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Não poderia ter sido pior o desfecho do episódio.
Humilhados, tristes e cansados, os irmãos viram-se retornando a Tebas, com aquela acusação sobre os ombros.
As coisas se complicavam. Agora, não era apenas um que estava detido – como ocorrera com Simeão quando da primeira vinda ao Egito, mas todos o estavam. Tudo isso sem contar o inesperado envolvimento de Benjamim, o caçula, com a taça de prata. Logo ele, a respeito de quem havia recomendações especiais de Israel, seu pai.
– No momento – comenta Ruben com dois de seus irmãos – nada há a ser feito, além de aguardar os acontecimentos. Será possível que não vamos conseguir nos explicar, já que nada devemos?
E assim, mudos e cabisbaixos, percorreram os quase vinte quilômetros que os separavam da capital. De volta à mesma estalagem – mas desta feita sob a vigilância dos soldados, aguardaram até o dia seguinte para saber o que os estaria esperando.
– É incrível! – Era a voz de Ruben, num tom desanimado. – Como tudo isso pôde acontecer?
– Será que Jeová nos abandonou a esta triste sorte?
– Certamente há alguém desejando o nosso mal – comenta Simeão. – É evidente que nada disso poderia estar acontecendo por obra do acaso. Aliás, tudo parece um pesadelo.
Aos poucos foram-se acalmando.
– Vamos aguardar – tranqüiliza Ruben já mais confiante.
– Amanhã tudo se esclarecerá – completou Dã.
Seguindo determinação do Príncipe, o tenente de plantão conduziu os irmãos a um salão de audiências localizado em sua residência. Ali José pretendia interrogá-los e esclarecer tudo. É óbvio que da parte de José tudo não passava de uma farsa e – por que não dizer? – uma última pressão sobre os hebreus, os únicos a ignorar a verdade. Era uma espécie de derradeira e inocente vingança, por tudo que passara nas mãos deles.
– Então – era a voz de José, – a minha taça de prata foi localizada com um de vocês!?
Quando Ruben e os demais o viram, reverentemente ajoelharam, sem saber o que responder.
– Segundo sugestão que vocês mesmos deram, aquele cujo saco a transportava deverá permanecer no Egito como escravo.
A perplexidade aumentou.
– O que foi isto que vocês fizeram? Deviam ter imaginado que uma pessoa como eu é capaz de deduções e até de adivinhações e revelações.
José constatou que, nem mencionando as suas próprias qualidades, conseguiu que eles o reconhecessem.
– Logo vocês que, ao que parece, têm um Deus atuante, que se revela aos seus seguidores através de anjos e profetas...
– Nem sabemos o que dizer –afirma Issacar. – Como poderemos nos justificar?
– Deus está requerendo das nossas mãos a nossa própria iniqüidade – deduz Issacar, rebuscando fatos em sua mente.
– Colocamo-nos na posição de escravos seus, tanto nós como Benjamim, aquele em cujo carregamento foi achada a taça. Faça conosco o que julgar conveniente. E faça novas investigações em busca da verdade. É a única coisa que nos ocorre no momento.
– Não – interveio José, – não é necessário que todos sejam retidos como escravos. A mim basta que fique no Egito aquele jovem que estava de posse da taça. Os demais estão livres para voltar à sua terra e aos seus pais.
– Permita-me argumentar, senhor – disse Naftali. Espero que não se exaspere com o que vou dizer – o senhor, que nos parece tão poderoso quanto o próprio Faraó. Ocorre que, como já o dissemos, nosso pai já está bem velho e não suportaria a notícia de que o caçula, Benjamim, ficou no Egito como escravo, tal o amor que dedica a ele. Afinal, ele é o filho da sua velhice, visto que já contava cem anos quando ele nasceu. Gostaria de acrescentar que Benjamim somente veio por insistência sua, senhor.
Até quando conseguiria José continuar aquela encenação? Era, mesmo para ele, uma incômoda situação que, sem dúvida, gostaria chegasse ao fim.
– Sim – complementou Dã – depois de muita discussão em família, nosso pai concordou com a vinda dele, já que isso foi condição imposta para libertação de Simeão. V. Excelência, portanto, pode muito bem imaginar as conseqüências de chegarmos de volta sem o irmão caçula.
