capitulo

 

I

Capítulo I - A conspiração

 

CRIME ÀS MARGENS DO NILO

 

       Ahmose acordou muito cedo, como era seu costume. Levantou-se, afastou a cortina da janela, que impedia a entrada da luz, e viu que o dia estava bem claro e bonito.

        Era o que se podia chamar umFaraó guerreiro”, a despeito de sua pouca idade. Cedo aprendera com seu pai e seu avô as responsabilidades inerentes a um imperador. Entre as atividades que desenvolvera nesse contato aprimorou o caráter de um guerreiro, as atitudes de um guerreiro e espírito inquebrantável. Sua postura era de guerreiro, sempre comandando as campanhas militares.

        A propósito, estar sempre comandando as guerras, ficar sempre à frente do exército nas batalhas, era das coisas que mais o excitavam.

        A proximidade de seu falecido pai lhe permitira desenvolver uma grande habilidade para as estratégias militares, pelas quais se sentia fortemente atraído.

        Seus assistentes, como era de se esperar, aguardavam apenas uma ordem para quais cães amestrados cumprir aquilo que seu rei desejasse.

        Cumprimentou-os.

        Essa atitude era pouco usual na corte, pois ali imperava evidente preconceito. Por isso ficaram alerta. Até onde ia a liberalidade demonstrada pelo monarca?

        Estava saindo muito cedo para seu exercício físico diário. Não quis acordar sua esposa, saindo de seus aposentos sem fazer barulho.

        Esse mister era o primeiro do dia em sua agenda, que incluía no seu decorrer estudos científicos e sociológicos, línguas estrangeiras, além de recepção de enviados especiais e reuniões com seus assessores.

        Ali na arena, para onde se dirigiu, alguns dedicados serviçais do palácio o ajudariam nas simulações de lutas corporais, ou com espadas e lanças.

        Nessa atividade, que o envolvia e – por isso mesmo – fazia com que esquecesse as rotinas do palácio, consumia duas horas diárias.

        Ao final desse treino sentiu-se cansado e suarento.

        Os exercícios hoje foram bastante cansativos – disse a um de seus criados diretos.

        E depois:– "Vamos ao palácio. Tomarei um banho e estarei preparado para o dia-a-dia".

        Assim, retornou ao palácio e ao fim de duas horas dava entrada na sala de audiências, bem mais ampla que a do trono e mais apropriada para reuniões.

        Realmente, era um salão maravilhoso. O piso era de alabastro trabalhado em motivos geométricos, formando grandes figuras. O alabastro utilizado ali era claro e transparente, com veios pretos ou de cor cinza, o que ajudava a dar um ar alegre ao salão.

        Nas paredes, entre as colunatas, em granito de várias cores, sobressaíam pesadas cortinas de cânhamo e papiro, decoradas com desenhos elaborados por competentes pintores.

       A mesa onde normalmente ocorriam as entrevistas era de madeira, ostentando na parte central aplicações de lápis-lazúli.

        Passando os olhos pelos compromissos do dia, verificou que o primeiro item da agenda seria receber em audiência duas novas representações de países vizinhos – a Líbia e a Palestina. Em seguida, teria reuniões administrativas com alguns governadores de províncias e despacharia com funcionários do governo.

        As duas audiências com as representações tomariam um bom tempo, desde o exame das credenciais, apresentação formal e abordagem inicial dos temas constantes da agenda. Sem contar que ambas compareceriam com mais de trinta diplomatas cada uma e as conversas versariam sobre acordos de comércio e assuntos diplomáticos propriamente ditos, como, por exemplo, consolidação de fronteiras. Seriam precedidas, obviamente, pela entrega de presentes a ele. Esse costume vinha de épocas remotas - representava o clima de amizade entre os países em questão e – por que não? – tinha também a função de tornar as suas relações ainda mais cordiais.

        E assim o dia foi-se passando.

       Desviou o seu olhar da mesa de trabalho para uma clepsidra que gotejava água enquanto marcava o tempo e verificou, ao fim de seus compromissos, que passava das duas horas da tarde.

        À distância duas pessoas observavam atentamente as atividades do rei: seu cunhado e sua irmã.

        O nosso Faraó esteve bastante ocupado hoje – foi o comentário de Mector, cunhado do monarca.

        Ele era alto funcionário do reino, detendo um dos cargos  de confiança de Ahmose – o de tesoureiro geral.

