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Era grave a situação que Netertini estava criando e que José, mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar.
Ele considerou como era difícil resistir. De um lado, como que a lhe ditar um comportamento, sua moral, sua seriedade, seu desejo de agir sempre debaixo das ordenanças de seu Deus; de outro, a beleza, a atração e a sedução exercidas por Netertini que – admitiu – eram quase irresistíveis!
– Senhor Jeová, necessito muito da Tua mão forte sobre mim nesta situação embaraçosa. Dá-me forças para resistir à tentação. Não permite que o instinto fale mais alto. Afinal, Senhor, o nosso povo tem se ajustado, através dos anos, a um comportamento moral e social ditado por Ti mesmo. Sê comigo!...
A contragosto admitiu que o seu povo era muito desobediente à voz de Jeová.
Por outro lado, as tentativas de aproximação da esposa de Potifar estavam se repetindo muito amiúde. Esse fato, além de extremamente constrangedor para ele, causava-lhe falta de concentração, atrapalhando-o em suas atividades como mordomo do capitão.
O fato é que uma verdadeira idéia fixa tomava forma na cabeça de Netertini e se transformava na razão de ser de sua existência, invadindo toda a sua vida como uma torrente avassaladora. Parece que nada mais importava em sua existência.
Tudo começou com a chegada do hebreu ao palácio de seu marido. E, aos poucos, aquele sentimento foi crescendo. O quase isolamento dela, apenas quebrado por um grupo de serviçais que a rodeavam dia e noite, criava o ambiente propício às suas fantasias. Assim, nos momentos que passava nos jardins, ou nas piscinas, sauna e quarto de dormir, seus pensamentos eram sempre dirigidos a José. Já não comia sem tirá-lo de sua cabeça; nem descansava sem tê-lo mentalmente diante de si; não se deitava sem que a figura daquele hebreu tomasse conta de sua cabeça, como se fosse um sonho – geralmente mau, já que José nada queria com ela.
Relegava, assim, a segundo plano sua vida conjugal, sua reputação, seu futuro como esposa de um oficial poderoso como Potifar, arrostando consigo todas as possíveis conseqüências de seu ato. E seus desordenados pensamentos tornavam para ela ainda mais distante a compreensão de tudo.
Diga-se, no entanto, que seus sentimentos eram reais e verdadeiros e não se restringiam à mera atração física. Na verdade, no fundo do seu coração brotara e tomava forma um irresistível – e também indefinível – amor ao hebreu. Amor que tirava o sono. Amor que tirava a fome. Amor que consumia...
Aliás, alguém já descrevera esse tipo de amor como sendo um castigo, uma sina.
– Vou jogar tudo neste propósito – dizia ela para si própria.
E quanto a José? Como estaria se sentindo naquele momento?
O comportamento de Netertini transformava-se aos poucos em preocupação séria para ele, que de maneira alguma pretendia trair a confiança de seu amo.
Desgraçadamente para ele, as abordagens se sucediam nos mais diferentes lugares do palácio – nos corredores, nas escadarias, nos jardins e, através de olhares, mesmo em público.
O capitão estava um tanto alheio a esses fatos. Nos últimos dias estava concentrado em algo muito importante que ocorria no palácio real.
Efetivamente, aquela investigação sobre um possível atentado ao Faraó estava absorvendo todo o seu tempo e praticamente o tirava de seu próprio palácio e o afastava do convívio do lar. Nesse período, várias vezes Netertini recolhera-se ao leito sozinha, sem a companhia do esposo. Com o temperamento que tinha, essa situação a aborrecia e a deixava tensa e inflamada. Ficava horas e horas acordada, mesmo sabendo que ele não poderia vir.
Nesses momentos, vinha-lhe à cabeça a figura de José. E sua mente fértil levou-a à idéia de que não podia perder essa batalha.
– Da maneira que as coisas se colocam – refletia ela, – é quase certo que nada irei conseguir de José.
A alternativa era pensar em alguma ação mais agressiva, nem que representasse o reverso do amor. Algo – quem sabe? – que pudesse abalar a estrutura do hebreu.
– Tenho que encontrar uma maneira de prejudicá-lo, um incidente que o coloque em posição de descrédito e de desobediência diante de meu marido, já que são inúteis os apelos diretos.
E tomou uma decisão bastante temerária. Furtivamente dirigiu-se aos aposentos de José.
Encontrou-o, como sempre, próximo à sua mesa de trabalho. Achava-se absorvido em alguns planos de restauração das dependências externas e das piscinas.
