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E foram-se passando os dias nas terras do Egito: para o Faraó e para Potifar, nos seus respectivos palácios e ocupações, para o povo, nas ruas, no trabalho, nas casas e, para José, evidentemente, na cadeia.
Ali, desfrutava o beneplácito do carcereiro-mor. Estava, contudo, esquecido e desprezado pelos poderosos que, digamos, tinham mais coisas a fazer do que se importar com um prisioneiro.
A seu favor tinha somente a bênção conferida a seu pai e extensiva a ele segundo as promessas do seu Deus que, para ele, estava executando o seu plano.
Era homem inabalável. Sua fé e ânimo jamais deixaram entrever em seu rosto a mínima insegurança ou tristeza.
Seguramente que hebreus do seu porte e com tal confiança na atuação direta de Jeová ajudaram na inspiração do salmista quando, muitos anos depois, afirmou: “Só ele é a minha rocha e a minha salvação; é a minha fortaleza; não serei abalado. Em Deus está a minha salvação e a minha glória; Deus é o meu forte rochedo e o meu refúgio” (Salmo 62:6-7).
Eram certezas como essa que impulsionavam José, para quem, no íntimo, tudo continuava favorável a ele.
Como confirmação disso e pouco tempo depois, um acontecimento que iria mudar completamente o seu destino trouxe para a mesma prisão Pithis e Acktar. Trajados com roupas palacianas, traziam patente no aspecto que eram funcionários reais.
Eram eles respectivamente o padeiro-mor e o copeiro-mor do Faraó. Competia ao primeiro a confecção de todos os pães, doces, roscas, tortas que eram servidos ao monarca. Em função do seu cargo, tinha necessariamente que ser elemento de total confiança.
O segundo tinha a seu cargo não apenas servir as bebidas que eram ingeridas por Ahmose, mas também prová-las. O rei nada bebia sem que ele antes experimentasse, verificando assim a qualidade da bebida e assegurando a tranqüilidade do amo, que eventualmente poderia ser envenenado.
Lançados ali por ordem real passaram a despertar grande curiosidade entre os habitantes daquela cadeia, normalmente reservada para elementos socialmente inidôneos e desqualificados. E eles eram pessoas competentes e de grande prestígio no palácio.
José, tão logo tomou conhecimento do fato e levado sempre por seu espírito de solidariedade, aproximou-se de ambos para se inteirar das causas que levaram o rei a tão extrema decisão.
– Bem – disse Acktar, o copeiro, – eu fui enviado para este cárcere por motivo banal.
Deteve-se por alguns segundos.
– Estava descansando antes da hora da refeição do Faraó e, inadvertidamente, ingeri bebida alcoólica em quantidade maior que a usual. Isso provocou um entorpecimento tal em meus membros, que adormeci e não estava presente à hora de provar as bebidas e servi-las ao nosso real senhor. Ele se enfureceu e não me deixou alternativa: como castigo, encarcerou-me.
– Sinto por você – disse José. – Mas, como deve saber, a decisão do nosso soberano é definitiva e irrecorrível.
– Mesmo porque cargo é cargo. Admito a minha responsabilidade no desagradável incidente – confessou Acktar. – E se, por acaso, a bebida real contivesse algum tipo de veneno? Por isso, creio que é justo que eu esteja aqui.
Pithis a tudo ouvia assustado. Sabia que a mão do rei pesava sem piedade sobre aqueles que o contrariavam. E ele participara de um grave episódio. Fora convencido – ou mais do que isso, seduzido – a participar de um sério crime. Envolvera-se em uma deplorável conspiração para assassinar o Faraó. A atração do dinheiro e do cargo de confiança que lhe foram oferecidos o fez decidir-se pela traição ao monarca a quem servia há já vários anos.
Assim, já estava antevendo o seu futuro. Muito provavelmente terminaria os seus dias em um calabouço, com possibilidade até de ser executado. E, enquanto contava tudo a José, estremecia só em pensar no seu destino.
