Lula sem a França ...

 

LE MONDE | 02.01.03 | 12h11 | tradução Herci

 

Editorial do ‘Le Monde’

 

A França de Jacques Chirac perdeu uma boa ocasião de demonstrar que seus grandes discursos em favor do terceiro-mundo não são mais que belas palavras.

Não se colocam em dúvida as qualidades pessoais de Léon Bertrand, o secretário de Turismo, contudo a França deveria se fazer representar em um melhor nível protocolar quando da investidura em Brasília de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente da República do Brasil. A data em si, em meio às festividades de fim de ano, não serve de escusa a esta falta francesa. Muito ao contrário, ela ressalta que os membros do governo, a começar por Jean-Pierre Raffarin e Dominique de Villepin, o ministro das relações exteriores, devem ter considerado que eles tinham coisas mais importantes a fazer do  que se abalar para saudar a chegada à presidência desse país-continente de um homem portador de uma imensa esperança para seu povo e também para toda a América Latina e, por via de conseqüência, para o Hemisfério Sul.

Dezoito chefes de Estado estiveram presentes em Brasília, inclusive o de Portugal ao lado do príncipe herdeiro da Espanha. Fidel Castro e o presidente venezuelano, Hugo Chavez, vieram buscar um pouco de legitimidade junto ao ex-obreiro metalúrgico – uma aproximação que mais incomoda Lula do que o ajuda, porque entende encontrar uma outra via que não a ditadura e o populismo contra a pobreza e a fome que devasta seu país. Será bem mais agradável saber que o primeiro ministro social-democrata sueco ali estava para o apoiar.

Os Estados-Unidos estavam representados por Robert Zoellick, ministro do comércio, mas, para compensar, Lula tinha sido recebido por George W. Bush em  meados de dezembro em Washington. A entrevista permitiu ao presidente americano elevar o Brasil à classe de parceiro prioritário na construção da zona de livre-comércio das Américas (ALCA) que Bush pretende colocar em vigor em 2005. Malgrado sua posição de esquerda e suas reticências, Lula é reconhecidamente um líder em um subcontinente em grandes dificuldades econômicas e monetárias.

A França observa de maneira passiva a iniciativa norte-americana. Chirac havia planejado em 1997 um "retorno" da França quando de uma viagem à América Latina, inclusive o Brasil. O presidente francês havia longamente defendido a visão de um mundo multipolar no qual a França e a Europa oferecessem uma alternativa aos projetos de Washington. Dominique de Villepin, com todo o lirismo, vem de repetir o mesmo discurso em fins de novembro de 2002 na Colômbia.

A ausência francesa reprisa a das autoridades nacionais quando das exéquias de Leopold Sedar Senghor, ex-presidente do Senegal e grande escritor em nossa língua (francês), faz um ano. A falta é a mesma, aquela de multiplicar os discursos sobre a solidariedade com os países do Sul e ao mesmo tempo ignorar de maneira desdenhosa aqueles que ali encarnam a esperança democrática. E aquela ação faria eco com a que a França defende sobre o universalismo: o diálogo das culturas, a miscigenação, a inquebrantável busca da independência.

 

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