
Ao ouvi-lo tem-se a impressão de que está correndo em desabalada carreira, pela maneira como fala. E é assim que ele vive.
“Quero morrer com cem anos de idade” – ele diz – “com a bandeira americana em minhas costas e com a estrela do Texas em meu capacete. Quero descer uma montanha dos Alpes, gritando, a 75 milhas por hora, em cima de uma bicicleta. Quero cruzar uma última linha de chegada sob os aplausos da minha mulher e do meu filho e então deitar num daqueles famosos campos de girassóis franceses e morrer elegantemente, a perfeita contradição com o legado pungente que, muito cedo, foi-me antecipado”.
Quando tinha 25 anos teve câncer no testículo e quase morreu. As fotografias da época mostram um Lance enfermo, na cama, inchado e sem cabelos em razão do tratamento (rádio e quimioterapia). Seus médicos lhe deram menos de 40% de chances de sobreviver.
“Francamente” – comenta – “alguns dos meus médicos estavam sendo bonzinhos quando deram essa probabilidade. Morte não é exatamente conversa de bar”.
Passou a vida correndo em cima de uma bicicleta, desde as estradinhas de Austin, no Texas, até o Champs-Elysées, e poderia, sem dúvida, ter tido uma morte prematura, visto que ciclistas travam uma guerra sem fim contra motoristas de grandes caminhões. Muitos veículos o pegaram, e tantas vezes, em tantos países, até perder a conta. Aprendeu a retirar os pontos do seu próprio corpo. – “Tudo o que você precisa é de um par de alicates de unha e um estômago forte”.
Quem o vê sem camisa entenderá melhor, visto que tem cicatrizes em ambos os braços e marcas coloridas nas pernas, que mantém depiladas de cima a baixo. – “Talvez seja por isso que os caminhões estão sempre tentando me atropelar; eles vêem minhas panturrilhas efeminadas e decidem não frear”.
Mas os ciclistas têm que se depilar porque quando uma pedrinha entra na pele é mais fácil limpá-la e tratá-la se ela não tiver pêlos.
- “Num minuto você está na estrada pedalando e no outro... - bum! - você está com a cara no chão. Uma rajada de ar quente o derruba e você sente o gosto amargo de diesel queimado no céu da boca. Tudo o que se pode fazer é gesticular com os punhos para as luzes traseiras que seguem em frente”.
A verdade é que Lance Armstrong tornou-se fonte de inspiração para todos. Venceu o Tour de France, corrida de estrada de 2290 milhas, que é considerado o evento esportivo mais cansativo da face da Terra, por seis vezes (seis vezes!...) consecutivas. Sua história é um relato de fé e, porque não dizer, de mistério: seu retorno milagroso e como se equiparou a vultos do ciclismo como Greg LeMond e Miguel Indurain, também vencedores, no final do último século, de vários Tour de France. Desde a subida “lírica” dos Alpes, a conquista heróica dos Pirineus e tudo o mais. É tudo uma luta lenta e dolorosa, especialmente na subida da montanha, onde trabalhando duro, pode o atleta conquistar o cume primeiro que todo mundo.
- “Não sei por que ainda estou vivo. Posso apenas supor. Tenho uma constituição física rígida e minha profissão me ensinou como competir com baixas probabilidades e grandes obstáculos. Gosto de treinar duro e correr com raça. Isso ajudou. Foi um bom começo, mas certamente não foi o fator determinante. Não ajudarei em nada se acreditar que minha sobrevivência foi apenas uma questão de sorte”.
Ainda bem...