
Ainda a aventura do hóspede misterioso. O botânico e o calculista
Das "Mil histórias sem fim..." é esta a quadragésima terceira. “Fazer sempre o bem e ter-se em pouco é sinal de alma humilde”.
Lida a quadragésima terceira restam apenas novecentas e cinqüenta e sete.
Não muito longe, numa pequena casa semi-oculta entre viçosos limoeiros, residia o corretor Chafid Bechara. Recebeu-nos em sua sala de trabalho.
Mais de uma vez eu tivera a oportunidade de oferecer a Bechara transações bem vantajosas.
- Que negócio temos para hoje? - perguntou-me com indisfarçável bom-humor - Algum terreno para vender? Uma boa casa para alugar?
Apressei-me em responder:
- Não cogito, no momento, de negócio algum. A nossa visita tem objetivo inteiramente diverso.
E contei-lhe tudo o que ocorrera em minha casa desde a chegada do egípcio, as singularidades de meu hóspede e a promessa da lenda surpreendente (As sete pontas do quadrado) que merecia ser ouvida por cinco mil quatrocentas e trinta e nove pessoas!
E rematei a parlenda com o convite:
- Precisamos de ti, meu caro Bechara! Serás um dos cinco ouvintes. Vamos para casa. O eloqüente Zualil aguarda a nossa chegada para iniciar a narrativa.
Surpreendeu-nos o corretor com uma estrepitosa risada.
- Que ingenuidade a tua! - proclamou, em tom de menosprezo, sacudindo os ombros. - Tenho mais que fazer. Julgas então que eu deixaria minha casa, abandonaria meus interesses, para ir ouvir sandices e baboseiras de um aventureiro que pretende falar sobre "As sete pontas de um quadrado?"
Fez pequena pausa. O mestre-escola, com impaciência mal reprimida, ouvia impassível as arrogantes e indelicadas palavras do corretor.
Aquela recusa desatenciosa do Bechara irritou-me. Sem conter as expansões de minha revolta, revidei com energia:
- Surpreende-me a tua maneira sórdida e material de encarar a vida. Vimos aqui solicitar um diminuto auxílio, um pequeno obséquio de tua parte. E somos repelidos por ti com agressiva má-vontade.
- Não tomes por grosseria ou desatenção a minha recusa – responde Bechara. Vou chamar dois auxiliares de minha confiança que irão, com o maior prazer, ouvir a lenda do egípcio.
Em rápidos instantes saiu e voltou acompanhado de dois homens de aparência distinta.
Proferidas as saudações de praxe (salã aleikuml Aleikum asalã!) Bechara informou:
- Este aqui (e apontou para o cavalheiro alto de olhos azuis) é o meu calculista Derak. Faz contas e resolve problemas com extraordinária rapidez. Este outro que aqui está é o notável botânico Esbem Ketum. As plantas que crescem pelos cantos do mundo não tem segredos para ele.
- E esses vossos ilustres auxiliares acudiu, com sofreguidão, o mestre-escola - estarão dispostos a ouvir a lenda que vai ser narrada pelo misterioso egípcio?
- Teremos nisso o maior prazer - retorquiu prontamente o calculista.
- Voltemos sem perda de tempo para casa. Não devemos abusar da paciência de quem aguarda o nosso regresso.
Éramos quatro: o mestre-escola, o matemático, o botânico e eu. Faltava apenas um para completar o total exigido pelo narrador.
Não foi difícil encontrá-lo.
Ao passarmos junto de um muro coberto de hera demos com um jovem magro, pobremente vestido, que descansava, sentado numa pedra.
Saudei-o atenciosamente e perguntei-lhe:-
- Queres ir, agora, em nossa companhia, ouvir uma lenda?
O rapaz arrancou algumas folhinhas de hera e esmagou-as entre os dedos. Então respondeu:
- Só irei ouvir a lenda se me deres, antes de mais nada, duas fatias de pão!
- Terás o pão que quiseres - declarei com ar risonho para incutir ânimo ao faminto.
E puxando pelas vestes esfarrapadas apontei:
- Vem, meu amigo!
Levantou-se o jovem da túnica esfrangalhada e anexou-se ao nosso grupo. Éramos, naquele momento, em número de cinco. Não havia tempo a perder. Seguimos a passos largos pela estrada.
Durante a caminhada o ilustre Esber Ketum, o botânico, prendeu-nos a atenção deliciando-nos com preciosas informações alusivas a todas as plantas e árvores que encontrávamos.
Lembrei-me das trovas que o egípcio cantara em minha casa. E pus-me a recordá-las.
Ocorreu, nesse momento, um episódio que nos causou profunda surpresa. O jovem da túnica esfrangalhada, que se conservava num mutismo de maníaco, abeirou-se de mim como um ébrio, passou-me os olhos dos pés à cabeça, segurou-me pelo braço e ganiu com indizível aflição:
- Com quem aprendeste esta canção? Onde a ouviste?
- Ora essa! - exclamei tomado de indisfarçável espanto - Que vês de estranho ou surpreendente nessa canção?
E contei-lhe (pois não via motivo para ocultar a verdade) que ouvira aqueles versos de um egípcio, chamado Zualil, meu hóspede. E acrescentei, fitando-o meio grave e meio alegre:
- Ele está em minha casa e logo que lá chegarmos vai nos deliciar com a narrativa de uma prodigiosa lenda!
Ouvidas essas palavras o rapaz deu um salto para o lado, arrancou do turbante, atirou-o ao chão e sem pronunciar palavra ou o menor gesto de despedida, desatou a correr.
- É um maníaco! - opinou o mestre-escola com ar compungido.
- Na vida desse moço - arriscou o matemático - existe um drama! Resta descobrir a relação entre a tragédia que o envenena e a canção que o perturba!
Depois de um minuto de circunspecção opinou o velho botânico:
- Não adianta comentar o caso. Em caminho ouve, casualmente, uma canção. Arranca do turbante e foge de nós numa carreira alucinada!
- Que faremos agora? - ponderou o mestre-escola. - Lá se foi o nosso quinto ouvinte! Estamos novamente reduzidos a quatro e o egípcio exigiu cinco.
- Não nos preocupemos com isso acudiu o matemático. - De cinco para quatro a diferença é só de uma unidade. E não será difícil obter o quinto ouvinte!
Seguimos, rapidamente, para casa. Recostado ao portão avistei um homem modestamente vestido.
Era um cego que eu costumava encontrar esmolando no mercado ou no pátio da mesquita. Saudei-o com simpatia e perguntei-lhe:
- Esperas alguém, meu amigo?
Respondeu-me o cego:
- A pessoa que se achava nesta casa foi obrigada a partir e pediu-me que aqui ficasse de vigia, até o dono regressar.
A inesperada declaração do cego deixou-me estupidificado. Caiu-me a alma aos pés. O meu hóspede partira e deixara um cego vigiando a minha casa. Um ímpeto de cólera apoderou-se de mim.
- O tal egípcio não passa de um tratante! - repisei revoltado. - As minhas desconfianças não eram, afinal, infundadas!
- Lá vem ele!
E tinha razão. Era Zualil, o egípcio, que caminhava apressado como se viesse a alguma importante missão.
(“Mil Histórias Sem Fim”)
continua ("O vigilante cego")