O ladrão de vida e morte

 

Vou contar-vos agora, ó irmão dos Árabes, a singular aventura em que me vi metido no caravançará de Nejef, durante a longa e fatigante viagem que fiz, ao regressar da terceira peregrinação aos lugares santos de Meca.

Uma noite, depois da prece, achava-me a fumar e a cavaquear descuidoso com vários amigos, quando se acercou de mim um viajante desconhecido que, tomado de grande e incontida aflição, perguntou-me ansiosamente se eu conhecia um conto árabe intitulado "O Ladrão de Vida e Morte"!

Respondi-lhe que não. Em toda a minha vida errante, sacudida não raramente por diabólicos sucessos, sem embargo de ter percorrido e esmiuçado os recantos mais longínquos da Arábia, nunca ouvira nem mesmo referências vagas a essa história de "O Ladrão de Vida e Morte" As lendas muitas vezes...

O desconhecido, porém, sem dar atenção às hipóteses que eu pretendia tentar sobre o caso, acercou-se de outro peregrino que se achava perto de mim e repetiu-lhe a pergunta que me dirigira.

Também este ignorava o teor da história e começou com extrema loquacidade a desenvolver uma série interminável de considerações sobre os contos orientais e os ladrões da Arábia Central.

- Pelo santo nome de Mafoma! - exclamou nervoso e já irritado o desconhecido. - A mim pouco me importam as opiniões alheias! Quero apenas encontrar uma pessoa capaz de contar-me a história de "O Ladrão de Vida e Morte". Ofereço quinze dinares-ouro, dois camelos e três cavalos de boa raça àquele que me fizer conhecer esse conto maravilhoso!

A generosa oferta aguçou geral cobiça e despertou grande curiosidade entre quantos se achavam no velho caravançará. Não houve, todavia, entre os presentes uma única pessoa que conhecesse a prodigiosa lenda.

Ao perceber que os homens de Nejef não podiam, de modo algum, aceitar a proposta estranha que lhes era feita, o rico viajante entrou a dar mostras de desespero sem limites. Atirou-se ao chão como um louco, arrancando os cabelos e as barbas; esmurrava-se no rosto e no peito, exclamando com indizível angústia:

- Estou perdido! Allah tenha piedade de mim!

E sem que pudéssemos tomar qualquer providência, tendente a acalmá-lo, levantou-se rápido, montou a cavalo e partiu em desenfreado galope, desaparecendo momentos depois na escuridão misteriosa do deserto!

- É um louco! - observei penalizado. - É um infeliz demente a quem senhoreou triste e extravagante obsessão!

Thalab Khatani, velho escriba de Basra, homem austero e judicioso que participava de nossa companhia discordou com serenidade e perfeita convicção:

- Está muito enganado, meu querido! Não se trata absolutamente de um louco! Conheço esse viajante. Chama-se Yazid Ben-Abi Rabia e é um dos mais ricos e conceituados mercadores de Mossul. Mantenho boas relações com ele há muitos anos. É um homem ajuizado, honesto e piedoso. Posso assegurar-lhe - pelo que acaba de ocorrer ante os nossos olhos espantados - que alguma coisa de muito grave (que eu não sei explicar) sucedeu ao infeliz xeque e estou convencido de que a ameaça de algum perigo lhe pesa neste momento sobre os ombros, afligindo-o e transtornando-lhe a mente.

E o erudito escriba ajuntou:

- Quero crer que o bom do Yazid partiu agora para o oásis de El-Vandian, onde, segundo dizem, vive um velho marabu conhecedor de mais de mil histórias! Queira Allah, o Altíssimo, que o generoso Yazid encontre quem seja capaz de tirá-lo da horrível situação em que me parece encontrar-se!

Não pude ocultar a profunda impressão que me causou o caso incrível do xeque Yazid Ben-Ali Rabia, de Mossul. Por que estaria o infeliz a procurar, desesperado, quem lhe contasse uma história? Que lenda seria essa de "O Ladrão de Vida e Morte"? Que fatal relação poderia haver entre um simples conto árabe e a vida de um xeque rico e poderoso? Eram as perguntas que eu formulava e às quais ninguém sabia responder.

Lembrei-me, então, das palavras do poeta: - "Bani adem guaa kohema Allah barka iarf hulchi!" - Os homens são ignorantes, só Allah conhece a verdade! 

