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O Faraó guerreiro encontrava-se na sala do trono, para onde se dirigira bem de manhã, logo depois dos seus exercícios costumeiros.
Sempre iniciava cedo o seu dia, que normalmente era tomado por extensas agendas.
Deixara sua montaria entregue aos cuidados de um cavalariço, que a haveria de tratar convenientemente, e fizera o seu desjejum, após ter tomado um confortável banho que – poderíamos afirmar – era privilégio da nobreza, visto que o comum da população banhava-se nas águas do Nilo e seus afluentes ou, quando muito, em bacias ou barris de madeira.
Ahmose saía, portanto, de um dos banheiros do palácio – onde havia nada menos que seis, um mais admirável que o outro.
De maneira introspectiva, agradeceu a isso, visto que, pelo clima um tanto seco e poeirento de seu país, os banhos são sempre bem-vindos. Lembrou-se também de que soubera que os banheiros, como hoje existem no Egito, foram inicialmente concebidos pelos povos que habitam a região oriental das Índias, há mais de quinhentos anos. Hoje eles são construídos com pedras especiais e têm os seus tanques de imersão e suas paredes decorados com azulejos, onde se podem ver inscrições, frases famosas e poesia dedicada aos deuses.
Com desprazer pressentiu naquele momento que o seu dia seria perturbado.
Para entender melhor a causa de sua inquietação, teremos que voltar alguns minutos atrás, quando seu secretário particular adentrou o salão.
– Majestade, sinto ser o portador de uma notícia bastante desagradável. Contudo não irreversível, desde que V. Majestade tome as medidas necessárias para...
– Eu sei – interrompeu Ahmose. – Você está tentando tornar a coisa branda para mim. Mas não se importune. Prefiro que me conte logo a causa de sua agitação.
– Majestade, tudo está acontecendo em razão da nomeação de Zafenate-Panéia. Infelizmente, tenho que lhe relatar fatos importantes que não podem ser ignorados.
– Oficial, vamos a tais fatos!...
Não conseguindo esconder o embaraço, seu secretário finalmente como que reuniu toda sua coragem e falou.
– Segundo os nossos informantes, dois governadores de províncias (ao norte, junto ao mar, e a nordeste), cinco importantes funcionários e cerca de dois mil militares – entre eles, algumas altas patentes – decidiram forçar uma reunião com V. Majestade, para pedir explicações sobre a nomeação de José e eventualmente exigir o seu afastamento.
Efetivamente não se tratava de uma boa notícia – não, ao menos, para ser a primeira da manhã.
– Alegam – continuou o secretário – que no reino existem pessoas altamente capacitadas (muito mais que José, segundo eles) para exercer o cargo a ele atribuído. Agrava a situação – também de conformidade com eles – o fato de tratar-se de um hebreu, portanto um estrangeiro.
É claro que aquilo soava como uma rebelião, parecendo ter sido facilitada pela democratização que estava sendo levada a efeito por influência de José. Além disso, repercutia como ingratidão, sobre a qual o próprio hebreu o advertira de que poderia ocorrer, mais dia, menos dia.
– Ah!, quase me esqueço de dizer que o general chefe do exército está entre eles – concluiu seu secretário.
Seria desnecessário relembrar que esta não se constituía na única preocupação do rei. Após a descoberta da traição no palácio, malograda em razão das investigações chefiadas por Potifar, o ambiente na casa real não era o mesmo. Embora o problema tivesse sido solucionado, o episódio mexera muito com sua cabeça e as das pessoas que o cercavam.
Como se não fosse o bastante, agravava-se aos poucos o estado de saúde de sua mãe que, agora, já não conseguia sair do leito. Acrescia a sua preocupação com as notícias de doença no meio do povo – talvez uma epidemia.
Abatido com o que acabara de saber, Ahmose tentou se acalmar e organizar os fatos em sua cabeça. Afinal de contas, a decisão de ampliar a liberdade de diálogo e autodeterminação no reino fora dele. Era uma tentativa de ensinar bom comportamento e boas maneiras a todos que moravam ali, com ele, no palácio, amenizando, com isso, os maus modos e a grosseria que caracterizavam aqueles que tinham contato nas ruas.
Enquanto falava consigo mesmo, caminhava dando voltas pelo salão. Naquele momento, vieram-lhe à mente alguns de seus últimos atos na qualidade de detentor do poder supremo do país, como, por exemplo, restabelecer a paz no reino, dominando os núbios, os berberes e os tuaregues. Também formalizar acordos com os grupos nômades do deserto do Saara. Ou, ainda, consolidar o poder e estabelecer fronteiras, o que não era pouco para o primeiro mandatário do país.
Admitiu que a última coisa que poderia agora acontecer seria enfrentar uma quase rebelião! E não de estrangeiros, mas do seu próprio povo.
– E tão apta a desestabilizar o governo como o pior inimigo – sentenciou seu secretário particular, que parecia ter adivinhado os pensamentos de seu senhor. – Significaria, em outras palavras, o enfraquecimento do poder.
Em meio à inquietação, contudo, o rei conseguia manter o equilíbrio emocional – ao menos exteriormente.
– Se é verdade que tencionam se avistar comigo, preciso ter idéia de quando é que pretendem vir ao palácio.
– Depois de amanhã. Estão articulando as forças e discutindo em que termos pretendem se dirigir a V. Majestade.
Ahmose dava tratos à bola para tomar a decisão mais acertada. O que fazer diante de um impasse como esse? Estava sendo apanhado de surpresa.
Ocorreu-lhe uma estratégia: convocar a todos para o dia seguinte, sem perda de tempo. Assim os pegaria de maneira inesperada.
