
Preparava-se Noé para plantar a primeira vinha e eis que surge diante dele a figura negra e hedionda do Demônio.
- Que pretendes plantar aí? - perguntou o Demônio.
- Uma vinha! - informou Noé encarando com olhar sereno o seu insolente interrogante.
- E como são os frutos que esperas colher, meu velho? - Inquiriu friamente o Demônio.
- Ora - explicou o Patriarca de bom-humor, - são frutos deliciosos, sempre doces. Os homens poderão saboreá-los maduros e frescos ou secos e açucarados. Do caldo desse fruto poderá ser fabricada uma bebida - o vinho de incomparável sabor. Essa bebida levará alegria e inspiração aos corações dos mortais!
- Quero associar-me contigo no plantio dessa vinha! - propôs o Demônio com certo acinte na voz.
- Muito bem! - concordou Noé - Trabalharemos juntos. Ficarás, desde já, encarregado de regar a terra.
E o Demônio, no desejo de agir pela maldade, regou a terra com o sangue de quatro animais tirados da Arca: o cordeiro, o leão, o porco e o macaco.
Em conseqüência desse capricho extravagante do Maligno, aquele que se entrega ao vício degradante da embriaguez recorda, forçosamente, um dos quatro animais. Bem-infelizes os que se deixam dominar pelo álcool! Tornam-se alguns, sonolentos e inermes como um cordeiro; mostram-se outros exaltados e brutais como um leão; muitos, sob a ação perturbadora da bebida que os envenena, ficam estúpidos como um porco. E há finalmente aqueles que, depois dos primeiros goles, fazem trejeitos, dizem tolices e saracoteiam como macacos.
P.S. - "Contes et légendes D'Israel", 1928, pág. 13. As lendas relativas à vinha foram coligidas por Meira Pena. "Botânica Pitoresca". pág. 415.
("Lendas do Povo de Deus")