José não escondia um certo tremor. Era demais para ele, um jovem íntegro, criado sob as severas leis hebraicas, continuar pressionando seus irmãos daquela maneira.
– Ofereço-me para ficar como escravo em lugar de meu irmão Benjamim – disse Judá. – De outra forma, como poderíamos dizer tudo isso a nossos pais?
Naquela altura um clima bastante sombrio pairava sobre aquela enorme sala. Um misto de tristeza, angústia e expectativa dominava o ambiente.
José não mais estava conseguindo conter a emoção. E até se perguntava como conseguira manter essa farsa por tanto tempo sem se trair. Mandou que todos os funcionários, guardas e serviçais saíssem da sala imediatamente, trancando a porta sobre eles.
– Vamos pôr um ponto final nesta pantomima.
Ensaiou, pigarreou e decidiu-se.
– Meus caros, parece que não fui reconhecido até agora.
Os irmãos, tomados de surpresa, olharam fixamente para o Príncipe. Não lembravam de ninguém que lhes fosse familiar. Aliás, conheciam pouca gente no Egito – o chefe da intendência, alguns soldados, o estalajadeiro...
– Eu sou José, nada mais nada menos que José, o irmão de vocês. Olhem bem para mim. O mesmo que vocês atiraram em um poço. E o mesmo que foi abandonado à sua própria sorte no deserto, lembram-se?
Houve um espanto geral. Seus irmãos não queriam acreditar no que ouviam.
Prestando mais atenção àquela importante figura, com tão grande prestígio em terras egípcias, finalmente e aos poucos, reconheceram o irmão que um dia haviam vendido como simples mercadoria.
Emocionados, todos começaram a chorar. Tão alta e alucinada foi a lamentação, que se ouvia por todo o palácio real. José sentiu-se como que mais leve. Finalmente dera-se a conhecer.
– Sou eu mesmo – repetiu. – José, que foi vendido por vocês como escravo. Como está nosso pai? E nossa mãe?
Não recebeu qualquer resposta, visto que seus irmãos estavam tão pasmados quanto envergonhados diante daquela revelação. E intimamente rememoravam todas as cenas ocorridas entre eles e José, o seu ódio, o seu desprezo e os planos que traçaram no sentido de eliminá-lo.
Abaixaram suas cabeças, envergonhados. José aproximou-se deles, chamou-os para perto de si, abraçou-os...
– Já não há mais motivo para tristeza. Também esqueçam que vocês agiram mal comigo. A minha vinda para cá aconteceu pela providência divina. Jeová houve por bem trazer-me para esta terra para preservação e conservação da vida.
Aos poucos foram todos se acalmando. Alguns olhavam detidamente para José, como que para se certificar de que realmente era ele que estava ali.
– Estamos entrando no terceiro ano de fome em toda a região. Teremos, portanto, contando com este, cinco anos em que não haverá lavouras, nem colheita, tudo, aliás, conforme interpretação que Jeová me deu em relação aos sonhos do nosso Faraó.
A admiração era geral.
– Fui guindado, por obra divina, à condição de Príncipe egípcio, incumbido especificamente de prover alimentos durante sete anos de fartura, com a finalidade de sobreviver nos sete anos seguintes, que seriam de grande carestia. Isso equivale, evidentemente, a um grande livramento.
Todos acompanhavam suas palavras com grande comoção.
– Na verdade, não foram vocês que me enviaram para cá, mas o nosso Deus. Aqui estou praticamente como pai do Faraó e seu conselheiro. Fui posto como mordomo de sua casa e como regente em toda a terra do Egito.
Só quem estivesse participando desse diálogo poderia avaliar o sentimento que ia na alma e no coração de todos.
– Ora, vamos! Deixemos de lamentos e choro. A próxima coisa a fazer é vocês retornarem à nossa terra e trazerem para cá nosso pai e nossa mãe. Pelo menos enquanto perdurar a seca sobre a terra, todos morarão aqui. Vou providenciar para que habitem as terras de Gósen, portanto perto de mim. Terão a minha proteção e o meu beneplácito. Que venham todos: homens, mulheres, serviçais, ovelhas, gado, tudo.
José não resistiu ao impulso de abraçar fortemente seu irmão Benjamim. E ambos choraram convulsivamente.
Um sentimento de remorso perpassou pela sala.