– Surpresa por surpresa, estejam eles, e não nós, sendo alvo do imprevisto. Que lhe parece convidar a todos para uma audiência amanhã? Assim, poderemos contar com o elemento surpresa. Seria uma espécie de contra-ataque. Chamaríamos também os nossos aliados residentes na sede, já que os de fora não teriam tempo para comparecer.
– Excelente, majestade!
– Então, mãos à obra. Providencie tudo.
Mais que depressa os emissários saíram a campo para proceder à convocação. Teriam que fazer isso ainda naquele dia, com tempo para a vinda de todos.
A convocação, como dissemos, não era esperada. Daí ser muito tenso o clima no salão de audiências, onde todos os convidados se aglomeravam sem saber por quê. O lugar mal continha o número de presentes. E outros estavam chegando. Silenciosamente ocupavam os lugares a eles destinados.
O Faraó, ainda do lado de fora, tudo via através das cortinas.
– Parece que todos estão aí – disse o seu secretário. Vejo um pouco atrás o comandante do exército, um pouco ao lado os dois governadores de províncias e os demais.
E também ali estavam os principais chefes de departamentos e os governadores leais ao Faraó.
Conseguir lealdade por parte dos subalternos era primordial para alguém investido dos poderes que Ahmose tinha. Não era simplesmente nomeando ou exonerando as pessoas que se conseguiam elementos de confiança e totalmente dedicados a ele. O Egito era um país muito extenso e nem sempre o monarca poderia experimentar a lealdade de alguém.
Finalmente, resolveu entrar no salão.
Ao som extraído da ponta inferior de uma lança batendo contra o piso, entra Ahmose.
– Sua Majestade, o Faraó Ahmose, senhor dos Dois Egitos!!!
Sua figura era realmente imponente – pela altura, bem acima da média dos egípcios, pelo porte e elegância, pela circunspeção e pelo paramento que trajava. Fizera questão de se ataviar em trajes de gala, como se fosse receber um importante chefe de estado estrangeiro.
Era, portanto, muito grande a expectativa.
Ahmose estava totalmente calmo e assim, calma e vagarosamente, dirigiu-se aos presentes.
– Senhores. Peço-lhes que em silêncio prestem atenção ao que vou dizer.
Os presentes começavam a desconfiar da razão da audiência.
– Receio que ele tenha ficado sabendo antes da hora! – comentou alguém.
– Cale-se! – disse outro.
Eram todos ouvidos.
– O meu serviço de informações me revelou que, com o objetivo de externar as suas críticas à nomeação de Zafenate-Panéia, um grupo viria ao palácio amanhã. Nada mais fiz do que antecipar a audiência.
A expectativa aumentava a cada momento.
– Confesso que não estava contando com um princípio de revolta – diz Ahmose.
Entreolharam-se.
– E por uma razão bastante simples: ela significaria a desestabilização do nosso regime e, portanto, do meu reinado, especialmente em época em que tudo está bastante calmo em nosso país, o que demonstra o acerto das decisões administrativas.
Silêncio!
– Além disso, parece que alguns se esqueceram dos obséquios recebidos e da confiança que sempre mereceram da minha parte. Senhores, não posso admitir intromissões dessa ordem no meu governo.
O general chefe do exército sentiu naquele momento o poder que emanava do Faraó. Olhou inconscientemente para seus companheiros.
– Tenho o nome de vocês todos nesta lista. Evidentemente merecem punição.
Foi grande o espanto. Então, ele estava muito mais bem informado e seguro do que imaginavam!
– Têm algo a falar? Alguém quer se manifestar?
Todos permaneceram calados.
Assim, admitindo pelo silêncio a sua participação, nada mais lhes restava do que aguardar a decisão que o rei tomaria e a extensão do que tudo aquilo representaria para o futuro de suas carreiras.
– Vejo que estão todos conscientes de seus atos. Mereceriam castigo. No entanto, terão nova chance e, por ora, serão apenas advertidos.
Todos respiraram aliviados.
Ahmose mostrava-se disposto a relevar o fato, pelo menos desta vez.
– Entretanto, pela sua própria patente militar, outra decisão terei que tomar em relação ao general comandante das nossas forças armadas.
O general sentiu um peso na boca do estômago e engoliu em seco.
– General, espero que entenda que tenho de puni-lo. Não posso manter sob as minhas ordens alguém que se coloca abertamente contra mim. Considere-se transferido com as vantagens costumeiras para a nossa unidade militar na fronteira com a Núbia, porém sem o cargo. A menos que opte pela solução alternativa: terminar os seus dias na prisão. E não me venha dizer que estou sendo injusto ou radical, visto que é exatamente isso que eu penso de você, meu general.
Deu um tempo, para tomar fôlego.
– Em relação ao fato em si, que deu margem ao que está acontecendo neste momento, ou seja, a nomeação de Zafenate-Panéia, razões ponderáveis e indiscutíveis me levaram à decisão. Entre elas está o seu dom de interpretação, o seu equilíbrio e tirocínio, a sua inteligência e a sua competência, coisas que, no nível dele, não tenho visto por aqui.
Silêncio.
– Não se esqueçam de que os adivinhos do palácio tentaram interpretar os meus sonhos e nada conseguiram.
Aquilo explicava tudo.
– O bem da nossa terra e do nosso povo é o que mais desejo. Imaginem se tivéssemos que enfrentar sete anos de carestia, de fome e penúria sem estar preparados. O que seria de nós e da nossa gente? Foi graças ao hebreu que conseguimos planejar o nosso futuro para bem enfrentar a crise. Creio que isso coloca um ponto final nesta audiência.
Cabisbaixos, concordaram.
– Voltem, assim, para as suas atribuições e para as suas bases e os seus postos e procurem fazer cumprir tudo quanto determinei nesta reunião.
E dispensando-os, retirou-se.