*** 

Sete anos eram passados - assim escreveu a vontade de Allah, quando um dia, ao sair da mesquita de El-Hanfié, em Bagdá ouvi um jovem saudar respeitoso a um xeque que cruzava o velho templo:

- Allah proteja e abençoe o generoso Yazid Ben-Ali Rabia!

Ao ouvir tais palavras, a surprêsa forçou-me a parar.

O ancião que, naquele momento, via a poucos passos de mim, era sem dúvida o mesmo viajante que se mostrara, anos atrás, em Nejef, tão desesperado por ninguém conhecer ali determinado conto árabe. Senti que era chegado o momento de satisfazer minha curiosidade e desvendar o mistério daquela história de "O Ladrão de Vida e Morte"!

Aproximei-me do nobre muçulmano e saudei-o respeitosamente:

- Que a paz seja contigo, ó xeque dos xeques!

Que Allah, o Altíssimo, proteja os teus filhos e os filhos dos teus filhos!

- Marhaba Birk! - Bem-vindo sejas - respondeu o velho Yazid. - A que devo a honra de merecer a tua saudação?

Recordei-lhe em poucas palavras (e não há necessidade de repeti-las aqui) a cena a que assistira no velho caravançará de Nejef e pedi-lhe que me explicasse a causa daquele desespero e porque fizera ele naquela noite tão impressionante empenho em conhecer certa história intitulada "O Ladrão de Vida e Morte"!

- Meu amigo - proferiu o bom ancião pousando a mão sobre o meu ombro - não censuro a tua curiosidade. Acho-a até razoável. Vou contar-te, já que pões tanto empenho em ouvi-la, a tormentosa aventura em que me vi envolvido por causa dessa famosa história de "O Ladrão de Vida e Morte"!

E levando-me cortesmente pelo braço para a sombra do terceiro minarete de El-Hanfié, o paciente mercador assim começou: 

*** 

- No dia em que resolvi fazer a minha primeira peregrinação a Meca - o Santuário da Verdade – reuni todas as jóias e dinheiro que possuía, meti tudo num saco e fui ter à casa de um velho tabib chamado Abdala, homem virtuoso e digno. A ele pedi que guardasse até o meu regresso da Cidade Santa aquele precioso pecúlio que resumia todos os meus bens.

- "Meu filho - disse-me o sábio - não ponho embaraço em guardar comigo o fruto do teu labor e economias. Pode acontecer porém que quando voltares da peregrinação tenhas a fisionomia tão mudada que eu não te possa reconhecer. E para que não haja futuramente dúvida alguma sobre a tua identidade, vou contar-te uma história e - juro pelo Livro Sagrado - só restituirei este depósito se fores capaz de repeti-la fielmente quando te apresentares a mim."

E o tabib contou-me uma história original e interessantíssima, a que intitulou "O Ladrão de Vida e Morte"! Confiando em minha memória, e certo de que poderia repetir facilmente quando voltasse de Meca o conto que me identificaria, parti despreocupado e satisfeito com outros companheiros de peregrinação.

Ao chegar, porém, à capital religiosa do Islã, fui assaltado pelas febres locais e adoeci gravemente. Quando me recuperei e pensei em regressar à minha terra, percebi que esquecera a história famosa, sem a qual não poderia reaver do judicioso Abdalá os bens que possuía. Na caravana com que pretendia voltar não encontrei uma única pessoa que pudesse tirar-me do tormentoso embaraço.

Segui para o oásis de El-Vadian, onde vivia um velho marabu, hábil conhecedor de lendas maravilhosas. Esse grande santo havia desgraçadamente morrido três dias antes. Informaram-me que em Anaibeh, para além do deserto da Síria, vivia um grande sábio muçulmano chamado Vanah, profundamente versado em contos orientais; parti, sem perda de tempo, em direitura a esse longínquo recanto da Arábia. No caminho fui assaltado pelos beduínos, aprisionado e vendido como escravo, juntamente com outros prisioneiros, nos mercados de Damasco.

Rebaixado à triste condição de cativo, vivi cerca de dois anos sofrendo as maiores torturas. Consegui fugir afinal e, esmolando pelas aldeias, fui parar em Jowi. Prenderam-me aí como ladrão, e o cádi dessa cidade (Allah se compadeça dele!) condenou-me injustamente a morrer. No dia anterior àquele em que deviam separar-me a cabeça do tronco, caiu sobre a cidade de Jowi tremendo furacão. Quase todas as casas foram destruídas e centenas de homens e mulheres pereceram.