O hebreu tentou consolá-los como pôde.
– Bem, camaradas, farei o que estiver ao meu alcance para minorar as suas tristezas neste lugar. Creio que servidores assim ilustres merecem no mínimo a minha particular atenção.
Dito isso, retirou-se, trancando atrás de si as celas de ambos e ganhando o pátio exterior.
– É de estranhar uma atitude dessas da parte do Faraó – considerou José intimamente. - É certo que a truculência e insensibilidade sempre nortearam os monarcas neste país, porém nunca esperava isso em Ahmose. Desta vez, acompanhando o exemplo de seus antecessores, acaba de tomar uma decisão totalmente injusta. Afinal, pelo menos um dos motivos é banal e não explica um comportamento tão radical da parte do rei. Mas, enfim...
Passaram-se mais alguns dias.
Certa manhã, nem bem tomara a refeição matinal que era servida aos detentos, José foi chamado às pressas ao cárcere interno.
– José – comunicou um dos soldados, – Pithis e Acktar precisam vê-lo o mais rápido possível.
Certamente eram novidades da parte dos importantes prisioneiros.
Foi ao encontro deles logo que pôde. Encontravam-se ambos visivelmente tristes e abatidos.
– José – disse Pithis, não sem demonstrar certa perturbação, – queremos contar-lhe o que aconteceu a nós dois a noite passada.
– Mantenham a calma – aconselhou José. – Caso contrário, nem conseguirão falar.
– Ambos sonhamos – continuou Pithis. – O que nos deixou um tanto confusos é a semelhança entre os sonhos e o fato de que ocorreram na mesma noite. Depois de se inteirar do seu conteúdo você vai concordar conosco. Soubemos que você tem o dom de interpretar sonhos. Assim sendo, certamente poderá dizer-nos o que eles significam.
– Vamos amigos, contem logo o que foi assim tão enigmático que vocês sonharam. Quanto ao dom de interpretação, asseguro-lhes que não é propriamente meu, mas vem de Jeová, o meu Deus.
– Contarei o meu – adiantou-se o copeiro, ansioso e trêmulo. – Uma parreira de uvas estava diante de mim. Nela havia três brotos. Imediatamente saíam flores, que se transformavam em cachos de uvas. E eu as espremia na taça do Faraó e passava a ele, que bebia o seu conteúdo.
José ouviu em silêncio e assim permaneceu por alguns instantes.
E intimamente fazia considerações, em que vieram à sua memória os últimos fatos ocorridos em sua vida, tais como a sua venda aos mercadores, vinda para o Egito, seu trabalho na casa de Potifar, e outros...
– Eis-me novamente chamado para interpretar sonhos. Da última vez isso me custou a ira dos meus irmãos e a minha escravidão nesta terra. É evidente, porém, que não posso me furtar ao exercício do dom que recebi de Jeová.
Enquanto isso, aumentava a ansiedade e a expectativa de Acktar e Pithis. Após alguns minutos de concentração, suficientes para ordenar os dados em sua mente, voltou-se para o copeiro.
– Eis a sua interpretação: os três brotos correspondem a três dias. Dentro desse prazo, o Faraó o chamará ao palácio e com honras o restaurará no cargo. Você voltará a ser copeiro real e poderá servir-lhe as bebidas, como de costume.
Aquela declaração caiu como um bálsamo sobre a cabeça de Acktar, que não sabia como agradecer a José pelas boas novas. Ajoelhava-se aos pés dele, beijava suas mãos...
– Como poderei expressar-lhe a minha gratidão, José?
O hebreu aproveitou a oportunidade e fez um importante pedido.
– Não precisa pensar em me recompensar. Apenas espero que você se lembre de mim quando estiver de volta ao seu cargo e que faça menção do meu nome e interceda junto ao Faraó, para que eu possa sair daqui.
