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Como sempre, a cidade fervilhava de gente – locais e estrangeiros, moradores e viajantes, em tal número, que se tornava difícil a locomoção pelo meio deles. Isso obrigou a que a caravana dos hebreus fosse abrindo caminho pelos vários tipos de pessoas que impediam um melhor trânsito, especialmente na parte central da metrópole.
– Todos vieram pela mesma razão – disse Levi. São todos provenientes das regiões vizinhas, onde também a falta d’água está matando homens, lavouras e animais. Eis também a seca e a carestia aproximando as pessoas.
– Espero que sejam verdadeiras as informações que nos deram – comentou Judá. - Caso contrário teremos perdido a viagem e as esperanças.
– Com algumas perguntas logo vamos nos inteirar da situação – tranqüilizou Ruben.
Foi o que fizeram, dirigindo-se a um funcionário, assim identificado por suas roupas.
– É verdade – confirmou ele. – Aqui temos mantimentos em quantidade. Ao ser alertado de que uma grande fome ameaçava o nosso país, o governo, através de um planejamento inteligente, resolveu estocar grãos – trigo, milho, cevada, etc. – para vários anos. Dessa maneira, a miséria e a carestia estão sendo superadas, felizmente. Temos que agradecer todos os dias pela previdência do nosso Faraó que, avisado dos anos de seca, armazenou uma quantidade extraordinária de alimentos.
Parece que José não se importava que o crédito pelo plano fosse dado a Ahmose.
Tal resposta deixou os irmãos felizes. Sem dúvida conseguiriam levar avante o seu intento, adquirindo trigo e outros tipos de alimentos e, assim, minorar a penosa situação em sua terra.
Bem mais despreocupados, perceberam que estavam bastante cansados da longa travessia. Trataram, pois, de procurar uma hospedaria onde passar a noite. E ali se recolheram.
Apenas Ruben teve dificuldade em conciliar o sono. Em silêncio, invocava a bênção de Jeová sobre aquele empreendimento.
– Senhor, sê propício. Abre as portas que forem necessárias para que tudo se resolva rapidamente.
Passou-se um tempo que, para ele, parecia uma eternidade. Finalmente, deu um longo suspiro e, já menos tenso, virou-se para o lado e adormeceu.
De manhã tomariam as providências necessárias à aquisição do trigo.
No dia seguinte, já bem informados, dirigiram-se ao local onde estava sendo feita a comercialização dos mantimentos e ali ultimaram a transação, efetuando o pagamento dos produtos adquiridos.
Não se imagine que o fato de o Egito estar tranqüilo quanto à alimentação do povo e do gado e irrigação das lavouras tirasse das autoridades a preocupação. Esta agora se voltava para o controle dos estoques, escoamento dos produtos e, especialmente, para os perigos que representava a presença de estrangeiros no país – é evidente que saques, revoltas, descontentamento poderiam ocorrer. Daí a razão da presença de vários fiscais e chefes de pessoal no local de venda de produtos. E, como se pode imaginar, a figura de José entre aqueles.
Com a atenção voltada para o seu propósito, os irmãos nem fixaram sua atenção nas pessoas que estavam à volta. Por isso, não perceberam a presença ali de José, dando algumas ordens.
Só o notaram quando se aproximou.
– Esse homem parece-me um Príncipe ou um alto dignitário do governo. Vamos nos curvar em sinal de respeito – foi o que sugeriu Ruben e foi o que fizeram todos.
José, por seu turno, era bem mais observador. Não sem espanto, reconheceu de imediato nos estrangeiros as figuras de seus irmãos. Estremeceu ligeiramente, mas conteve-se. Afastou-se e logo retornou.
– Ora – exclamou José intimamente, – se não são os meus caros irmãos que estão ali ajoelhados, curvados perante mim.
Estava tomado de evidente surpresa.
– Meu Deus! Ali está Ruben – não mudou nada. E mais atrás estão Simeão, Levi e Judá. E os outros – Issacar, Zebulom... todos! E não me reconheceram. Talvez pelas minhas roupas, pelo status, ou pelo rosto barbeado... No entanto, eu os reconheceria em qualquer circunstância.
Quase não conteve a emoção.
