
Um perigoso aventureiro, ao agredir um viajante, presta inestimáveis serviços.
Das "Mil histórias sem fim..." é esta a trigésima quinta. A misericórdia de Deus é infinita. Lida esta restam, apenas, novecentas e sessenta e cinco.
Ia eu, naquela tarde, quase a correr, em demanda do palácio do Xeque Malik Balbud, um dos homens mais generosos da Pérsia. Era a hora do pôr-do-sol.
O céu, para os lados do poente, aparecia abaçanado por nuvens cor de chumbo. Camponeses com foices e cestos ao ombro iam tornando, vagarosos, para os seus casebres. Pastores e cameleiros deambulavam em busca de rebanhos. Ao passar pela fonte de "Ziyadat" divisei dois viandantes sentados à margem da estrada. Não me pareceram beduínos de baixa classe; pareceram-se, antes, pessoas da mais fina e culta sociedade. Um deles trazia presa ao ombro uma capa ricamente bordada. Os olhos eram muito vivos e a expressão do rosto trigueiro infundia simpatia. Quanto ao outro pareceu-me um tipo mal-encarado. Ostentava uma barba de um vermelho escuro, quase roxo. Era alto, corpulento e mantinha ao seu lado uma pesada mala de couro. Desagradou-me, o seu olhar oblíquo e mau. Observei que estavam ambos prevenidos com magníficas lanternas de óleo.
O homem da barba cor de vinho ergueu-se pesadamente e veio bamboleante ao meu encontro. O outro (que me pareceu mais moço) deixou-se ficar sentado, as pernas cruzadas e o corpo reclinado sobre o muro da fonte.
- Amigo! - disse o barba-roxa inclinando-se num rápido cumprimento - poderás dizer-nos onde fica a soberba residência do Xeque Malik Balbud?
- Estás com muita sorte, ó irmão dos árabes! - respondi com bom-humor - É para lá exatamente que eu vou. Posso conduzir-vos sem dificuldades ao palácio de Malik. Seguiremos por esta estrada até à porta de "Iklil"; ai chegando tomaremos para a esquerda. A casa do generoso Xeque Malik, com seu pavilhão torreado, é a terceira depois da mesquita de Otmã.
O tipo que me interpelara voltou-se para o companheiro, respirou fortemente e, depois de um silêncio, comentou num gesto admirativo:
- Estás ouvindo? Era precisamente o que eu supunha: a esquerda de Iklil, a terceira vivenda depois da mesquita! Confere!
E acrescentou, com sobranceira impertinência, destilando as palavras:
- Mas o que irá fazer esse pobre, com seu turbante sujo e mal arranjado, à casa do Xeque Malik? Sempre julguei que o nobre islamita selecionasse, com certo cuidado e finura aqueles que deveriam compartilhar de sua mesa e amizade!
Confesso que não gostei. A insinuação era grosseira. Repliquei, pois, rijamente, com um acento amargo de despeito:
- Vou ao palácio de Iklil a convite do próprio Xeque Malik Balbud. Esse príncipe deseja que eu proporcione alguns momentos de alegria a seus convidados narrando-lhes uma lenda original, de enredo emocionante!
Ao ouvir aquelas palavras, o homem da barba roxa expandiu-se numa casquinada.
- Pelo túmulo de Mafoma! - chalaceou fitando-me com ar de soberano desprezo - Pelo nome de Allah! Que ingenuidade!
- Ingenuidade? - estranhei asperamente. - Por quê?
- Ora - tornou o desconhecido com um riso de escarninho - não sabes então, que aquele jovem (e apontou para o companheiro que ficara recostado ao muro) , é um dos mais notáveis contadores de histórias do mundo? Já ouviste falar no célebre Abul-Isak Ibn El-Hassina, apelidado o "Eloqüente"? Ei-lo! Ali está, modestamente sentado, emprestando sua celebridade a este lugar, um dos vultos mais gloriosos do Islã, o famoso e tão elogiado Abul-Isak Ibn El-Hassina!
E com as mãos na cintura, numa atitude petulante, o grosseirão interpelou-me, com voz pastosa e grossa, olhando-me de mau-cenho da cabeça aos pés.
- E pretendes tu ainda, ó mísero cameleiro fanfarrão, competir em lendas, fábulas, contos e fantasias com Abul Isak Ibn El-Hassina, a maior notabilidade da Pérsia?
Aquelas arrogantes palavras e a insistência atrevida com que repetia o nome do companheiro, deixaram-me estarrecido.
