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Pouco a pouco José se firmava como o mais importante Príncipe e governante do Egito. Não havia praticamente nenhuma atividade, quer na área de produção, abastecimento, armazenamento e distribuição, ou ainda na administração pública, em que não fosse necessária a sua interferência. Somente não interferia na área da educação, deixando a cargo dos professores e tutores esse mister.
Por necessidade de seu cargo, que englobava um sem número de obrigações, era requerido amiúde por pessoas poderosas, quer da sede, quer das províncias, ou mesmo das colônias. E, como sempre, dava solução certa e adequada a cada caso.
Ahmose estava muito feliz com a atuação de José – ou Zafenate, como o chamava.
– Você parece cansado e preocupado, Majestade. – disse José. – Mas eu sei por quê. Meu Deus concedeu-me uma visão dos problemas que envolvem o Egito no momento. Estão relacionados com as nossas disputas com os hicsos, estou certo?
– Certo como sempre – reconheceu o monarca. - Mesmo em meio às nossas preocupações com as colheitas, confesso que os meus olhos estão especialmente voltados para essa guerra. Meu irmão, Kamose, iniciou a reconquista do Egito das mãos dos invasores hicsos. Lutou muito, empregou milhares de homens e muito dinheiro, mas não conseguiu estabelecer uma posição definida em relação aos estrangeiros. Infelizmente, faleceu prematuramente, ferido de morte por uma lança. Agora cabe a mim continuar essa luta.
– Sim – concordou José. Estive fazendo algumas consultas sobre a história deste país, como sempre auxiliado por Aptesh que, como V. Majestade sabe, é versado em línguas e muito culto, o que vem facilitar bastante as coisas.
– Aptesh! O ex-escravo, o ex-prisioneiro. Realmente, a atuação dele tem facilitado bastante as coisas para você.
– Como eu ia dizendo, e com a sua aquiescência, tenho algumas sugestões a fazer no que diz respeito aos hicsos.
E, assim combinados, passaram, em suas reuniões regulares, a conceber e implementar uma estratégia de campanha.
José, realmente, era possuidor de uma mente privilegiada. Conseguia antever as várias situações que enfrentariam. E Apseth, nesse mister, lhe era extremamente útil. Anotava e catalogava tudo, desde mapas das regiões envolvidas até estatísticas de homens, animais, armas e equipamentos, além de abastecimento das tropas.
– Gostaria de revelar algo de grande importância – diz José numa das reuniões mantidas com Ahmose e seus assistentes.
A atenção de todos redobrou ao que José ia expor.
– Mandei espiões até as cidades e acampamentos dos hicsos para obter informações que pudessem ser úteis para nós. Ao todo foram gastas três semanas nesse trabalho. Várias constatações foram feitas, mas uma, em especial, chamou-me a atenção: eles conseguiram algumas vantagens nas batalhas em parte pelo uso de um apetrecho de guerra sobre rodas, a que se pode dar o nome de carreta, que introduziram aqui, quando de sua imigração, há cem anos. É incrível como conseguiram manter isso em sigilo!
O Faraó, vivamente interessado, quis saber mais informações sobre esse equipamento.
– Não nos deixe ansiosos, Zafenate. Exponha tudo rapidamente.
– Puxada por cavalos e possuindo duas ou quatro rodas, traz enorme vantagem, pois os animais se cansam menos, além de transportar muito mais carga. A versão de duas rodas nós conhecemos. A sua utilidade principal seria levar tropas, armas, munições e mantimentos. A minha opinião é que esse meio de transporte tão versátil precisa ser imediatamente incorporado ao nosso exército e ao nosso equipamento bélico.
O Faraó permaneceu boquiaberto por quase um minuto. O mesmo ocorreu com os chefes militares.
– Consegui informações bem precisas sobre a estrutura desses veículos: formato, material de que são feitos, etc. Creio que uma das primeiras providências seria montar um departamento que se encarregasse de fabricar centenas, milhares de carretas.
Assim, depois de momentos de pasmo geral, Ahmose voltou a falar.
– Mas é claro! Tem o consentimento para levar avante esse plano. Estruture as equipes para a manufatura desse equipamento, com a quantidade de homens que julgar necessária, nomeie e responsabilize os chefes e feitores, pois precisamos dar solução rápida a essa questão.
– Imagino Majestade – sugere um dos chefes militares – ser de bom alvitre aguardar essas carretas para reiniciar os ataques aos hicsos, já que representam uma diferença fundamental.
