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José foi até o palácio. Precisava informar que sua família já estava no Egito. Dirigiu-se, assim, à sala particular de Ahmose.
– Majestade, meu pai e meus irmãos, com seus rebanhos e seu gado e tudo o que têm, chegaram da terra de Canaã e estão provisoriamente acampados em Gósen.
Ao comparecer perante Ahmose, José teve a lembrança de levar em sua companhia cinco dentre seus irmãos.
– Qual é a ocupação de vocês? – quis saber o rei.
– Primeiramente queríamos dizer que nos consideramos servos seus. Quanto à nossa ocupação, sempre fomos pastores de ovelhas, tanto nós como nossos pais.
O rei escutava pacientemente.
– Viemos peregrinar nesta terra visto que não há pasto para os nossos rebanhos e a fome é grave em nossa terra. Esperamos poder nos estabelecer em Gósen.
– Zafenate – adiantou-se Ahmose, – seu pai e seus irmãos o procuraram neste momento delicado em que todo o Egito se curva perante você. Coloque-os no melhor da terra de Gósen.
José alegrou-se com aquela decisão real.
– Além disso, caso haja entre eles homens capazes, ponha-os sobre os pastores dos meus rebanhos.
Desta vez foram os irmãos de José que se admiraram e se alegraram.
Logo em seguida, José trouxe Israel, seu pai, e o apresentou ao Faraó. Foi um verdadeiro encontro de duas personalidades. De um lado, Ahmose, senhor dos Dois Egitos, unificador do território, respeitado, temido e admirado por todo o povo, aquele que nada temia – a não ser o próprio medo, como já dissera em outra ocasião. De outro, Jacó, ou Israel, como viera a se chamar, pai de uma numerosa família, depositário das bênçãos eternas e da proteção de Jeová, aquele que havia passado por peripécias e odisséias no decorrer de sua vida, e que também nada temia, já contava com a providência divina. Ali se encontravam e o Faraó consentiu em ser abençoado por ele.
– Quantos anos você tem, Israel?
– Os anos das minhas peregrinações são cento e trinta. Poucos e maus têm sido.
– Espero que ao menos no fim de sua vida desfrute das comodidades que podemos oferecer.
Assim é que José fixou seu pai e seus irmãos em Gósen, região de terras excelentes, que pertencera ao antigo Faraó Ramsés. Ali, sob a proteção dele, passaram a ter total segurança.
Enquanto isso acontecia, a fome imperava nas regiões circunvizinhas e fazia as suas vítimas. A situação se agravava a cada dia, mês ou ano que passava, e a fome batia às portas de todos indistintamente. Não apenas os povos dos países contíguos, como o próprio povo do Egito, estavam sofrendo. E o que alarmava ainda mais era o fato de nada mais tinham para oferecer em troca de alimentos.
– Senhor – disse um dia José ao monarca – os depósitos reais estão quase intactos. Creio que é o momento de vender os mantimentos estocados ao povo do Egito, visto que os deles já acabaram.
Isso resultou em valores que foram contabilizados a favor dos cofres do palácio, ou seja, o povo estava recebendo tratamento que nada tinha de compassivo, mas era cercado de interesses e da busca de lucros.
Nesse momento, José não pôde deixar de considerar consigo mesmo uma realidade.
– Interessante – pensava ele, – o meu povo nunca se destacou nas artes em geral, nem na arquitetura, ou ciências, como a matemática e a astronomia. Entretanto Jeová nos dotou de grande tirocínio administrativo e de habilidade em lidar com valores, a ponto de termos domínio universal nessa área.
Mal sabia que esse dom em lidar com dinheiro faria com que os hebreus fossem odiados e perseguidos pelo mundo afora!...
Ocorre que, em determinado momento, todo o dinheiro que estava na mão do povo acabou e, nessa hora crucial, retornaram todos os egípcios à presença de José.
– Precisamos de pão. Não temos mais dinheiro e vamos morrer de fome.
– Pois bem. Vocês têm muito gado. Tragam-no para as imediações da Capital. Faremos uma troca: os rebanhos pelo trigo.
E foi o que fizeram, por falta de alternativas. José deu-lhes pão em troca dos cavalos, das ovelhas, dos bois e dos jumentos e assim os sustentou em troca do seu gado. Era uma solução provisória e efêmera, mas... que fazer?
