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Capítulo XV – O funeral

 

Ahmose andava bastante preocupado e abatido. Continuava a enfrentar grave problema no seio da família. O estado de saúde de sua mãe se agravara.

Ela sempre desempenhara papel importante no reinado do filho. Através dos anos, este aprendera a se valer da presença marcante e dos conselhos dela, em todas as esferas de sua administração, e o seu estado obviamente causava apreensão no Faraó.

Sua enfermidade obrigava-o a dedicar mais tempo em cuidar dela e velar ao lado de seu leito. Apresentava-se esquelética. Já não conseguia sair da cama e nem mesmo falar de maneira audível. Não se alimentava sozinha, dependendo, para isso, das pessoas que a cercavam. Seu estado deteriorava a olhos vistos.

Com determinação expressa de estarem sempre em seu quarto, os médicos se desdobravam em conter o mal que a afligia e fazia definhar. Entretanto, ela não conseguiu resistir e, passados alguns dias, veio a falecer.

 

***

 

José tomou um longo banho e colocou uma roupa para grandes solenidades.

Fora chamado ao palácio. Soubera que a mãe de Ahmose, o Faraó guerreiro, acabava de falecer. Ela contava pouco mais de cinqüenta anos e fora acometida de um mal não identificado que, dia a dia, vinha exaurindo as suas forças. Finalmente, sucumbiu diante de uma complicação cardiorespiratória.

José, repassando os fatos, lembrou-se da epidemia que atingiu a população dos povoados adjacentes à capital e se perguntava se a morte da mãe do Faraó não seria proveniente do mesmo episódio.

Afinal, Ahhotep I – nome da mãe de Ahmose – dedicou-se nos últimos anos à assistência aos menos favorecidos do Egito. Com este objetivo, ela encetara várias viagens ao interior, aonde chegara a se aproximar sem constrangimento de pessoas doentes, palpando a testa, sentindo a pulsação e a temperatura do corpo e, se necessário, administrando poções.

– Zafenate-Panéia – era o Faraó que, muito compenetrado, se dirigia ao Príncipe, chamando-o pelo nome egípcio, – quero que você acompanhe os funerais de minha mãe, em todos os seus detalhes.

José assentiu, com um balançar de cabeça.

– Isso servirá não só como homenagem a ela – continua o Faraó, – mas será também oportunidade para você conhecer melhor as nossas cerimônias fúnebres.

E levar em conta que Ahhotep I morreu sendo seu filho monarca ainda tão jovem! Como rainha-mãe, o seu papel na corte e nas decisões do país foi de suma importância para o filho, que a admirava e literalmente venerava, tal era sua sabedoria e tino administrativo.

Estavam agora diante de seu corpo.

– Você deve saber, nós cremos na imortalidade da alma. Sabemos que a nossa vida não se resume à mera existência terrena. Por isso, preparamo-nos com todo cuidado para o mundo vindouro. Assim é que, juntamente com o corpo do morto, seguem dentro da embarcação que nos leva pelo caminho que conduz ao outro reino os nossos pertences, como roupas, sandálias, jóias, comida, enfim, utensílios e coisas de uso pessoal que possam ser necessários. Os objetos preciosos ali depositados são, no geral, confeccionados com matérias-primas que estão começando a chegar agora ao Egito: prata e ouro da Ásia e da Núbia, lápis-lazúli da Ásia Central, turquesa do Sinai.

– Interessante, pensei que a crença de imortalidade da alma fosse exclusiva da religião dos hebreus.

– Observe bem. A primeira coisa é o embalsamamento, ou mumificação. Sabe, este processo surgiu como um reflexo das práticas efetuadas por Anúbis quando retirou as vísceras de Osíris. Os órgãos internos são retirados, o morto é mergulhado numa solução química apropriada por cerca de setenta dias. Em seguida, faz-se o enfaixe de todo o corpo com bandagens de linho, especialmente tecidas para ocasiões como esta. A operação inteira consiste em um ritual religioso, conduzido por um sacerdote que recita fórmulas apropriadas a cada uma de suas fases.

