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Nada mudara na extensa região que tinha por limites, de um lado, a Arábia, de outro, a Judéia, ao sul, o mar Vermelho e ao norte, o Grande Mar. Tratava-se de uma extensa região semidesértica abrangendo o sul da Ásia e o norte da África, onde se localizavam importantes países e regiões, como o Líbano, a Jordânia e a Síria.
Na região dos hebreus – que se inseria nesse conjunto – a fome continuava gravíssima, como, de resto, em todo o mundo adjacente ao Egito.
Estavam atravessando o segundo ano de seca e carestia e as perspectivas eram de que tão cedo não choveria.
Era difícil para eles acreditar que a falta de chuvas pudesse ocasionar uma seca assim, tão devastadora, com tão graves conseqüências em todas as terras hebraicas. Nos arredores ninguém se lembrava de situação semelhante.
Israel, o patriarca de uma numerosa família, levantou-se vagarosamente de sua cadeira, caminhou até a janela, olhou desoladamente o horizonte. Parecia-lhe que as condições meteorológicas iam permanecer assim por um bom tempo, deixando aflitos e ansiosos todos os moradores da região.
Sentia sobre os ombros a responsabilidade de chefe da casa e dono das terras onde habitavam várias famílias que, em última análise, dependiam das medidas que tomasse. Com passos indecisos e pesados traçou no chão da sala um grande círculo imaginário e voltou a sentar-se.
Não que ele fosse alguém já velho e alquebrado. Muito ao contrário, era homem forte, saudável e afeito às lides do campo. Eram as más perspectivas que o faziam assim desanimado.
Normalmente, nessa hora do dia estaria – ele ou Ruben, que o ajudava nessa tarefa – no meio das plantações de trigo, milho e cevada, dando ordens a seus trabalhadores e vendo com alegria a lavoura crescer e se fortalecer. O gado também, em cujo manejo os pastores hebreus sempre foram hábeis, era freqüentemente vistoriado por ele e por Ruben. No dia anterior percorrera pessoalmente boa parte de suas propriedades, onde voltou a constatar as marcas da grande catástrofe: carcaças de animais – vacas, cabras e ovelhas, plantações totalmente perdidas e solo ressequido.
Sua esposa, que juntamente com ele já atravessara outras situações igualmente penosas e tristes, aproximou-se de sua cadeira, envolveu-o por detrás com seus braços, como que a lhe transmitir forças.
– Ontem, Léia, mais uma vez comprovei a devastação em que se encontram as nossas terras. Boa parte do gado já morreu, os homens reclamam, pois os seus filhos e mulheres evidentemente estão com fome e passam necessidades. É claro que a culpa não é minha, mas não posso deixar de adotar alguma providência.
Ela aguardava que o esposo tomasse alguma atitude com vistas a contornar o problema. Agia com prudência, esperando que Israel, como chefe do clã, decidisse.
A única coisa que lhe veio à memória foi o socorro que, antes, lhes viera do Egito. Em boa hora os irmãos de José desceram até lá e, não obstante as surpresas experimentadas, lograram adquirir trigo que, bem ou mal, suprira até agora as necessidades da família.
De repente, quebrando as formalidades, externou o seu pensamento ao marido.
– Não seria uma boa idéia enviar novamente os nossos filhos ao Egito? Sabemos que a carestia não chegou àquelas terras. Dinheiro para isso há. Ironicamente, não temos agora onde gastá-lo!
Israel levantou-se novamente e voltou a andar. Era a sua maneira peculiar de se concentrar e pensar.
– Além disso – continuou ela, – temos que pensar em Simeão, que ficou prisioneiro lá.
Israel considerou a sugestão da esposa. Refletiu a respeito de todas as circunstâncias que envolveriam os seus filhos em um novo deslocamento em direção ao Egito. Sabia das dificuldades e perigos, das privações, da distância a percorrer, do tempo necessário...
Sacudiu lateralmente a cabeça, como que a espantar um pesadelo.
Sim!... Talvez fosse uma boa idéia. Não era, no seu entender, a melhor alternativa, mas... e se enviasse novamente Ruben e os demais ao longínquo país com o objetivo de comprar trigo e o que mais houvesse para comer? Assim conseguiriam enfrentar a falta de colheitas e, ao menos por mais algum tempo, afastar o fantasma da fome.
Reuniu portanto, meio a contragosto, todos os familiares, a fim de que fosse traçado um plano, e expôs a eles a idéia de uma nova viagem. Os irmãos ouviram em silêncio e assim permaneceram por algum tempo.
Caso decidissem pela ida, era evidente que todo um esquema deveria ser cuidadosamente montado com vistas à empreitada, o que, em uma análise preliminar, lhes parecia tarefa bastante árdua. Além disso, deveriam resolver a respeito da provável ida de Benjamim com a caravana.
– Lembre-se, pai – adiantou Judá interrompendo o silêncio, – de que se formos sem Benjamim, nem sequer seremos recebidos. Foi a condição imposta pelo governante egípcio. Se, porém, ele for conosco, evidentemente seremos bem acolhidos e teremos sucesso em nossa missão.
– Olhe pai – disse outro dos irmãos, – se ele não for conosco nem adianta descermos até lá. Certamente não seremos bem recebidos. Conseqüência: Simeão continua preso e voltamos com as mãos abanando.
– Neste particular – interveio Israel, – a culpa é inteiramente de vocês, que revelaram a existência de mais um irmão. E quem sofre mais com isso somos nós – eu e sua mãe.
– É que ele fez muitas perguntas sobre nossa família. E, até agora, não conseguimos descobrir por que queria saber tantas coisas a nosso respeito.
– Além disso, fala a nossa língua tão bem como qualquer de nós. Sem qualquer sotaque ou vacilação. É realmente extraordinário.
