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Capítulo XII - Asenate

 

José estava bastante cansado. Envolvera-se demais com os problemas do reino. Percebeu que precisava afastar-se, por pouco que fosse, de suas responsabilidades administrativas e arejar a cabeça. Por isso, naquele dia resolveu sair um pouco e caminhar sem rumo pela cidade.

Assim, saíra a pé, sem pressa, sem preocupação, admirando a estrutura das edificações centrais de Tebas.

As construções, o traçado das ruas, tudo obedecia a complicados planos arquitetônicos elaborados pelos especialistas egípcios, que não descuidaram em momento nenhum da estética, da harmonia e da simetria dos conjuntos. E, admirado, percorria lentamente as vias mais próximas do centro que, por isso mesmo, eram mais bem trabalhadas.

– Mais digno ainda de admiração é o povo que aqui vive – reflexionava José enquanto caminhava. – Não apenas por sua capacidade de trabalho, mas especialmente por sua dedicação à própria cultura, seu afã em registrar de alguma maneira o que acontece, como se tivessem a certeza de que estavam fazendo algo que futuramente seria lido e interpretado por alguém.

Em pensamento voltou à sua terra. Sentia saudades dos pais, da casa, da fazenda...

A vida das pessoas, em sua terra, era bem mais bucólica, mais próxima e mais identificada com as atividades rurais. Bem, em muitas coisas seu povo era diferente dos egípcios. Em sua terra não havia grandes construções ou monumentos. Nem destacados engenheiros ou arquitetos.

– Nem creio que será por esse aspecto que meu povo será conhecido, visto que são todos homens simples, voltados para o campo – lavradores ou pastores. Tenho convicção, entretanto que, pela mão de Jeová, o povo que tem o mesmo sangue que eu mudará os rumos do mundo.

Lembrou-se nesse momento das diferenças básicas entre a sua religião e a dos locais.

– Embora ambos os povos se preocupem com a vida após a morte e creiam na existência de um deus, Jeová é atuante na vida de seus filhos, enquanto que os deuses daqui são passivos, estáticos.

Viu-se, de repente, olhando para as águas do Nilo, parado sobre um tapete de relva que o orvalho da noite umedecera. Era, realmente, para ficar quieto e sentir, usufruir a calma e o clima do lugar.

Assentou-se sobre uma grande pedra. Ali ficaria – pensou – por algum tempo, gozando o isolamento que normalmente não tinha.

Notou, entretanto, que não estava só. Outras pessoas, como ele, buscavam talvez ambiente favorável à introspecção e à meditação.

Levantando ainda mais os olhos, aproveitou para um exame mais acurado dos arredores. Assim, estendeu a vista mais ao longe, sobre o rio, até a margem oposta, contemplou a natureza que explodia ali, com suas árvores, milhares de aves – flamingos, íbis, colhereiras – e os famosos crocodilos.

Aos poucos foi encurtando o campo de visão, até chegar novamente ao ponto inicial de sua mirada.

Nesse momento uma jovem chamou a sua atenção. Fazia-se acompanhar por duas damas que a seguiam à distância. Alta e ereta, seu porte era altivo e aristocrático.

– Quem seria ela?

José notou a maneira com que se vestia. Trajava um vestido de cor clara com aplicações, simples mas delicadas, de pequenas pedras. As sandálias, que mal se viam sob a orla do vestido, eram da mesma cor deste. Na cabeça trazia um chapéu, largo o suficiente para protegê-la do sol que começava a ganhar o céu, mas insuficiente para esconder a sua beleza. Ambos os braços estavam literalmente envoltos em duas pulseiras em forma de serpente. Na frente, um pouco acima da cintura, ostentava um lindo peitoral de ouro cravejado com algumas pedras de turquesa e lápis-lazúli. E tudo isso servia de moldura para um bem delineado rosto. Sua pele era lisa e suave, morena como a de todos da região. Seus cabelos eram negros, assim como os olhos, que ostentavam longos cílios.

Era, enfim, uma bela mulher. Linda o suficiente para atrair a atenção de uma pessoa como José, cuja mente parece que sempre andava por outros espaços, cheia de graves problemas a resolver.