O príncipe absorvia com grande atenção as explicações dadas pelo Faraó. Quem sabe quando teria oportunidade de novamente estar presente em um momento tão importante como aquele!

– Costumamos colocar amuletos em várias partes do corpo, cada um deles representando um objeto intimamente ligado a Osíris, ou mesmo a outro grande deus. Você nota o escaravelho colocado sobre o peito dela? Simboliza o deus Kheper, cuja acepção é a de renascimento, e destina-se a estimular o coração do morto a bater novamente.

José a tudo assistia extasiado. Aquilo – como muitas outras coisas do Egito – ainda era novidade para ele. Não como algo em que pudesse crer, mas como mais um detalhe dos costumes daquele povo.

Então os egípcios acreditavam que renasceriam com o mesmo corpo? Ora, isso era bem diferente da crença dos hebreus. Além disso, para quê tantos amuletos e pequenas imagens? Tudo aquilo recendia a fetichismo, a crendice.

Pensou, mas nada disse.

– Repare – continua Ahmose com o semblante triste, – as vísceras serão embalsamadas em separado e depositadas em quatro recipientes, cada um protegido por um dos filhos de Hórus: Meshta, com cabeça humana, guarda o fígado; Hápi, com cabeça de mono, guarda os pulmões; Tuamutef, com cabeça de chacal, guarda o estômago; Quebesenuf, com cabeça de falcão, guarda os intestinos.

E foi explicando, à medida que a cerimônia ia transcorrendo. Os recipientes eram chamados de vasos canopos. A vantagem que ofereciam é que os órgãos internos podiam ser acondicionados como em cofres. Por fim, a morta seria coberta com uma máscara mortuária e encerrada em um ataúde decorado.

Todo esse processo tinha como objetivo a máxima desidratação possível do cadáver, que perdia, durante o processo, aproximadamente quarenta e cinco quilos de seu peso.

O que José viu a seguir deixou-o algo impressionado. Tomaram da morta e a colocaram em posição vertical, sustentada por um sacerdote usando uma máscara com rosto de chacal, representando o deus Anúbis. Era, conforme ele soube, o rito da "abertura da boca". Outro sacerdote tocava o rosto da múmia com uma série de instrumentos mágicos para dar à morta a capacidade de dizer "palavras de poder" no outro mundo, de forma a afastar os gênios e monstros e caminhar até a presença de Osíris.

Após uma longa espera de setenta dias, seria dada por encerrada a cerimônia e o corpo levado à tumba.

À medida que esses fatos se sucediam diante de Ahmose e de José, os artistas iam registrando em uma parede previamente escolhida e preparada todos os passos do funeral. A pedra havia sido polida e ali eram sucessivamente entalhadas as cenas, uma a uma.

Lá estavam, imortalizados na pedra, o sacerdote, as duas sacerdotisas, a figura da falecida. Lá estava também insculpida a carruagem funerária e, finalmente, a embarcação que transportaria a mãe de Ahmose ao reino da glória.

José vislumbrou, nesse momento, uma figura que também se incorporava à obra em processo de entalhe: era baixa, estava em um canto e parecia nem fazer parte do conjunto. Apresentava-se, nos vários locais em que estava sendo entalhada, coberta ou semi-coberta.

– O que representa aquela figura entalhada bem à direita? – quer saber José. – Parece alguém encoberto por uma mortalha.

– Vou lhe dizer algo, Zafenate: algumas coisas o comum dos mortais – aí incluído eu próprio – não sabe. Vou ficar devendo uma boa explicação, que está na esfera dos mistérios dos sacerdotes. Trata-se, como várias outras coisas, de segredo dos templos. O que sei, porém, vou lhe revelar. Acompanhe-me.

José estava cada vez mais atento, enquanto o Faraó o conduzia pela caverna até uma enorme galeria talhada na rocha viva, com as paredes inteiramente gravadas com motivos funerários de outros príncipes e princesas e, então, como que respondendo à pergunta de José, mostrou-lhe uma cena.

