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A INVESTIGAÇÃO EM ANDAMENTO
O salão de festas do palácio de Potifar estava ornamentado com muito bom gosto.
Mesmo sem os arranjos encomendados para a ocasião, tratava-se de bela edificação, com dois níveis de piso, interligados por alguns degraus de mármore branco com veios cinza. O teto era formado por quatro grandes abóbadas, onde se delineavam pinturas de cores vivas. As mesas rústicas, com tampos de pedras de alabastro polidas com esmero, ostentavam vasos com os mais diversos tipos de flores – lótus, lírios, jasmins e rosas, além de jarras com vinho e outras bebidas. As paredes apresentavam-se decoradas com longas folhas de papiro.
À medida que os convidados chegavam, iam escolhendo os lugares melhores, ou seja, aqueles que estivessem mais perto do tablado, especialmente instalado para a ocasião.
Sobre ele estavam as poltronas dos convidados especiais, além da de Potifar, a de sua esposa e a do homenageado. Era também o lugar onde ocorreriam as apresentações programadas e a exibição dos artistas – declamadores, instrumentistas, dançarinos, atiradores de facas.
Esses espetáculos geralmente eram bastante longos e representavam horas e horas de entretenimento e iam até a madrugada.
Era um público especial. Era sempre assim nas casas das altas autoridades do país. E todos faziam questão de ser convidados.
Evidentemente que a recepção oferecida a José não passava de razão aparente e ótima oportunidade para mais um encontro de pessoas importantes e alegres. As mulheres, nessas ocasiões, exibiam os melhores vestidos e sapatos e traziam deslumbrantes penteados, no que eram auxiliadas pelas cabeleireiras mais conceituadas e competentes. Para elas, uma reunião como a que estava tendo lugar ali, era mais do que um banquete – era uma competição.
O ambiente estava, a um tempo, suntuoso e ofuscante.
José – o homenageado – pôde ver por entre as cortinas de uma das portas aquilo que o esperava. Estava contente e feliz por isso, embora não conseguisse esconder o seu desgosto em relação à sucessão de fatos que culminaram com a festa (desde aquele dia em que foi atirado dentro de um poço...).
– O que andariam fazendo seus irmãos? E os seus pais, como estariam? Ainda vivos? Como gostaria de ter notícias de todos eles!
Se esses pensamentos não chegaram a toldar o ambiente, ao menos fizeram-no retornar a contragosto a uma dura realidade.
Nesse momento percebeu que estava um pouco trêmulo.
Estava em andamento a primeira parte do plano de conspiração elaborado por Mector. Consistia ela em obter o veneno necessário à ação planejada.
Assim, o seu secretário particular preparou-se. Aguardaria que todos fossem dormir para sorrateiramente adentrar o laboratório.
– O lugar é permanentemente vigiado por um guarda – reclamou. – Como deverei agir para entrar?
– Creio que colocando o guarda fora de combate.
– Mas, senhor!
– Ele estará sozinho. Não haverá testemunhas. Uma pancada na cabeça será suficiente. Quando ele acordar lembrará, é evidente, de que foi desacordado, mas não ligará o fato à subtração do veneno.
– Deseje-me sorte – foi o que lembrou de pedir o funcionário, dirigindo-se ao seu objetivo.
Pé ante pé caminhou pelos corredores, ganhando lenta e vagarosamente a distância que o separava da porta do laboratório.
O guarda estava em seu posto. O silêncio reinante e o avançado da noite o haviam colocado numa espécie de entorpecimento. Não estava dormindo, mas fazia sua vigília com evidente desatenção. Afinal, há anos que servia o Faraó como guarda ali e nunca soube de nenhum incidente desagradável.
O secretário de Mector nada mais era que um vulto esquivo em meio à sombra do corredor. Aproximou-se ainda mais, esgueirando-se rente às paredes. Até que chegou a distância conveniente.
