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Capítulo XVIII – Novamente rumo ao Egito

 

Deixar ainda que temporariamente o aconchego do lar, ao lado dos pais, e encetar uma viagem através do mundo  hostil que os separava do Egito não era coisa que agradasse a Ruben e a seus irmãos.

Além dos inevitáveis contratempos que certamente enfrentariam pelo caminho, as perspectivas no destino eram sombrias. Da última vez deixaram aquele país em condições de inferioridade.

– Fomos humilhados! Fomos tidos por ladrões e malfeitores. Aquele Príncipe egípcio se arrogava razões para nos remeter ao cárcere.

Era o comentário de Dã, partilhado e apoiado pelos demais. A verdade é que temiam pela acolhida. Havia um clima adverso e uma perspectiva de conflito. Entretanto, inevitável era a ida e certo o encontro com os dirigentes egípcios.

– O que haveremos de dizer sobre o dinheiro? Novamente estarão sendo cogitados os mesmos problemas antes ocorridos.

– A minha maior preocupação – interrompe Isacar, – é Benjamim. O que pretenderão os egípcios com ele?

– É verdade – concorda Naftali. – É muito estranho esse pedido do Príncipe.

– Pedido? – retifica Ruben. – Ordem! Determinação! Vejam bem. Simeão está preso. Não há mais alimentos em nossa terra. Fomos acusados de furto e duramente instados a voltar com o nosso irmão caçula. A nossa única alternativa é acatar a ordem. E é exatamente por isso que Benjamim está indo conosco.

Fez-se um grande, profundo silêncio. Parece que o silêncio é bom para quem tem que pensar e meditar. Era isso, talvez, que Ruben esperava.

O que estava acontecendo? Simplesmente eles - estrangeiros no Egito - em busca de comida? Não parecia humilhante?

Fez-se também noite.

Benjamim, até agora tão quieto quanto perturbado, resolveu falar. E, pelo que parece, na hora errada.

– Ao menos desta vez não iremos sofrer demoras por não saber o caminho. Vocês já o conhecem bem.

– Não será assim tão fácil, caro irmão Benjamim! – corrige o irmão mais velho. –  Não conseguiríamos nunca fazer todo o percurso sem um guia. É muito arriscado. Os perigos são incontáveis. Passaremos pela casa de Farouk. Daqui até o lugar onde ele mora são mais ou menos quatro ou cinco dias de viagem.

O trajeto a ser feito, desde a saída da terra dos hebreus até a casa do guia, incluía a passagem pela inóspita região do Sinai, com seus montes e áreas desérticas, que se constituíam em difícil obstáculo a ser vencido.

Partiram com o alvorecer.

Em poucos dias, se tudo corresse bem, teriam atravessado os contrafortes das montanhas e chegado à aldeia tuaregue de Farouk. Ele os guiara da primeira vez. E para isso se esforçaram.

Quem visse de longe aquela caravana não poderia imaginar o clima que reinava entre os seus componentes. Mais parecia uma procissão – tristeza, prostração, incerteza... Afinal, mesmo com as relativas dificuldades que enfrentavam em sua própria terra, as adversidades que poderiam enfrentar durante a viagem eram muito maiores, visto que estariam em terreno quase desconhecido para eles –  o deserto. Não era, entretanto, algo que simplesmente pudessem deixar de fazer. Havia muita coisa envolvida nesse tema.

Simeão continuava prisioneiro, a presença de Benjamim era exigida no Egito e, afinal, a fome não era mera fantasia de suas cabeças, mas, ao contrário, dura realidade que continuava a preocupá-los. Tudo isso descia sobre os irmãos como uma nuvem sombria, tirando-lhes o ânimo e as forças e colocando mais um elemento complicador na travessia.

Assim imaginando, e já na tarde do quarto dia, foram com dificuldade vencendo os últimos quilômetros que os separavam do seu primeiro objetivo. Cansados e sedentos, descarregaram tudo e, como de costume, libertaram os animais de seus arreios, colocaram capim para que se alimentassem e, só então, dirigiram-se à casa.

Farouk, que a tudo assistia, esperava-os pacientemente. Feitos os cumprimentos, receberam água para lavar os pés e sentaram-se ao estilo tuaregue, com os joelhos dobrados.

Narrado o problema a Farouk e exposto o plano de viagem e o itinerário, o beduíno aceitou o trabalho de guiá-los até o Egito pela segunda vez, tarefa só possível a quem tivesse perfeito conhecimento do percurso.

