As luzes do Natal

 

A época do Natal me encanta e arrebata, desde os meus primeiros anos de vida, até agora. Por ocasião das festas faço questão de ir separando os CD’s de cânticos natalinos – tenho mais de duzentas canções.

A minha infância transcorreu no Interior, na cidade de Marília. Quando ia chegando o Natal, na Igreja Presbiteriana começavam os preparativos: ensaio de peças, confecção de espadas, capacetes e das vestimentas (Jesus, Maria, José, os Magos...), ensaios do coral infantil... Até a cortina do palco merecia atenção, pois era necessário verificar o funcionamento do “dispositivo”. Nossos pais e mães vinham todas as noites para colaborar, assim como os jovens.

Numa dessas noites tão memoráveis, em que havia grande movimentação nos salões internos da Igreja, cansado de ficar olhando – não tinha, ainda, idade para ajudar de verdade, resolvi sair, dar uma volta.

A Rua São Luiz àquela época – 1940 ou 1941 – se constituía num atrativo impar, visto que ali estava o centro comercial da cidade, que à noite mostrava suas vitrines iluminadas, com as novidades próprias da época, que atraíam crianças e adultos.

Por bem, resolvi sair e, de quebra, levei pela mão uma menininha de uns quatro anos (eu tinha uns oito), sem avisar ninguém. Era a Mércia, filha de um simpático casal da Igreja.

Subimos os cerca de cem metros da Rua Campos Sales que nos separavam da Rua São Luiz. Perigo não havia. Primeiro, porque em 1940 nem se pensava em seqüestro, segundo porque a passagem de veículos por ali estava bloqueada, o que nos permitia andar a salvo até pela via.

De vagarinho, fomos nos afastando. Andávamos e parávamos à medida que apareciam novidades para serem vistas, sempre de mãos dadas. Havia muitos brinquedos para os meninos e bonecas, cozinhas, fogões e bercinhos para as meninas.

Que emoção! Que deslumbramento! Além de sabermos que a ocasião era festiva, agora nos deparávamos com todo aquele movimento, toda aquela música nos alto-falantes, todas aquelas mães, todos aqueles filhos igualmente nas ruas...

E nisso consumimos cerca de uma ou duas horas.

Quando deu a canseira fomos voltando em direção à Igreja, onde os nossos pais já estavam aflitos. Nós, de nossa parte, nem imaginávamos a possibilidade de que ficassem assim preocupados... Mas ficaram, pois eram pais cuidadosos, que só queriam o nosso bem.

Mas que foi divertido, lá isso foi!...

Muitos anos mais tarde, quando eu e a Jô nos casamos, a Mércia, que já estava casada e morando numa cidade do Norte do Paraná, voltou a Marília e tivemos a honra de vê-la tocando órgão em nosso casamento.

 

voltar

home