Lucio Costa

 

Ter feito o plano urbanístico de Brasília já seria prêmio suficiente para qualquer arquiteto. Mas um carioca (nascido na França) faria muito mais. Lucio Costa, em uma carreira que se estendeu da década de 1920 à de 1980, fez projetos urbanísticos, fundou o modernismo arquitetônico no Brasil, projetou grandes edifícios e residências, deu contornos precisos aos projetos de recuperação do patrimônio histórico do país e, de quebra, revelou o principal nome da arquitetura brasileira: Oscar Niemeyer.  

 

A Era Vargas 

Mas Lucio ficaria pouco tempo nesse anonimato de início de carreira ou alheio ao modernismo. Vem 1930 e o fim da República Velha. Com Getúlio Vargas no poder, instala-se na cultura brasileira uma situação paradoxal: homens de visão e cultura ganham espaço, sob o comando geral de um ditador de tendência fascista, uma situação descrita pelo crítico Mário Pedrosa como "a ilustração comandada pela reação".

Rodrigo Melo Franco de Andrade, que viria a ser o primeiro diretor do hoje Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), convida então um homem de 28 anos a se tornar diretor da Escola Nacional de Belas Artes (ENBA). A essa altura, Lucio já havia descoberto o modernismo, da maneira mais prosaica possível: viu fotos de uma casa projetada em São Paulo pelo arquiteto russo Gregori Waschavchik.

A passagem pela ENBA foi tumultuada e só durou até o ano seguinte. Mas foi o suficiente para sacudir a escola e preparar o salão de 1931, em que a arquitetura brasileira dá um salto. Não foi bem a adoção do modernismo, mas principalmente a idéia de que era preciso parar de imitar clássicos e emular nos trópicos o suposto bom gosto europeu. A passagem de Lucio pela ENBA mostrou aos estudantes que era necessário pensar em alternativas novas. Entre esses estudantes, que fariam uma greve quando Lucio deixou o cargo de diretor, estava Oscar Niemeyer. 

 

Imagem e Poder 

Essa ilustração comandada pela reação dispunha nos anos 30 de uma grande vantagem. Vargas precisava fixar uma imagem progressista para seu governo, cortando qualquer identificação com a República Velha. E que melhor veículo para isso (a TV ainda não existia) que estimular uma arquitetura monumental? E moderna? Essa união de objetivos entre arquitetos modernos e ditadura nova viria a se concretizar no projeto para o então Ministério da Educação e Saúde, no centro do Rio de Janeiro. Foi feito um concurso, vencido pelo arquiteto Archimedes Memória. Gustavo Capanema (outro ilustrado sob a reação) não gostou do resultado e convidou Lucio para que fizesse algo novo. Este aproveitou a oportunidade para trazer ao Brasil o arquidecano do modernismo: o próprio Le Corbusier foi chamado para dar uma consultoria por quatro semanas. O resultado foi um prédio que não seguiu exatamente o projeto proposto pelo mestre. De sua autoria, ficaria apenas a idéia básica, depois modificada pela equipe de Lucio e, principalmente, por Oscar Niemeyer.

O prédio do ministério marca um fato excepcional no mundo da arquitetura: o modernismo no Brasil nasce pronto e surpreendente. Ainda antes que a construção fosse concluída, o que só aconteceu em 1945, o MoMa de Nova York, já reconhecia o gênio de Lucio, Oscar e amigos, na exposição “Brazil Builds” (O Brasil Constrói).

Depois do prédio do ministério, Lucio ainda se dedicaria a outros projetos, mas seu trabalho agora estava voltado para o patrimônio histórico. O Instituto, fundado por Gustavo Capanema em 1937, ainda carecia de normas técnicas precisas e foi tarefa de Lucio dar contorno a elas, determinando onde, como e por que preservar bens arquitetônicos brasileiros.

Mas o arquiteto e urbanista estava atento e, quando houve um concurso para escolha do plano-piloto para Brasília, ele mandou sua sugestão. Enquanto outros escritórios de arquitetura mandaram maquetas, vistas tridimensionais detalhadas, cortes, plantas etc., Lucio se limitou ao traço simples. Na abertura da justificativa de seu projeto, escrevia: "Não pretendia competir e, na verdade, não concorro, – apenas  me desvencilho de uma solução possível que não foi procurada mas surgiu, por assim dizer, já pronta".

A comissão não teve dificuldade para escolher seu projeto e as perspectivas de Lucio permitiram que Oscar Niemeyer desenvolvesse seus palácios, o que novamente chamaria a atenção em todo o mundo para a arquitetura brasileira, desta vez comandada não pela reação, mas pelo progressismo ao mesmo tempo matreiro e utópico de Juscelino Kubitschek.

Os anos seguintes foram dedicados ao escritório, ao IPHAN e, na década de 1980, ao preparo de seu monumental ‘Registro de Uma Vivência’, livro em que apresenta todos os projetos e escritos que produziu em sua longa carreira. Lucio Costa morreria em 13 de junho de 1998, aos 96 anos. 

(“Diálogo Médico”, junho/julho de 2003)

 

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