
Como já tive oportunidade de registrar, moramos em Ribeirão Preto por alguns anos, em um bairro de classe média alta.
A questão do bairro, contudo, não impedia que a cidade – especialmente o nosso – estivesse sujeita a violência, roubos e furtos.
Conosco aconteceu um episódio terrível, que acabou por determinar a nossa mudança para outro ponto daquela bela cidade.
Vamos à história:
Como havia tempos que não visitávamos a família de meu sogro, decidimos fechar – simplesmente fechar, sem a preocupação com a vigilância – a nossa casa e rumar para Marília, onde ficaríamos por uns três ou quatro dias.
E foi o que fizemos. Matamos as saudades, comemos da excelente comidinha da sogra, batemos bons papos com o sogro e, então, retornamos.
Chegamos de volta à casa à tardezinha e percebemos que as luzes estavam acessas. Resolvemos entrar.
Pra quê, meu Deus?
Nossa casa havia sido invadida.
Os ladrões provavelmente rodearam a casa várias vezes, viram as luzes sempre apagadas e concluíram que não havia ninguém em casa.
A porta da cozinha – imagine você – toda de ferro trabalhado, fora aberta facilmente com um pé de cabra.
Entramos. Estava um verdadeiro caos.
Pra começar, os bandidos defecaram na cozinha.
A geladeira estava aberta e o gelo derretido espalhava-se por todos os lados. Os alimentos da geladeira foram levados, assim como as bolachas, os biscoitos, e tudo que era comestível.
Perguntamo-nos por que a geladeira não fora levada.
É que os ladrões encostaram um caminhão do lado de fora em um terreno baldio, rente ao muro que dava para a casa, e foi por ali que carregaram tudo. Assim, o que era muito pesado, ficou.
Mas forno de microondas, forninho elétrico, liquidificador, televisores, ferro elétrico, "bateram asas", além de roupas pessoais e de cama.
A meu ver, eu fui a maior vítima. Levaram-me um par de sapatos de cromo alemão, uma gaita de boca Honner – importada – e, o que foi mais lamentável, um violino tcheco de grande valor.
Imagine o ambiente: a casa toda suja e a porta da cozinha arrombada...
Por incrível que pareça, não foi a porta que deu mais trabalho: no dia seguinte chamei um serralheiro que, inteirado da situação, prontificou-se a executar a recuperação no mesmo dia.
O pior foi limpar a casa. Chamamos a nossa empregada, mas minha mulher, entre acessos de choro e de medo, não conseguia se acalmar.
E os vizinhos?
O do lado esquerdo disse que escutou barulho, que o seu cachorro latiu várias vezes, mas que pensou que éramos nós que havíamos voltado (acho que ele não quis se envolver por medo).
O vizinho da frente, cujo terreno era bem mais alto que o nosso e que, por isso, permitia visão completa da nossa casa, nada! Será que não viu o caminhão?
Bem, o episódio nos fez tomar uma resolução imediata: ligamos para São Paulo, para a sede da Igreja a que estávamos subordinados, demos ciência do ocorrido e avisamos que estávamos procurando casa para mudar (eram eles que pagavam).
E foi o que fizemos. Subimos para um bairro mais central. A nossa nova casa, juntamente com outras, tinha guardas vinte e quatro horas por dia.
E nos acalmamos.
Logo que constatamos o acontecido, dirigimo-nos à Delegacia de Polícia para registrar a ocorrência.
Fomos, em seguida, procurados por dois homens que se diziam investigadores, propondo-nos a recuperação de tudo mediante um pagamento.
– Nós sabemos quem são os criminosos – disse-nos um deles. – Chegar neles e localizar o produto do furto é fácil para nós. Só que queremos cinqüenta por cento do valor estimado dos bens, em dinheiro. Ou seja: à medida que formos entregando os objetos, você nos paga. Você sabe... há um grande risco em lidar com essa gente.
Fiquei de pensar na proposta. Minha mulher achou que o melhor era deixar quieto, pois os riscos de mexer com bandidos eram muito grandes.
Assim, nada fizemos a respeito, da mesma maneira que muita gente faz – para não nos envolvermos com investigadores e polícia.