Aproveitei-me da balbúrdia e fugi com outros condenados para o oásis de El-Bdaiah, onde fui obrigado por vários meses a bandear-me com ladrões e assassinos. Tomei parte em lutas tremendas contra os beduínos do deserto, e tais foram os meus atos de valentia que os árabes do meu grupo me elegeram seu chefe. Consegui reunir sob meu comando, com os foragidos escorraçados de várias cidades, um pequeno exército que muitas façanhas praticou.

Uma noite, já farto de aventuras sangrentas e perigosas, chamei todos os meus companheiros e disse-lhes que formara o intuito de ir disfarçado em faquir à cidade de Anaibeh, pois ansiava ouvir de um sábio que lá vivia uma narrativa que maximamente me interessava. - "Que história é essa, ó xeque?" - perguntou-me um dos homens de meu bando. Respondi-lhe que era a de "O Ladrão de Vida e Morte". "Se é apenas para ouvir esse conto - retorquiu ele - inútil lhe será arriscar a vida em Anaiheb. Conheço perfeitamente essa história!".

E contou-me, sem alteração de uma palavra, a mesma história que anos antes eu ouvira do velho Abdalá, em Mossul. Contente com a descoberta que acabara de fazer e relembrado da famosa lenda despedi-me dos meus companheiros, arranjei alguns camelos, um guia de confiança e parti pelas estradas do deserto, em demanda de minha terra.

Seis meses gastei nesse longo e penosíssimo regresso. Quando afinal cheguei a Mossul fui ter logo à casa do venerando Achmed Abdala. Encontrei-o de pé junto à porta de sua rústica morada. Aproximei-me dele e disse-lhe respeitosamente: - "Senhor! Allah proteja os cabelos de vossa barba! Eu sou um peregrino que há cinco anos deixou em vosso poder os bens que possuía. Só agora, pela vontade do Altíssimo, pude regressar à minha cidade natal. Vou contar-vos a história "O Ladrão de Vida e Morte" a fim de que possais reconhecer em mim o mercador Yazid Ben-Abi Rabia!"

Respondeu-me o tabib: - "Meu filho! Louvado seja Allah, que aqui te conduziu são e salvo depois de tão longa ausência! Dispensado estás de repetir-me a encantadora história "O Ladrão de Vida e Morte"! Não preciso de outra prova para confirmação da tua identidade".

- Outra prova? - exclamei - pois se eu não dei ainda prova alguma de que sou realmente o mercador Yazid!" - Sorriu o velho sacerdote e batendo-me carinhoso no ombro disse-me: "Quando aqui vieste pela primeira vez, notei que depois de descer do camelo, passavas vagarosamente a mão pelo focinho do animal. A mesma coisa fizeste, há pouco, quando apeaste. Foi por essa pequenina particularidade, tão simples aliás, que eu com absoluta segurança reconheci em ti o mercador Yazid Ben-Abi-Rabia!" E o bom do tabib entregou-me logo o precioso depósito que eu deixara anos antes sob sua guarda!

Ao terminar essa curiosa narrativa, o ancião, fitando-me risonho, depois de uma pausa, disse-me:

- Sabes, meu curioso amigo, o que pude concluir desta singular aventura? É que, se eu tivesse ido diretamente de Nejef a Mossul buscar os meus bens em casa do sacerdote, teria poupado cinco anos de trabalhos, privações, perigos e sacrifícios! Quantos infelizes há que lutam dezenas de anos para conseguir aquilo que teriam obtido desde logo se se dispusessem a passar a mão pelo focinho de um camelo!

- Bondoso Xeque! - exclamei arrebatado. Encantadoras são as tuas palavras e fecundos os ensinamentos que encerram! Gostaria, porém, sem abusar de tua bondade, de ouvir agora essa singular e prodigiosa história "O Ladrão de Vida e Morte".

- Pelas barbas sacratíssimas do Profeta! - respondeu-me o velho Yazid - não posso, infelizmente, atender ao teu pedido, meu amigo.

E concluiu pesaroso:

- Que ruim memória tenho! Não me recordo mais da célebre história "O Ladrão de Vida e Morte"

 

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