– As carretas vão ter, também – completou José, – ampla aplicação em outras áreas, como transportar pessoas, produtos das lavouras, etc.
E saiu da audiência muito feliz, deixando atrás de si um auditório pasmo e quase em estado de choque. Sua posição no reino era invejável.
– Obrigado, Jeová. Sei que posso creditar-te mais esta vitória. Louvado sejas!
E saiu imediatamente com Apseth para cuidar da implementação dos planos.
Mais dois meses se passaram. O exército se preparava. O adestramento tático e físico dos homens prosseguia satisfatoriamente. O moral das tropas era excelente, visto que se tratava de uma questão crucial: firmar o poder e caminhar para a unificação do país, coisa que todos queriam muito.
José resolveu ir até o escritório do secretário para saber sobre os preparativos.
– Apseth.
– Sim, José.
– O que está escrevendo?
– Não, amigo, é melhor que não. Tudo que tenho feito é, por assim dizer, uma obrigação imposta muito mais pela bênção do meu Deus do que pelo meu talento. Além disso, se a minha história tiver que ser contada às futuras gerações quero que o seja pelo meu próprio povo, através de tradição oral – de boca em boca.
Apseth quedou-se, boquiaberto, diante de tão singular decisão.
– Não me leve a mal. É que não me sinto muito à vontade sabendo que estou sendo biografado. Além de que, não me julgo merecedor de nada disso.
E, com essa declaração, deu por encerrado o assunto.
– Diga-me – perguntou o Príncipe. – Como vão os preparativos para a guerra?
– Bem. Nos próximos dias, já equipados com armas, munições, mantimentos e o mais necessário, os soldados seguirão com as carretas para os destinos atribuídos a cada contingente. Ficarão apenas esperando as últimas instruções e a ordem de atacar. Devemos ter em conta também a distância que nos separa do alvo – cerca de setecentos quilômetros.
Ahmose optou por assumir o comando pessoalmente. Iria bem à frente, escoltado por um esquadrão de soldados de elite fortemente armados.
Essa opção do Faraó fez José pensar mais sobre o assunto. Ahmose era a pessoa mais poderosa em todo o Egito e o líder político do seu povo, ostentando o título de “Senhor das Duas Terras”. Como “Senhor das Duas Terras”, governava o Egito Superior, ao sul, e o Inferior, no delta do Nilo. Ele era o proprietário das terras e chamava a si o direito de fazer as leis, impor taxas e o dever de defender o Egito dos estrangeiros.
Antigamente – pensava José – os Faraós tinham um outro título: o de “Alto Sacerdote de Todo o Templo”, mediante o qual representavam os deuses na terra, executavam rituais e construíam templos para honrar esses deuses.
Ocorre, porém – divagava ainda o hebreu, – que ele, seguindo seus antecessores mais próximos, abriu mão desse título, bem como de suas “vantagens”, assumindo assim uma atitude bem mais pragmática e próxima do povo e deixando os afazeres religiosos para os sacerdotes dos templos.
Sabia que o perigo de se expor era grande: os hicsos eram muito vigorosos, acostumados ao deserto e à escassez de água. Além da compleição robusta, eram, no geral, de estatura bem maior que a média dos locais. Estariam apenas em desvantagem quanto à estratégia e competência dos comandantes egípcios, muito mais treinados e organizados.
Não tinha dúvidas, contudo, de que deveria manter uma posição de vanguarda na iminência da guerra, seguindo sempre à frente das tropas.
– Majestade – disse José num dos momentos em que estavam próximos um do outro, – satisfaça a minha curiosidade. Toda essa situação que estamos atravessando e certamente continuaremos a enfrentar não lhe causa algum tremor e não o faz temer?
– Bem, talvez aí resida o segredo do sucesso que, com certa humildade, afirmo ter. Saiba, José, que a única coisa que devemos temer é o próprio medo. Afaste-o, e avançará com mais destreza. Expulse-o, e verá como que renovadas as suas forças. Nunca ceda lugar a ele. Não permita que tome conta do seu coração e da sua alma. Creio que é assim que se forjam os verdadeiros heróis, que não o são propriamente porque querem, mas porque foram estimulados pela temeridade e pela ousadia.