Findo aquele ano, o povo voltou a José.
– Não temos mais dinheiro nem gado. Nada mais possuímos senão o nosso corpo e a nossa terra. E continuamos em carestia.
José considerava a situação. Ainda bem que o período mau estava chegando ao fim.
– Daremos – disseram eles – as nossas propriedades em troca de alimento. Mesmo que isso nos torne praticamente servos do Faraó. De que nos valem elas agora, se estamos para morrer? E para que a terra não fique desolada, dê-nos também semente para tentar um novo plantio.
Assim todas as terras do Egito passaram às mãos do Faraó. Somente as terras dos sacerdotes não foram transferidas para o rei, visto que eles tinham garantida a propriedade das mesmas e também a sua própria subsistência – às custas do Palácio.
Numa convocação geral em frente ao palácio real, José mandou distribuir semente para o plantio, estabelecendo que, do que fosse colhido, a quinta parte deveria ser entregue ao governo. Todo o povo achou uma ótima solução, pois reconheciam que o plano de José dera certo e lhes conservava a vida.
E quanto à família de Israel? Ele, sua mulher, seus filhos?
José, evidentemente, permaneceu como Regente até morrer. Quanto ao seu povo, continuou habitando em Gósen. Ali adquiriram propriedades, frutificaram e multiplicaram-se muito.
Israel viveu no Egito dezessete anos. Isso completava cento e quarenta e sete anos de vida. Quando sentiu que o seu fim estava próximo, chamou José e fê-lo submeter-se a um juramento estranho, porém muito comum entre os hebreus.
– Ponha a mão debaixo da minha coxa e jure que não serei enterrado aqui. Quero ser sepultado com meus pais.
José, que estava longe de sua pátria havia muitos anos, entendeu de imediato aquela aspiração de seu progenitor.
– Farei conforme pede, pai.
Aliviado, Israel sossegou.
Algum tempo depois, já em seus instantes finais, Israel viu o seu leito rodeado por todos os filhos.
– Cheguem-se, meus filhos. Venha para perto, Rubem, você também Judá, Issacar, Zebulon e os outros.
Com enorme esforço sentou-se na cama. E, tomado por inspiração divina, passou a profetizar.
– O Deus Todo-Poderoso me apareceu em Canaã, abençoou-me e disse: Eu o farei frutificar e o multiplicarei. Farei de você uma multidão de povos e darei esta terra à sua descendência, em possessão perpétua, pois para cá voltarão todos.
José apenas ouvia.
– Como vocês já devem saber, ao regressar de Padã para Canaã perdi Raquel, quando ainda faltava alguma distância para chegar a Efrata. Assim, sepultei-a ali no caminho, mais precisamente, em Belém, em uma cova no campo de MacPela.
Quando viu os filhos de José, quis saber quem eram, pois, como já tinha os olhos escurecidos pela velhice, não os distinguia.
– Estes são Manassés e Efraim, pai, os filhos que Deus me tem dado aqui.
– Quero abençoá-los. Deixe que se aproximem.
E Israel beijou e abraçou os netos.
– Isto para mim é motivo de grande alegria, visto que não mais cuidava ver você, e agora Deus me fez ver também a sua descendência!
Colocou a mão sobre as suas cabeças para abençoar. E abençoou também José.
– O mesmo Deus que tem sido o meu pastor durante toda a minha vida, o anjo que me tem livrado de todo o mal, o abençoe.
Dizendo isso, colocou a mão direita sobre sua cabeça.
– Saiba que você tem parte das nossas terras, em Canaã. São propriedades tomadas à espada das mãos dos amorreus. Para você reservei um pedaço de terra a mais do que para seus irmãos.
Aí, então, Israel passou a dirigir a palavra a cada um dos filhos, em profecias.
– Ruben, você é meu primogênito, minha força e as primícias do meu vigor, preeminente em dignidade e em poder. Entretanto, você contaminou o leito de seu pai (referia-se ao fato de que Ruben, tempos atrás, mantivera relações com Bila, sua escrava e concubina).
– Simeão e Levi são irmãos; as suas espadas são instrumentos de violência. Vocês serão divididos e espalhados em Israel.
– Judá, você será louvado por seus irmãos. Judá é um leãozinho. O cetro não se arredará da tribo de Judá, nem o bastão de autoridade dentre seus pés. O nosso povo se chamará pelo seu nome.
