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– Israel, você está visivelmente preocupado.
Léia estava sentada ao tear, confeccionando uma roupa para o marido.
– Eu sei – continua ela, – é a grande seca que o perturba. Claro, como alimentar a família, os trabalhadores e o gado? Enfim, como sobreviver a tão terrível carestia?
– Determinei aos empregados que fizessem um levantamento dos nossos prejuízos e o que apurei é um pouco alarmante: mais de sessenta cabeças de gado e centenas de ovelhas já pereceram. E nem se sabe por quanto tempo vai perdurar essa situação.
O chefe do clã estava muito compenetrado, rebuscando em sua mente uma solução para tão profunda crise.
Seus ancestrais ocuparam aquela região desde tempos imemoriais. Embora, de maneira geral, o solo hebraico não fosse de primeira qualidade, o lugar onde Israel morava era constituído por ótimas terras, fertilizadas por muitos mananciais. Dali várias gerações vinham tirando o seu sustento e a sua riqueza.
Agora, porém, tudo se tornara particularmente difícil. Não chovia, as correntes d’água baixavam, as lavouras estavam destruídas pela estiagem, os animais morriam às dezenas.
Não era sem razão, portanto, que o patriarca estava triste.
– Sabe, querida, não vejo outra solução a não ser recorrer aos nossos vizinhos. Já estamos no segundo ano de seca. Vencemos o primeiro mas, e agora? Nada temos colhido. Todos os povos à nossa volta sempre tiraram os recursos de sua subsistência das nossas montanhas ao redor e dos vales do Eufrates e do Tigre. Só que agora o panorama mudou. O gado não mais sobe os morros em busca de alimento e os nossos rios estão secos.
Seguiu-se período de silêncio, somente quebrado pelo tamborilar dos dedos de Israel sobre a mesa de madeira.
– Soube que há muita comida no Egito – arrisca ele. – De alguma maneira aquele povo está vencendo a crise, pois as informações que nos chegam são exatamente essas: eles têm o suficiente para sobreviver.
– Então, meu bem. Talvez seja uma boa idéia mandar os nossos filhos até lá para tentarem comprar alimentos.
– Sim, mas é preciso pesar as circunstâncias antes de tomar uma decisão importante como essa. Há os riscos e perigos da viagem. Deve-se também levar em conta o tempo que seria gasto. Será que tudo se fará em tempo razoável? Não dá para esperar muito. Caso contrário, morreremos todos de inanição.
– Como o saberemos, Israel, sem tentar? Note que faz parte da nossa filosofia de vida, da nossa fé, confiar nas providências de Jeová, mas também é verdade que devemos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para resolver os nossos próprios problemas.
Foram dormir aquela noite preocupados em achar a melhor solução.
No dia imediato, logo de manhã, quando Israel reuniu os filhos para lhes transmitir as suas ordens, estava muito abatido. Não apenas em razão de uma noite mal dormida, mas também porque há muito não reunia a família para um bom bate-papo. Para conversarem sobre assuntos prosaicos e banais. Sem pressa, sem nenhum compromisso de falar ou deixar de falar, por tarde que fosse.
Como era bom esse ambiente familiar, como fazia falta! Parece que ultimamente o clima se tornara tenso e até solene. E a conversa agora nada tinha de bate-papo ou de informal. Ao contrário, tratariam de assunto de suma importância: a sobrevivência da família, em quadra climática totalmente adversa.
O primeiro comentário feito com os filhos foi sobre a carestia, a penúria provocada pela seca. O gado morrendo, as lavouras irrecuperáveis. A situação era realmente dramática. Algo teria que ser feito.
– Pois é, meus filhos. Algo tem que ser feito.
O clima era de expectativa quando o pai lhes passou as instruções.
– Tenho ouvido rumores de que há mantimentos no Egito, e em abundância. Eis, portanto, o que faremos: vocês sairão imediatamente e descerão ao Egito para comprar trigo e só retornarão com a missão integralmente cumprida. Só assim conseguiremos sobreviver a esta tão grave seca. Preparem-se, levem com vocês as pessoas e o equipamento estritamente necessários, além do dinheiro indispensável para o percurso e para a aquisição dos mantimentos. Não diria que é empreendimento fácil. Muito ao contrário, terão de enfrentar na caminhada a poeira, o calor, prováveis saqueadores, e a distância de centenas de quilômetros.
