
(Soldado Contra a Fome e a Miséria)
“Não
se morre apenas de enfarte ou de glomero-nefrite crônica... Morre-se também de
saudade”
(Josué, sobre os tempos de exílio)
Vivemos numa
democracia,
mas
perdura uma
dívida
dos
políticos,
dos
artistas
e dos
intelectuais
do
país
para
com
a
memória
de Josué de Castro e
também
de
outros
grandes
autores
brasileiros
que
não
são
divulgados. E
isso
vale
para
todas as
áreas,
no
que
parece uma
tentativa
de
apagar
a
memória
de
um
país
e
pregar
essa
amnésia
coletiva.
O
desprezo
pelo
passado
é
um
desprezo
que
vai
atingir
a
todos.
Josué projetou o
nome
do Brasil
internacionalmente
na
luta
pela
paz,
contra
a
fome
e
também
pela
defesa
do
meio
ambiente.
Antes
dos
anos
70,
quando
ninguém
falava
em
ecologia,
Josué de Castro
já
defendia o
meio
ambiente,
era
contrário
à
corrida
armamentista
e mostrava
que
o
dinheiro
gasto
na
guerra
poderia
produzir
alimento
para
toda
a
humanidade
e
não
haveria
fome,
ou
seja,
que
era
possível
eliminar
fome
e
guerra
com
a
mesma
ação.
No
dia
em
que
morreu no
exílio,
morria
também
o
poeta
chileno Pablo Neruda, duas
semanas
depois
do
golpe
militar
no
seu
país.
Josué perdeu a
esperança
de
voltar
para
o Brasil, estava
muito
doente
e
assim,
simplesmente
morreu.
Não
conseguiu
voltar
como
os
demais
porque
havia
algo
muito
pessoal
contra
ele.
Era
considerado
um
grande
inimigo
do
regime
e
não
conseguiu
passaporte
para
regressar,
como
ocorreu
com
outros
exilados.
Em
1973, o
período
mais
tenso
do
regime,
pouquíssima
gente
tinha
voltado. Houve uma mini-abertura
em
1968,
quando
voltaram algumas
pessoas
que
tinham
saído
em
1964. Outras foram
presas.
Darcy
Ribeiro
foi
um
dos
primeiros
exilados a
voltar
porque
estava
com
câncer
terminal
e queria
morrer
no Brasil.
Mas
não
foi
esse
o
destino
de Josué. João Goulart definiu o
exílio
como
"uma
invenção
do
diabo",
que
permite
que
você
fique
vivo,
mas
o vai definhando,
longe
de
casa,
da
sua
cidade,
dos
amigos,
das
suas
paisagens,
gostos,
cheiros...
O
pernambucano
Josué de Castro –
médico,
professor,
cientista
político,
sociólogo e
geógrafo
– nasceu
em
1908.
Desde
muito
cedo
foi
um
estudante
voltado
para
a
literatura
e o
humanismo.
Escrevia
em
jornais
e aos dezessete
anos
era
comentarista
de Freud. Aos vinte e um
anos
formou-se
em
medicina
e aos vinte e nove,
em
filosofia.
Foi
professor
universitário
de várias
disciplinas
de
ciências
exatas e humanas no
Recife
e no
Rio
de
Janeiro.
Entre
as
décadas
de 1930 e 40 assessorou
governos
de
vários
países
no
estudo
dos
problemas
da
alimentação
e do
desenvolvimento
humano,
tendo
ocupado
cargos
e presidido
comissões
na
Organização
das
Nações
Unidas (ONU).
Só
na ONU, Josué presidiu o
Conselho
da
FAO, sigla em inglês da Organização
para
Alimentação
e
Agricultura
de 1952 a 1956 e o
Comitê
Governamental
da
Campanha
de
Luta
Contra
a
Fome
(1960).
Também
foi
embaixador
do Brasil nas
Nações
Unidas de 1962
até
1964,
quando
foi cassado
pelo
regime
militar.