– Zebulom habitará no litoral; será ele ancoradouro de navios; e o seu domínio estender-se-á até Sidom.
– Issacar é jumento forte, deitado entre dois fardos. Sujeitou-se porém a trabalho braçal, como o de um escravo.
– Dã julgará o seu povo, como uma das tribos de Israel.
– Quanto a Gade, guerrilheiros o acometerão; mas ele, por sua vez, os acometerá.
– De Aser direi: o seu pão será bom e saboroso. Ele produzirá delícias reais.
– Naftali é uma gazela solta. Ele profere palavras formosas.
– José é um ramo frutífero junto a uma fonte e se estende sobre o muro. Os flecheiros lhe deram amargura e o perseguiram, mas o seu arco permaneceu firme e os seus braços foram fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó, o Pastor, o Rochedo de Israel, pelo Deus de seu pai, o qual o ajudará. O Todo-Poderoso o abençoará. Seja a bênção, pois, sobre a sua cabeça.
– Benjamim é lobo que despedaça. Pela manhã devorará a presa, à tarde repartirá o despojo.
E com isso encerrou a predição.
Nenhuma palavra foi reservada a Diná, não apenas porque não se encontrava presente, mas especialmente por ser mulher...
A esta altura, Israel já falava com grande dificuldade. Sua voz, quase inaudível, era entrecortada e faltava-lhe fôlego para continuar
– Repito que quero ser sepultado com meus pais, na cova que está no campo de MacPela, em frente de Manre, na terra de Canaã. No mesmo lugar onde estão sepultados Abraão e Sara, sua mulher, Isaque, Rebeca e também Léia, minha esposa.
Acabando de dar estas instruções a seus filhos, expirou.
José deu ordens aos médicos do palácio para que fosse embalsamado. Os egípcios o prantearam setenta dias.
Passado esse período, José voltou ao palácio do Faraó.
– Meu pai pediu que fosse sepultado em nossa terra. Espero que me conceda permissão para, pessoalmente, tratar disso.
– Suba à sua terra e faça conforme o desejo de seu pai.
Com José subiram muitos dos servos do Faraó, os anciãos da sua casa, como também toda a casa de José, seus irmãos e a casa de seu pai. Somente deixaram na terra de Gósen os seus pequeninos, os seus rebanhos e o gado, sob a guarda de alguns adultos. Subiram com ele muitos carros e muita gente a cavalo.
José, à medida que transcorriam os dias da travessia, evidentemente repassava em sua cabeça cada trecho da longa viagem que, um dia, fizera na qualidade de escravo e prisioneiro.
Depois de haver sepultado seu pai, voltou para o Egito, juntamente com seus irmãos e com todos os que haviam subido.
Certo dia seus irmãos, ainda carregando o peso da culpa, vieram a José, no palácio.
– Esperamos que realmente estejamos perdoados pelo que lhe fizemos.
José andava muito emotivo, por todos os acontecimentos dos últimos tempos. Assim é que não resistiu e mais uma vez chorou – só que, desta vez, não foi necessário esconder a emoção.
– Oferecemo-nos para que nos trate como servos.
– Calma, irmãos, nada disso. Por acaso estou colocado no lugar de Deus para julgá-los? Ele transformou o mal em bem, para fazer o que se vê neste dia, isto é, conservar muita gente com vida. Fiquem tranqüilos – consolou-os – eu os sustentarei.
Assim, mercê do prestígio de seu irmão, todos os hebreus que compunham aquela grande família ali “estenderam as suas tendas” – expressão que se tornara de uso corrente para um povo seminômade que, por muitas gerações, peregrinou em busca de melhores lugares para morar. Ali cresceram e se multiplicaram, tornando-se praticamente indispensáveis no dia a dia dos egípcios.
Puderam, então, ver em seu irmão um verdadeiro príncipe, amado e respeitado por todos. Tiveram, também, ocasião de acompanhá-lo em suas tarefas, para as quais sempre demonstrou aptidão, competência, inteligência e honestidade.