Levantou a maça e, com ela, desferiu um golpe na nuca do soldado, que caiu imediatamente. Rápido, apanhou as chaves e abriu o recinto.
Já previamente instruído pelo auxiliar de laboratório, dirigiu-se à prateleira que lhe fora descrita, abriu uma de suas portas e leu em um dos recipientes: “estricnina”. Transferiu a metade do produto para um outro frasco e bateu em retirada.
Ao passar sobre o corpo inanimado do guarda, teve a idéia de puxá-lo para dentro e fechar cuidadosamente a porta, para não levantar suspeitas.
Foi então que Potifar apareceu. Protegido pela pouca luminosidade e encostado a um vão da parede, pôde identificar o secretário particular de Mector que se afastava e, em seguida, socorrer o soldado, ainda inconsciente.
Potifar deu-se conta de que o fato era muito importante e que, por isso mesmo, não podia ser ocultado do rei. A partir daí o Faraó foi sendo inteirado daquela e de outras estranhas ocorrências.
Baseado em tais fatos, começava a ser montado por Potifar um esquema de investigação com vistas a descobrir e desfazer qualquer ação dentro do palácio. Evidentemente, temendo um resultado realmente nefasto, convocara muito mais pessoas que as empregadas por Mector em sua sedição. Era necessário, contudo, manter a calma e o equilíbrio emocional.
Aos poucos e de acordo com as recomendações expressas do capitão, dia após dia, hora após hora, foi sendo descoberto exatamente o que o cunhado do Faraó pretendia.
Com toda a influência que exercia não era muito difícil para Potifar e seus homens aproximarem-se das pessoas e indagarem o quanto fosse necessário para esclarecimento dos fatos. De tal maneira que, a cada momento, chegavam mais perto da verdade. Os movimentos, os passos das pessoas envolvidas passaram a ser seguidos dia e noite.
– Majestade, já chegamos a algumas conclusões.
– Então – admitiu Ahmose – há realmente uma traição em andamento no palácio! É muito triste saber. E quem está envolvido?
– Lamento informar, mas o movimento é encabeçado por Mector, seu cunhado, Pithis, secretário dele, o padeiro-mor e Nikesh, seu auxiliar, além de Usitep, irmã de V. Majestade.
Ahmose levantou-se de sua poltrona e caminhou aborrecido pelo salão.
Pessoas conhecidas, caras, até agora respeitáveis!... Era, sem dúvida, o suficiente para o monarca ficar apreensivo.
Se o golpe – chamemo-lo assim – era encabeçado por Mector e Usitep, pior para ele, Faraó. Tratava-se de pessoas da corte, com entrada e saída franqueadas permanentemente. Afinal, eram membros da família real.
– E como pretendem chegar até mim e executar a trama?
– Planejam dar a V. Majestade pães especiais, em cuja massa, porém, será adicionada estricnina em quantidade suficiente para matá-lo.
– Você sabe, Potifar, como é que a estricnina age no organismo humano, se administrada em doses elevadas?
Potifar abriu os olhos – e também os ouvidos – para melhor absorver a explicação.
– Provoca convulsões, que tomam a forma de contrações semelhantes às tetânicas nos músculos dos braços, pernas e corpo. O envenenamento pela estricnina porém, resulta mais da paralisia do centro respiratório do cérebro. É freqüentemente usada como veneno para ratos. Veremos, no final, quem são os ratos.
– Prepare-se pois, Majestade, visto que o desfecho será amanhã, por ocasião de sua refeição da tarde. O que pretendem é que, tão logo V. Majestade ingira o veneno e apresente sinais de falência geral dos órgãos, Mector conduza o filho e a mãe de V. Majestade à sala do trono, onde será anunciada a sua morte. Nessa ocasião, Mector se autoproclamará regente do império.
– Pois bem, capitão, considero-me preparado para a cena, embora não possa negar que estou bastante tenso e assustado com tudo isso.