Mesmo assim, todos se animaram com essa alternativa e concordaram na viagem.
– Vão, pois, e levem a bênção de Jeová, para que tudo dê certo, conforme planejado.
No dia imediato, dez irmãos juntaram tudo o que era reputado indispensável à longa jornada: animais de carga, sacos e balaios para o eventual transporte de trigo, auxiliares para o serviço de carga e descarga, além de cozinheiro.
Sim, dez irmãos, visto que, dos doze homens, um era José e o outro, Benjamim, o caçula, que não deveria acompanhar a caravana.
E Diná, que era mulher...
À simples menção do nome de Benjamim para compor a caravana, Israel já se colocou na defensiva.
– Não! – disse categoricamente. – Benjamim não irá. Imaginem que lhe suceda algum desastre, algum incidente semelhante ao ocorrido com José. Eu e sua mãe talvez não pudéssemos suportar.
Deveriam levar uns quarenta dias para percorrer os mais de oitocentos e cinqüenta quilômetros que os separavam de Tebas. Estavam, entretanto, animados pela perspectiva de sucesso no empreendimento, ainda que com grandes sacrifícios e a um alto custo.
A viagem seria penosa, cansativa, demorada. Teriam que parar inúmeras vezes para descansar, comer frugalmente e tratar dos animais. Era necessário um bom planejamento que permitisse atingir sem erros os pontos de parada, onde pudessem encontrar ao menos água.
Assim, repassaram mentalmente o trajeto. Alcançariam Damasco em quatro ou cinco dias, passariam ao largo de Hazor e depois de Dotã, rumo ao oeste. Igualmente seria vencido o percurso que incluía Betel e El Qantara. Do lado direito do caminho que imaginavam, e à distância, repousava o Grande Mar. À esquerda estaria o Mar Morto. O destino inicial seria alguma aldeia nômade, provavelmente tuaregue ou berbere. Precisavam contratar um guia para a difícil travessia da região desértica.
E assim, confiados na proteção de Jeová, partiram.
Após alguns dias de viagem, o percurso, cumprido de acordo com o planejado, levou-os a uma tenda tuaregue.
– Espero que resolvamos aqui a questão do guia – diz Ruben.
Não conheciam o dono daquela moradia. Contudo, a solidariedade falou mais alto que a desconfiança.
Sim, se é verdade que no deserto todos são inimigos potenciais, é verdade também que as dificuldades aproximam as pessoas.
Assim, foram-se chegando à casa, onde se encontrava o chefe.
Farouk – era esse o seu nome – não tinha residência fixa. Era nômade, como ocorria com praticamente todos os da sua raça. Assim seu pai fora criado, assim ele aprendeu. Tirava sua subsistência e a da família de pequeno rebanho de carneiros, que lhes fornecia carne e leite e, também de efêmeras lavouras plantadas junto a fontes de água ocasionalmente existentes. Muitas vezes, era o rebanho que determinava a direção que a família de Farouk devia seguir. Os animais iam sempre para lugares onde se mostrava mais abundante a pastagem natural, acabando por provocar também o deslocamento dele e dos seus.
Ruben adiantou-se em dizer-lhe sobre a necessidade que tinham de um guia, colocando-o a par da razão daquela viagem. É bem verdade que os diálogos e os debates eram dificultados pelo linguajar dos protagonistas, mas, com paciência e boa vontade, conseguiram um bom entendimento.
Feitos os tratos e aceita a incumbência, na manhã do dia seguinte reiniciaram a marcha.
– Precisamos atravessar as montanhas e o deserto da região do Sinai – informa Farouk. – Aí, sim, estaremos em plena caminhada pelo deserto da Arábia, já em direção a Tebas.
Os irmãos ouviam calados enquanto ele explicava, como que tentando memorizar o maior número possível de informações.