– Sabem – disse um dia José a alguns de seus irmãos que com ele haviam saído ao campo, onde verificaria o cumprimento de algumas ordens, – enquanto tiver forças e Jeová me sustentar, não me cansarei de dar o melhor de mim a este país. E tenho razões de sobra para isso: aqui fui bem recebido – a despeito de alguns transtornos iniciais, – aqui galguei postos, até chegar à posição máxima como primeiro mandatário da nação, abaixo apenas do Faraó, aqui pude, com a ajuda do nosso Deus, desenvolver um trabalho eficiente em prol do povo desta terra e, finalmente, aqui acolhi a minha família e lhes dei condições de sobrevivência digna.
– Asenate, minha amada esposa. Você é tudo em minha vida. Ou melhor: você foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida.
– Oh, José. Eu o amo muito e também o admiro pela paciência que tem para comigo e para com Efraim e Manassés. Fico a duvidar se há outra família feliz como a nossa.
Esse diálogo se deu na sala da casa de José, enquanto na cozinha as servas preparavam o jantar. O sol se punha e o príncipe se preparava para ficar em casa, no aconchego dos seus. Ia perguntar pelos filhos, quando ambos alegremente irromperam na sala.
– Papai – disse Manassés, – não sabe o que aconteceu hoje. Saímos para passear com a nossa ama e fomos até a beira do Grande Rio. Como é lindo.
– E tão importante para o nosso país. Sem ele não teríamos sobrevivido até hoje, pois é de suas margens que nos vem praticamente tudo que comemos.
Os meninos aproximaram-se dele e sentaram-se em suas pernas.
– Crianças, já disse isto e vou repetir. Quero que se lembrem sempre de duas grandes mensagens: estejam sempre ligados aos egípcios por laços de respeito e amizade. Mas também nunca se esqueçam de sua origem, do seu sangue, enfim, da terra natal de seu pai, para onde um dia – quem sabe? – poderão voltar.
José desviou seu olhar, dos filhos para a esposa. Percebeu que estava pensativa e distante.
– Que foi, querida? Algo a preocupa?
– Não, visto que não há razão para isso. Apenas estava rememorando todos os episódios envolvendo as nossas vidas aqui no Egito. Diga-me, José, a que tudo isso nos levará?
– Não posso prever o futuro. Parece que o Senhor não me tem dado visões ultimamente. Talvez porque as previsões sejam otimistas.
Afastou delicadamente as crianças, levantou-se e deu uma lenta volta pelo cômodo.
– Não sei. Creio que continuaremos a obra que começamos. Você pode viver com essa idéia?
– Claro, meu bem. É o que eu queria ouvir.
E beijou-o...
José, pois, morou no Egito com toda sua família e viveu cento e dez anos.
Chegando o tempo da sua velhice, chamou seus parentes e fez com que jurassem que seus ossos seriam levados, quando isso fosse possível, para o sepultamento definitivo em sua terra.
Por ocasião de sua morte, embalsamaram-no e o puseram num caixão no Egito. Durante setenta dias os egípcios choraram a perda do querido Príncipe, que foi alvo de inúmeras homenagens.
José deixava Ahmose – agora um Faraó amadurecido pelas experiências – bastante seguro e senhor absoluto do império egípcio.
Quanto aos seus parentes, pela sua mão o sofrido povo hebreu teve descanso no Egito. Integraram-se pouco a pouco aos da terra, como o Príncipe recomendara. Começaram a se multiplicar e passaram a ser requisitados pelos egípcios para trabalhar em diversos setores e em múltiplas tarefas.
Sabiam, no entanto, que ali “não era o seu lugar de descanso”, como costumavam dizer. Uma terra prometida estava sendo preparada para eles pelo Senhor Jeová.
Haveriam de sair e voltar para casa, um dia...
BIBLIOGRAFIA:-
1 - FUNK & WAGNALLS NEW ENCYCLOPEDIA
2 - “O EGITO ANTIGO”
Jean Vercoutter –2ª ed., São Paulo / DIFEL, 1980
3 - “EGYPTIAN MYSTERIES”
Lucie Lamy (Thames & Hudson –London), ed. 1989
4 - “HISTOIRE DE L’ÉGYPTE ANCIENNE”
Nicolas Grimal – ed. Fayard / Paris, 1989
5 - DICIONÁRIO BÍBLICO DE DAVIS – John D. Davis
9 - BÍBLIA SAGRADA (versão para o português de João Ferreira de Almeida).
10 - Encyclopaedia Of The Orient (Copyright 1996-2003 LexicOrient)