A lenda da princesinha

 

O que é “San-ga-lu”. Como pode uma jovem de coração meigo e simples sofrer a tortura de incontáveis segredos?

 

Das "Mil histórias sem fim..." é esta a trigésima sexta. Os grandes pensamentos vêm do coração. Lida a trigésima sexta, restam apenas novecentas e sessenta e quatro.

 

Até hoje os árabes se referem com admiração e orgulho ao nome de Al-Mansur, o famoso califa de Bagdá. Foi um monarca generoso e justo. E, mais ainda, tolerante e bondoso.

O grande Al-Mansur, pai extremoso, tinha uma filha que era todo o encanto de sua vida.

Halina (assim se chamava a princesinha) morava num suntuoso palácio. Possuía muitas jóias, ricos vestidos e os mais raros perfumes do Oriente. Mas apesar do conforto em que vivia, a princesa não se sentia feliz.

Uma tarde, depois da terceira prece, o califa Al-Mansur, ao regressar da fatigante audiência com seus vizires, atravessou casualmente o jardim. De repente, o monarca viu a filha Halina, de pouco mais de dezoito anos, sozinha, sentada na grama, de cabeça baixa, numa atitude denunciadora de grande tristeza.

Preocupado com o bem-estar da filha, o desvelado pai interrogou-a com muita brandura:

- Que tens, minha querida? Por que foges constantemente ao convívio de tuas amigas e vens em busca da solidão. Conta-me o que sentes, que eu me empenharei em descobrir um meio de atenuar as tuas tristezas. Quero, para a minha perfeita felicidade, que a alegria volte a brilhar em teus olhos!

Interpelada desse modo, a bondosa princesa respondeu com um sorriso triste.

- Vivo torturada por um profundo desgosto, meu pai! E não acredito que haja remédio para o estranho mal que me oprime a alma e dilacera o coração!

- Que mal é esse, minha filha? Será possível que estejas apaixonada por algum príncipe encantado?

Halina, depois de alguns momentos de meditativo silêncio, contou ao pai o trágico mistério de sua vida:

- Uma noite, meu pai, achava-me no pavilhão das "Mil violetas", quando ouvi os cães de guarda a ladrar. Seguiu-se estranho rumorejo de vozes e gritos angustiosos. O que seria? Mandei que uma das escravas fosse indagar o que ocorrera. Passado algum tempo a escrava regressou; uma cigana, ao fugir de dois beduínos que a perseguiam, galgara o portão do palácio e fora atacada pelos cães bravios. Salvou-se com o auxílio dos vigilantes. Penalizou-me a situação da pobre mulher. Determinei que a trouxessem à minha presença.

As suas vestes estavam em frangalhos, sujas e ensangüentadas. Por minha ordem as escravas pensaram-lhe os ferimentos e deram-lhe alimento. Falei-lhe com mansidão e simpatia. "Queriam matar-me" - denunciou, arrebatada pela revolta. Fiquei curiosa. Quando fiquei a sós com ela, indaguei: - "Quero saber a verdade! Exijo que me contes tudo o que ocorreu". A beduína arrancou da barra do vestido um pequenino frasco escuro e disse-me impulsiva: - "Eis aqui, princesa! Eis  aqui o que os bandidos pretendiam: "Este frasco de perfume! E queres saber que perfume é este? É o célebre ‘San-ga-lu’, descoberto por um sábio da Armênia".

Depois de curto silêncio, a princesa retomou o fio da narrativa, erguendo a bela e nobre cabeça com movimento encantador.