        Não havia como colocar dúvidas sobre a sua atuação no exercício dessa incumbência, visto que o rei pedia contas de tudo, o que em parte o obrigava a bem agir em sua função. Entretanto, notava-se nele certo descontentamento em relação ao Faraó, sentimento esse que era partilhado com a esposa.

        Sim – respondeu Usitep, – ocupado demais. Aliás, tão ocupado que nem tem tido muito tempo para a família. Não sei se notou alguma alteração em seu comportamento. Tenho-o achado um pouco mais agressivo ultimamente – ao mesmo tempo que mais atento.

        – Penso que é em virtude de sua grande responsabilidade. Você sabe, temos pendências com povos vizinhos, além de problemas internos de abastecimento e disciplina. Isso faz com que alguém em sua posição se sinta como que ameaçado.

       Isso, contudo, não justifica que a família seja relegada a segundo plano. Afinal, temos todos que aproveitar o que o reinado nos oferece. Veja, por exemplo, que faz bastante tempo que não saímos da sede para uns dias de descanso.

        – Descanso, Usitep? Você vive descansando. Descanso de quê? Você é um dos membros da família que mais dispõe de tempo para o que quiser. Nenhum compromisso no palácio, nem em casa ou na cozinha – veja o número de servas que você tem à sua disposição.

        Fez-se um rápido silêncio.

        Chegou-se então a ela e, com ternura, abraçou-a, passando as mãos em seus cabelos.

        – Eu entendo – falou em tom de desculpa. – Tudo o que você sente é fruto de descontentamento.

        – Confesso que não estou em uma das minhas melhores fases. Especialmente depois que meu irmão ameaçou destituir você do cargo de tesoureiro. Contudo, você bem sabe que boa parte da culpa é sua. Claro, pois você se mostra altivo demais diante dele. E nisto você está errado.

        Isso tem aborrecido muito a mim também – arrematou Mector.

 
***

        Enquanto dialogavam, o Faraó dirigia-se à cozinha, onde tomaria sua refeição. Sozinho, como ordenara. Assim quisera para pensar melhor.

        Além das preocupações normais com o reinado enfrentava um grave problema familiar. Sua mãe estava doente e, assim, praticamente afastada da administração.

        O papel dela no reinado do filho sempre fora muito importante e valorizado por ele, especialmente num Egito que estava sendo governado por um monarca ainda muito jovem e, até certo ponto, com pouca experiência. Portanto, a colaboração da mãe sempre fora muito bem-vinda.

        Acabada a refeição, sentiu-se um pouco fatigado mentalmente. Fruto das inúmeras obrigações.

        Cancelou os demais compromissos da tarde, pediu a um servo o seu cavalo de montaria e saiu a cavalgar pelas partes internas da propriedade.

 

***

        Aseph levantou-se da cama recoberta por finos lençóis bordados por sua esposa.

        Acordara havia já uma hora naquela manhã clara e agradável.

        Decidiu preparar-se com bastante calma para sair de casa.

        Chamou um dos servos e pediu-lhe para ser barbeado. Em seguida, tomou um longo e delicioso banho, ainda auxiliado pelo criado, em uma banheira com água previamente aquecida. Nesses preparativos consumiu um bom tempo.

        Foi então até o cômodo contíguo, onde se encontravam cuidadosamente arrumadas as suas roupas, cintos e sandálias.

        Traga-me aquela túnica leve, de linho branco e separe-me um par de sandálias também brancas – ordenou ao criado.

        Em pouco mais de uma hora estava pronto e devidamente ataviado para sair às ruas de Tebas.

        Era feriado, um dia totalmente dedicado a Amon – o deus-Sol, em que todos estariam desobrigados de seus afazeres cotidianos e, assim, com o tempo livre para atividades ao ar livre, como disputar jogos, correr à beira do Nilo ou brincar. As crianças apreciariam aquele dia, pois Aseph planejara tudo de véspera. Iriam – ele, sua mulher Mutptra e seus dois filhosàquele canto da cidade bem junto ao rio, onde outras crianças de sua categoria também estariam para jogos e passatempos.

       Aseph era um cientista do reino. Na verdade, era um físico e astrônomo com o tempo integralmente dedicado ao palácio do Faraó Ahmose – o grande conquistador. Era, sem dúvida, um cidadão privilegiado e, por isso, era-lhe impossível deixar de voltar seu pensamento para o lugar onde morava, para sua posição social ou para sua família. Estava feliz, pois tudo parecia caminhar segundo o ideal de alguém que, por sua vez, crescera e fora criado em uma família constituída por pessoas de educação esmerada, honestas e dedicadas igualmente ao rei.