Lançou olhares significativos para José e rapidamente se afastou.

A cena deixou José imóvel por alguns instantes.

– Ah, se eu pudesse me aproximar daquela jovem! – pensou. Como eu gostaria de dizer-lhe que ela é linda e atraente. Qual será o costume aqui? Na minha terra os pais têm papel relevante na escolha de esposo ou esposa para os filhos, praticamente não dando a estes oportunidade de se declararem ao sexo oposto. Quer dizer – casamentos arranjados.

Via-se, assim, em um mundo novo, cujos caminhos – admitiu – não costumava trilhar.

– Parece que tenho perdido bons momentos da minha vida. Preciso recuperá-los, sem, contudo, descuidar de meus afazeres.

E, assim pensando, levantou-se e continuou a andar um pouco, tomando, enfim,  o caminho de volta ao palácio.

***

Ahmose havia mandado chamar José. Precisava tratar com ele de assunto importante. E, mais que depressa, José compareceu perante o monarca, que tomou a iniciativa do diálogo.

– Não sei o que vai no fundo do seu coração sobre a sua vida aqui. Longe da família, longe da pátria – às vezes penso que isso pode ser frustrante e negativo em seus sentimentos.

– Tenho aprendido a confiar no meu Deus. A filosofia que herdei de meus pais é que Jeová tem todas as coisas sob controle e, assim, creio firmemente nas promessas para minha família, as quais certamente se estendem a mim.

A resposta deixou o rei feliz. Então José não se sentia um exilado, um prisioneiro, mas tudo fazia com alegria no coração. Isso era muito bom.

– Você esteve passeando ontem à margem do Rio, não esteve?

– Sim, estive – respondeu José surpreso. - Que mal há nisso?

– Muito ao contrário. Não há mal e sim bem, ao que me parece.

José se sentia cada vez mais curioso.

– Aquela moça – que estava também passeando e que trocou olhares com você, é filha de Potífera, um dos sacerdotes do templo de Om. Seu nome é Asenate.

O Príncipe ficou animado e alegrou-se com o rumo que a conversa tomava.

– Ela não conseguia esquecer você, fez perguntas e descobriu a sua ligação com o palácio. Em seguida contou ao pai o episódio da troca de olhares e ele me procurou e... enfim, se você concordasse, gostaria de promover a aproximação entre os dois.

– É obra de Jeová – pensou José, totalmente absorto. –  E nisso gastou alguns segundos.

– E então, Zafenate – perguntou o Faraó, tirando José de seus pensamentos. – O que acha disso?

– Claro, majestade, seria um grande prazer conhecer melhor essa jovem. Está mesmo na hora de eu começar a pensar em constituir minha própria família.

– Começar... a pensar...  em constituir... Ora vamos, Zafenate, seja mais prático!!!

***

A alegria de José agora parecia completa. Com o beneplácito do Faraó e a bênção do pai de Asenate, dedicou-se à tarefa de conhecê-la melhor.

Daí a firmar compromisso de matrimônio foi muito rápido.

E a partir daí, todos os dias, ao cair da tarde, encontravam-se nos jardins do palácio real para trocar idéias, não apenas a respeito do casamento próximo, mas também sobre os respectivos gostos – coisas de apaixonados, tendo em conta que a vida é muito mais realística e exige muito equilíbrio e espírito de renúncia. Isso permitiu que grandes laços afetivos fossem se formando em torno deles e se solidificasse o relacionamento.

Certo entardecer, estavam ambos em silêncio, usufruindo as delícias de seus corpos que se tocavam. Nada diziam – apenas sonhavam. A paz foi quebrada por algo de que José se lembrava.

– Nos próximos dias não poderemos nos ver – informou. – Deverei estar percorrendo uma boa parte do vale do Nilo juntamente com meu secretário Apseth.

– Ah, que pena! Você tem mesmo que ir?

– Preciso fazer levantamentos para saber como andam os trabalhos de armazenamento e distribuição de produtos agrícolas. É certo que sentirei imensas saudades de você, que passou a ser o centro de minhas atenções e da minha vida.