Uma vez acertados os pormenores, ficou decidido que partiriam no dia imediato, bem cedo, para evitar o calor do sol a pino. Neste particular, adotariam a mesma conduta da primeira viagem, poupando-se de marchas sob sol muito intenso.

E assim foi. Atentos e vigilantes, foram aos poucos ganhando um ritmo mais regular de caminhada em direção ao seu destino. Em uma das paradas, foram retardados em seu percurso pela inesperada fuga de vários animais que, durante a noite, conseguiram se soltar e se distanciaram do lugar onde estavam acampados.

Conjeturavam: mais duas semanas aproximadamente de marcha, já teriam alcançado as fronteiras do Egito, e outras duas, estariam frente a frente com o Príncipe, desta feita apresentando-lhe o caçula – Benjamim. A constatação da distância a ser vencida e do tempo de caminhada era realmente desanimadora. A despeito disso, caminhavam perseverantes. Essa persistência era ditada pela importância do objetivo a ser atingido. Câimbras, dores musculares, cansaço, nada disso os afastava do planejado.

É como o lutador que, sentindo cada vez mais próximo da vitória, sublima todo o seu sofrimento na ânsia de derrotar o inimigo.

 

***

 

Nem mais contavam os dias...

Numa bela manhã avistaram Tebas – o ponto final de sua viagem. A capital estava fervilhando de gente. Todos estavam ocupados com alguma coisa. Enfim, a vida no Egito transcorria normalmente e as pessoas cumpriam as rotinas diárias, totalmente despreocupadas com relação ao abastecimento de suas casas, já que não lhes batera à porta a carestia enfrentada por outros povos.

Com muito custo, a caravana foi aos poucos se aproximando do centro comercial. Dentre tantos outros mercadores, não eram praticamente notados.

A primeira providência seria acomodarem-se todos em algum lugar decente...

– Mas como? – surpreendeu-se Ruben ao serem todos encaminhados à hospedaria. – A mesma estalagem já preparada para nos receber? Há algo de misterioso em tudo isso.

– Vamos nos recolher – sugere Issacar. – Mesmo porque, no estado de prostração em que nos encontramos, nem ao menos conseguiríamos nos portar dignamente. Amanhã, bem cedo, nos apresentaremos a “ele”. Quem sabe tudo estará mais claro depois de uma noite de repouso.

 

***

 

Foi o que fizeram. Dormiram – um sono cheio de sobressaltos e de pensamentos inquietadores. A noite pareceu mais longa do que realmente era. Ouviam ruídos e barulhos estranhos que, na verdade, estavam apenas em suas cabeças.

Agradeceram quando a noite terminou. Amanhecido o dia, prepararam-se para o retorno, não sem antes se alimentarem com o farto café que lhes fora servido pelo dono da hospedaria. E por último, uma passada pela estrebaria para arrebanhar e arrear os animais que fariam o transporte dos alimentos e a ida incontinenti para a área do carregamento.

Aquele homem – aquele governador – lá estava, como que à espera deles. A mesma imponência, o mesmo ar: a um tempo de autoridade, de respeito, mas também de doçura. Que coisa mais intrigante!...

José quase foi traído pela emoção ao ver Benjamim com eles. Entretanto, conteve-se: ainda não era chegado o momento de dar-se a conhecer.

– Leve estes moços à minha casa particular – ordenou a um subordinado – e mande que me esperem. Em seguida, ordene à cozinha um almoço em homenagem a eles. Mande matar algumas rezes. Que haja, além de carnes, boas frutas e legumes. E que tudo seja acompanhado por nossa excelente água e por vinhos especiais.

Segundo ainda as ordens do Príncipe, o grande encontro ocorreria ao meio dia, quando estariam todos à mesa do banquete.

Mais que depressa, o ajudante foi providenciar tudo, exatamente como lhe fora recomendado, levando com ele os irmãos até a casa de José.

Por sua vez José mandou chamar Apseth à sua presença. Queria que ele estivesse também no banquete para saber os pormenores de tudo aquilo.

– Você vai conhecer os homens que me venderam aos egípcios.

– Eles não o reconheceram?

– Não. Eu não havia ainda contado a você, mas eles são meus irmãos.

Apseth quase se sentou em uma cadeira para não cair no chão. Cada dia ele admirava ainda mais aquele Príncipe em quem havia sempre uma nova qualidade, uma nova virtude. Conhecendo-o bem, era fácil deduzir que o seu Deus certamente mantinha Seus olhos sobre esse ilustre filho.

