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Vii

 

Capítulo VII – No calabouço

 

Um alvoroço à entrada do cárcere chama a atenção de todos, prisioneiros e soldados. O barulho das correntes se arrastando sobre as pedras do corredor, naquele lugar ermo, parece ainda mais forte. Acabam de trazer um novo candidato ao confinamento. Um novo prisioneiro.

Trata-se de um jovem bem aparentado, trajando boas roupas. O seu porte é altivo, mas sem afetação. Sua estatura é maior que a média dos locais. Sua presença impõe respeito naturalmente. Nota-se que não se trata de um compatriota.

– Aquele prisioneiro que acaba de chegar não é o escravo hebreu José, que fora designado por Potifar como seu mordomo, seu segundo homem no palácio?

A pergunta parte de um dos membros do destacamento que fazia o turno de guarda na prisão, sumamente interessado em esclarecer aquilo.

– Sim, é ele mesmo. Lembro-me da recepção que o capitão deu em seu palácio quando o nomeou mordomo de sua casa. Que crime terá cometido para vir parar aqui?

José, por sua vez, estava ali, sentado, cabisbaixo, sob grilhões, atônito, mas, nem por isso, menos esperançoso das providências divinas. Tomadas as medidas burocráticas de praxe, os pulsos de José foram soltos das cordas, bem como os seus pés dos grilhões.

Aos poucos se deu conta de que estava liberto das cadeias que o prendiam, se bem que limitado pelas grades e pelos altos muros daquele lugar.

Entregue aos cuidados do carcereiro-mor, passou a ser apenas mais um no universo daquela prisão. O hebreu, aos poucos, se deu conta da terrível situação que fora criada. Mais parecia um joguete nas mãos dos outros – desde que seus irmãos arremeteram contra ele, fazendo-o prisioneiro, passando pelas mãos dos caravaneiros, dos mercadores e, finalmente, de Potifar que, por sua vez, o encaminha à prisão.

Finalmente, tudo foi devidamente explicado pelo carcereiro-mor, que colocou os soldados a par do episódio. Fora uma ordem de Potifar tão clara quanto terrível. Ficaria preso por tempo indeterminado, sem julgamento. Ele era acusado de crime contra a honra do Capitão, que estava realmente furioso.

José não estava compreendendo muito bem aquilo. Na verdade, nada fizera para merecer a condenação. Entendeu, contudo, que pessoas levadas por uma emoção tão violenta como a que tomara conta de Netertini são capazes de tudo.

– Eu subestimei a sua maldade e o seu poder – pensou.

O carcereiro, por sua vez, continuava a dar a sua versão. A verdade é que uma determinação de Potifar não admitia qualquer contestação. Ainda mais em relação a uma pessoa que adentrara o país na condição de escravo e que, parece, não soube corresponder à confiança nele depositada.

– Dizem que ele tentou seduzir a mulher do Capitão Potifar, chegando quase às vias de fato. Afirmam que foi apanhado nos corredores do palácio literalmente nu. 

E assim os comentários se sucediam na prisão, com maior ou menor dose de malícia, a respeito dos quais José, embora ouvindo todos, nada podia fazer. Somente que isso o deixava profundamente magoado.

Com efeito, ele ali estava, reduzido a mero detento, sem julgamento, movido pelo capricho de uma mulher. Buscava explicar o episódio à luz das promessas que Deus tinha para sua vida.

– Creio que tudo que está acontecendo obedece a um plano superior diante do qual eu devo me curvar – admitia ele para si mesmo. – Tenho por certo que no momento aprazado tudo será esclarecido.

Um fato, porém, era inegável: o “dom da prosperidade” que provinha de José estava presente até mesmo ali naquela fortaleza, naquele cárcere.

O carcereiro-mor percebeu isso e decidiu submetê-lo a observação constante, pelo menos nos primeiros dias de cadeia. Nada viu que pudesse desmerecê-lo. Muito ao contrário, sentiu um clima de otimismo naquele lugar a partir da chegada do filho de Israel. Nada impedia, pois, que lhe fossem atribuídas algumas tarefas extras, mesmo nas condições de detento.

Aos poucos aproximando-se dele, logo viu em José um jovem sério e de confiança, ainda mais sabendo que fora confinado – agora concluía – sem qualquer explicação razoável.