– Temos que aproveitar bem as horas. Estaremos marchando sempre nos horários de menor calor. Assim, todos os dias sairemos muito cedo e interromperemos a viagem antes do meio-dia. Reiniciaremos a caminhada à tardinha e andaremos até o sol se pôr completamente.
– Ótimo – diz Ruben. – No período noturno aproveitaremos para descansar, comer e dormir.
E assim foi. Vagarosamente – como ocorre com as caravanas – seguiam seu caminho. O itinerário escolhido por Farouk era, segundo ele, dos mais seguros. Entretanto, não estava fora de cogitação encontrarem pelo caminho guerrilheiros ou mesmo pessoas que, por quase nada, matariam, como conseqüência de situação de penúria ou desnutrição.
– Temos que nos desviar um pouco neste ponto, preferindo as trilhas mais à direita, reconhecidamente mais livres de riscos – disse Farouk.
Feita a correção do rumo, a caravana continuou.
O sol indicava o meio-dia. A marcha estava interrompida havia mais ou menos meia hora.
– Preparem-se – advertiu Farouk. – Vêem aquela nuvem escura do lado direito? É um “simum”, uma tempestade de areia. Dentro em pouco estará passando por aqui e praticamente nos sufocará.
– O que vamos fazer?
– Segurar muito bem tudo que for possível. Desde roupas, utensílios de cozinha, provisões, até animais. Façam com que os camelos e cavalos se deitem e protejam-se entre suas pernas.
O “simum” é um vento bastante comum nesta época do ano. É provocado pela brutal diferença de temperatura entre uma região e outra. A areia que se acumula na pele dos homens provoca desidratação, às vezes de caráter grave. Em algumas ocasiões, como estava ocorrendo, demorava várias horas.
Os hebreus ficaram retidos o restante da tarde e só puderam continuar a marcha no dia imediato.
A travessia, embora árdua, permitia ao observador admirar a beleza agreste do deserto.
– Olhem essas dunas – informa Farouk. – São formadas pela ação do vento e têm alturas que podem chegar a cem metros.
– Vejam ali – admira-se Issacar. – Aquele acampamento. Pessoas simples. No entanto, pode-se notar a tranqüilidade estampada nos rostos daquelas crianças, acostumadas que estão a essa vida.
Os nômades tinham o deserto como morada há séculos. Se de um lado isso lhes dava profundo conhecimento de suas potencialidades, por outro lembrava constantemente os embaraços e obstáculos comuns da região. Assim, aprenderam a conviver com a areia, a seca, a fome, a sede, mas também sabiam tirar os seus proveitos, conhecendo perfeitamente o melhor lugar para acampar com suas famílias e animais e ali eventualmente permanecer por um período que podia ser de dias ou até de anos.
Enquanto os viandantes observavam, caminhavam.
– Vocês estão vendo aquela caravana que vem em nossa direção? – perguntou Dã.
– Sim – responde Farouk. – São mercadores do deserto. Sua especialidade é transportar água e alimentos para vender a altos preços aos viajantes. Espero que vocês tenham trazido tudo em quantidade suficiente para o percurso.
– Quanto a isso esteja descansado – adiantou-se Natfali. – Nosso pai determinou fosse carregado suprimento bastante.
Uma das paradas ocorreu nas proximidades de algumas rochas calcárias. A curiosidade levou-os bem próximos a elas.
– Olhem – disse Isacar, – alguma coisa entalhada. Parecem pinturas.
Farouk adiantou-se em responder.
– São obras de arte bastante comuns na região. Aqui os artistas registram figuras de homens, animais e fatos históricos. Estas pinturas têm resistido ao tempo. Retratam, por assim dizer, a percepção que seus autores têm do mundo.
Uma coisa de suma importância para quem caminha por regiões inóspitas como os irmãos de José estavam fazendo é ter uma boa porção de paciência e força de vontade, superando assim as já esperadas dificuldades da travessia. Além disso, é necessário dosar o ritmo de viagem, visto que, pelas razões já expostas, não se pode pensar em ter pressa.
Duas semanas e muitas paradas depois, estavam entrando em território daquele imenso país.
– Estamos atravessando as fronteiras do Egito – informa Farouk.
E avançavam rumo ao seu destino – Tebas, a grande cidade egípcia!...