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Os dias e meses seguintes foram de muito trabalho.
Já investido em suas funções, José tratou de equacionar os principais problemas de abastecimento. Os passos a serem dados eram inúmeros, como inúmeras eram as reuniões que se seguiriam.
Deveria, por exemplo, discutir com os governadores das províncias as questões relativas à colheita, à arrecadação e ao armazenamento de produtos agrícolas, providências essas das mais urgentes, já que a próxima safra se mostrava além da expectativa e começaria dentro de pouco tempo. Mereciam também atenção a pecuária e a piscicultura, bastante disseminadas no reino, que dependiam de suprimento alimentar e água em abundância.
Outra coisa que o recém-nomeado príncipe fez de imediato foi transferir sua residência para instalações próximas do palácio real e, por isso, próximas do Faraó.
Netertini era um capítulo que se localizava no passado e, ao que parece, ninguém mais deu atenção aos sonhos e fantasias da esposa de Potifar, agora bem distante dos planos de José.
Ali, no palácio, se localizariam também os seus escritórios e os dos seus assistentes diretos. Dali comandaria toda a estrutura através de dezenas ou até centenas de emissários, embora previsse que, muitas vezes, ia ter de fazer as coisas pessoalmente.
– Constatar pessoalmente – pensou, – sim, pelo menos nos primeiros instantes, será imprescindível que eu saia a campo para verificar no próprio local o andamento e a perfeita execução das ordens. Todo o cuidado era pouco para que tudo corresse bem. O Egito era um país muito extenso, o que, de certo modo, criaria dificuldades para o bom controle e supervisão de tudo.
Assim pensando, e logo que transmitidas todas as determinações aos governadores de províncias, tratou de pôr em prática o plano.
– Organizaremos uma comitiva para percorrer os principais centros produtores, observando e anotando tudo. Levaremos conosco escribas, matemáticos, especialistas em agricultura e, evidentemente, o pessoal de apoio indispensável, como secretários, mordomos, cozinheiros e o que mais seja necessário ao sucesso da missão.
José não tinha mais do que trinta anos de idade. Não obstante, mostrava-se inteiramente à vontade para desempenhar as tarefas que lhe foram confiadas.
– Levaremos alguns especialistas em geologia e hidrografia. Pretendo realizar alguns levantamentos em nossas bacias fluviais e aproveitar a oportunidade para fazer um levantamento das nossas reservas minerais (cobre, ametista e turquesa, em especial).
Nessa primeira viagem através das terras do Egito e das províncias localizadas além das fronteiras foram gastos dois meses.
Alguns levantamentos foram feitos sobre a consistência das camadas superficiais das áreas a serem exploradas, constituídas por rochas, eis que, se apropriadas, seriam empregadas no acabamento dos prédios ultimamente em construção na sede.
Era agora voltar e aguardar.
O oficial que se encontrava de plantão em frente à entrada principal do prédio de intendência movimentou-se um pouco. Acabava de ver ao longe uma pessoa que corria em direção ao seu posto de serviço, com a fisionomia visivelmente transtornada.
O que teria havido?
Aguardou.
Aquele homem aproximou-se com a respiração entrecortada pela corrida, totalmente empoeirado, suado e cansado pelo esforço despendido. Chegou e caiu ao chão, quase exânime.
O oficial ordenou que fosse amparado e que, à falta de outra providência, despejassem sobre ele uma balde de água. Assim ele poderia se recuperar mais rapidamente.
Ainda sentado no chão, mas já em condições de falar, foi interrogado sobre a razão de tão grande esforço.
– O que aconteceu, homem? Fale. Alguma briga em seu vilarejo?
– Não – disse o homem. – É o meu filho. Ele está doente. Não sei o que tem. Há questão de dias começou a sentir-se mal, caiu de cama e hoje amanheceu com aspecto amarelo, vomitando e com febre.
O oficial dirigiu-se a um subalterno.
– Não serão efeitos da doença que tem atingido outras pessoas aqui em nosso país? Aquela – como diria – aquela praga horrível, que leva à morte? É bom avisar José.