José gostou da resposta e preferiu calar. Admirava pessoas aguerridas e combativas. Contudo, durante a guerra, ele próprio estaria na retaguarda. Não por medo, que ele também não tinha, mas porque não era – bem sabia – homem de guerra, mas sim de idéias. Tendo sempre ao lado seu infatigável secretário Apseth, iria um pouco mais atrás, preservando assim, de certa forma, sua integridade. O trabalho deste último como escriba e cronista seria muito importante no registro de cada episódio, cada passagem, cada fato ligado àquela que se delineava como uma guerra tão decisiva quanto sangrenta.
O Faraó sabia bem disso tudo e aprovou integralmente o plano.
Acresce que, além da preocupação de José com a guerra, outras tarefas deveriam continuar sendo executadas em relação à sede do governo – Tebas – e ao povo em geral. E estavam todas sobre os ombros do Príncipe. O plano de abastecimento, por exemplo, concebido, implementado e dirigido por José, deveria continuar, para o seu bom êxito.
Obviamente, todos esses fatos e essas reflexões passavam pelas cabeças de Ahmose e de José, enquanto cada um marchava sobre sua montaria, na posição antes definida, e não era sem grande preocupação que caminhavam em direção a Avaris, a capital dos hicsos, bem a leste do Delta do grande rio.
Este povo entrou no Egito aos poucos, na condição de imigrantes. Sua presença sempre foi tolerada. Aos poucos, entretanto, foram se firmando nas novas terras, e chegaram a avançar em direção a Mênfis e ao interior do país.
José soube que os egípcios, militarmente impotentes para expulsá-los, levaram a efeito uma política de alianças diplomáticas e tratados de coexistência. Assim, o que prevalecia há já quase um século, era uma estratégia de concessões mútuas. Soube ainda que eles se preocupavam mais em receber tributos do que com a administração. Isto era bom para os egípcios.
Concentraram-se, como já foi dito, no norte, cerca de 200 quilômetros à direita do delta formado pelas águas do Nilo. Fizeram de Avaris a sua capital. Ali escolheram seus governantes e se imaginavam como que um país à parte, assimilando, porém, a cultura e os costumes locais.
O Egito se tornava assim palco de um duplo governo – hicsos, ao norte, e egípcios, ao sul. Situação que agora o Faraó pretendia resolver em definitivo, visto que o atual governo, implantado em Tebas, graças ao movimento de recuperação econômica e militar que o país experimentava, permitiu esta atitude de aberta hostilidade adotada por Ahmose. Kamose havia feito um grande avanço e, agora, na sua falta, caberia a seu irmão continuar. A brutalidade e o alcance dos confrontos através dos anos, já estavam abalando o país.
Os planos de batalha previam que as forças egípcias – a elas somadas agora as das colônias – se reunissem em Luxor antes de iniciar o ataque. Embora se localizasse ainda mais ao sul, esta cidade foi escolhida como ponto estratégico, além de apresentar a vantagem de desviar a atenção sobre a capital, Tebas, que assim estaria protegida.
Os próximos dez dias seriam dedicados a treinamentos físicos e táticos ainda mais intensos, dos quais participariam todos os soldados. Sobreviver em batalha, em meio a regiões secas, ou à beira dos rios ou córregos, parcialmente imersos em charco ou lama, com falta momentânea de água ou alimentos, eram alguns dos itens que estavam sendo relembrados às tropas. Orientação, localização, posição do exército em relação ao curso dos astros eram outras tantas preocupações dos chefes militares. O manejo das armas e dos equipamentos de guerra era repassado dezenas e até centenas de vezes, para tornar perfeitamente aptos os combatentes. Queriam estar muito bem preparados.
Entretanto, a estratégia – esta, sim – era a principal preocupação. Como, quando e por onde iniciar a aproximação? De dia ou de noite? Quantos guerreiros iriam num primeiro momento? Ahmose se perguntava e também dirigia pedidos de informações aos seus comandantes sobre isto.
Sem dúvida, José e Aptesh eram, neste momento decisivo, de inestimável importância. E José, em particular, repassava mentalmente a peculiar maneira de Ahmose lidar com seus súditos e vassalos. Era duro, implacável. Exigia respeito, lealdade, obediência. Cobrava a conduta de todos e castigava sem piedade aqueles que julgava infratores – enfim, ele era o Faraó, podia exercer essa prerrogativa. E também sabia ser afável e sensível, sempre que se lhe oferecia uma oportunidade.
