Lei dos três bb

 

Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso!

Art. 1.° — A partir do dia de hoje, em todos os documentos, cartas, avisos, histórias, lendas, recibos ou inscrições, o meu nome "Baribê" passa a ser escrito com três "bb", sendo o segundo dobrado: "Baribbê"!

Art. 2.° — Determino sejam revogadas todas as disposições ou ordem que possam contrariar o artigo primeiro desta lei.

Assim o determino e resolvo com a minha absoluta autoridade de rei, Vigário de Allah e Sucessor do Profeta, que se obedeça e se cumpra em todo o Islã.

Em Bagdá, terceiro dia da luz de dul-ka-dê do ano de 318 da Héjira.

 

(Assinado) Baribê, Príncipe dos Crentes.

 

Ao ser apresentada a nova lei (que devia ser lida e proclamada pelo primeiro-vizir) surgiu uma dúvida:

Na assinatura final o nome Baribê deveria ter dois "bb" ou três "bb"? Que utilidade poderia ter para o povo, um "b" a mais ou a menos no nome do califa? 

0 vizir Chamseddin, tido como o maior jurisconsulto da Arábia, explicou:

- Tudo isso e o que muito bem explicam os surpreendentes episódios que ocorreram. Na assinatura da lei o nome de nosso glorioso Emir deve ter apenas dois "bb", pois só depois de assinada é que a lei passará a vigorar. É evidente que antes da assinatura final, indispensável para legalizar o ato, a lei ainda não era lei e, portanto, não devia estar em vigor! No dia que se seguiu proclamação da "lei dos três "bb", o chefe do almoxarifado real recebeu uma ordem para entregar a certo funcionário dez caixas de tâmaras. A ordem trazia a assinatura do rei, sendo "Baribê" escrito com dois "bb''. 

Ao ser conhecida pelos nobres, Xeques e ulemás, a nova lei causou espanto incalculável. Estranhando aquela anomalia, o chefe do almoxarifado levou o caso ao conhecimento do vizir-tesoureiro. Ficou logo apurado que a assinatura do rei era falsa. O mensageiro foi preso e interrogado. A ordem tinha sido entregue dois dias antes, isto é, quando a grafia de "Baribê" não havia sido alterada. Foi logo aberto rigoroso inquérito. Descobriu-se, então, que havia numerosa quadrilha que roubava o governo, retirando não só mercadorias como vultosas quantias em dinheiro do tesouro real.     

Vejam só - comentava um cádi já idoso - que coisa ridícula! Tantos problemas graves a resolver e o nosso Emir a preocupar-se e a perder tempo com os "bb" de seu nome!

Todos os ladrões e falsários foram presos e enforcados. Alguns já estavam riquíssimos e o confisco de seus bens fez reverter muito ouro para a Fazenda Pública. 

- Isto é de um ridículo espantoso! - proclamava em voz baixa um dos escribas da corte. - Os estrangeiros vão dar boas gargalhadas a nossa custa!

Passaram-se muitos séculos. As aventuras do rei "Baribbê" (com três "bb") jamais serão esquecidas.  

O país está perdido! - rosnava um nobre ambicioso que vivia sempre descontente com o governo. - Era só o que faltava! O melhor era escrever logo Baribê com vinte ou trinta "bb"! Isto lá pode ter algum interesse para a vida do país?

Nas tendas ou nos velhos caravançarás, os valentes beduínos, em suas palestras ao cair da tarde, recordam cheios de saudades o velho rei.

Embora pareça incrível, a nova lei, apontada como ridícula pelos inimigos do rei, trouxe benefícios incalculáveis para o pals.

- Por Allah, ele era justo e sábio!

Justo, porque premiava o bom e castigava o mau; sábio, porque só escolhia ministros inteligentes, dignos, e honrados!

Felizes seriam os povos e bem prósperas as nações se todos os imperadores, califas e rajás imitassem judicioso rei Baribê – que só por acrescentar um "b" ao seu nome salvou o país da ruína da miséria!

Que Allah, o Exaltado, conserve em sua eterna paz o glorioso rei Baribê,  com ou sem “b” dobrado!

Uassalã!

 

(“Aventuras do Rei Baribê)

 

voltar

home