
Rev° Boanerges Ribeiro
A direção de Deus na vida humana evidencia-se a cada momento, mas raramente tão clara como em vidas semelhantes à do “sadu”, que tudo entregava à orientação divina. Por isso mesmo, aprendeu a atribuir tudo a Deus, que o guardava, alimentava, abrigava e levava a lugares onde a sua presença era necessária.
Diante dele estendiam-se coleantes dois caminhos, na montanha. Indeciso, tomou um qualquer e continuou a caminhada. Dezessete quilômetros adiante viu uma aldeia. Interrogando um dos moradores, verificou que estava errado e regressou à encruzilhada. Antes de lá chegar viu que alguém seguia a mesma trilha, metros adiante. Era um hindu que lia absorto. Tão absorto que só deu pela sua presença, quando ele quase o alcançava. Escondeu sobressaltado o livrinho, curvou-se reverente e acelerou o passo para acompanhá-lo. Sundar Singh começou a falar-lhe de Cristo e imediatamente ele retirou das dobras do vestido o Novo Testamento, com um sorriso aberto. Estava exatamente lendo o livro de Cristo, quando o “sadu” o alcançou. Tinha pensado que era um Saniasi hindu, e por isso ocultara o volume. Mas para ser franco, havia ali coisas que não compreendia bem. Por exemplo... e passou a mencionar as suas dúvidas, que o “sadu” foi resolvendo pacientemente, com textos do Evangelho.
Quando atingiram o cruzamento, o homem deu graças a Deus, que enviara aquele Santo Homem, a fim de esclarecê-lo das suas dúvidas.
"E então eu compreendi o motivo por que havia errado o caminho” - comentou o “sadu”, anos depois – “Cristo me enviara para auxiliar aquela alma".
No distrito de Toria atingiu um dia uma aldeia onde o povo não quis recebê-lo. Era o “sadu” cristão, e eles nada queriam com cristãos. Viu-se forçado a passar as noites numa caverna próxima. Comia frutos silvestres e vinha para a praça cantar. Inutilmente. Maltratavam-no, e as línguas hindus, particularmente férteis em insultos, se requintavam de sutilezas quando ele aparecia. Ao entardecer, um dia, regressou desalentado. Nem uma alma se abrira para a mensagem do evangelho. Chegou à caverna, estendeu a capa e dedicou-se à oração. Quando se deitou, as trevas haviam invadido a floresta e a caverna, trevas tão espessas que não conseguia ver a própria mão. Exausto, adormeceu. A madrugada despertou-o com a desagradável impressão de algo quente e mal cheiroso nas proximidades. Voltou-se. Uma grande pantera dormia ao seu lado. Retirou-se precipitadamente e fugiu da mata. Passou o dia meditando sobre a maravilha da Providência Divina, que o guardara durante o sono.
- "Desde então” - conta ele – “nunca uma fera me fez mal".
Sempre tomou o mais literalmente possível as palavras de Cristo. E mais de uma vez comprovou praticamente que nem sempre é verdadeira a tendência de "espiritualizar" em excesso o ensino do Mestre.
Um dia saiu de Kotgar e dirigiu-se a Narcanda, aldeia próxima, situada na estrada Industão-Tibet. Os trigais ondulavam, amarelos e um grupo de camponeses segava diligentemente. Deixando a estrada, o “sadu” procurou-os e, enquanto eles trabalhavam, começou a falar a respeito de Cristo. Taciturnos, cabeças baixas, nada disseram. Afinal, um deles resmungou qualquer coisa sobre "não querer nada com cristãos", e outro disse um desaforo a respeito da "religião de estrangeiros". E como o “sadu” continuasse, o que primeiro resmungara apanhou uma pedra, que atirou. Atingiu-lhe a cabeça, que começou a sangrar.
Calou-se e foi se sentar junto à estrada, observando o trabalho. Logo depois o que o ferira sentiu insuportável dor de cabeça e teve de abandonar o trabalho. Sundar Singh, silenciosamente, levantou-se apanhou a foice abandonada e continuou o trabalho interrompido. Os demais o contemplavam, pasmados. Quando a tarde caiu um deles convidou-o para comer na sua casa. E à noite todos se reuniram para ouvi-lo. No dia seguinte procuraram-no, mas ele desaparecera. Anos mais tarde um daqueles segadores narrou num jornal evangélico hindu esse incidente, graças ao qual se convertera.
(“O Apóstolo dos Pés Sangrentos”)