– Certamente, José. É o mínimo que posso fazer em agradecimento pela ótima notícia. Conte com isso. Juro que na primeira oportunidade mencionarei o seu nome e tudo farei para livrá-lo deste cárcere!
O oferecimento de Acktar encheu o hebreu de esperança.
– Lembre-se – completou José, – de que além de ter sido seqüestrado da terra dos hebreus, nada fiz para que me pusessem nesta prisão.
Pithis continuava bastante apreensivo, a despeito da explicação favorável dada por José ao sonho de Acktar. O seu delito era bastante mais grave que o do copeiro.
Já antevia o seu destino, não vislumbrando qualquer perspectiva de recondução ao cargo que, havia anos, ocupava junto ao Faraó. Contudo, animou-se um pouco com o futuro profetizado para Acktar, crendo ingenuamente que poderia contar com a benignidade do rei. Não sairia incólume do acontecimento, bem o sabia. Quem sabe teria de sofrer alguns anos na prisão...
Assim, decidido, contou o seu sonho.
– Três cestos brancos estavam sobre a minha cabeça. No mais alto havia de todos os pães, roscas e doces de que o Faraó gosta. Só que, antes que ele comesse, vinham aves do céu e os comiam.
Novo período de silêncio e concentração por parte do hebreu.
O padeiro olhou fixamente para ele, como que tentando adivinhar os seus pensamentos.
– Meu caro – disse José compenetrado, – receio que você não vá gostar muito da interpretação.
A ansiedade de Pithis aumentava. Se pudesse, penetraria na mente de José.
– Jeová me revela que você não terá o mesmo destino de Acktar.
O sangue gelou em suas veias. Um misto de frustração e mau presságio tomou conta dele.
– Vamos, José, não tente poupar-me. Dê a interpretação logo, sem rodeios.
– Vamos a ela. Os três cestos também são três dias. Pois bem, nesse prazo, o Faraó optará pela sua execução. Você será enforcado em um mastro, sob os raios do sol. Então virão aves devoradoras, que avidamente comerão toda a sua carne.
Pithis sentiu-se desfalecer, mesmo antes do momento fatal.
– José, seria pedir demais que você novamente interpretasse? Vamos, não há nenhuma esperança para mim, não é?
– Realmente, não há. Digo-o com profundo pesar.
Certamente que o seu castigo era justo e condizente com o delito que cometera. Mesmo assim, subiu ao coração de José uma indescritível piedade por aquele homem, com quem partilhava vicissitudes semelhantes.
– Sinto, amigo!
Restava, no entanto, para confirmar as interpretações, aguardar o prazo dado: três dias.
E assim aconteceu: no terceiro dia, justamente o do aniversário do Faraó, em que este decidira dar um banquete para os serviçais do palácio, tudo se confirmou: Acktar, o copeiro-mor, foi com grande honra reconduzido ao seu cargo, ao passo que Pithis foi levado ao cadafalso e enforcado, como José havia interpretado.
José, por sua vez, continuava preso. Estava ali, naquele calabouço, esquecido de todos lá fora, embora gozando os privilégios internos.
Os dias e as noites se sucediam, o hebreu sem ninguém. Suas conversas e suas amizades se limitavam aos demais homens ali, todos prisioneiros como ele. E o tempo passava de forma inexorável.
– Pois é – refletiu, – Acktar, o copeiro, não se lembrou da promessa que me fez.
Mais uma vez, José repassava os últimos acontecimentos. Ansiosamente procurava localizar-se dentro dos planos de Jeová que, por certo, não o havia esquecido. E assim, no fundo do coração, aguardava as providências divinas. Só não sabia quando ocorreriam.
Era fato, também, que aquela monotonia tinha o poder de levá-lo a um estado de tristeza e prostração, somente amenizadas por sua fé inabalável em Deus.
– Estou preso há mais de dois anos – meditava. – Quando será que meu Senhor vai permitir que eu retorne à liberdade?