Após alguns minutos de profundo silêncio e meditação Potifar se retirou, deixando sozinho o perplexo rei.
As vinte e quatro horas subseqüentes seriam de extrema apreensão.
Em animada conversa os convidados de Potifar aguardavam o início da cerimônia de apresentação do novo mordomo de seu palácio – José. Aproveitavam para colocar os assuntos em dia, como ocorria em qualquer outra recepção, em qualquer parte do mundo.
Ao toque dos instrumentos, todos pararam de conversar ou andar.
Levantaram-se e viram entrar o Capitão, num belíssimo uniforme de gala azul, com franjas e galões dourados, que deixava entrever no peito, do lado esquerdo, as inúmeras medalhas já conquistadas, ao tempo em que ainda fazia campanhas de guerra. Ele não era evidentemente o único capitão do reino mas, sem dúvida, era um dos mais elegantes e distintos. Além de que, um dos mais queridos do Faraó.
Os presentes não puderam deixar de notar a aparência preocupada de Potifar. Era como se estivesse ocorrendo um grave problema, desconhecido porém para os convivas, para quem o ambiente nada tinha de inquietador.
Após tomar assento em sua poltrona, todos também se assentaram e ficaram à vontade.
Em seguida, adentrou José, vestido de maneira bastante simples, mas com muito bom gosto. Escolhera uma túnica branca, trespassada na cintura e presa com um cinto azul claro, com motivos da mesma cor bordados à altura do pescoço e na barra, sob a qual mal se viam suas sandálias também brancas.
Dirigiu-se imediatamente à poltrona de honra a ele destinada à direita de Potifar. Do lado oposto estaria brevemente acomodada Netertini.
Desnecessário dizer que a simples expectativa da presença dela já incomodava José, cuja entrada causou invulgar interesse.
– Eis José finalmente – disse alguém. – Faz excelente figura. Espero que seja competente e preparado para o novo cargo.
Todos do grupo manifestaram sua concordância.
– É muito intrigante tentar saber por que o Capitão teria convidado um estrangeiro, um hebreu para cargo tão importante, já que contamos com tantas pessoas habilitadas aqui no reino – foi o comentário de um dos convivas.
– O nosso capitão terá razões suficientes para isso – argumentou uma jovem senhora. – Confesso, porém, que não estou nenhum pouco interessada nesse assunto. Aguardo ansiosamente a entrada de Netertini. Quero ver o seu vestido, o seu penteado, enfim... ela própria!
– E nós também.
Nem bem terminaram de falar, tocam novamente os instrumentos anunciando a chegada da esposa de Potifar.
Todos os olhares a uma vez se voltaram para a cortina sob a qual ela passaria para adentrar o salão de banquetes.
De repente entra ela, maravilhosa!...
Sua figura, já por si imponente, nesse momento estava deslumbrante. Quer pelo vestido – de seda dourada, salpicada de pequenas pedras vermelhas – que caía em linha reta até os pés; pelo penteado – o mesmo que usava quando do encontro com José; ou pelas sandálias – também douradas e ornamentadas com pequenos laços.
– Notem o seu vestido! De extremo bom gosto. Gostaria muito de saber quem costura para ela.
A conversa foi interrompida por pouco tempo, a um sinal do Capitão, que determinava o início do banquete.
Seguiu-se a entrada dos serviçais com um sem número de bandejas e pratos das mais variadas iguarias encontráveis no reino. Desfilavam assim, diante dos convivas, carne assada de búfalo, de camelo, de boi, de ovelha, tão comuns no país.
Além disso, havia a opção dos peixes – frescos e retirados havia pouco do Grande Rio –, que apareceram em bandejas lindamente ornamentadas.
Por cerca de duas horas todos estiveram com sua atenção voltada para o banquete em si – o que comeriam ou beberiam, o que mais haveriam de saborear.