Imediatamente engendrou um plano: não se daria a conhecer de imediato a eles. Não! Antes faria algumas perguntas, alguns testes.
Gostaria de saber, por exemplo, o que teriam falado a seu pai a respeito do seu desaparecimento. E, ainda muito mais, como estavam seus pais. Ainda vivos? E Benjamim, o caçula, por que não estava com eles?
Ainda um pouco trêmulo, aproximou-se bem deles.
– Quem são vocês? – disse na língua egípcia, de maneira agressiva e rude. De onde vêm e qual é o seu objetivo no Egito? Nota-se que são estrangeiros.
– Somos da terra de Canaã – responderam eles, manejando bem a língua local – e viemos ao seu país para comprar mantimentos, visto que a seca assola as nossas propriedades. No entanto, pagaremos muito bem por tudo aquilo que pudermos levar. Nossos pais já estão um tanto velhos e muito nos desagradaria não poder cumprir totalmente a missão que nos confiaram.
José, no íntimo, ficou contente em saber que Israel e Léia estavam vivos. Nesse exato momento, lembrou-se dos sonhos e viu ali a confirmação dos mesmos: os feixes que se curvavam, as estrelas, o sol, a lua... Não apenas seus irmãos, mas também seus pais estavam na dependência do que ele quisesse fazer em favor da família.
– Vocês devem ser espiões vindos para desvendar algum segredo nesta terra – disparou.
– Não, senhor meu. Viemos realmente pelos mantimentos. Somos todos filhos de uma mesma pessoa. Somos homens retos e honestos.
– Não, não creio na palavra de vocês e continuo afirmando que vieram para nos espionar.
– Pedimos sua atenção para a nossa história. Nós, seus humildes servos, somos doze irmãos, filhos de um homem da terra de Canaã chamado Jacó. Porém o nosso Deus mudou o seu nome para Israel. O mais novo, Benjamim, ficou com nossos pais e um já não existe.
– É o que estou dizendo – repetiu José, mal escondendo os seus sentimentos. – E o seu Deus nada pôde fazer pela sua família? Vocês certamente são espiões, têm algum projeto secreto, e vou conseguir provas do que digo.
Os irmãos sentiram que, efetivamente, o Príncipe os tinha como verdadeiros inimigos.
– Ou, pensando melhor, vocês somente serão liberados para ir embora quando o irmão mais novo de vocês vier aqui. Assim, escolham um de vocês para que volte a essa terra de Canaã e traga o caçula. Os demais ficarão presos até que tudo se esclareça. Oxalá vocês não estejam conspirando contra o Faraó e contra este povo que os tem acolhido sem restrições.
Como não se decidissem, manteve-os prisioneiros por três dias, ao fim dos quais amenizou a ameaça. Seu coração se derretia por estar representando assim um papel de pessoa sem sentimentos.
– Se vocês são realmente homens de retidão, que fique um de vocês preso aqui. Os demais poderão voltar à sua terra. Levem trigo para saciar a fome da família. Se, em seguida, trouxerem o irmão mais novo, terão confirmadas suas palavras e, assim, aquele de vocês que ficar como refém não morrerá.
Aos irmãos nada restava a não ser concordar.
Conferenciaram entre si.
– Na verdade, somos culpados pelo que ocorreu a José e pela angústia com que nos rogava que o deixássemos voltar para casa. Nós, porém, não ouvimos e quem sabe seja por isso que estamos enfrentando esta situação.
Ruben naquele momento sentiu todo o peso da sua posição de mais velho, de primogênito.
– Não disse a vocês todos que não devíamos ter feito nada contra ele, pois era nosso irmão? Entretanto, vocês não quiseram me ouvir e eis aí o seu sangue sendo requerido de nós.
Nem de longe, porém, desconfiaram que estavam sendo ouvidos e entendidos por José que, não suportando a emoção, saiu dali e chorou muito. É certo, porém, que ele via em tudo a mão de Jeová.
– Bem – arriscou Naftali – creio que por hoje nada mais conseguiremos, a não ser remoer tudo que aconteceu e engolir a amargura. Vamos descansar e amanhã estaremos novamente aqui para tentar contornar esse inesperado impasse.
Já na estalagem que lhes foi franqueada às custas do reino, passaram a considerar melhor os fatos.