- Em parte tens razão, meu caro Tarik, - observou o jovem El-Hassina intervindo no caso com displicência - até certo ponto as tuas considerações são justas, oportunas e aceitáveis. Esse bom caravaneiro (e torceu para o meu lado, o polegar da mão esquerda) não poderá competir com um profissional de minha força, do meu talento e prestígio. Já tenho tomado parte em dezenas de torneios, concorrendo com os maiores narradores do mundo e não topei, até hoje, com um só que fosse capaz de me igualar e, muito mesmo, me sobrepujar. Todos os prêmios, nesses memoráveis torneios, foram conquistados sem dificuldade por mim!
O vaidoso Xeque fez, nesse ponto, uma pequena pausa. Ergueu depois ligeiramente o busto e prosseguiu sentencioso, entufado de vaidade:
- Tudo isso, ó Tarik! é pura expressão da verdade. Mas o mundo é cheio de surpresas que afrontam a evidência.
Sorri orgulhoso para o jovem El-Hassina e aventurei compenetrado, afetando grande franqueza:
- Posso garantir, ó Xeque El-Medah! que a história que pretendo contar esta noite aos convidados do nobre Malik envolve os episódios mais curiosos de minha vida. Resume a narrativa de caso verídico, ocorrido há pouco na tenda de um mercador.
- E que título darias a essa história? - indagou El-Hassina fitando-me com curiosidade e fazendo um ligeiro trejeito com a cabeça.
Senti-me envaidecido por merecer a atenção daquele homem ilustre e respondi sem hesitar:
- “A LENDA ESQUECIDA”!
- Como titulo - desdenhou o jovem com a desenvoltura de uma criança - como título, repito, não é dos piores. Uma pessoa pouco-avisada, ou inculta, poderá chegar ao extremo de julgá-lo original. Pois bem, façamos uma combinação: contarás, agora mesmo, diante de mim e de meu fiel ajudante Tarik, a tua singular “LENDA ESQUECIDA”. Se essa lenda, pela forma, idéia e ensinamentos que envolve, for realmente digna de um príncipe, eu me darei por vencido. Se, ao contrário, tua lenda for fraca, cediça, pueril e sem interesse, incapaz de emocionar um auditório seleto, preferível será que voltes para a tua mansarda. Receberás de mim, a título de auxilio, a quantia de dez dinares. Aceitas esta proposta?
- Aceito - confirmei embaçado por invencível timidez.
- Conta-nos, pois, a “LENDA ESQUECIDA”. Antes de ouvi-la não me será possível julgá-la!
Tarik, o homem da barba roxa, bateu com força os isqueiros e acendeu uma das lanternas. Sentei-me na pedra, junto à fonte e iniciei a narrativa. Contei minuciosamente aos dois viajantes o episódio da lenda esquecida sem nada ocultar. Recordei, de início, a minha corrida pela estrada; o amistoso convite para a ceia, o receio de ser traído pela minha desbotada memória; descrevi as figuras que eu mesmo gravara na árvore para que pudesse em qualquer momento recordar-me do enredo que inventara. Falei-lhes da minha angústia ao verificar que não podia mais interpretar a legenda e da singular lembrança que, logo depois, os símbolos intraduzíveis sugeriam, dando origem a uma nova lenda em torno da lenda esquecida!
El-Hassina e seu companheiro de barba roxa ouviram em silêncio a minha narrativa. Tive a certeza de que a lenda esquecida lhes causara ótima impressão. Aguardei com serenidade a decisão do contador de histórias. Teria o pretensioso Xeque encontrado algum mérito na lenda que ele próprio fizera empenho de ouvir?
Para arrancá-lo do silencio, interpelei-o com um leve tom de ironia:
- Iallah! Qual é a sua notável e definitiva opinião sobre a “LENDA ESQUECIDA”?
Respondeu-me com sua irritante displicência estirando as pernas:
- Com algumas modificações, um colorido mais perfeito na forma, ampliada na sua trama e melhorada no seu desfecho, acrescida de cinco ou seis peripécias, suavizada por pequenas poesias, enriquecida com quinze ou vinte provérbios e algumas citações eruditas, ficará mais ou menos razoável. Cerceada e expungida das nódoas, plebeísmos e lamentáveis senões que a empanam, passará para o rol das "toleráveis". Assim, como está, seminua e abobalhada, pouco vale, é fraca, anêmica e inexpressiva. Posso, no entanto, comprá-la para incluí-la (depois de retocada) em meu repertório! Quanto queres pela idéia?
E tendo proferido tais palavras, o Xeque ElHassina tomou de sua bolsa. Ouvi um suave tilintar de moedas.
Pus-me a pensar. Que fazer? Não estava habituado a vender lendas e negociar com idéias. Aquela proposta deixara-me surpreso.
A noite vinha chegando, devagarinho com sua caravana de sombras; no céu lucilavam as primeiras estrelas. A lâmpada de Tarik lampejava a poucos passos de mim.