Parece que só o capitão se mostrava inapetente. Limitou-se a um copo de vinho e algumas uvas.
– Capitão – disse alguém, – noto que algo o preocupa e o leva para longe daqui.
– Sim, tenente. Só que ainda não é momento de tornar público o assunto. Aliás, vou precisar da sua colaboração.
– Às suas ordens, Capitão.
– Procure-me amanhã bem cedo em meu gabinete de trabalho.
José percebeu certa movimentação de serviçais entre as mesas. Eram algumas servas que distribuíam lembranças aos convidados: cones de cera perfumada e pequenos vasos de junco com flores de lótus.
A essa altura do banquete mais uma vez o toque dos instrumentos chama a atenção dos convivas. Era Potifar que se levantava para falar.
– Saúdo a todos pela presença em minha casa. Quero que saibam oficialmente a razão de aqui estarmos reunidos. Esta festa marca a nomeação do hebreu José como mordomo do palácio e, assim, responsável por tudo de hoje em diante.
– Perdoe-me, meu capitão – interrompe um dos fidalgos presentes. Não está dando valor excessivo ao fato? O que tem em especial essa nomeação? Ainda mais de um estrangeiro.
– Quase lhe dou razão – responde Potifar, – uma vez que desconhece os motivos. Saibam todos, porém, que a escolha de José é uma das decisões mais acertadas que tenho tomado nos últimos anos. O hebreu vem cercado de bênção e prosperidade e muito me convém a sua presença no palácio e em meus negócios. O tempo dirá se tenho razão.
Todos se calaram, espantados.
Passou-se então à exibição de vários artistas, desde malabaristas, comedores de fogo e encantadores, até dançarinas seminuas e sensuais que, ao som de harpas, liras e tambores, executavam suas evoluções com graça e desenvoltura.
José a tudo assistia, quase impassível. Acostumado a uma vida austera e simples em sua terra, estava tentando assimilar com a maior rapidez possível tudo o que acontecia.
– O que está achando das dançarinas, José?
Aquela voz sua conhecida quase o assustou. Era Netertini que se aproximara por detrás e agora se sentava ao seu lado e sussurrava aos seus ouvidos.
– Você não fica inflamado diante dos corpos expostos das dançarinas e de suas evoluções? Não lhe parece que o estão convidando a algo mais íntimo?
O objetivo de Netertini era óbvio: abalar o equilíbrio emocional daquele que ela via não só como homenageado, mas como uma presa.
– Pois é, idêntico e apaixonado convite eu já lhe fiz.
– Contenha-se! Alguém pode ouvir o que você está dizendo e isso não seria bom para mim e nem para você.
Ela afastou-se um pouco.
– Quanto ao seu convite, você já sabe: a resposta continua sendo não. Prefiro concentrar-me, a partir de amanhã, nas minhas novas funções, já bastante difíceis sem a sua interferência. E se o meu Deus quiser me dar esposa nesta terra, certamente será alguém livre para isso.
Netertini não conseguiu esconder a sua decepção e constrangimento diante da intransigência de José.
– Você vai se arrepender dessa decisão. Espere e verá! – foi a ameaça que ele ouviu.
Independente do que ocorria entre os dois, a festa continuou noite afora.
A madrugada encontrou quase todos – Netertini e convidados – meio adormecidos pelo cansaço e pelas bebidas, reclinados onde podiam, como, aliás, ocorria em todas as festas do gênero.
Todos dormiam.
Menos Potifar.
E José... e mais alguns...!
– Tudo pronto? – perguntou Mector ao seu secretário particular.
– Sim.
– E Pithis?
– Avisado.
– E o seu ajudante?
– Trabalhando a massa.
– Então, hoje à tarde.
– Sim. Lembre-se, Mector – reitera o secretário, – procure omitir o meu nome de toda essa empreitada.
– Não se preocupe com isso – foi a resposta que recebeu.