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Devidamente recomposto, rosto lavado, José retornou ao salão.
– Meu Deus – ele pedia, – ajuda-me. Estou muito emocionado e não quero que percebam isso.
Todo cuidado era pouco. Ainda não era chegado o momento de contar a verdade a eles. Continuaria pois a esconder a sua verdadeira identidade.
Retornando ao salão, sentou-se.
– Podem servir – ordenou aos serviçais.
Seus irmãos notaram, na atribuição de lugares à mesa, uma coisa inesperada: José não se sentara com eles e ordenou que o servissem à parte. Perceberam que ele comeria sozinho.
– Trata-se de pessoa de alta categoria social e membro da classe sacerdotal – observou Ruben. – Evidentemente não se misturará com o povo leigo como nós.
Todas essas providências adotadas por José faziam parte de um costume tipicamente hebraico, o que os deixava ainda mais curiosos.
Os demais convivas que vieram para participar do banquete, todos egípcios, foram instalados em uma terceira mesa, visto que não lhes era permitido comer com os hebreus. A razão é que os locais detestavam todos os pastores de ovelhas, criadores de porcos e possuidores de gado, porque tais ocupações eram reputadas incompatíveis com a civilização e com a pureza de costumes exigida pela sociedade egípcia e só eram desempenhadas por cidadãos de classe baixa..
– Perceberam que estamos isolados em uma mesa? – foi a pergunta de Issacar.
Finalmente conseguiram completar a distribuição dos comensais. Foi devidamente respeitada por José a primogenitura entre seus irmãos – tradição eminentemente hebraica – os quais, por isso e por decisão dele, tomaram lugar na mesa obedecendo a uma ordem predeterminada.
Ora, todos se maravilharam de o Príncipe ter acertado até nesse particular.
José observou as porções de comida que estavam sendo servidas a todos. Depois determinou que para Benjamim fosse dada parcela cinco vezes maior que a de qualquer dos demais.
Era um verdadeiro mistério. Esse desvelo com o caçula deles era deveras intrigante.
– Onde terá ele aprendido tantas particularidades sobre os nossos costumes? E qual é a razão dessa atenção especial para com Benjamim?
Por que razão um governante assim merecedor de tamanho apreço estaria, por assim dizer, gastando tanto tempo com essas coisas – ao menos no momento – tão triviais?
O certo é que aquele banquete avançou pela tarde afora, agora já com todos mais descontraídos. Por esse motivo comportavam-se de maneira informal: riam e conversavam em altas vozes. A ocasião lhes permitiu aproximarem-se bastante de José, sem contudo entenderem as suas atitudes.
José quebrou o silêncio.
– Comam à vontade dessas excelentes iguarias e bebam do melhor vinho que se pode encontrar em uma adega egípcia.
Enfim: regalaram-se.
O banquete chegara então a um nível mais baixo de animação. Todos se sentiam satisfeitos, não só em razão da comida e da bebida, mas também pela interação estabelecida à mesa. Um certo torpor e sonolência passaram a tomar conta de todos. Assim, foram se levantando e acabaram por retirar-se, cada um com destino aos seus aposentos.
– Nossa permanência no Egito está chegando ao fim – lembrou alguém.
No dia imediato, tão logo acordassem, partiriam para sua terra. Seus pais por certo estavam ansiosos, aguardando o seu regresso, já agora com a caravana acrescida de Simeão.
Iriam enfrentar, então, uma situação bem diversa da proporcionada pelo banquete: uma travessia repleta de fatores adversos - calor, poeira, cansaço, medo...
A manhã seguinte encontrou os irmãos, ainda nem saíra o sol, preparando-se para colocar sobre os lombos dos cavalos e dos jumentos o novo carregamento de víveres.
Dirigiram-se com antecedência às estrebarias, onde alimentaram bem os animais, com vistas a dar-lhes perfeitas condições para o primeiro trecho da penosa e demorada viagem de regresso à pátria.
Se na viagem de vinda enfrentaram muitos perigos, no retorno, por certo, estes seriam ainda maiores em razão da carga que transportavam, que poderia atrair assaltantes. Especialmente em uma quadra de seca e carestia.
Feitos os preparativos, dirigiram-se imediatamente aos depósitos reais, onde pagariam a importância correspondente e retirariam o carregamento.
– Espero que nenhum imprevisto ocorra desta vez – foi o comentário de Dã. – Parece-me que o que já passamos é suficiente, pelo menos por ora.
A esta altura dos acontecimentos José, não por mero acaso, estava presente e atento a tudo, acompanhando cada movimento dos filhos de Israel. Quando viu que a transação havia sido completada, chamou à parte um dos tesoureiros.
– Encha todos os sacos desses senhores até a boca, colocando de volta por cima o dinheiro com que pagaram.
O tesoureiro preparou-se para cumprir a ordem.
– Tome ainda esta taça de prata e coloque-a juntamente com o dinheiro num dos sacos que estão sob a responsabilidade do mais jovem – Benjamim.
Mais que depressa, o funcionário fez como o Príncipe ordenara.