– Essa agora! Parece que nada está dando certo. Fizemos uma péssima viagem até o Egito. Além de termos saído da rota e ficado perdidos, houve aquele inesperado encontro com os nômades que, só depois de muitas explicações nos permitiram continuar. Sem falar na fuga dos animais, que nos tomou mais de metade do dia, e daquelas terríveis tempestades de poeira e areia!...
– E agora – responde Dã, – as coisas se complicaram ainda mais. Somente poderemos voltar se um de nós permanecer como prisioneiro.
– Uma coisa me intriga – lembrou Simeão – quem será esse nobre? Parece-me um Príncipe e, a meu ver, excessivamente interessado em saber coisas da nossa terra e da nossa família.
O outro dia encontrou-os já de madrugada em frente ao departamento do comércio exterior.
Novamente o Príncipe José estava ali, como que a esperá-los.
– Pois bem, ficamos assim: vocês têm liberdade para comprar quanto quiserem. Somente que um de vocês – aquele (disse apontando para Simeão) ficará preso aqui no Egito, até que voltem trazendo o irmão mais novo.
Ato contínuo, mandou que os guardas prendessem Simeão e o levassem para o cárcere.
– Encarregado – disse ao responsável pela repartição, porém longe de seus irmãos, – dê-lhes o trigo que pedirem e preste bastante atenção a este detalhe: mande colocar de volta nos sacos todo o dinheiro com que pagarem a compra, costurando em seguida as bocas dos mesmos. Separadamente, providencie para que tenham alimentos para a longa jornada de volta à sua terra. Para não haver diferença na contabilidade, leve a meu débito as importâncias correspondentes.
Nesse momento teve tempo para uma reflexão. – Simeão – disse baixinho. Este nome significa “audição” ou, ainda “ter a oração ouvida”.
– Quem sabe ajudará!... – E se afastou.
– E agora? – Efraim lança a questão. – Estamos bem arranjados. Simeão permanecerá preso até a nossa volta.
– Se ocorrer uma volta.
– Deixemos de conjecturas – era a voz de Ruben. – Vamos tratar de carregar o produto que compramos. Depois, voltaremos à estalagem, pegaremos tudo que é nosso, prepararemos água e suprimentos e faremos a longa viagem de volta.
O trabalho que se seguiu foi eminentemente braçal – encher os sacos e colocá-los sobre os animais. Então partiriam, com a madrugada, sem mais perda de tempo.
A viajem de regresso a Canaã não se mostrava tão animadora como a de vinda. Levavam o trigo, sim, mas carregavam também sobre si todo o peso dos últimos acontecimentos, e aquilo mexia muito com o seu moral.
Aquele homem!... Que ele exercia grande poder era inegável. Todos lhe obedeciam e se curvavam perante ele. Estranhamente, demonstrou uma curiosidade incomum pelo que se passava em Canaã.
Que coisa mais aborrecida. Além disso, foram obrigados a concordar com a detenção de Simeão, o que significava que teriam que voltar ao Egito!...
Esse pensamento como que os impulsionou pelos próximos quilômetros, até chegarem a um ponto de caravanas, onde passariam a noite. Tratariam mais é de aliviar as cargas dos animais, dar-lhes de beber e de comer. Depois eles próprios se alimentariam e descansariam, para enfrentar no dia seguinte mais um trecho do caminho de volta.
– Ei, Ruben – gritou Issacar – venha ver isto. Abri este saco para preparar uma ração para os animais e veja o que encontrei.
– Dinheiro. Mas... que dinheiro é esse? Conte quanto tem aí.
– É a mesma quantia que entreguei pela parte do trigo a meu cargo. Parece que foi devolvida.
- Como é possível? – gritou Ruben. E imediatamente, numa rápida manobra mental, ligou os fatos.
– Homens - disse, - olhem nos seus respectivos sacos. Aposto que também estão com o nosso dinheiro.
– Tem razão – disseram todos depois da verificação. O nosso dinheiro está todo aqui, de volta.
Isso os deixou deveras contrariados e abatidos.
– O que significa isso? Por que Jeová permitiu que acontecesse? Será que é conseqüência de algo mau que tenhamos feito? Não estou gostando nada.