Ela estava visivelmente excitada, sua voz tremia. Isso porém não a impediu de tirar proveito da ocasião para atirar maliciosas setas em direção ao hebreu.
– Você não tem atendido aos meus recados. O que está acontecendo? É falta de tempo ou posso atribuir isso à sua arrogância, indiferença ou – por que não dizer – frigidez?
José estava mais uma vez frente a um ambiente bastante pesado. Numa das ocasiões em que isso acontecera, pensou em levar o assunto ao conhecimento de Potifar, tendo desistido porém.
E considerar que nesta nova investida Netertini ultrapassara os limites do decoro e do admissível, não se importando com as conseqüências do seu ato!...
– Netertini, você me prestaria um enorme favor se saísse agora e me deixasse em paz.
Inicia-se o assédio.
– Deite-se comigo, José! – implorou ela, passando as mãos sobre sua roupa. – Aproveitemos que há pouca gente nesta ala do palácio. Muita gente sofre por males, por doenças, notícias tristes, o que é admissível. Mas, não me faça sofrer por amor!
José colocou-se na defensiva, procurando interpor ali uma barreira muito mais emocional do que física, o que lhe era muito difícil, diante da beleza dela.
– O que há? Não sente atração por mim? Ou será que você me acha feia ou desprezível?
– Não, muito pelo contrário – confessou José. – Você é muito bonita e atraente, Netertini. Isso é o pior de tudo!...
– Você já imaginou o poder que tenho junto ao meu marido? Tem idéia do prejuízo que posso causar no relacionamento que você tem com ele?
José fez um gesto de desdém e sorriu, procurando evidenciar a segurança que tinha no seu desempenho como mordomo.
– Venha para a cama. Eu humildemente imploro. Não me negue este momento. Daria a minha vida por ele!
O hebreu afastou-se dela e, outra vez, tentou distanciar-se da simples idéia de ceder aos seus pedidos.
Diante de nova recusa, mais que depressa Netertini aproxima-se rapidamente, agarra-se a José, tentando envolvê-lo com seus braços.
Quase que inutilmente o hebreu tentou desvencilhar-se daqueles verdadeiros tentáculos que o ameaçavam e transformavam em verdadeiro palco de guerra uma cena que tinha tudo para ser de amor.
Vendo que eram vãos os seus esforços, Netertini puxou José para perto de si com força pela túnica.
Este, apanhado de surpresa, tentou afastar-se com um solavanco, deixando para trás as roupas, e fugiu do seu próprio quarto seminu, atravessando transtornado os corredores do palácio.
Ela imediatamente considerou: – Bem, se ele correu para fora quase sem roupa e eu estou com suas vestes em minhas mãos, vou inverter os acontecimentos, que me eram adversos, fazendo-os ficar a meu favor, através de uma manobra bastante simples...
E correu atrás dele, gritando para alguns homens que ali estavam.
– Vejam só: vocês trouxeram o hebreu para dentro do palácio só para zombar de mim. Olhem o que ele fez. Invadiu os meus aposentos e fez-me propostas de se deitar comigo. Percebendo que eu gritava por socorro, saiu correndo e deixou sua roupa em minhas mãos.
A notícia espalhou-se rapidamente no palácio, como rastilho de pólvora. Todos comentavam, boquiabertos. Desde os faxineiros, os cozinheiros e os copeiros, até os servidores mais graduados. Que escândalo era esse que um estrangeiro estava praticando, e logo contra a esposa do seu patrão, o Capitão Potifar, comandante da guarda palaciana?
Potifar, como sabemos, estava ausente. Dessa forma, o clima ficou extremamente tenso e assim permaneceu até que ele pudesse deixar suas atividades no palácio real e voltar à casa.
Ao chegar, pois, o capitão, desnecessário é descrever como se sentiu ao ouvir da boca de um dos assessores o relato do episódio.
– Eu bem imaginava que não podia confiar nesse hebreu! – falou com evidente ira.
E, com essa frase, contrariava o que ele próprio pensava de José.
– Mais esta, logo agora que tenho ficado ausente do meu palácio, tentando defender a integridade do rei.
Enfim, eram as evidências que o obrigavam a tirar essa conclusão.
Nesse momento, entra Netertini exaltada.
– Sabe de quem são estas roupas? – pergunta ao marido, exibindo a túnica que tirara de José. – São do hebreu que você tão bondosamente acolheu em nossa casa.
Aquilo quase chegou a abalar o capitão que, entretanto, não quis demonstrar muita comoção.
