
Nagib o Egípcio é levado para o palácio de sua noiva - As cautelosas palavras do velho Akmed Kamil - O grave juramento exigido - Surge um asqueroso dervixe - Traição e tumulto - O noivo foge com a escrava predileta de sua noiva
Uma escrava circassiana muito pálida, mas de incomparável formosura, tomando-me pela mão, levou-me ao deslumbrante salão onde ia se realizar o meu singular casamento e onde se encontravam além do ancião e do jovem Nasif, quatro homens desconhecidos. Um deles, gordo, de turbante verde, eu soube mais tarde chamar-se Abul Soroka e exercer as funções de cádi; os outros três eram amigos do dono da casa, chamados a testemunhar o enlace.
Momentos depois, acompanhada de sua escrava predileta, apareceu Nedjma, a noiva desconhecida que o Destino me trouxera.
Embora tivesse o rosto oculto sob um véu azulado, pude ver, numa contemplação imóvel, que aquela escrava era uma rapariga extremamente formosa. Dei tento, no mesmo instante, de seu olhar que derramava languidez e bondade. Chamou-me desde logo a atenção o fato curioso de trazer o rosto ainda mais velado do que a própria noiva.
O velho Ahmed Kamil - assim se chamava o Xeque - aproximou-se de mim e segredou-me assaz misterioso:
- Meu bom amigo, não te esqueças, um só momento, de que não passas de um marido mercenário, encontrado na rua e alugado a peso de ouro. Este casamento não passará de simples formalidade, e o meu fito, ao realizar esta cerimônia, é exclusivamente (como já disse) livrar minha filha de um destino execrável. Hoje mesmo ao romper do dia, deixarás esta cidade, pois já mandei preparar a caravana com dez camelos, que deverá conduzir-te de volta à tua pátria. Dentro de alguns meses anularei o casamento; minha filha poderá então ligar-se àquele que o seu coração eleger.
- Peço perdão, ó venerável Xeque! - objetei de pronto. - Logo que o casamento for anulado, o vizir poderá retomar o seu intento, e certamente o fará.
Isto dizia eu com muita veemência, pois não me parecia interessante desfazer aquele casamento com uma jovem tão sedutora, ambicionada até pelo próprio vizir do rei.
- Estás enganado - contrariou o Xeque. - Há em nosso país uma lei que não permite as núpcias de um vizir com uma mulher que tenha sido esposa de estrangeiro. Com este casamento, portanto, minha filha estará para sempre livre da ameaça de qualquer vizir do rei.
E acrescentou, com voz soturna e grave, pondo-me as mãos espalmadas sobre o ombro:
- Para evitar dúvidas e contrariedades futuras, ó Egípcio! - vais jurar sobre o Alcorão que deixarás esta cidade ao romper do dia!
Nasif, irmão de Nedjma, trouxe um exemplar do Livro Sagrado para que eu proferisse a fórmula do juramento. Notei que todos acompanhavam com viva curiosidade os meus gestos, como duvidosos de minha submissão àquelas exigências.
Antes que me fosse dado proferir, como bom muçulmano, o juramento exigido, o cádi Soroka, que parecia excessivamente nervoso, voltou-se para o Xeque, pai de Nedjma, e disse:
- Proponho que o dervixe Telibrã, antes do casamento, leia a sorte, boa ou má, desse jovem estrangeiro. Não se esqueçam de que o Destino às vezes escreve, como os cristãos, da esquerda para a direita.
- Sim, sim - concordaram logo com impressionante alvoroço as três testemunhas. - Ouçamos a eloqüente palavra do sábio dervixe.
O cádi acercou-se de uma porta estreita que mal se percebia no fundo da sala, e bateu palmas três vezes.
Dentro de poucos instantes, como num passe de magia, surgiu no aposento um novo e estranho tipo. Enrodilhado numa túnica andrajosa e imunda, tinha a aparência de um desses mendigos asquerosos que deambulam, ao cair da noite, por entre as tendas dos mercadores.
O rosto se mostrava meio encoberto por uma barba ruiva e espessa; os cabelos eram bastos, castanhos e excessivamente revoltos. Caminhava devagar e no olhar, esconso e mau, trazia o brilho cortante de um punhal aguçado.
Aquele tipo repelente era o dervixe Telibrã que, por sugestão do cádi, ia ler a minha sorte.
Abeirando-se de mim, o zhelgach (lagarto) fitou-me longamente.
- Ah! Ah! - casquinou esfregando as mãos, como um demente. – É esse o noivo! Ah! Ah! Foi descoberto por acaso! Ah! Ah! Ah! Que fazias tu no pátio da mesquita?
E seus olhos faiscavam áscuas de maldade. Encarei-o com inquietação e assombro. Que pretendia ele de mim?
- Jovem egípcio, - reatou numa voz rouquenha e trágica - por que abandonaste a opulenta caravana dos amigos de teu pai? Ah! Ah! Ah! Foi o Destino! Tua vida tomará novo rumo... vais cair no fundo de um abismo (e expeliu uma risadinha cortante e mordaz). Tua salvação ó cairota! - estará em tua mão direita. Não levantes nunca tua mão direita.
Súbito o sacripanta emudeceu. Virava e revirava a cabeça de um lado para o outro. Pareceu-me então ouvir um sussurro duvidoso, uma toada surda de passos e vozes. O estranho ruído partia do fundo do palácio.
- Fomos traídos - bradou uma das testemunhas! - O vizir foi avisado deste casamento!
Decorridos poucos minutos, vi surgirem na sala, fazendo retinir suas pesadíssimas espadas, cinco ou seis homens que pareciam oficiais do rei.
Um dos recém-chegados dirigiu-se ao velho Xeque Kamil e disse-lhe sem mais preâmbulos:
- O nobre vizir Sayeg foi informado de que pretendeis casar vossa filha Nedjma com um jovem egípcio. Temos ordens para impedir, de qualquer modo, esse estúpido casamento.
Estabeleceu-se logo, na sala, grande confusão. O dervixe entrou a saltar como um demente. As mulheres gritavam. O velho Xeque esbravejava possesso. Um homem corpulento, mal-encarado, segurou com violência a noiva, tolhendo-a brutalmente pelos braços.
No meio daquela balbúrdia fiquei esquecido a um canto. A escrava que acompanhava Nedjma aproximou-se de mim e segredou-me com aflita docilidade:
- Vem comigo - ó Egípcio! Posso levar-te para lugar seguro!
E tomando-me pela mão conduziu-me para um canto da sala, onde uma porta secreta abria para uma escada escura e precipitosa.
Na sala, ninguém deu pela nossa fuga.
Descemos lentamente a escada, cujos degraus eram irregulares e traiçoeiros, e chegamos a um aposento frio e úmido, escavado no subterrâneo do palácio. Tateávamos, já numa escuridão completa.
A escrava que me servia de guia, no meio das trevas, levava-me brandamente pela mão. Eu lhe sentia a pressão delicada dos dedos e o perfume inebriante que exalava dos seus longos e sedosos cabelos.
Dentro de alguns minutos iria eu ter uma das maiores surpresas da minha vida.
Eis o que ocorreu.
(“Aventuras do Rei Baribê”)
continua (aguarde publicação)