Voltemos aos irmãos, já a caminho da casa de José. Toda aquela movimentação estava deixando Ruben e os demais temerosos.

– Vocês estão percebendo? Estamos sendo levados à casa do Príncipe. Aposto que é por causa do dinheiro que foi encontrado conosco de volta nos sacos.  Seremos incriminados, podem contar com isso.

– Concordo plenamente com você – disse Zebulom. – Aí então virão sobre nós, levarão a todos para a cadeia, confiscarão os nossos animais e nos transformarão em escravos. Conclusão: nunca mais voltaremos para nossa pátria!

Tais reflexões os deixaram muito preocupados. Tratariam, assim, de fazer boa figura diante de José. Certamente haveria oportunidade para explicarem tudo e se desculparem pelos inconvenientes criados. Por isso, mal haviam pisado a soleira da porta e antes mesmo que José chegasse, justificaram-se ao mordomo da casa.

– Olhe, quando viemos pela primeira vez ao Egito comprar mantimentos, fizemos o respectivo pagamento, em moeda corrente. Só que verificamos posteriormente, ao abrirmos os  sacos, que o dinheiro com que pagamos estava logo em cima do trigo adquirido. Não sabemos como foi parar ali. Cremos tratar-se de um engano. Trouxemos todo o dinheiro de volta.

– E outro tanto para adquirir mais trigo – completou Levi.

O mordomo ficou comovido diante daquela singular situação.

– Fiquem calmos e em paz. Não precisam estar temerosos. O dinheiro de que vocês estão falando foi normalmente entregue a mim, quando da primeira compra e já foi repassado à Tesouraria. Essa importância que afirmam ter encontrado nos sacos certamente é alguma bênção ou milagre de parte do Deus de seu povo.

Aquela revelação do mordomo, em vez de acalmar os hebreus, levantou dúvidas e suspeitas.

– Mas, como? – confabulou Issacar com os demais. – Se o dinheiro voltou conosco, acho difícil explicar de que maneira importância idêntica chegou aos cofres reais.

Mal sabiam que a importância correspondente à compra fora por José reposta à tesouraria.

O mordomo ausentou-se por alguns minutos, voltando com Simeão, que foi entregue a eles, livre do cárcere. O reencontro foi de alegria e júbilo. Abraçaram-no, riram bastante e, por fim, quiseram saber como tinha sido o período em que esteve encarcerado.

Só que, no espírito dos hebreus, a questão continuava obscura, pois havia vários pontos realmente enigmáticos.

 

***

 

Sentiram-se recompensados pelo tratamento que receberam na casa de José. Os animais foram levados para um lugar adequado, onde receberam forragem e água fresca. Eles próprios passaram pelo cerimonial da lavagem dos pés.

– Vamos preparar os presentes que trouxemos. Segundo as informações, o grande encontro acontecerá ao meio-dia.

O ambiente era de expectativa. Os acontecimentos eram de suma gravidade. Os valores morais e familiares envolvidos e que seriam ali expostos exigiam agora muito equilíbrio emocional e muita paciência.

Aos poucos foram se acalmando e, sentados à mesa onde seriam servidos, aguardaram a entrada do Príncipe que, literalmente, detinha o poder sobre suas vidas! Um serviçal fez saber as horas: estava dando o meio-dia. Quase ao mesmo tempo, outro anunciou a entrada de José.

Sua figura impressionava. Ainda mais vestido com aquela esplêndida túnica egípcia. Sentou-se à mesa com eles, que se apressaram em lhe entregar os presentes,  e inclinaram-se diante dele. Ansioso, perguntou sobre o pai: – E o pai de vocês, o velho de quem falaram, está bem? Ainda vive?

– Sim. Ele está bem, ainda vive, graças a Deus.

E novamente se inclinaram. O clima era de forte tensão.

Levantando os olhos, José viu Benjamim e este olhou para José. Eram os únicos filhos que Raquel dera a Israel – José e Benjamim. Os demais irmãos tinham como mãe Leia, Zilpa ou Bila.

– Este é o irmão mais novo de quem me falaram? Deus o abençoe, meu filho.

Repentinamente José levantou-se e saiu dali, pois precisava chorar e não queria fazê-lo diante de todos. Assim, entrou em uma câmara interna e ali chorou copiosamente.

 

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