Em situações como essa, era ele sempre a ser procurado – estava logo abaixo do Faraó em poder.
Dirigiu-se assim ao palácio de José, que estava em reunião.
– Impossível atender agora, diz um porteiro. O Príncipe está ocupado.
Quando, porém, o hebreu percebeu de que se tratava, prontamente interrompeu a reunião e veio para fora.
– O que houve?
– Uma criança com “aqueles” sintomas, senhor. Febre, vômitos, diarréia. Provavelmente a conseqüência será a morte.
– Não podemos deixar isso acontecer. Vamos convocar uma equipe de apoio e, mais que depressa, ver de perto o caso dessa criança.
Assim José – o Príncipe, esquecendo-se momentaneamente de suas condições, rumou com a equipe até a aldeia.
Os sanitaristas haviam detectado há dois ou três meses um surto de endemia nas pequenas vilas do interior, que estava atingindo as populações mais pobres, especialmente as crianças e os velhos. A ação da moléstia consistia em atacar os organismos com baixo teor de imunidade, agindo nas membranas dos intestinos. A enfermidade provocava, assim, problemas gastrintestinais, com diarréia, vômitos, febre e... a morte.
Não se tratava, portanto, de simples infecção, mas de um surto endêmico importante.
– Já pensaram se essa enfermidade chega à capital? Não conseguiremos controlar.
Chegando ali, confirmou. Era mesmo aquela moléstia. Faltava-lhes, porém, a conduta médica para tratar a criança que, se não fosse cuidada logo, poderia morrer.
Além disso, teve a ingrata oportunidade de verificar pessoalmente como viviam os moradores dos vilarejos localizados nos arredores da cidade. Descendo de sua montaria, passou a percorrer as ruelas e caminhos por onde transitavam os habitantes menos favorecidos pela sorte.
– Ei, garoto! Onde você mora?
– Ali mais à frente, senhor.
José foi abrindo caminho entre os moradores, precedido pelo menino, até chegar a uma pequena cabana. Percebeu que não havia o mínimo de higiene e de recursos. A água utilizada era obtida de um pequeno poço.
Ali moravam sete pessoas. Dormiam praticamente em um só cômodo, em condições precárias. As crianças andavam sujas e desnutridas.
Saindo novamente à luz do sol, ainda a pé, passou a percorrer os seus caminhos, onde se viam esgotos a céu aberto. Aquilo inquietou José. As diferenças, as injustiças aumentavam a cada passo que dava.
– Parece que essas condições de vida se tornaram comuns na periferia das grandes cidades.
A população que formava os povoados adjacentes à Capital era originária de regiões desérticas a oeste. Procuravam sobreviver ali, por falta de alternativas. Migravam à procura de melhores terras para o cultivo do indispensável à subsistência.
– Felizmente – considerava o Príncipe – é uma percentagem relativamente pequena que busca assim viver. A maioria do povo vive, é certo, no deserto, mas dali tira o seu sustento. Entretanto, é triste constatar a realidade dos menos favorecidos.
Voltou o seu pensamento para a endemia. Lembrou-se de que, em princípio e de maneira branda, vinha ela atingindo pequena parcela da população de baixa renda, sem chamar muito a atenção dos médicos. Agora, contudo, começava a preocupar.
José se interessou pelo caso. Tratava-se, evidentemente, de algo que deveria ser contido nas origens.
Lembrou-se também de que andara lendo que a última vez que um mal de tão grandes proporções chegou à metrópole, anterior à sua vinda para o Egito, foi por ocasião de um ataque maciço de gafanhotos, que dizimou as lavouras egípcias e deixou toda a população sem alimentos e sem recursos por mais de seis meses.
– Apenas – considerava – um surto de gafanhotos é algo transitório que, embora com muito trabalho, pode ser combatido e superado.
Uma epidemia, contudo, que mexia com a saúde da população, era muito pior.
– Já têm chegado a nós relatos dessa enfermidade em pequenos povoados como este. Acredito que devemos levar a sério o fato se não quisermos que o mal se alastre.