Explicações agora eram inúteis. Trataram, portanto, de reiniciar no dia imediato a viagem.
– Deixemos ao nosso pai a tarefa de entender e tentar esclarecer tudo.
– Não será assim tão fácil – disse Judá. Lembrem-se de que os valores envolvidos são muito elevados. E, na verdade, quem deve explicações somos nós.
– É mesmo. Nenhuma justificativa será suficiente para minorar a ansiedade e a tristeza de nossos pais.
Foi exatamente o que aconteceu: não se sentiam em condições de explicar e justificar perante o pai todo o ocorrido. Nem, ao menos, sabiam como enfrentar e se dirigir a Israel, que os recebeu alegremente, diante da constatação de que obtiveram êxito na missão.
Além dessa comprovação, Israel sabia que a coisa mais importante agora era dar-lhes as boas vindas e saber como estavam. Certamente cansados e com fome.
– Léia, determine à cozinha que prepare uma recepção para os nossos filhos imediatamente, do pouco que ainda resta em nossa despensa. Que haja, além de pão, carne, guisados e vinho. – Mas nada que demore muito, visto que estou ansioso por reuni-los à mesa.
Queria saber tudo da viagem.
– Estou achando falta de Simeão – disse, não disfarçando um tremor. – Digam-me, filhos, onde está ele? Vocês por certo podem explicar a sua ausência.
– Calma, pai. Vamos explicar tudo. Não se exalte e nem se exaspere. Especialmente, tenha muita calma.
E, em um ambiente tenso e cheio de expectativa, contaram ao pai tudo o que lhes acontecera. Da viagem, da chegada, da boa acolhida pelos egípcios, da compra de mantimentos. E, finalmente, do jovem, do Príncipe, ou seja lá quem fosse.
– Sabe, pai, fomos tratados asperamente pelo senhor da terra, um homem com grande poder nas mãos. Chamou-nos de espiões.
– Quero notícias de Simeão.
Levi não se conteve:
– Dissemos que éramos honestos, trabalhadores, que nosso único intuito era comprar alimentos, mas não adiantou. Chegamos a dar informações particulares a ele, como, por exemplo, que éramos doze irmãos – agora onze, demos a ele o nome do nosso pai e finalizamos dizendo que o caçula – Benjamim – não nos acompanhara na viagem.
Israel estava achando tudo aquilo meio estranho. Aguardava, porém, o fim da narração, embora estremecesse a respeito de Simeão.
– E aquele homem – um Príncipe, o senhor da terra, ordenou que nos fornecessem quanto trigo pedíssemos, mas reteve prisioneiro nosso mano Simeão. Determinou que retornássemos ao Egito levando Benjamim conosco, condição básica para que Simeão fosse liberto.
Porém coisa ainda mais surpreendente estava reservada naquele dia a Israel. Foi saber que o dinheiro com que pagaram os egípcios pelo trigo que trouxeram fora-lhes inteiramente devolvido.
– Vejam bem a minha situação – disse Israel. Primeiro, é essa história do dinheiro. Por que foi-nos devolvido? O que eu mais detestaria é estar envolvido em algum episódio policial no Egito. Em segundo lugar, a detenção de Simeão. E, terceiro, a ida de Benjamim na próxima viagem. Considerem, meus filhos, ao menos por hipótese, que José já esteja morto. Não sei se poderei suportar o peso de tão graves acontecimentos.
Ruben tentou acalmá-lo.
– Confie em mim, pai. Afinal, sou seu filho – o mais velho – e nada faria para tornar ainda mais triste a sua vida. Se eu não trouxer Benjamim de volta, você até pode matar os meus dois filhos. Pode confiar em mim, pai – repetiu.
Israel não pôde deixar de sorrir diante daquele arroubo de Ruben!... Onde já se viu oferecer assim os filhos em sacrifício...
– Não, não posso concordar com isso e nem confiar. José já deve estar morto. Supondo que Benjamim fosse e lhe sucedesse algum desastre no caminho, eu certamente morreria de tristeza e desgosto.
A solução do problema, entretanto, foi protelada, visto que, até o momento, os mantimentos estavam sendo suficientes e não se cogitava no momento em uma segunda viagem ao Egito.