– Só não sei muito bem – indagava José a Aptesh, – por que o nosso Faraó, imaginado como tendo atributos divinos, está à frente dos nossos exércitos, expondo-se, assim, às contingências de uma guerra. Pode ser ferido ou, mesmo, morto.
– Também não tenho certeza, José. A verdade é que esses atributos divinos conferidos aos Faraós praticamente não mais existem, visto que eles preferiram passar a ser aceitos e reverenciados como governantes, renunciando assim as características divinas. Creio que, muito mais que orgulho ou vaidade, movem-no sentimentos de nacionalidade, de patriotismo, e até de fé e esperança. Tenho acompanhado o comportamento do nosso rei e vejo, por trás daquele guerreiro duro e inexorável, um ser sensível e interessado em seu povo, em seu país, enfim, no bom encaminhamento dos problemas magnos da nação. Não creio que para ele, neste momento, o mais importante seja a sua própria sobrevivência, mas sim a do país que dirige.
A tarde chegava. Ahmose sentou-se sobre uma pedra.
O exército, constituído de aproximadamente trinta mil homens, começara a caminhada havia já seis ou sete horas. Seu itinerário incluía um desvio para oeste, até os sopés das montanhas que caminhavam paralelamente, à direita das áreas abrangidas pelo Nilo.
Era uma cadeia de montanhas, especialmente na região de Hamamate, acima das trilhas das caravanas entre Hoser e Tebas, onde os trabalhadores costumavam ir para cortar as duras pedras de cor escura que empregavam no fabrico de sarcófagos e de esfinges. Só que agora nada disso interessava muito.
O Faraó guerreiro não estava cansado. Muito pelo contrário, mostrava-se bem disposto e excessivamente ansioso pela seqüência das ações planejadas. Não podia esconder, entretanto, que tudo aquilo lhe trazia muito em que pensar. Onde andaria Zafenate naquele momento? Como gostaria que ele chegasse logo para discutirem algumas condutas de guerra juntamente com os chefes militares!
Com a aproximação lenta e paulatina dos contingentes, foi-se animando um pouco. Até que pôde falar com José.
Ali traçaram, juntamente com os chefes militares, o que seria, doravante, o plano de batalha. Isso foi feito, efetivamente, com alguns dias de antecedência, para que a sua estrutura fosse bem absorvida por todos a quem pudesse ele interessar no momento. Havia, com efeito, a possibilidade de que tal plano caísse em mãos não autorizadas. Isso exigia muita cautela e ponderação.
– Como se sente, Majestade, quando o confronto está cada vez mais próximo?
– Um pouco preocupado.
– Acha que há possibilidade de que não possamos enfrentá-los?
– Não. Não é isso. Fico imaginando o que está pensando desta guerra a aristocracia do meu país. Provavelmente a vitória vai ser benéfica a eles todos, que sairão fortalecidos, mesmo sem lutar. Por outro lado, gostaria de poder evitar os grandes embates, os confrontos, onde perderão a vida milhares de pessoas. Você sabe, os soldados têm em conta que o seu principal objetivo é avançar e vencer. O verdadeiro guerreiro, porém, é aquele que, tendo uma visão imparcial de determinada situação, possa ter discernimento para adotar uma conduta equilibrada.
Os dias seguintes foram de cansativas caminhadas rumo ao norte, à região que ficava à direita do delta do Nilo, a Avaris, ao objetivo. Ao alvo enfim.
Tomaram a precaução de não avançar muito para o oriente em razão da escassez de água que é comum nas áreas desérticas. A completa desolação desta parte do país é amenizada em vários pontos pelos oásis, que são verdadeiras manchas de verdura no deserto, distanciados uns dos outros às vezes três e até cinco dias de jornada. Em relação ao Nilo, podem distanciar de três a dezesseis dias. Não se sabe bem por quê, em meio ao deserto hostil, existem esses verdadeiros paraísos – os oásis. Parece que a sua fertilidade é proveniente de veios de água subterrâneos.
– Entretanto – meditava Ahmose, – é melhor contar com a abundância do grande rio. Seguiremos o seu curso.
E assim marchavam. Dia após dia, noite após noite, paralelamente ao deserto da Arábia, eqüidistantes do Nilo, como já ficou registrado, ganhavam as centenas de quilômetros que inicialmente os separavam do destino.
– Como estão as tropas? – pergunta o Faraó ao comandante-chefe do exército. – Acredita que estão bem? E o moral, está elevado?