Assim decidido, José resolveu colocar de plantão uma equipe de sanitaristas, com o objetivo de acompanhar o quadro clínico daquela criança e outros que pudessem ser detectados.
Ao final dez dias, quis saber o resultado. O que acontecera com aquela criança, ou que medidas foram adotadas ou, ainda, quais as recomendações médicas. Ficou sabendo, então, que a criança falecera no fim do oitavo dia, desde que apareceram os primeiros sintomas. Os pais estavam desolados. Era seu único filho, vivera sempre alegre, disposto e saudável. Como podia ter acontecido aquilo?
José quis saber mais. Que a equipe pusesse mãos à obra. Que examinassem tudo. Primeiramente na própria criança – autorizou, inclusive, que a abrissem, para fazer uma avaliação completa de seus órgãos: rins, fígado, coração, pulmões e que mais houvesse. Depois, que avaliassem as condições de vida da família, tipo de moradia, principais hábitos. Tudo que fosse possível observar era importante.
– Graças a Deus – pensava José – que este povo está bastante adiantado na área da pesquisa, o que facilitará um pouco.
Cabe acrescentar que a sua preocupação em relação a esse mal estava tomando bastante tempo de seus afazeres rotineiros.
E os dias foram-se passando.
Até que, finalmente, o responsável pela equipe de pesquisadores trouxe algumas informações importantes até José.
– Então, o que descobriram?
– Primeiro, príncipe, tenho uma triste notícia. Mais três pessoas apresentaram os mesmos sintomas: febre, vômitos, diarréia. Dessas, duas morreram e uma sobreviveu.
– E o que mais?
– Fizemos algumas anotações importantes: além dos sintomas mencionados, verificamos que os doentes apresentavam cor amarela na pele de todo o corpo e a urina tinha uma coloração esbranquiçada, como se houvesse uma espécie de pó branco em suspensão. O exame de rins e fígado demonstrou uma deterioração geral.
O príncipe era todo atenção.
– E mais: a partir do segundo dia, a febre deixava o paciente, causando até um certo otimismo em todos. Entretanto, voltava a subir entre o quarto e o quinto dia. O vômito verificado é de cor escura, em virtude da existência de sangue proveniente das mucosas. E também não conseguimos determinar o porquê de uma das vítimas ter sobrevivido.
– Sim – interrompe José, – até agora vocês ficaram nos sintomas. E quanto às causas? Aí está o ponto mais importante.
– Bem, Alteza – desculpou-se o cientista, – ainda não conseguimos muitas informações a respeito.
Por alguns momentos José ficou calado. Estava meditando sobre as providências ainda a tomar. Então, calma e pausadamente, transmitiu algumas instruções.
– Sugiro que voltem às regiões atingidas e vasculhem tudo. As casas, as redondezas das moradias. Façam uma minuciosa busca nas paredes, nos tetos, embaixo das camas e mesas. Vejam se não há possibilidade de ter algum vestígio importante. Não se esqueçam de realizar exames clínicos preventivos, principalmente nas crianças, observando seus olhos, suas línguas, suas peles. Dêem atenção especial à sua alimentação. De onde provém o que comem, e tudo o mais que for necessário.
Com mais essas recomendações, saíram eles a campo para novas pesquisas.
E, como não podia deixar de ser, a vida em Tebas e em todo país continuava para a maioria do povo, que ainda estava totalmente alheio aos episódios.
A propósito, quanto menos pudessem saber, melhor seria, para evitar o pânico na população.
O clima, para todos que estavam acompanhando os levantamentos, era de expectativa e apreensão. Aquilo poderia afetar a vida de todo o país.
A moléstia passou a ser chamada de “mal amarelo”, em razão da cor da pele dos que estavam infectados.
Quanto, porém, a estudos mais profundos que pudessem identificar melhor a doença, as pesquisas continuavam, mas sem resultados satisfatórios.
Passaram-se várias semanas. A equipe continuava trabalhando, aparentemente sem conclusões.
