
O “Apóstolo do Brasil”, como tem sido chamado, foi um dos jesuítas que aqui estiveram nos primórdios da colonização.
São atribuídos a ele vários milagres, como, por exemplo, ir de Santos para São Paulo em subidas íngremes, em que ele teria mandado os índios e trabalhadores à frente e, ficando para trás, de repente apareceu no planalto paulista antes deles. Como um milagre!...
O seu papel como missionário e catequizador é inconteste. Muito trabalhou em prol dos locais em atividades que iam além do mero ensino religioso, desdobrando-se em trabalho e canseira, preocupando-se com coisas do dia-a-dia, como ensinar os locais a cultivar hortas e chácaras, participar de planos para construção de edifícios e igrejas, além de defender os índios de abusos por parte dos colonizadores.
Fundou no planalto de Piratininga o Colégio de São Paulo - do qual foi regente, - embrião da cidade de São Paulo, junto com outros padres da Companhia, em 25 de janeiro de 1554. Esta povoação contava, no primeiro ano da sua existência com 130 pessoas, das quais 36 haviam recebido o batismo.
Alguns historiadores contestam o episódio em que Anchieta teria auxiliado na execução de um huguenote, de um protestante, no caso Le Baleur, Jean de Bole, protestante cultíssimo formado na Sorbonne e muito versado nas escrituras sagradas.
Dizem cronistas da época que “o desconhecimento do verdadeiro destino de Cointac (com quem le Baleur teria sido confundido) prejudicou sensivelmente o seu resgate biográfico, pois permitiu que se criasse uma história paralela, associando o seu nome ao de um tal Jacques ou Tiago Le Balleur”, "Herege da Guanabara", mandado enforcar por Mem de Sá com a assistência espiritual de José de Anchieta, conforme já demonstraram Celso Vieira e Hélio Abranches Viotti.
Com a confusão criada, Cointac e Bolés deixaram de ser a mesma pessoa, além de se tornar uma terceira ao ser associado ao "Herege da Guanabara".
Continuam afirmando: “Essa lenda tem subsistido a tal ponto que, mesmo depois de se comprovar que Cointac não morreu no Brasil, continuaram surgindo trabalhos com o mesmo equívoco histórico”. Em São Paulo, por exemplo, foi publicado anonimamente, em 1896, um folheto de 32 páginas com o sugestivo título de “Anchieta, o carrasco de Boles à luz da história pátria”. A pretensa "compilação histórica", atribuída a Álvaro Emídio Gonçalves dos Reis, aproveitou-se do debate travado nos meios intelectuais brasileiros do século XIX sobre o papel de Anchieta na morte do desertor da França Antártica.
E termina:
“A fraude construída por um equívoco no século XVII, chegando ao século XX com várias publicações como ‘Anchieta e o Suplício de Balleur’, de Vicente Themudo Lessa, de 1934; ‘Anchieta: Santo ou Carrasco?’, de Aníbal Pereira dos Reis.
A propósito, Vicente Themudo Lessa (1874-1939), um dos expoentes da Igreja Presbiteriana Independente, foi conferencista, pastor e historiador de renome nos meios pátrios, a quem conheci pessoalmente quando de sua passagem por Igrejas evangélicas do interior paulista fazendo conferências, quando eu ainda tinha cinco ou seis anos de idade.
Por sua vez, Aníbal Pereira dos Reis foi vulto proeminente da Igreja Metodista do Brasil, pastor e ex-padre (“Depois de muitos anos como padre encontrei Jesus”).
Álvaro Reis (acima chamado de Álvaro Emídio Gonçalves dos Reis) menciona o fato em sua obra "O Mártir le Balleur".
A verdade é que paira sobre o vulto de Anchieta essa sombra que é, talvez, a causa de não ter ainda sido cogitada a sua canonização pela celeuma que certamente ocasionaria.
(Com o auxílio de dados colhidos em sites da Internet)