- Eu ouvira realmente, quando ainda era menina, uma história na qual aparecia esse perfume, o "San-ga-lu". Aquele que aspirasse o "San-ga-lu" adquiria um dom extraordinário. Ficava com o poder de atrair, como se fosse um ímã encantado, os segredos de todas as pessoas que dele se aproximassem. E ali estava, nas mãos da cigana, o perigoso "San-ga-lu"! Disse a Suraia: "Dá-me, por um instante, esse frasco! Quero certificar-me da verdade". A cigana com o olhar desvairado obedeceu-me. Ajoelhou-se, porém, a meus pés e suplicou-me que não cheirasse aquele infernal perfume e que seria para mim uma desgraça. Não lhe dei ouvidos. Abri o frasco e aspirei demoradamente o "San-ga-lu". O aroma que exalava pareceu-me um misto de jasmim e "bekum". Devolvi-o à rapariga e não dei mais ao caso a menor importância. Verifiquei então que a minha vida ia sofrer profunda alteração. Izzat, a escrava que me veio pentear, de repente revelou-me dois gravíssimos segredos da sua vida. Fiquei impressionada. Seria aquilo influencia do "San-ga-lu"? Já estaria eu, sem querer, atraindo os segredos alheios? Recebo, então, na terceira hora, a visita de Nacibe, esposa de um vizir, que levou-me para um canto da sala e revelou-me várias particularidades espantosas de sua vida íntima. E desse momento em diante nunca mais tive sossego. Qualquer mulher que se acerca de mim, entra, sem o menor recato, a desfiar-me um rosário de confidencias. São casos tenebrosos de maridos, de filhos e de amigos. Algumas segredam-me com a maior simplicidade: "Quando chego junto de ti, princesinha, sinto logo um desejo incontido de contar tudo o que sei. Eu, que sou tão discreta diante de meu marido, de minha mãe, ou de meu pai, não posso me conter diante de ti, princesinha!". E entram logo a falar. Vejo-me invadida por uma verdadeira onda de segredos que jamais poderei revelar. Tornou-se para mim torturante obsessão ouvir a todo instante queixas, ignomínias, mexericos, indiscrições. Sou, como diz o povo, uma "San-ga-lu". É horrível! Temo, por vezes, enlouquecer! Afasto-me de todos, pois cada novo segredo, com seu cortejo de torpezas e misérias, envenena-me a vida e enegrece-me o coração!

Ao ouvir aquela surpreendente narrativa da filha, o califa pôs-se a fitá-la grandemente inquieto. Era preciso resolver, urgentemente, aquele caso. Como livrar Halina daquela perseguição diabólica? Como impedir que escravas, aias e damas da corte e aproximassem da cândida princesinha e lhe abrissem as torneiras venenosas de suas incomparáveis confidências?

Disse, por fim, o velho monarca, fitando-a com uma fixidez que chegava a incomodar:

- Escuta, flor de minha vida! Fácil será, para mim, um meio que ponha termo às tuas aflições. Quero, entretanto, prevenir-te de uma coisa. Ontem, conversando com o vizir Labid...

- Não, meu pai! Não! - bradou a jovem, e saiu a correr.

A desditosa princesinha percebera que o velho monarca, sob a influência mágica do "San-ga-lu", esquecido de que falava à própria filha, ia contar-lhe, também, um segredo.

E não seria para ela uma desgraça ter conhecimento dos segredos que negrejavam a vida do pai?

O califa não fez o menor gesto para deter a filha. Deixou-a afastar-se. Viu-a entrar no pavilhão das "Mil violetas'', e encaminhou-se para os seus aposentos, situados no outro extremo do parque, emboscados na mancha espessa do arvoredo.

Mandou, no mesmo instante, viesse à sua presença, o esclarecido Abu-Mussa, seu vizir conselheiro, já em provecta idade.

Pretendia consultá-lo sobre o estranho caso de Halina. Era-lhe insuportável ver a filha, fadada a uma existência feliz e tranqüila, transformada inopinadamente numa "San-ga-lu", para viver amortalhada pelos segredos e confidências alheias. Abu Mussa era um ulemá, isto é, um sábio capaz de resolver os mais obscuros problemas da vida.

E o califa disse, com voz grave e pausada ao douto e sisudo vizir:

- Recebi, meu caro Abu-Mussa, uma denúncia secreta que me deixou impressionado. Fui avisado de que vive em nossa corte uma pessoa que possui o dom misterioso de "San-ga-lu"!