– Perdoe-nos, José, pela maneira como o tratamos. Foi tudo fruto de inveja e ciúmes de nossa parte. Não queríamos aceitar a hipótese de que você estava sendo usado por Jeová e muito menos a sua ascendência sobre nós.
– Está bem, está bem! Esqueçam-se disso agora.
– E lembrar que mentimos para o nosso pai e para nossa mãe sobre o seu paradeiro!!! O que fizemos é indesculpável.
Ahmose acabava de sair da mesa de refeições. Com ele almoçaram vários secretários, além de um capitão do exército.
O Faraó se sentia muito feliz. Era o senhor absoluto de um país grande como o Egito. Firmara sua posição e o seu poderio, em parte graças à presença e atuação de José. Era querido e respeitado por todos – súditos, subordinados, servidores, militares, governadores de províncias. Não poderia ser melhor. Além de tudo, o país atravessava quadra de paz interna e externa. Era o período do apogeu histórico do Egito.
Achando conveniente informar o Faraó de que seus irmãos estavam no país, José foi até a sala particular de Ahmose.
– Majestade, meus irmãos encontram-se no Egito.
Essa notícia alegrou o coração do Faraó que, contudo, desconhecia os pormenores do encontro. Ele gostava muito do Príncipe e sempre procurava maneiras de atender os seus pedidos.
– A propósito, Zafenate, neste período de crise que o mundo atravessa, creio que seria conveniente que eles aqui permanecessem para melhor poderem suportar as dificuldades.
– Sim, majestade, creio que é uma boa idéia – que, diga-se, combina com os meus planos.
– Ordene-lhes, pois, que retornem à sua pátria para buscar tudo que lhes pertence e que, em seguida, juntamente com seus pais, venham para cá, onde morarão e terão o melhor da terra. Que levem carroças para o transporte – é muito mais cômodo do que simples animais de carga.
Seriam aproximadamente setenta hebreus que, procedentes da região dos cananeus, viriam para o Egito para habitar em Gósen, protegidos por um príncipe muito poderoso: José.
Assim, devidamente provisionados para a viagem, retornaram já tarde naquele dia à hospedaria, de onde rumariam para sua pátria no dia seguinte bem cedo.
Tudo que acontecera nas últimas doze horas foi um verdadeiro abalo emocional para os irmãos. Nunca esperavam por tal desfecho.
– Vocês viram? – disse Zebulon. – José deu-nos tudo de que necessitamos para a volta, inclusive várias mudas de roupa.
– Só que para Benjamim, além de cinco roupas diferentes, ele deu também trezentas peças de prata.
– Nosso pai vai ficar muito feliz quando souber das notícias.
– Ainda mais depois do presente que está sendo enviado para ele: dez jumentos carregados do melhor do Egito, e outros dez carregados de trigo e pão.
E assim, mal amanhecido o dia, e com a recomendação de José de que não entrassem em contendas pelo caminho, começaram a viagem de retorno à terra de Canaã.
Quando foi anunciada a chegada de seus filhos, Israel foi ao encontro deles na estrada e, ansioso, quis saber de tudo e não via a hora de saber das notícias pela boca de Ruben e dos outros.
– Pai, José está no Egito, e bem vivo. Saiba que ele é Príncipe regente de todas as terras do país.
– Não fique apreensivo por Benjamim – diz um dos outros. – Ele ficou lá, mas muito bem, sob a proteção de José.
Obviamente, a notícia era muito forte para um coração já velho e cansado. Israel não suportou – desmaiou. Foi preciso que acudissem para não cair ao chão, fazendo-lhe massagens e colocando um pano úmido sobre a sua testa.
– Graças a Jeová – disse ele logo que recuperou a consciência. – Falem-me mais de José – quis saber.
– Pai, José é a pessoa mais importante do Egito, depois do Faraó. É responsável por um esquema de produção e abastecimento que impediu que a carestia batesse às portas deles. E tudo graças ao dom de interpretação que recebeu de Jeová – além, é claro, de sua inteligência e tirocínio.
– Também dons – completa Israel. Pois é, meus filhos, só a duras penas vocês admitem o valor daquele seu irmão.
– E mais, pai – interrompe Issacar, como que para não ouvir a reprimenda. – Lá fora estão as carroças que transportaram até aqui os presentes enviados a você por José.