– Até agora tudo bem. Reuni ainda ontem os chefes de divisões e constatei que vai tudo bem. Não há baixas, nem enfermidades. Os exercícios são mantidos em bases moderadas em razão das horas de marchas. E, mesmo assim, são executados apenas aqueles exercícios que são voltados para a aproximação final.
– Mantenha-me informado de tudo.
Ao fim de quinze dias de caminhada encontravam-se já bem próximos de Avaris. Previam, como ocorreu, encontrar resistência aquém da cidade, pois o inimigo tinha seus postos avançados de sentinelas ao longo das eventuais vias de acesso dos egípcios que lhes permitissem bloquear tanto quanto possível a aproximação.
A guerra durou apenas duas semanas. Os hicsos não puderam suportar o peso dos ataques dos egípcios. Os contingentes de soldados destes eram superiores. Os armamentos, mais modernos e eficientes. O preparo físico, impecável. A razão determinante, muito forte.
Além de que, a estratégia utilizada por Ahmose e seu exército nas investidas foi fulminante. Tendo simulado um ataque frontal com a quarta parte do exército, posicionou outra quarta parte na retaguarda dos hicsos, terminando por desferir o golpe de misericórdia pelos flancos.
Assim, literalmente cercados, batidos e em desvantagem numérica, não coube outra saída aos adversários a não ser capitular. Mas não sem grande resistência nem sem sangrentas batalhas, em que houve muitas baixas, em homens, equipamentos e animais.
Cenas violentas de soldados atracados lutando bravamente ou desfechando golpes de espada e de lança uns contra os outros repetiam-se seguidamente. Aqui, um soldado cortava a cabeça do inimigo, fazendo jorrar um jacto de sangue. Ali, outro atirava uma rede metálica sobre o adversário, fazendo-o cair ao chão, para em seguida golpeá-lo com um punhal. À sua passagem, os egípcios iam pondo fogo nos armamentos, carroças, tendas e o que mais pertencesse ao inimigo.
Era a violência da guerra!
E pensar que as disputas com os hicsos, iniciadas pelo Faraó Kamose, já duravam cerca de trinta anos!
Assim derrotados e perseguidos pelos egípcios, tiveram como única alternativa fugir em direção ao leste, deserto adentro, deixando para trás Avaris, com suas instalações, construções, plantações e o que restou de sua civilização nos cem anos em que ocuparam o território.
Ahmose considerou que os hicsos invadiram também a Palestina – antes sob domínio egípcio – e que, por isso, a luta só terminaria em definitivo após desalojá-los de lá. Somente que, agora, não precisaria estar em pessoa à frente das tropas, visto que o inimigo estava enfraquecido e já não ofereceria grande resistência.
– Olha, Zafenate. Isso tudo me deixa bastante triste. Não apenas pelas mortes causadas pela guerra. Mas por tudo mais: a violência utilizada, a insensibilidade a que são submetidas as pessoas para poder enfrentar situações extremas, os anos todos de uma civilização e cultura banidos com tanta brutalidade.
Passou a mão pela testa suada e pelos escassos cabelos.
– Às vezes penso que tudo poderia ter sido diferente. Só não o foi porque o que os hicsos almejavam mesmo era o poder total sobre o Egito. E isso eu não poderia consentir – nem pela memória de meu irmão Kamose, nem pelo povo que governo! Além desta campanha, há outras que nem sei se conseguirei levar a bom termo. É o caso da Núbia, por exemplo. Na eventualidade de eu não o conseguir, tal incumbência estará sobre os ombros de meu filho Amenhotep que, embora ainda um menino, já está sendo preparado para assumir o poder em caso de minha morte
– Resta-nos, Majestade, o longo caminho de volta aos lares. Os soldados devem estar ansiosos para regressar e abraçar os seus queridos. Somente que, agora, não precisaremos evitar o vale do Nilo, o que tornará a viagem mais amena.
Três semanas depois entravam triunfalmente em Tebas.
O Faraó determinou uma semana de festas, com uma infinidade de apresentações teatrais ao ar livre e, obviamente, comidas e bebidas para todo o povo.
Consolidava-se, assim, o reinado de Ahmose, centralizando-se em Tebas o poder político e militar egípcio.
- Mais uma vez, Zafenate, a bênção e a prosperidade prometidas pelo seu Deus estiveram presentes na vida deste povo, do qual hoje você é parte integrante.