Até que certo dia, enfim, retornaram animados à capital.
– Então – perguntou José – alguma novidade?
– Parece que sim, eminência. Descobrimos no interior de várias habitações uma espécie semidoméstica de mosquito que parece ser o causador do mal. Ele costuma viver dentro das casas e se alimenta de sangue humano e, se estiver infectado, é a principal causa de transmissão de moléstias.
– Desta vez, houve progressos – avalia José.
– Trata-se, felizmente, de moléstia infecciosa não-contagiosa, ou seja, não é transmitida entre os moradores. Só ocorre a infecção se as pessoas se movem em área habitada pelo mosquito e são por ele picadas.
– O que significa – conclui o Príncipe – que a nossa estratégia deve se concentrar no controle e combate ao tal mosquito. Sem contar, é evidente, o acompanhamento e tratamento das pessoas portadoras do mal que forem sendo identificadas.
Assim, as autoridades sanitárias arregaçaram as mangas no sentido de colocar em execução o plano elaborado. Passaram a percorrer as aldeias, casa por casa, numa luta estafante e demorada.
– Vai ser muito difícil, um trabalho realmente árduo – falava José consigo mesmo. – As pessoas que habitam as regiões de risco, geralmente sem instrução e muito pobres, são obstinadas e resistem em cooperar. O meu temor é que teremos aqui uma luta permanente. Vai ser necessário incluir nos planos uma grande campanha de esclarecimento da população pois, sem a colaboração dos próprios interessados, nada conseguiremos.
– Sua Alteza pretende colocar o nosso Faraó a par dos acontecimentos? – pergunta um de seus auxiliares diretos, enquanto andam pelos arredores do palácio de José.
– A minha idéia é poupá-lo, ao menos por enquanto. Não acho conveniente que Ahmose tenha mais essa preocupação em meio a tantas outras.
Continuaram a caminhar calados, evidentemente refletindo sobre o problema.
– Pois bem – disse José quebrando o silêncio. – Eis o que faremos: vocês estão encarregados de montar equipes permanentes para verificar o andamento da moléstia nas várias regiões atingidas. E, como parece que não há medicamento que combata o mal, faremos campanhas de esclarecimento dos habitantes dos locais, de maneira que entendam que a sua participação é de suma importância.
A equipe de tudo tomava nota.
– Terão que se compenetrar de que devem evitar e, mesmo, eliminar as situações de risco: examinar periodicamente suas próprias casas, desde o chão, os móveis, até o teto, à procura do mosquito, para posterior eliminação.
Fez uma pequena pausa.
– Além disso, devem evitar se locomover a outras áreas com possível infestação – isso diminuirá o risco de propagação da doença.
Os sanitaristas fizeram menção de se afastar para cumprir as determinações do Príncipe.
– Ah, e não se esqueçam. Tragam ao meu conhecimento qualquer alteração no quadro hoje existente. Se a moléstia progrediu, regrediu ou se permaneceu estável. O meu desejo é que logo me tragam notícias de que ela diminuiu de intensidade.
José sabia que a luta apenas começara. O trabalho seria árduo e demorado. A situação envolvia uma parcela muito grande da população, que se encontrava espalhada em uma extensa área.
Enquanto isso, outras preocupações ocupavam a cabeça do Príncipe José.
Uma delas era a necessidade que notou de um elemento da mais alta confiança ao seu lado. Um secretário particular.
Na viagem que fez, o leque de tarefas às vezes se abrira tanto, que ele sozinho não conseguia cuidar de todas. E mais agora, com o problema do “mal amarelo”, necessitava urgentemente de mais alguém a dividir com ele as informações – e a preocupações.
Por incrível que possa parecer, pensou em Aptesh, lá no cárcere. Ficara impressionado com a cultura do escravo prisioneiro. Ele sem dúvida poderia ser muito útil, especialmente pelo seu conhecimento de línguas estrangeiras.
Pensou e agiu.