– O mesmo irei sentir. Não será fácil vir até este lugar e pensar que você está longe. Contudo, a segurança que você consegue transmitir dá-me a certeza de que sempre voltará para mim.

Assim ambos ficaram, de mãos dadas, absorvendo a magia daquele momento e imaginando todo o amor que ambos pretendiam dar um ao outro.

– Sei que o que vou lhe revelar não receberá inteira aprovação de meu pai – declara Asenate. – Sinto-me muito feliz de saber coisas de sua terra, de seus costumes, de sua religião. Ora, pelo significado que tem o seu nome para o povo hebreu – “possa Deus acrescentar” – creio que, pelo menos na nossa intimidade continuarei a chamá-lo de José.

– No entanto, o nome que recebi do Faraó – Zafenate Panéia – também tem um profundo significado –  “Deus fala, Ele é vivo”.

– Sim, mas já tomei a decisão – “José!...”. Pretendo também neste particular estar submissa e ligada a você e aos costumes de seu povo.

Decisão que, evidentemente, não seria totalmente ratificada pelo pai – e nem por Ahmose, senhor dos Dois Egitos!...

***

Estava marcada a data do casamento de José. Seria simples, sem ostentações, bem diferente das festas organizadas pelos egípcios. –  “Festas pagãs”, segundo José.

Assim o casamento ocorreu em uma cerimônia íntima, na presença de Ahmose, dos pais de Asenate, membros da corte e restrito número de convidados. E um jantar especial, com a participação de pessoas muito ligadas ao Faraó e a Potífera, e marcado pelo excelente serviço de cozinha. Pratos especiais foram sendo apresentados aos convivas, que se deliciavam com carnes, frutas, peixes, legumes e sobremesas, preparados por especialistas na arte de bem servir. Tudo acompanhado por excelentes vinhos e outras bebidas.

Nesse dia, quem estava mais contente eram obviamente Asenate e José, que não conseguiam esconder a sua felicidade. Finalmente realizavam o sonho de serem marido e mulher, de se constituírem em uma só carne diante de Deus e dos homens.

***

Nos anos que se seguiram, ainda no período de fartura, Asenate presenteou José com um filho.

Fiel às tradições hebraicas, ele chamou o primogênito Manassés.

– Sabe, querida, Manassés devido ao seu significado: esquecer. Sim, Deus tirou de mim toda memória de minha conturbada vida, desde o tempo em que estava na casa de meu pai. O que significa que tem colocado em meu coração o desejo inabalável de trabalhar, de servir ao Faraó e de me dedicar à tarefa que está sobre meus ombros. Além disso tudo, o meu amor por você é o mesmo, ou ainda maior.

Passou-se o tempo e, quando chegou o segundo filho, novamente o sangue imperou e José pôs-lhe o nome de Efraim.

– Efraim, que quer dizer crescer. Jeová me fez crescer na terra da minha separação e, portanto, da minha aflição. Não que eu esteja sofrendo no Egito. Muito pelo contrário, as bênçãos e a prosperidade são tais, que só devo agradecer. Refiro-me à distância dos meus e à ansiedade em saber como estão, e às saudades da minha terra.

Veio-lhe ao coração a lembrança dos seus queridos. O pai, a mãe adotiva, os irmãos, a casa... Era, porém, uma lembrança tranqüila e gostosa, que não lhe causava a mínima aflição. Calcada, talvez, na certeza que tinha de que Jeová estava no controle de tudo.

***

– José – perguntou Asenate certa manhã, – não vejo o seu rosto alegre há já alguns dias. Parece também que não há mais tempo para mim e para as crianças. Você nem se demora às refeições o tempo costumeiro.

– Tem razão, querida. Peço que me perdoe. É que estamos às voltas com uma moléstia nos povoados que rodeiam a cidade. Estamos investigando. Acho que se não a contivermos onde ela se manifestou, brevemente estará atingindo a capital. E os resultados, você bem pode imaginar. Prometo que, tão logo haja uma definição desse problema, voltarei à minha vida normal.

 

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