– O que representa aquele desenho no canto à direita? – perguntou novamente o hebreu. – Alguém coberto com uma espécie de manto funerário.

– Está aí um dos inúmeros mistérios ritualísticos em uso por aqui. Essa figura aparece em um grande número de esculturas fúnebres. Mas, sinceramente, não sei do que se trata. Nós lhe damos o nome de “tekenu”, podendo ser atribuída, talvez, à imaginação dos nossos entalhadores. Parece, às vezes, uma possível vítima de sacrifício.

José olhava sem entender nada.

– Repare – continuou o rei, – às vezes o “tekenu” é mostrado na procissão funerária completamente embrulhado, de forma a não aparentá-lo com qualquer figura humana. A mortalha tem aspecto de couro de animal e as manchas sugerem tratar-se da pele de um touro. Às vezes é mostrado na cerimônia com a face meio escondida pela mortalha. E parece estar sentando em cima de um trenó, ou carruagem, e sendo conduzido à tumba. Está de fato em uma posição fetal no trenó. Já naquela outra escultura, ele está no trenó, mas sem a mortalha. Ele está sendo puxado por três sacerdotes e é seguido por quatro homens que arrastam um caixão grande que contém óleos e ungüentos para uso na cerimônia da “abertura da boca". Às vezes, ele parece estar fazendo o papel do defunto ou está agindo como se estivesse morto. É só o que sei.

– Esoterismo. Idéias ocultas, obscuras e herméticas! – pensou José, que tudo ouvia em silêncio.

Imaginava, por um lado, a dor do Faraó diante da morte de sua progenitora e, por outro, a extraordinária crença desse povo na sobrevivência da alma, embora embalados pela ilusão de que, feita a viagem, renasceriam com o mesmo corpo.

– Determinei que fosse esculpida em baixo relevo uma dedicatória, um ofertório à minha mãe. Ela deverá figurar em destaque na parede do túmulo, em uma pedra de cor rosa especialmente transportada para esse fim.

Conduzido pelo monarca, que não escondia sua tristeza, até à câmara mortuária onde repousaria eternamente a rainha Ahhotep I, José pôde ler a seguinte inscrição:

– “Àquela que tem completado os ritos e cuidado do Egito. Ela velou sobre as tropas e as protegeu. Ela tem reconduzido seus fugitivos e juntado seus desertores. Ela purificou o Alto Egito e caçou os rebeldes no Baixo”.

 

***

 

José foi convidado para uma outra cerimônia, da qual evidentemente a morta não participaria: a "festa do vale".

E era, realmente, uma festa, com farta mesa e muita bebida. Ali estavam os parentes da falecida, os amigos e os sacerdotes. A ela foi reservado um lugar à mesa como se estivesse fisicamente presente.

Pela crença do país – soube então, – a morta tomaria a barca do sol e navegaria pelo “Nilo subterrâneo”, até a presença de Osíris.

Reinava no ambiente um grande silêncio.

Nesse momento José ouviu uma doce canção entoada por uma jovem paramentada à semelhança de uma sacerdotisa. Sua voz era meiga e bastante apropriada à solenidade. O silêncio reinante tornava ainda mais puro aquele som, que foi se elevando até tomar conta inteiramente do lugar.

– “Homenagem a ti, rei dos reis, senhor dos senhores, regente de Príncipes, e quem, desde o útero de Nut, governa o mundo e tudo que nele há. Tu és o grande Chefe, o primeiro entre teus irmãos, o Príncipe na companhia dos deuses, o que estabeleceu o Direito e a Verdade por todo o mundo, o filho que estava assentado no grande trono de seu pai Keb. Tu és o amado de tua mãe Nut. Tu golpeaste os teus inimigos e impuseste teu temor aos adversários. Tu és o herdeiro de Keb e da soberania das Duas Terras”. 

O cântico era dedicado a Osíris.

E a festa teve lugar.

 

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