Vendo-me indeciso, o Xeque El-Hassina arvorou um rosto mau e insistiu impaciente, torcendo entre os dedos a ponta do "haic":
- Vamos! Resolve logo! Quanto queres por essa idéia da “lenda esquecida”? Estás em dúvida sobre o valor da tua lenda? Esperas algum conselho de tua trôpega inteligência? Convence-te de que ninguém é bastante competente e sensato para se aconselhar a si mesmo.
Já me dispunha a explicar que a "Lenda esquecida" eu destinara ao Xeque Malik, meu amigo e protetor, e que não pretendia negociá-la, quando uma violenta pancada na cabeça atirou-me por terra. O golpe foi tão forte que perdi os sentidos.
Quanto tempo estive ali desacordado junto à fonte de Ziyadat? Não sei. Não chego a calcular.
Quando dei acordo de mim achava-me deitado sobre um largo divã, no meio de uma confortável tenda.
A meu lado, com o rosto inclinado, um ancião fitava-me risonho. Tinha os olhos claros e expressivos, e longas barbas que se derramavam pela brancura da seda.
- Até que enfim abriu os olhos! – exclamou dirigindo-se a um jovem que o acompanhava - louvado seja Allah! O nosso protegido está salvo.
Contou-me o bondoso ancião que ao regressar de madrugada de uma viagem, em companhia dos filhos, parara junto à fonte de Ziyadat, onde pretendia fazer suas abluções. Ao aproximar-se do muro viu o corpo de um homem caído numa vala. "Está ferido" - disse um dos rapazes. - "É, pois, nosso dever socorrê-lo imediatamente" - declarou o velho. "Vamos levá-lo para a nossa tenda!”
Puseram-me num camelo, prenderam-me com cordas, e levaram-me na mesma hora para a tenda do ancião. Fui aí socorrido e carinhosamente tratado.
O bondoso Soraidj (assim se chamava o dono da tenda) interrogou-me sobre os motivos que me levaram a envolver-me numa rixa com caravaneiros do deserto.
- Não me envolvi em rixa alguma - expliquei.
E contei-lhe, com todos os pormenores, a minha aventura com os dois sacripantas junto à fonte de Ziyadat.
- Foi, então, um roubo! Um verdadeiro saque! - comentou o sábio.
- Roubo, não! - protestei levantando a voz. - Foi, apenas, uma agressão estúpida! De mim não roubaram nada! Não trazia comigo um único dinar!
- Estás enganado - contraveio o judicioso Soraidj - Roubaram-te coisa mais preciosa do que o ouro. Roubaram-te uma idéia! Aquele miserável Tarik, cúmplice do indigno El-Hassina, abateu-te, naquele momento, com intenção criminosa! Ficaste abandonado na estrada enquanto os dois ladrões iam oferecer ao Xeque a tua "lenda esquecida". Mas esse crime não ficará impune. Farei com que o nosso governador seja informado desse atentado e castigue os dois infames salteadores de estrada. Atacam covardemente um pobre viajante para roubar uma lenda! Que torpeza!
E, depois de meditar alguns instantes, o digno ulemá ajuntou austeramente:
- Não te preocupes, meu amigo, com esse caso. A tua "lenda esquecida" mudou apenas de título. Passou agora, a ser "A lenda roubada"! E os culpados serão punidos.
- Sinto discordar de vossa opinião - repliquei - Não quero que El-Hassina e o tipo de barba roxa sofram a menor contrariedade. Deve-se ser inexorável com o pecado, porem humano com o pecador. Sou muito grato a esses homens pelos três grandes e inolvidáveis serviços que me prestaram.
- Como assim? - estranhou o sábio - Que serviços foram esses?
Respondi:
- Primeiro: por causa da pancada brutal que sofri tive a honra de ser recebido em vossa tenda e ser vosso hóspede. Segundo: resultou da referida agressão um capítulo trágico que veio tornar viva e emocionante uma lenda que era apenas curiosa. Terceiro: em conseqüência do golpe na cabeça, desferido com violência, recuperei a memória perdida. Sinto-me, portanto, capaz de narrar do princípio ao fim, a famosa "lenda esquecidas'.
- Que maravilha! - exclamou o ancião com um sorriso largo e reconfortante - Conta-nos essa história assombrosa, pois ela, decerto, encerra episódios emocionantes que educam pelo exemplo e instruem pela experiência! Vou chamar meus filhos e amigos. Todos nós ouviremos com prazer essa bela narrativa.
E, para atender ao pedido daquele homem bondoso que me havia salvo a vida, contei a mais prodigiosa lenda até hoje aparecida pelos mundos sem fim da fantasia.
Essa lenda, bem digna de ser escrita com letras de rubi nas sagradas colunas de Omm-el-Quora, é a seguinte:
("Mil Histórias Sem Fim")
continua ("A lenda da princesinha")