Nos dias seguintes foi várias vezes ao cárcere e conversou demoradamente com Aptesh para melhor avaliar as suas qualidades. Nesses diálogos acabou confirmando que o fato de ser alguém escravo em um país estranho não lhe tira os méritos – de que também ele próprio era exemplo. Contudo era ele ainda um prisioneiro e, com todo o seu poder de Príncipe, não se sentia muito à vontade para usar os seus serviços.
Lembrou-se nesse momento de que a sentença contra o escravo fora injusta.
– Tentarei obter para Aptesh junto ao Faraó a reabertura do processo que o condenou.
Conseguiu novo julgamento. Novas provas testemunhais foram admitidas, e o fato levou a nova decisão por parte dos julgadores. Desta vez prevaleceu a tese da legítima defesa. A pena foi revista e Aseph absolvido, o que o punha em liberdade.
– Trarei Aptesh para o palácio. Por mais que busque em minha cabeça, não me ocorre ninguém melhor do que ele para o cargo. Até porque não conheço muitas pessoas aqui no Egito.
O tempo mostrou que a escolha fora sábia.
E a terra produziu no primeiro ano. A safra ocorreu como se imaginara. A terra foi generosa. Era grande a fartura.
As colheitas assim obtidas foram transportadas para os arredores das cidades e aldeias e dali para os celeiros e depósitos, que ficaram abarrotados. Tão grandes foram, que José parou de registrar os números em minúcias, contentando-se com valores de estimativas.
Das quantias armazenadas, vinte por cento pertenciam ao governo. E os produtores acharam excelente a idéia de guardar suas colheitas nos celeiros reais. Assim estariam mais protegidas. Quando precisassem, poderiam liberar parcial ou totalmente as suas cotas.
Enquanto isso, José buscava tempo para outras atividades, como, por exemplo, a vida palaciana, com suas recepções, seus banquetes. E também para as suas rotinas. A sua vida transcorria bem próxima à do Faraó, de tal maneira que era comum encontrar os dois passeando e conversando amigavelmente nos jardins do palácio.
Nesses encontros abordavam problemas ligados à administração e aproveitavam para trocar informações sobre os seus respectivos países, no que diz respeito à língua, aos costumes, à religião, à filosofia...
– Zafenate, você tem viajado bastante. Aliás, para chegar ao Egito você passou por vários países, coisa que eu, em razão de minhas ocupações, não tenho feito. Como se sente em relação a isso?
– Gosto muito de viajar, majestade. Está no sangue do meu povo um certo espírito nômade. Meus avós tiveram que percorrer grandes distâncias até chegarem ao seu próprio lugar ou, como diz o meu povo, até atingirem o seu lugar de descanso.
– Muito interessante.
– Majestade, admito que o seu povo está muito adiantado nas áreas da matemática, geometria, engenharia, astronomia e medicina. Além disso, são bem adiantados o sistema de escrita e o domínio das técnicas agrícolas. Mas eu diria, com o devido respeito, que, em matéria de religião, nós hebreus temos algo grandioso: temos Jeová, um único Deus, em lugar de vários, como ocorre aqui. Perdoe-me, mas a crença em mais de um deus é gerada pela falta de uma fé verdadeira e também pelo medo de que a pessoa não seja atendida.
A declaração teve o efeito de colocar dúvidas na cabeça do monarca.
Certo dia, José andava despreocupado pelas dependências do palácio real, onde sempre deparava com novidades.
– Tenho que ter o maior número possível de informações sobre este país onde poderei permanecer por muitos anos – quem sabe, até à morte.
Assim, caminhando sem destino, chegou à cozinha. Ali, naquela hora, eram preparados pães e doces para o consumo interno.
Interessou-se pela composição do pão, pois vira que não continha fermento.
– É certo que em minha terra costuma-se fazer pão sem fermento – o pão ázimo, – porém somente para uso ritualístico.
Pensou imediatamente na possibilidade de trazer para o Egito os usos e as vantagens do fermento na alimentação, coisa tão corriqueira entre os seus.