A estratégia do carcereiro-mor permitiu que os dias seguintes fossem de grande importância na vida de José. Conversava constantemente com o hebreu e tinha indisfarçável curiosidade sobre a sua vida.

Com o decorrer dos dias, passaram a trocar experiências sobre os seus respectivos povos, suas vidas, seus gostos... Da mesma maneira que José estava grandemente interessado em se inteirar das coisas do país onde estava, também o carcereiro queria saber particularidades da terra dos hebreus, de onde José procedia.

– Confesso, José, nada melhor para saber de um determinado lugar do que conversar pessoalmente com alguém de lá.

Numa dessas conversas, José aproveitou o ensejo para dar a sua versão sobre o episódio que culminara com a sua prisão. Este último diálogo acabou por convencer definitivamente o carcereiro.

– José, pretendo colocá-lo como responsável pela prisão. Assim, você poderá entrar e sair livremente da parte interna, onde está o xadrez, e poderá andar por toda a fortaleza. Além disso, ficará com todas as chaves e terá sob a sua responsabilidade todos os demais presos. Que lhe parece?

José começou a readquirir a sua confiança. Sabia que Jeová estava por trás de tudo e que não lhe negaria apoio, como nunca negou em momentos decisivos de sua vida.

– Dar-lhe-ei, meu amigo, a mesma resposta dada ao capitão Potifar: já que mereço de você tanta confiança, aceito de boa vontade a tarefa que, asseguro-lhe, procurarei desempenhar a contento.

E, a partir desse dia, o carcereiro não teve mais cuidado de nada. José assumiu a sua tarefa e, como sempre, houve prosperidade em tudo – não só na cadeia, em sentido estrito, como na fortaleza, em sentido amplo. A qualidade de vida dos presos, a comida, o ambiente, enfim, tudo foi alcançado pelo dom que procedia de José.

***

O sol anunciava mais uma tarde. Era aquele um belo dia, muito mais apropriado a coisas alegres, produtivas e otimistas.

Entretanto, no palácio o clima era bastante tenso – ao menos para aqueles que estavam envolvidos na trama.

O Faraó acabara de tomar um excelente vinho em uma taça de prata. Estes vinham de regiões viníferas do país, como também eram importados dos principais países produtores. Comeu algumas frutas e alguns pedaços de carne de javali especialmente grelhados para ele.

– Acertei com a escolha do cozinheiro-chefe. Cozinha muito bem e tem sempre novidades para pôr na mesa – conjetura o monarca.

Como de praxe, várias pessoas o acompanhavam nessa refeição. Entre elas estavam Mector e Usitep.

Aliás, podemos dizer que não faltariam a esse momento por nada deste mundo. Queriam comprovar pessoalmente que tudo dera certo.

Aparentavam despreocupação.

Nesse momento entra Pithis, o padeiro-mor, com um belo cesto de pães que, ainda quentes, despertavam o apetite.

Ahmose chega a encenar que vai pegar um dos pães e levá-lo à boca, instante esse em que todos prendem a respiração – a saber, todos que sabiam da maquinação.

Nesse exato momento Potifar intervém, arrebatando das mãos do padeiro o cesto com os pães.

– Tenho suficientes razões para crer que está havendo uma tentativa de assassinato do nosso Faraó. Ficarei com este cesto de pães para um exame mais minucioso.

– Sim – completa o Faraó. – Mector, Usitep e Pithis, vou ter que detê-los.

– Mas como? – pergunta cinicamente Mector. – Não estou entendendo a razão de toda essa celeuma. Nada fizemos para merecer esta humilhação.

– Nada fizeram, não é? É o que veremos – responde Ahmose. – Por enquanto ficarão confinados em seus aposentos.

***

A análise dos pães só veio confirmar as suspeitas. Continha, realmente, estricnina em dose suficiente para matar um elefante.

Desfez-se, assim, toda a trama. Os responsáveis foram devidamente identificados. Agora, era definir o destino de cada um.

O Faraó estava inseguro e indeciso. O que fazer, por exemplo, com Mector e Usitep? Afinal, eram seu cunhado e sua irmã. Executá-los, pura e simplesmente? Ou mandar prendê-los no calabouço, numa situação vexatória, ao lado de detentos comuns? E o que dizer do secretário particular de Mector, que, certamente, fora envolvido e engodado por promessas de seu superior?