– Muito bem, creio que nada mais há para fazer aqui – Ruben, como mais velho, geralmente dava a palavra final. – Já carregamos os nossos animais, fizemos o pagamento pela compra. Vamos nos despedir e, em seguida, marchar pelo deserto.
José aproveitou o ensejo para pôr em andamento a estratégia que engendrara. Aguardou que distanciassem caminho de três ou quatro horas de jornada e depois agiu.
O local era ponto de concentração de centenas e até milhares de forasteiros, todos em busca de alimentos, razão da existência de pelotões de soldados guardando todo o centro da cidade.
– Comandante – disse a um tenente do exército que estava próximo, – junte alguns soldados e saia em perseguição àquele grupo de hebreus. Aí, então, abra os sacos de mantimentos aqui adquiridos. Nos sacos vocês irão encontrar o dinheiro da compra e, em um deles, vocês vão também encontrar a minha taça – aquela, de prata. Ela me foi roubada. Traga, então tudo de volta – homens, animais e cargas!
Como deixar de cumprir uma ordem tão clara e provinda da boca de um Príncipe tão poderoso? O militar tratou de perseguir os hebreus, que foram alcançados já no fim da tarde, ou seja, depois de um dia inteiro de viagem.
– Iniciemos a aproximação – ordenou. – Com cuidado, pois não sabemos se estão armados.
Assim, pouco a pouco, chegavam bem perto dos irmãos. Até que foram notados.
– Ruben – disse Issacar, após perceber a tropa que se aproximava, – temos novidades. Alguns soldados estão tentando nos alcançar.
– O que será desta vez? – perguntou Ruben. – Até parecemos delinqüentes. Será possível que nunca nos deixem em paz?
Os milicianos aproximaram-se e, finalmente, fizeram a abordagem.
– Alto, hebreus! – ordenou o tenente. – Tenho ordens de examinar o carregamento que vocês levam.
Os irmãos, apanhados de surpresa, nada entendiam.
– O que está havendo, tenente? – quis saber Ruben.
– Há uma suspeita de que estejam envolvidos em furto de dinheiro e de um objeto muito precioso.
– Por que estamos sendo tratados assim? – foi a pergunta de Dã.
– Nada fizemos ou, pelo menos, nada que tenha sido por nossa iniciativa ou do nosso conhecimento – defendeu-se Naftali.
– Nem faríamos nada que prejudicasse este povo que nos tem recebido tão bem –tentou argumentar Asser, que pouco falava.
– Ao contrário – finalizou Simeão, – somente temos a agradecer ao Egito e aos seus governantes por tudo, pela hospitalidade e pela lealdade (lembrou-se de que estivera preso e foi solto, conforme a promessa de José).
– Isso mesmo – disse um dos outros irmãos. – Caso seja encontrado algum produto de furto em nosso poder, estamos dispostos a pagar por isso, até mesmo com a nossa vida.
– Então – respondeu o tenente, – seja como sugerem suas palavras.
Todos se apressaram em retirar os sacos de sobre os animais e a colocá-los diante dos soldados. Uma tarefa não pouco trabalhosa. E, mais que depressa, já sabendo de antemão onde e o que procurar, os soldados encaminharam-se até os sacos, onde encontraram o dinheiro. Em seguida dirigiram-se aos sacos a cargo de Benjamin e logo os foram abrindo.
– Tenente – disse um deles, – olhe o que encontramos: além do dinheiro, a taça de prata pertencente ao Príncipe.
O constrangimento dos hebreus era evidente, pois tudo ocorria em razão dos planos de José, os quais – parece – tinham o objetivo de confundi-los.
– Sou obrigado a detê-los e conduzi-los conosco de volta a Tebas.
– Espere um pouco! – interveio Gade meio irritado. - O que é isto que está acontecendo? Há tanta gente mal-encarada na cidade, pessoas que poderiam até matar ou roubar por alguns trocados, e vocês nos escolhem para bodes expiatórios?
– Praticaram um grande mal e estão encrencados. Além de terem-se apoderado de todo o dinheiro da aquisição de trigo, a situação piorou ainda mais, visto que furtaram a taça do nosso Príncipe.
– Quanto ao dinheiro – disse Zebulon, – não sabemos como apareceu nas bocas dos sacos, visto que trouxemos o suficiente para pagar a carga atual e a anterior.
– E quanto a essa taça – disse Efraim afoito, – como acham que a pegamos? Por acaso, em algum momento tivemos acesso a ela?
– Parece que sim, visto que vocês estiveram na casa do Príncipe, onde almoçaram e permaneceram por várias horas. Mas deixemos que ele próprio decida a respeito.
Aquele fato inesperado abateu-se sobre os irmãos como um verdadeiro terremoto. A atitude natural deles foi lamentar-se e, num costume comum entre os seus, rasgar os vestidos em sinal de contrariedade e tristeza.
Em tal situação de inferioridade, nem pensariam em revidar ou enfrentar aqueles soldados, aliás bem armados e em número superior. Aceitaram tudo passivamente.