        Inconscientemente pensou no outro lado da realidade egípcia, ou seja, na vida que levavam aqueles que trabalhavam nas estrebarias, nas ruas e nos campos, dali tirando a sua sobrevivência.

        Na casa do lavrador egípcio, por exemplo, acordava-se com a luz da madrugada. Sua mulher não possuía jóias. Como adorno, costumava trazer em torno de seu pescoço apenas um amuleto, muitas vezes com a figura da deusa Tawaret, inscrito em um pedaço de papiro. Em sua sala não havia mesa. Tomava suas refeições, juntamente com a família, sobre uma esteira de junco. Costumava plantar em terras do templo e precisava entregar aos sacerdotes uma parte da colheita a título de arrendamento do campo cultivado.

        Saindo daquelas considerações, Aseph lembrou-se de que o Egito do seu tempo era o país mais culto do mundo civilizado. Possuía monumentais bibliotecas, faróis que serviam de guia aos navegantes, não exatamente ali, em Tebas – a capital administrativa, cultural, filosófica e científica do país, mas ao norte, junto ao mar, lugar em que se desenvolvia uma região pesqueira muito evoluída, onde também estava abrigada a esquadra real e a Escola Naval.

        Havia um motivo estratégico para a atual localização da Escola Naval, além, é claro, do Grande Mar. Era a presença e o domínio hicso na região, cerca de 200 quilômetros a leste, em direção ao deserto de Sur, onde erigiram sua capital Avaris.

        A ocupação paulatina da região pelos hicsos, no entanto, não diminuía o prestígio ou o poderio do Egito.

        — Pela topografia, pelo clima, pela proximidade do rio Nilo e por tudo o mais este lugar é agora, e será no futuro, o berço da civilização mundial – considerou ele.

        E, dentro dos parâmetros do seu tempo, ele estava certo, pois ali nasceria Alexandria, fundada por Alexandre o Grande no ano 332 a.C.

        E quanto ao Grande Rio, o Nilo?

        É ele efetivamente o rio mais importante do Egito. Atestam os geólogos pátrios que é reconhecido como o mais longo do mundo. Para ele afluem pequenos riachos nas regiões montanhosas da península do Sinai. As chuvas torrenciais criam os uedes, cursos intermitentes cujas nascentes estão nas montanhas do deserto Oriental. Ele banha Tebas e bem mais adiante ramifica-se para formar um amplo delta e finalmente desaguar no mar.

        Sendo, como é o país, um extenso deserto atravessado por uma longa e fértil várzea verde, é fácil avaliar a importância do Rio. O país desenvolveu sua vida e sua história ao longo desse estreito vale, cujas inundações anuais fertilizaram durante milênios as terras próximas e permitiram e ainda permitem a prática de uma próspera agricultura.

        Há milhares de anos o Nilo vem proporcionando riquezas para o povo que floresce às suas margens. O limo transportado pelas águas assegura a umidade permanente das planícies por ele banhadas, que chegam a produzir três colheitas por ano: no inverno, trigo, cevada, cebola e linho; no outono, arroz e milho; no verão, algodão e arroz.

        Saindo na sacada de sua confortável vivenda, Aseph olhou novamente a cidade.

        Podia vislumbrar, a nordeste, muitas casas, palácios, jardins e um conjunto gigantesco de templos. O que está mais ao norte é o de Mont, deus da guerra, e o mais ao sul, o de Mut (esposa do deus Amon). Entre ambos, estende-se o de Amon-Ra, o maior do Egito e um dos maiores do mundo.

        O eixo principal, formado pela artéria onde repousa o templo maior, estende-se na direção leste-oeste. Cortando-a, está a avenida central, com seus pórticos monumentais, decorados com relevos e colunatas. Realmente, um verdadeiro complexo arquitetônico!

 

***

        Virou o pescoço para o outro lado, desta vez em direção ao enorme relógio de sol, constituído pelo obelisco à sua direita, avaliando assim o curso do astro-rei, que controlava as horas do dia.

        Mut – falou Aseph em voz um tanto alta, você e as crianças estão prontos? Vamos logo para aproveitar bem o dia.

        O nome dela, na verdade, era Mutptra, em homenagem ao deus Amon, cuja mulher se chamava Mut. Mas ninguém resistia em abreviá-lo e chamá-la simplesmente de Mut. Evidentemente, ser homônima da deusa despertava certo ar de inveja e ciúmes em algumas mulheres, mas, o que fazer a respeito?