Resolveu que chamaria a si, pessoalmente, a decisão sobre o futuro dos mesmos. Concedendo a si próprio um dia para meditar sobre o assunto e amadurecer a idéia, tentou conciliar todo o burburinho que se desenrolava em sua cabeça com os assuntos do dia e, obviamente, com seu relacionamento familiar. E isso não seria nada fácil.

– Querido – é a voz de Nefertari. – Eu imagino como você se sente. É tudo tão inesperado e surpreendente.

– Realmente. Nunca atravessei momentos de tanta tensão como agora. É para mim muito difícil!

– Queria pedir-lhe um grande favor. Poupe Mector e Usitep. Não lhes faça mal. Expulse-os daqui, mande-os para fora do Egito, para uma de nossas colônias. Creio que isso seja suficiente para castigá-los.

– Vou pensar – promete o Faraó.

Durante a noite, a cabeça de Ahmose mais parecia uma fornalha com brasas, cores vivas, alucinações. O que se propusera a resolver, especialmente nessas horas da noite, que foram feitas - isto sim - para dormir, era um verdadeiro quebra-cabeças, um problema com múltiplas facetas e inúmeras alternativas. Por isso, a noite lhe foi ingrata, molesta, quase que improdutiva.

 

***

No dia seguinte a decisão estava tomada.

Ahmose, adotando a idéia da esposa, determinou que Mector e Usitep fossem imediatamente para a Líbia, onde permaneceriam degredados por tempo não inferior a dez anos. Pithis, o padeiro-mor, ficaria preso na “casa do cárcere”, aguardando a definição do seu destino. Os demais seriam apenas expulsos do palácio, visto que não eram os responsáveis diretos pelo episódio.

Ahmose respirou, parecendo satisfeito com a decisão. Visara, assim, a prejudicar o menos possível aqueles que atentaram contra a sua vida.

Os caminhos das pessoas estão sempre se cruzando. Desta vez, a coincidência estava em que, para a mesma prisão para onde ia Pithis, estava sendo conduzido também o copeiro-mor do palácio, Acktar, por – digamos – desídia, uma vez que, em determinada ocasião, não estava presente no momento de provar as bebidas reais. Preferira se embriagar.

 

***

– Por que você está aqui, amigo? Por que compartilha conosco este horrível lugar? Que mal você fez para merecer este castigo?

Estas indagações foram dirigidas pelo prisioneiro José a um ser que acabava de ser conduzido por um pelotão de soldados.

Tratava-se de um pobre coitado. Exibia um corpo queimado pelo sol. Suas mãos estavam calejadas pelo trabalho pesado. Suas roupas eram simples e sujas, denotando tratar-se de um escravo. Aparentava profunda desolação e tristeza. Parece que o abatimento e o desânimo tiravam-lhe até a voz.

Depois de algum tempo, recomposto, conseguiu falar.

– Acabo de ser condenado por ter matado o meu amo – foi a resposta.

Mesmo estando diante de um assassino confesso, José não sentiu a menor perturbação.

– E você realmente o fez?

– Sim, confessei o crime durante o julgamento – disse, enquanto entrava na cela indicada. – Não creio que negar tivesse sido melhor. Além disso, eu estaria mentindo.

Entre os dons de José estavam também a compaixão e a paciência. Assim, em lugar de isolar Aptesh – era esse o nome da criatura, aproximou-se dele e, dia após dia, dedicava-se ao trabalho de conhecê-lo melhor. Ficou com muita pena.

Realmente, aquele homem carregava culpa em suas mãos. Agredido com um pesado porrete, havia revidado e matado o patrão, enforcando-o com raízes de papiro e atirando em seguida o corpo no Nilo. Entretanto, nas entrelinhas da sua versão, notava-se que o fato acontecera mais por instinto de defesa pela agressão que sofrera por parte de seu amo, tido pelos que o conheciam – segundo o narrador – como muito violento, não hesitando em espancar quem o desobedecesse. E, no caso específico desse escravo, as agressões se repetiam freqüentemente.