Na primeira oportunidade, dirigiu-se à sala de audiências, onde Ahmose estava concentrado em importante decisão relacionada com o comportamento de um dos governadores. Muito à vontade, interrompeu o curso de sua meditação.
– Majestade, estive hoje na cozinha do palácio.
– E o que achou das coisas por lá?
– Tudo muito limpo e organizado. Uma pergunta, majestade: vocês não conhecem o fermento? Nunca fizeram uso desse ingrediente na confecção de pães e outros pratos?
– Continue.
– Peço-lhe autorização para introduzir o uso do fermento nas receitas.
Ahmose interessou-se pelo assunto e quis mais informações. Ficou sabendo o que era o fermento e como agia na massa.
– Além de atuar sobre a massa, ele dá mais sabor e beleza aos produtos e os faz crescer e ficar macios. É usado em pães, tortas, bolos e em infinitas receitas.
O Faraó se perguntou por que os eminentes químicos do país desconheciam isso.
– Claro – falou finalmente. – Faça as experiências que achar necessárias. Logo veremos o resultado.
Devidamente autorizado, José transmitiu ao padeiro-mor e aos seus auxiliares as instruções necessárias à obtenção e ao uso do fermento.
Decorridos alguns dias, e como não podia deixar de ser, todos os produtos passíveis de ter fermento em sua composição foram com ele fabricados e passaram a ser consumidos com muito maior prazer, em razão de seu aspecto e de seu gosto insuperável.
O ingrediente fora introduzido definitivamente no país.
– Obrigado, Jeová, por tudo que me tens permitido realizar neste lugar.
Os próximos dias de José foram dedicados a repassar os dados levantados e aí, sim, realmente observar o comportamento de Aptesh e constatar como lhe era útil o seu trabalho – metódico, meticuloso, de competência.
– José. Senti que poderíamos organizar melhor os nossos compromissos e os nossos relatórios (nomes, lugares, estimativas, reuniões, etc.). Assim sendo, passei a registrar tudo em folhas de papiro e farei um arquivo. Dessa maneira poderemos tirar tudo da nossa memória, passando a ocupar a cabeça com outras coisas.
– Muito bem, Apseth. Acho muito boa a idéia. Vamos adotá-la.
– Ah! – lembrou-se Apseth. – Gostaria que me autorizasse a destinar um lugar apropriado para os arquivos. Como você sabe, os rolos de papiros ocupam bastante espaço. Cada papiro desenrolado pode ter até trinta metros de comprimento. Com o tempo, o número de informações irá aumentar e seria bom que tivéssemos onde guardá-las.
Com o passar dos dias, Apseth tornou-se quase indispensável nas audiências com representantes estrangeiros, em razão de sua versatilidade em línguas – conhecia literalmente todas.
Agora era a vez de José se despreocupar de tudo!
Da mesma maneira como transcorreu o primeiro ano de prosperidade, transcorreram os demais. Tal era a organização que José imprimia a todos os trabalhos, desde levantamentos de safras, armazenamento de colheitas, até fiscalização e controle dos governadores e de seus passos em suas respectivas províncias, que o tempo chegava a lhe sobejar.
Sobejar, na realidade, seria um eufemismo, já que José era incansável. Queria sempre saber mais sobre todas as coisas. Sem contar que o seu conceito foi se firmando dia a dia em terras do Egito. Surpreendia-se até com as demonstrações de apreço e submissão da parte de seus iguais e da população em geral.
– Até hoje foi, e será sempre assim: as pessoas que estão em eminência, como é o meu caso, têm tudo, ao passo que o comum da população e os desvalidos, nunca têm nada.
Seus pensamentos muitas vezes o levavam à história daquele povo.
– As pirâmides. Que construções maravilhosas! Eu me emociono só de pensar nas dificuldades superadas para levantá-las, já que são constituídas por blocos de pedra que devem pesar milhares de quilos cada um. Quem os lavrou? Quem os transportou até o vale? E, finalmente, como foram erguidos até os estágios superiores das construções? Qualquer dia destes irei verificar isso melhor, pois só observando de perto poderei ter uma resposta.