Foi indicado duas
vezes
para
o
prêmio
Nobel da
Paz
e ganhou inúmeros
prêmios
nacionais e
internacionais.
Seus
livros
eram
leitura
curricular
em
universidades
estrangeiras,
mas
foram
banidos
das brasileiras
pela
ditadura
militar.
A
injustiça
cometida
com
o
seu
trabalho
jamais
foi reparada
em
tempos
de
democracia.
Muitas
pessoas
tiveram
acesso
aos
livros
de Josué de Castro
ainda
no
final
dos
anos
60,
porém
no
recôndito
das
casas.
Hoje
em
dia
as
pessoas
podem
ter
lido o
nome
dele
em
algum
lugar,
mas
não
sabem
quem
é.
Suas publicações de maior impacto mundial foram
Geografia da Fome (1946) e Geopolítica da Fome (1951). Na primeira, mapeou a
situação da fome do Brasil, sua extensão, causas e efeitos. Na segunda, abriu a
discussão da fome no contexto mundial. Sua extensa bibliografia, traduzida e
editada em 25 países, inclui também ‘Terapêutica Dietética do Diabetes’,
‘Explosão Demográfica’ e ‘A Fome no Mundo’, além de ensaios
– ‘Subdesenvolvimento’, ‘Aonde vai a América Latina’ e ‘Fisiologia dos Tabus’,
só para citar algumas, das mais variadas áreas, às quais emprestou conhecimento,
por meio de uma narrativa contundente e de impecável estilo literário. Exilado
em Paris aos cinqüenta e seis anos, começou a dar aulas na Sorbonne e na
Universidade de Vincennes, onde intensificou sua luta humanista.
“Nas
décadas
de 50 e 60,
quando
a ONU convocava umas
cinco
personalidades
importantes
para
desenvolver
estudos
dirigidos a alguma
catástrofe
mundial,
três
eram
indispensáveis:
Lord Boyd-Orr, Bertrand Russel e Josué de Castro” - diz Darcy
Ribeiro.
- Enquanto
‘Geografia’
e ‘Geopolítica
da
Fome’,
entre
outras
teses,
eram estudadas nas
faculdades
de
sociologia
de
outros
países,
no Brasil desapareceram das
prateleiras.
As
teses
de Josué
em
relação
à
fome,
ao
meio
ambiente
e ao
crescimento
demográfico
são
estudos
contundentes
que
abriram a
temática
à
discussão
mundial.
Hoje,
soam
como
advertência
e
vaticínio,
considerando
que
as escreveu
meio
século
atrás.
Ele
já
dizia
que
o
problema
da
fome
poderia
gerar
catástrofes
se continuasse a
ser
ignorado.
Não
se equivocou: a
fome
dizimou
povos
em
vários
países
africanos
nas
décadas
de 1980 e 90.
Josué pensava
que
o
golpe
de 64 seria
passageiro
e
que
logo
estaria de
volta
ao Brasil. E
quando
perdeu as
esperanças
de
voltar
também
perdeu as de
viver.
Ao
morrer
de
enfarto
em
Paris,
em 1973, seu
corpo
foi trazido
para
o Brasil,
mas
o
regime
militar
não
permitiu
que
seu
enterro
no
Rio
de
Janeiro
fosse
sequer
fotografado. O
hiato
Josué de Castro se mantém no Brasil
democrático.
Ainda
hoje,
poucos
estudantes
de
sociologia
ou
de
medicina
sabem de
sua
existência.
O
Centro
Josué de Castro no
Recife
mantém
um
rico
acervo
que,
mais
do
que
ser
a
história
de
um
homem
notável,
é a de
um
país.
Se tivesse sido escolhido
para
ministro
da
Agricultura,
como
chegou a
ser
cogitado, teria
com
certeza
deixado algumas
reflexões
para
as
gerações
futuras. A
situação
da
fome
seria
diferente
hoje
no
país,
caso
suas
teses
e
suas
advertências
tivessem sido ouvidas no
momento
próprio.