Respondeu o sábio, esteado em considerações luminosas:

- Não creio, ó Emir dos Árabes! seja verdadeira essa denúncia. Não há segredo que resista ao poder da essência de "San-ga-lu". Ora, uma pessoa dotada dessa mágica influência, isto é, um verdadeiro "San-ga-lu" - entraria na posse dos segredos mais graves. Ficaria a par de todas as intrigas, de todos os planos, negócios e combinações. O "San-ga-lu" seria capaz de revolucionar o país. Imagine, ó Príncipe dos Crentes!, o poder extraordinário de um homem que tivesse conhecimento de segredos recônditos de todos os nossos generais. De que não seria capaz esse "San-ga-lu", tendo o exército, a polícia, a magistratura e os sacerdotes inteiramente entregues a seus caprichos? Muitos homens, tidos como honrados, seriam presos e decapitados; centenas de funcionários seriam demitidos; alguns ministros (que agora vivem no luxo e na opulência) teriam os seus bens confiscados pelo Estado; veríamos a ruína de muitos lares; anulações de casamentos; suicídios; assassínios; uma calamidade, enfim!

O califa Al-Mansur encarava, com infinito assombro, o seu honrado vizir. Este, depois de breve pausa, prosseguiu com a mesma entonação:

- Tudo leva a crer, portanto, ser falsa a denúncia. E quereis uma prova? Se houvesse na corte uma pessoa com o poder de "San-ga-lu", o trono de Bagdá já não estaria em vossas mãos. Essa pessoa já teria provocado uma revolução e tomado conta do governo! Tal hipótese só não ocorreria se o dom de "San-ga-lu" tivesse recaído sobre pessoa dotada de bondade infinita e de uma força de caráter excepcional. Direi, enfim, que o "San-ga-lu" só não seria nocivo à coletividade se fosse um verdadeiro santo, digno de ser posto num altar, e venerado por todos os crentes! Não acredito na existência de criatura capaz de apoderar-se de todos os segredos e fechá-los, para sempre, no cofre do coração. Penso, pois, que para tranqüilidade do povo e segurança do Estado, qualquer pessoa (seja quem for) suspeita de "San-ga-lu" deve ser presa e executada inexoravelmente

E o ancião acrescentou com impressionante serenidade, esforçando-se por ser claro e decidido:

- Diante dos interesses sagrados do Estado anulam-se e desaparecem, por completo, os interesses individuais. Se um inocente põe em perigo o Estado, se a sua existência é séria ameaça à coletividade, elimine-se o inocente!

As gravíssimas considerações aduzidas pelo velho ulemá deixaram o califa Al-Mansur mergulhado numa verdadeira tormenta de desassossego e perplexidade.

- Este vizir - pensou o rei - não hesitará em praticar a infâmia de mandar para as mãos impiedosas do carrasco a minha meiga e bondosa Halina. Aqui só há uma solução. Não me ocorre outra. Vou apunhalar este velho intolerante e mandá-lo para o túmulo com todas as suas teorias ignóbeis e revoltantes.

Desatinado pelos pensamentos que lhe turbavam o espírito, o califa de Bagdá habitualmente tão sereno, chegou a levar a mão ao cabo do punhal.

Conteve-se, porém. Fez-se lívido. Flamejavam-lhe os olhos num brilho febril; as mãos tremiam. Sentia-se fortemente solicitado por duas paixões opostas; crispava os punhos num frenesi incontido.

Por Allah! Um segredo apenas (a certeza por todos ignorada de que sua filha era "San-ga-lu") já o impelia, naquele trágico instante, a praticar um crime covarde: o assassínio de um ancião! Imagine-se, agora, se ele fosse um "San-ga-lu", com o coração enegrecido por mil e um segredos tenebrosos?

E o califa, dominando o ímpeto sanguinário, simulando tranqüilidade e indiferença, como um homem que teme e deseja saber, interpelou o vizir Abu Mussa no tom mais natural deste mundo, anediando as barbas:

- E esse mal de "San-ga-lu" é incurável?

- Incurável não é - afirmou o vizir, inclinando a fronte calva. - Já chegou ao meu conhecimento o estranho caso de um homem que se livrou do mal de "San-ga-lu".

- Conta-me essa história, ó esclarecido "taleb"! - acudiu pressuroso o rei. E pensou: - Enquanto ele narra decidirei se devo matá-lo agora ou mais tarde. "Punir sem necessidade é atentar contra a clemência de Deus".

- Escuto e obedeço, o Comendador dos Crentes - retorquiu o vizir com profunda vênia.

E, impenetrável e sombrio, narrou o seguinte:

 

(“Mil Histórias Sem Fim”)

 

continua ("O hóspede misterioso")

 

voltar

home