– Que “coisas a nosso respeito”? – quis saber Israel. – Expliquem isso melhor.
– Por exemplo, se o nosso pai estava vivo, ou se tínhamos mais irmãos. Sentimos que havia um grande interesse da parte dele em ficar a par de tudo. Como poderíamos saber que exigiria a presença de Benjamim?
– Pai – disse Judá, – a questão agora é de vida ou morte. Você tem que permitir a ida de Benjamim conosco. De outra forma, não conseguiremos atravessar a seca.
– E não se esqueça, pai – emendou Ruben, – de que Simeão continua prisioneiro do Príncipe e a única possibilidade de que seja solto depende no nosso retorno àquele país.
– Foi o que sua mãe me disse há pouco – confirmou o patriarca.
Judá voltou a tomar a palavra.
– Eu me responsabilizo por Benjamim e da minha mão você o requererá: se eu não o trouxer de volta, considere como se eu tivesse cometido um delito grave e pode cobrá-lo de mim.
– E sabe, pai? – Era a voz de Dã. – Já estamos perdendo muito tempo. Com o atraso acarretado por todas as discussões a respeito, já poderíamos estar ultimando a partida.
Israel silenciou e voltou a caminhar pela sala, colocando a mão sobre a cabeça. A pressão era demasiada para ele.
O que fazer? Para os filhos parecia simples. Porém, para ele a decisão se afigurava muito penosa. Ainda se lembrava dos anos que transcorreram desde que lhe nascera, de Léia, o primeiro deles – Ruben. Foi ela que lhe deu esse nome.
Léia sentira-se desprezada ao notar que Israel – então Jacó – gostava muito mais de Raquel do que dela. Assim, como Raquel era estéril, o nascimento do primogênito poderia colocá-la em vantagem e em muito boas relações com o marido.
– Sim – sentenciara Léia – seu nome será Ruben, que quer dizer “o Senhor atendeu à minha aflição”. – Agora me amará meu marido – pensava.
Pela mesma razão ela se alegrara com o nascimento do segundo – Simeão, porque “o Senhor me ouviu”. Outros cinco viriam de Léia – Levi, Judá, Issacar, Zebulom e Diná. Mais cinco seriam acrescentados com a cumplicidade de Zilpa, a concubina, de Bila, a escrava, e de Raquel, a segunda esposa que, milagrosamente liberta da esterilidade, lhe deu José e Benjamim.
E repassou mentalmente todas as alegrias e vitórias que experimentara em sua vida, contando sempre com a companhia e a colaboração deles todos e com a bênção de Jeová!... E agora estava sem José, sem Simeão e provavelmente perderia também Benjamim. E seu espírito voava através do tempo...
Foi o próprio Benjamim, o caçula, que finalmente o tirou daquelas divagações e o trouxe de volta à realidade.
– E então, pai? O que você decide?
Depois de alguns minutos, por fim resolveu.
– Pois bem, se vocês colocam o problema assim, que seja. Têm o meu consentimento. Podem preparar a caravana em direção ao Egito, levando desta vez com vocês também Benjamim.
Era com dor no coração que concordava com tudo aquilo. Mas, enfim, era preciso. Além disso, certamente Jeová estaria orientando todas as ações e haveria de “abrir as portas” e conceder a sua bênção.
– Levem alguns objetos preciosos da nossa terra e entreguem como presentes ao tal governador.
Pelo menos, era uma maneira de acalmar o Príncipe egípcio. Como ele próprio já fizera em situação semelhante quando, para aplacar a ira de seu irmão Esaú, com quem deveria se reencontrar, fez-se preceder de presentes.
– Um pouco de bálsamo e de mirra, além de terebinto. Um carregamento de mel também seria oportuno e as melhores especiarias. Ah!, e também amêndoas.
Atentos, seus filhos ouviam e certamente seguiriam à risca as instruções recebidas. Quanto menos falhas houvesse nos preparativos, melhor.
– E não se esqueçam: levem dinheiro em dobro, ou seja, para a nova compra e para pagar a primeira, já que a importância correspondente foi encontrada de volta nos sacos. Prefiro pensar que foi um simples engano.
Léia a tudo assistia, consternada. Como isso foi acontecer? De uma vida tão segura e sossegada que a família levava para a dura realidade que ora enfrentavam havia uma grande distância.
Tudo aquilo – a viagem, a ausência dos filhos, os perigos do caminho, a detenção de Simeão e agora a ida de Benjamim – se apresentava a ela como um verdadeiro tormento que mexia com a sua cabeça. Mas, quê fazer, a não ser prosseguir, tendo fé nas providências de Jeová que, conforme Ele próprio, “foi, é, e será sempre o mesmo”? E disse em voz alta:
– Confiemos em que Deus Todo-poderoso nos faça misericórdia e permita que tudo chegue a bom termo. É o mínimo que podemos esperar de um Deus que nos tem prometido mão forte e bênçãos.
– Sim – completa o pai. Seja como Jeová quiser. E se ocorrer que eu perca também Benjamim, que eu possa ter consolo.
Os preparativos para a viagem tomaram todo um dia. Tinham que juntar os animais de carga, bem como sacos e balaios, além de que deveriam acondicionar os presentes a serem entregues ao tal governante. Era necessário abastecer-se de alimento e água para a difícil travessia e convocar os homens que viajariam. E, certamente, lembrar-se-iam de outras providências até o fim da tarde.
Trabalharam nesse mister todo o dia. Afinal, não era pouco tudo que tinham que prover para a viagem. Demandaria da parte deles muito esforço para que a partida não fosse ainda mais retardada.
A noitinha os pegou já deitados para dormir. Na madrugada seguinte partiriam.
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