Ficou sabendo que a construção das principais – todas localizadas no Vale dos Reis e como que vigiadas pela esfinge de Gizé e atribuídas a Queóps, Quefrem e Miquerinos, três grandes Faraós da Antigüidade – datava de mais de mil anos.
E mais, que na verdade eram túmulos reais. Os Faraós, em busca de um lugar seguro para mandar construir suas ricas câmaras mortuárias, faziam escavar profundas galerias no coração da montanha, interrompidas por poços que impediam a passagem dos saqueadores e por grandes salões com pilastras.
O Vale dos Reis era um sítio necrológico. Inteirou-se de que vinha sendo usado prioritariamente pelos governantes egípcios, através de gerações, como área para erguer a sua última morada. Estava localizado do lado oeste do Nilo, porém mantinha-se escondido por altos penhascos e um longo, estreito e sinuoso caminho de entrada. Estavam ali os mais importantes complexos mortuários de antigos Faraós, e também dos contemporâneos, consistentes de pirâmides – que abrigam tumbas – e templos anexos.
– Muito interessante – refletia José. – Em sua monumentalidade geométrica, as pirâmides mostram a importância que os Faraós dão a sua imortalidade. Talvez venha daí o acentuado caráter funerário da arte egípcia. Ao menos é o que se nota não apenas na construção das magníficas tumbas, mas também nos baixos e altos relevos que decoram as paredes internas das edificações funerárias, e também na estatuária.
Ficou sabendo também das regras estabelecidas pelas oficinas mortuárias na sua confecção. Tais regras eram rigorosas: o corpo das estátuas era sempre representado na plenitude de sua força física, a fim de que a alma do morto não fosse obrigada a habitar um corpo envelhecido ou deformado. O rosto da estátua, no entanto, devia apresentar semelhança física com o morto, para que seu espírito o reconhecesse.
José estava visivelmente deslumbrado. Talvez nem tanto pelos temas utilizados nas esculturas mas sim, pelo estágio adiantado da arte pátria.
– Só me falta assistir a um funeral de pessoa nobre, em todas as suas minúcias – disse, pensando sem querer na progenitora de Ahmose.
Assim escoou-se o tempo e chegaram ao fim os sete anos de prosperidade e riqueza previstos por José. Com direção firme, poucos foram os contratempos enfrentados. O povo estava alegre e vibrante, demonstrando assim a sua satisfação.
Seguiram-se os anos maus, os anos de fome, o período da carestia, das dificuldades, da ausência de colheitas. Justamente aquele período focalizado no sonho real e previsto na interpretação de José.
E como foram! Anos terríveis. As fontes de águas, os rios, os poços ficaram quase secos. A fome alcançava todas as terras vizinhas. A morte rondava as famílias. Os animais estavam morrendo. Até os gafanhotos, que representavam uma das maiores ameaças às lavouras, apareciam mortos no chão, como que forrando a paisagem com uma mortalha de tom marrom.
Quando, após três ou quatro anos de seca, os egípcios começaram a sentir as primeiras dificuldades e perceberam a falta de pão, foram a Ahmose.
– Majestade, o que vamos fazer? E o seu plano, suas promessas?...
– Vão a Zafenate-Panéia. Ele por certo terá uma solução para o problema.
E, como planejado, José determinou a abertura dos celeiros e armazéns onde estavam os mantimentos e vendia-os aos egípcios. Tais depósitos contavam-se às centenas e até aos milhares, estendidos em pontos estratégicos do país.
O mesmo procedimento foi adotado em relação aos povos vizinhos. De todos os lugares vinham ao Egito para comprar comida, visto que a fome imperava em todas as terras.
E Apseth de tudo tomava nota.
– Sim – considerou José, – escolhi sábia e acertadamente. Apseth revelou qualidades excepcionais.
Realmente, como se tivesse conhecimentos anteriores sobre as matérias a seu cargo, fazia sugestões surpreendentes.
– Ótimo – pensou José. As coisas estão caminhando muito bem!