé Gomes - retorquiu o mameluco com as narinas dilatadas pelo odor do sangue fresco e quente que do rosto lhe descia aos lábios e destes penetrava na boca feroz. - Não temos aqui um só amigo. Todos nos querem mal. É preciso fazer a obra bem feita.
Este homem era o gênio da destruição e do crime. Seu coração estava empedernido, seu senso moral obcecado. Nenhum sentimento brando e terno, nenhum pensamento elevado exercitava a sua salutar influência nas ações deste ente degenerado e infeliz.
- Estás com medo, Zé Gomes, deste poviléu? Parece-me ver-te fraquejar. Por minha bênção e maldição te ordeno que me ajudes a fazer o bonito enquanto é tempo. Não sejas mole, Zé Gomes; sê valentão como é teu pai.
Tendo ouvido estas palavras, o "Cabeleira", em cuja vontade exercitava Joaquim irresistível poder, fez-se fúria descomunal e, atirando-se no meio do concurso de gente, foi acutilando a quem encontrou com diabólico desabrimento. Como dois raios exterminadores, descreviam pai e filho no seio da massa revolta desordenadas e vertiginosas elipses.
A geral consternação teria cessado em poucos instantes se o povo pudesse escapar pelas duas entradas da ponte. Achavam-se porém estas já tomadas por piquetes de infantaria às pressas organizados para embargarem a fuga aos matadores e reduzi-los à prisão.
À medida que estes piquetes se foram movendo das extremidades para o centro, a população, obrigada a aproximar-se dos assassinos, preferiu atirar-se ao rio, e a baldeação não se fez esperar.
Em poucos momentos os perturbadores da ordem acharam-se debaixo das vistas da força pública. O lugar da cena estava quase inteiramente desocupado. As colunas militares operaram um movimento único, indescritível. Carregaram sem demora sobre os delinqüentes que, à vista da estreiteza do passo e do cerco, só nas águas puderam, como as suas vítimas, achar salvação.
Um soldado, impelido talvez primeiro pelo ímpeto da paixão que pela consciência do dever, o qual em ocasiões iguais àquela raramente fala mais alto que os instintos animais, atirou-se de arma em punho após os assassinos com o fim de apreender um dos dois, ainda que custasse a própria vida. Não logrou o seu intento este valente defensor da sociedade e da lei. Quando sua mão tocava em um dos delinqüentes de cima de uma canoa que nesse momento desatracara da ponte, desfecharam-lhe com a vara tão forte golpe sobre a cabeça, que o infeliz, perdendo os sentidos, foi arrebatado pela corrente.
Assim se passou na vila do Recife a noite do primeiro domingo de dezembro de 1773, noite memorável, que principiou pela alegria e terminou pelo terror público.
Por entre as vítimas do terror que lutavam com as águas do Capibaribe nas sombras da noite deslizou indiferente a canoa onde ia o Teodósio, assassino do soldado que se atirara ao rio em busca dos delinqüente.
(“O Cabeleira”)