Obviamente, aguardaria melhores informações sobre o ocorrido. Não queria agir com precipitação, nem decidir sem ter certeza das acusações. Afinal, todos sempre esperaram do capitão equilíbrio e bom senso em todas as vezes que fora chamado a deliberar sobre coisas importantes. Agora não poderia ser diferente.
Considerou também que nada devia resolver sem ouvir melhor alguns serviçais do palácio e sua própria esposa. Deixaria tudo como estava até o dia seguinte, para ter tempo de refletir.
E assim foi. Acalmou-se, desfrutou como pôde as comodidades de seu lar. Foi para a cama tarde e não conciliava o sono, a despeito das muitas e muitas caminhadas em círculo dadas pelo quarto.
– Venha, meu bem – disse-lhe a esposa. – Não adianta se amofinar. Deite-se e durma. Tenho certeza de que amanhã tudo será resolvido e José receberá a punição que merece. Quero que você saiba, contudo, que nada de mais grave aconteceu entre nós dois e que a sua honra está preservada.
Mais calmo, talvez pelo tom meigo da voz da esposa, deitou-se e acabou dormindo.
Na manhã seguinte, após um prolongado e reconfortante banho, tomou calmamente o seu desjejum e assentou-se ao lado de Netertini.
Nenhum dos dois falava. Chegara à conclusão de que o que mais precisava agora era ter equilíbrio emocional e deixar a pressa de lado.
Mais tarde, no salão redondo – não tão grande quanto o de audiências, mas suficiente para o que pretendia – reuniu aqueles que havia convocado para darem suas explicações sobre o inusitado episódio. Ouviu a todos e, por último, quis saber da esposa a sua versão.
– Querida, várias pessoas deram o seu depoimento. Entretanto, prefiro saber por você o que ocorreu. Afinal, que grande mal José nos infligiu?
Netertini, após alguns minutos de choro e tremor providenciais e com uma atuação teatral impecável, repetiu a sua versão do episódio.
– Esse José em quem você deposita tanta confiança, aproveitou exatamente dessa condição: procurou-me com propostas obscenas e já me forçava a que me deitasse com ele, quando, diante de minha reação, fugiu nu para o corredor e eu saí correndo atrás dele com suas roupas em minhas mãos, como podem confirmar os nossos criados.
Com essa falsa declaração Netertini conseguiu que o prestígio de José sofresse uma reviravolta.
Finalmente o sangue subiu à cabeça do capitão. Não obstante já soubesse do fato pela boca dos depoentes, sentiu-se agora moralmente ferido por aquela declaração e viu que sua dignidade estava em jogo.
Como ficaria perante seus serviçais? Que diriam os militares a ele subordinados e, no topo da escala hierárquica, que explicação daria ao Faraó? Preferiu, contudo, aguardar até que novamente se acalmasse. Aí, sim, decidiria o que fazer com José.
Mais um dia passado, convocou o mordomo à sua presença. Aquela confrontação deixava o capitão pouco à vontade. Estava diante de um jovem hebreu inteligente, culto, com respostas prontas, que estava assimilando rapidamente a língua, os costumes e tudo o mais daquele país e isso o incomodava. Estava forçando uma situação, talvez, no fundo, pouco convencido de suas razões.
– Parece que, enfim, os meus convidados para o banquete é que tinham razão. Eis no que deu tê-lo escolhido para mordomo em meu palácio, com total liberdade de locomoção. É evidente que não soube corresponder à confiança que depositei em você.
José tentou tomar a palavra para desfazer o mal-entendido, mas nada conseguiu.
– Suplico a V. Alteza o direito de me explicar, pois creio que, depois de servi-lo lealmente, ao menos isso eu mereço.
– O que você merece está bastante claro: perdeu a confiança que sempre depositei em você. Que é isso que nos infringiu, hebreu? Não posso entender a rápida reviravolta no seu procedimento. Estou atônito.
O hebreu, cabisbaixo, aguardava a decisão.
– Perderá o cargo de mordomo que tem em meu palácio. Vou ter que mandá-lo para o calabouço, que é o lugar que você merece.
Ato contínuo, Potifar determinou que ele fosse detido e enviado ao calabouço real, à ‘casa do cárcere’, lugar temido por todos e ao qual tinham acesso poucas pessoas – o diretor da prisão, as equipes de guardas e carcereiros, o carcereiro-mor e mais ninguém. Não era uma prisão qualquer, para pessoas comuns, mas sim uma verdadeira fortaleza, de onde ninguém conseguia sair e destinada a pessoas acusadas de pesados crimes, que ali deveriam amargar uma longa pena.