– Ah! E quer que toda a família se mude para o Egito, sob a sua proteção, para melhor enfrentar os anos de fome.
Isso foi suficiente para que, de uma vez por todas, voltasse o ânimo e a alegria ao coração de Israel.
– Veja, Léia. Só temos motivos para nos alegrar agora. José está vivo, e muito bem. Ele quer que todos nós embarquemos imediatamente para o Egito, onde moraremos pelo tempo que aprouver a Jeová. Desejo muito vê-lo antes de morrer.
– Não fale em morte, querido. Certamente nosso Deus reserva ainda muitas alegrias para nós ambos.
– Imagino que sim. Além disso, pelas promessas feitas por Jeová ao nosso avô Abraão e ao nosso pai Isaque, sinto no fundo do coração que, se não nós, nossos descendentes um dia retornarão a Canaã, visto que esta terra nos foi dada por possessão eterna. Sabe, Léia, as promessas de nosso Deus são eternas, para sempre, e desconheço uma sequer que não se tenha cumprido mais cedo ou mais tarde.
Não partiram imediatamente. Muitas coisas tinham que ser resolvidas. Alguém deveria ficar encarregado de cuidar das propriedades. Além disso, deveriam juntar todo o rebanho existente, deixar uma parte e preparar o restante para a viagem. Deveriam, também, colocar nas carruagens os móveis, utensílios, roupas, alimentos, tudo.
O que aconteceria com aqueles que ficassem? Afinal, eram o mesmo povo, o mesmo sangue. Como enfrentar essa esdrúxula situação? Sairiam para um lugar de fartura, onde não imperava a fome e a miséria, mas deixariam, para trás, membros de seu próprio corpo, sangue do seu próprio sangue. Afinal, o que significava tudo isso? Eram interrogações que, no momento, pelo menos, estavam sem resposta. O único remédio era confiar nos desígnios traçados pelo seu Deus, Jeová, que, até o presente momento, comandava tudo. Até um fio de cabelo que caía de suas cabeças tinha uma resposta: Jeová.
O ambiente se assemelhava ao que ocorre após um vendaval. Quando tudo parecia desfeito, destruído, chegou a bonança. Toda insegurança, toda expectativa e todo tremor se desfaziam. Certamente confirmavam-se sobre Israel e sua família as promessas de Jeová.
Aí, sim, Israel partiu com tudo quanto tinha. Fez uma parada em Berseba, onde sacrificou ao Deus de seu pai Isaque e de seu avô Abraão.
– Israel – disse-lhe Deus naquele momento, em visão, – não fique com medo de viver no Egito. Você e a sua descendência se transformarão ali em uma grande nação. A bênção que prometi a seu avô ainda é real e verdadeira. Além de eterna!... E mais: Eu descerei com você para o Egito e certamente farei com que torne a subir. E, quando você falecer, José estará perto e os seus olhos serão fechados por ele.
Embalado assim pela expectativa de rever José e Benjamim e pelas promessas divinas, rumou com os seus para a nova morada: o Egito.
Precedendo a caravana, Judá, enviado por Israel, foi ao encontro de José com o objetivo de tomar os primeiros contatos com as terras que lhes foram destinadas na região de Gósen.
Quando soube da chegada da caravana, imediatamente José subiu pela estrada ao encontro de seu pai. Como estaria ele? Era o mesmo? Não fisicamente mas, mais profundamente, em sua moralidade, seu espírito forte e destemido, que já tinha vencido tantos obstáculos, seria o mesmo? Avançou pela estrada ao seu encontro.
Era o mesmo. Era seu pai, protagonista de tantos e tantos episódios importantes com Jeová e com reflexos na família e no povo.
Comovido, lançou-se ao seu pescoço para o abraçar. E chorou muito.
– Já posso morrer em paz, meu filho. Tive o prazer de revê-lo, e bem vivo.
– Não, pai. Não fale em morte, mas em vida. Sinto que Jeová está cuidando de tudo para nós.
E para os irmãos veio uma última recomendação do Príncipe.
– Ao se apresentarem ao Faraó, se ele perguntar qual é a ocupação de vocês, deverão responder somente isto: “Colocamo-nos como seus servos e, até o presente momento, temos sido pastores de gado. É só o que sabemos fazer”. Isso porque os egípcios têm como abominação todos os pastores.