José pôs-se a meditar naquilo tudo. Era, com efeito, um homicídio movido pelo instinto de autodefesa, além de resultante de violenta emoção.

– Diga-me, Apseth. O que você realmente sentiu no momento?

– Por que a pergunta?

– É que você tirou a vida de um homem. Estou falando pela óptica da religião e da moral. Ninguém tem direito de fazer justiça com as próprias mãos. Algo assim é um verdadeiro estigma e acompanha nossas vidas pelos anos afora.

– É – considera Apseth, – eu tenho pensado muito nisso. E peço a Deus que me perdoe. Mas foi a única reação possível no momento. Lembre-se de que eu vinha sofrendo toda aquela pressão e constrangimento há muito tempo.

Ambos quedaram em silêncio por alguns momentos.

– Olha, José. Eu conheço muita coisa do seu povo que... digamos... nunca foi um exemplo de bondade. Sempre houve ali, desde mortes, homicídios, maldições, até desobediência ao seu Deus, a ponto de ter Ele se arrependido de ter criado o seu povo. E as guerras de conquista? E, mesmo assim, o Senhor sempre esteve pronto a perdoar.

– É – ameaçou argumentar José, – mas...

– E quanto à discriminação e o racismo hoje existentes não só lá como aqui nesta terra? Você não tem nada a dizer? Coisas que você também sofreu, situações que você passou, segundo o seu próprio relato, envolvendo a ira e a inveja de seus irmãos?

– Quanto a isso, você tem toda a razão. A verdade é que enquanto os poderosos deste mundo forem impelidos pelas atitudes de revide, pelo preconceito, pela discriminação e pela ânsia de poder, os fracos e desvalidos continuarão sofrendo. Fico imaginando se fosse o contrário – que fosse o seu ex-patrão o acusado, qual teria sido o desfecho do julgamento!...

Aquele diálogo deu muito que pensar a Apseth. Mas, incrivelmente, serviu para solidificar ainda mais a amizade entre ambos.

 

***

Com o passar do tempo José notou, surpreso, naquele homem traços culturais incomuns no grupo social de onde procedia. Seu linguajar era perfeito, falava praticamente sem erros. Seus conhecimentos de línguas e das ciências em geral surpreendiam.

– Onde foi que você aprendeu tudo isso?

– Alguns anos atrás acolhemos em nossa casa, às escondidas, um velho sábio nômade, que chegara quase morto de fome e complicações pulmonares.

Aquela narrativa estava despertando a curiosidade em José.

– Vamos, continue.

– Eu, que era ainda bastante novo, interessei-me, muito mais que meu pai ou minha mãe, pela recuperação daquele homem – um profundo conhecedor de várias ciências. O homem foi aos poucos se recuperando, até sarar por completo. Era um sábio. Em agradecimento, ensinou-me tudo que sabia sobre astronomia, matemática, química e outras ciências, além de línguas como o tuaregue, o brâmane, o egípcio, o hebraico, o grego, o turaniano, o copta e até a língua dos nômades do deserto. Era muito difícil conciliar o meu trabalho com as aulas, visto que meu pai sempre exigiu que eu trabalhasse e produzisse o mesmo que os demais membros da família.

José mostrava-se profundamente interessado na narrativa do prisioneiro.

– Atacada por mercenários egípcios, minha família acabou por ser quase toda morta e desbaratada. Eu, como era jovem e forte para o trabalho, fui poupado e conduzido para cá, tendo sido vendido para um nobre como escravo.

O hebreu ficou comovido com a narrativa de Aptesh.

– Atacados e mortos – remoía. – Conduta típica de povo governado por tirano e destituído de qualquer sentimento de solidariedade humana.

Olhou para o preso.

– Meu caro, estou impressionado com a sua história. Asseguro-lhe que, se estivesse ao meu alcance, ia tentar mudar o veredicto que o condenou. É mais comum todos se sensibilizarem pela execução de um nobre – muito mais do que de um pobre – sem, no mais das vezes, saber a causa da tragédia.

Por seu turno, Apseth pôde observar a influência que José tinha na prisão, junto ao carcereiro e junto aos detentos. No íntimo, alimentava a esperança de que, de alguma maneira, José pudesse ajudá-lo.

 

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