Se os
órgãos
do
governo,
cinqüenta
anos
atrás,
tivessem concebido, planejado e colocado
em
prática
uma
política
correta
e
inteligente
contra
a
fome,
a
pobreza,
a
falta
de
teto
e
outros
males
sociais,
hoje
a
situação
dos
desvalidos
e
menos
favorecidos
fatalmente
seria
outra.
O que ceifou toda a esperança foi o golpe
militar de 1964 que, esse, sim, deveria ter sido evitado.
Veja,
nos
textos
abaixo,
de Josué de Castro, algumas das
prováveis
razões
de
ter
sido
tão
perseguido:
Fome,
um
tema
proibido
“ (...) A
fome
age
não
apenas
sobre
os
corpos
das
vítimas
da
seca,
consumindo
sua
carne,
corroendo
seus
órgãos
e abrindo
feridas
em
sua
pele,
mas
também
age
sobre
seu
espírito,
sobre
sua
estrutura
mental,
sobre
sua
conduta
moral.
Nenhuma
calamidade
pode
desagregar
a
personalidade
humana
tão
profundamente
e num
sentido
tão
nocivo
quanto
a
fome,
quando
atinge os
limites
da verdadeira
inanição.
Excitados
pela
imperiosa
necessidade
de se
alimentar,
os
instintos
primários
são
despertados e o
homem,
como
qualquer
outro
animal
faminto,
demonstra uma
conduta
mental
que
pode
parecer
das
mais
desconcertantes”.
“ (...) Os
altos
coeficientes
de
natalidade
dos paises
subdesenvolvidos
obedecem à
mesma
lei
biológica: representam o
esforço
natural
dos
seus
efetivos
humanos
para
sobreviver,
visto
que
nestas
áreas
os
coeficientes
de
mortalidade
sempre
foram
extremamente
altos.
Só
mesmo dispondo de
um
excesso
de
gente
– a
maior
parte
para
morrer
e
não
para
viver
– poderiam
estes
grupos
perdurar
através
do chamado
ciclo
antieconômico
da
sua
evolução
populacional,
que
caracteriza os
povos
subdesenvolvidos”.
“(...) A
fome
é,
regra
geral,
o
produto
das
estruturas
econômicas defeituosas e
não
tem
condições
naturais
superáveis, a menos que se corrijam tais estruturas”.
Prefácio
de ‘Homens
e
Caranguejos’
“ (...) verifiquei
que,
no
cenário
de
fome
do
Nordeste,
os
mangues
eram uma verdadeira
terra
da promissão,
que
atraía
homens
vindos de outras
áreas
de
mais
fome
ainda
– das
áreas
da
seca
e da
monocultura
da
cana-de-açúcar,
onde
a
indústria
açucareira
esmagava,
com
a
mesma
indiferença,
a
cana
e o
homem,
reduzindo
tudo
a
bagaço”.
Geografia
da
Fome
“ (...) É
que
cerca
de 60% das
propriedades
agrícolas
no Brasil
são
constituídas
por
glebas
de
áreas
superiores
a 50
hectares
de
terra,
das
quais
20% possuem
mais
de 10.000
hectares.
No
recenseamento
de 1950 ficou evidenciada a
existência
no Brasil de algumas
dezenas
de
propriedades
que
são
verdadeiras
capitanias
feudais:
propriedades
com
mais
de 100.000
hectares
de
extensão”.
“ (...)
Por
sua
vez,
o
minifúndio
significa a
exploração
antieconômica
da
terra,
a
miséria
crônica
das
culturas
de
subsistência
que
não
dão
para
matar
a
fome
da
família”.
***
Você
percebeu? Nas
entrelinhas
Josué envolvia e responsabilizava
pessoas
importantes
de
sua
época
–
governos,
órgãos
sociais
e da
saúde
e
profissionais
de todas as
áreas.
(A
partir
de
artigo
publicado na
revista
“Ser
Médico”)
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