        E continuou a esperar que a família toda estivesse pronta.

 

***

        Mector sentia-se confuso com o turbilhão de pensamentos que o invadia. Em sua cabeça começava a tomar forma um sentimento de ira em relação ao cunhado-rei. Nem o fato de privar da amizade e da confiança do Faraó conseguia aplacar ou ao menos abrandá-lo.

        É muito interessante observar o caminho que determinados sentimentos percorrem no ser humano. Começam na mente, no intelecto, onde tomam forma. Em seguida descem ao coração, que passa a ser o centro das emoções, mexendo com tudo dentro de nós.

        Em que você está pensando, querido? – perguntou a esposa. – Está tão circunspeto. Vamos, conte-me. Assim aliviará essa tensão.

        Não sei se devo confiar a você o que realmente sinto. Afinal, meu coração está cheio de ódio. E é pelo seu irmão.

        Já não lhe importava externar os pensamentos.

        Às vezes penso em como seria bom que algo acontecesse a ele – continuou. Uma guerra, por exemplo, em que fosse eliminado. Nosso sobrinho Amenhotep – o herdeiro presuntivo do trono – poderia ser com grande facilidade controlado por nós, o que nos colocaria em posição invejável, não só no palácio, mas no reinado.

        – Cuidado, Mector, com o que fala – alerta a esposa. Você tem como alvo de seus planos exatamente o meu irmão. O que realmente pensa fazer? Espero que nenhuma loucura.

        Por enquanto nada, meu bem. São apenas divagações de uma alma que carrega pesados sentimentos de revolta. Fique descansada. No que depender de mim, nada acontecerá a Ahmose.

        Será?!!!

        Tocaram uma campainha e pediram a uma das aias que trouxesse chá. Tão logo esta atendeu à ordem e se retirou, Mector voltou a argumentar.

        – Ora, Usitep, nem sei por que você está tão preocupada com o que eu disse. Pelo que sei, você também tem boas razões para ver seu irmão afastado. Como, por exemplo, a influência exercida pela mãe de vocês no governo e por Ahmose-Nefertari, esposa dele, no palácio.

        Sim, uma é a minha mãe e a outra a minha cunhada. O que complica ainda mais a coisa. Apenas que, à medida que o prestígio delas aumenta, o meu diminui. 

        Deixe-me perguntar-lhe uma coisa, Usitep. Por que a sede de poder? Por que essa – como diria – essa inveja? Lembre-se de que há um preço a ser pago pelo poder: problemas, invejas e até mesmo inimizades. Por que, então?

        Não sei. Talvez em razão do sangue, que é o mesmo dele e, obviamente, de minha mãe. E confesso que o sentimento que tenho é bastante forte e - lembre-se - não é diferente do seu!

        Deixemos por ora este assunto. Tenho que voltar ao meu gabinete para algumas rotinas de final de expediente. Oportunamente voltaremos a falar de nossas diferenças com o Faraó. Deixe-me dar-lhe um conselho: aproveite os momentos antes do nosso jantar, vá até o jardim e dê um grande passeio. Quem sabe alivia um pouco a tensão.

        E saiu apressado.

 

***

        Não era possível negar, contudo, que a idéia de afastar o Faraó estivesse tomando forma na cabeça de ambos. E, à semelhança de uma inundação, foi aos poucos preenchendo todos os compartimentos de suas mentes e corações.

        Ahmose, aparentemente, fazia questão de ostentar o seu poder e o fazia da maneira mais provocadora possível – ignorando-os e desprezando-os. Parece que o sentimento era recíproco, embora não houvesse como confrontar a sua autoridade de faraó com as meras funções desempenhadas pelo cunhado.

        Esse estado de coisas estava atuando com grande impacto sobre a vida do casal. Já não dormiam regularmente e não se alimentavam bem.

        De tal forma que, em certo momento, aquela idéia tornou-se irresistível. E sentimentos dessa natureza, quando ocorrem, passam a ser a coisa mais importante, o centro da vida, nada mais importando ao redor. Transformam-se em obsessão, mesmo evidenciando as grandes dificuldades existentes na consecução do objetivo.

        Como lidar com essas dificuldades? Como algo aceitável, ou como algo que exige um esforço sobre-humano? A idéia do obstáculo intransponível é algo que dispara as reações negativas, como está ocorrendo com Mector. Por outro lado, pode gerar reações, em nível emocional, de desestímulo e incapacidade frente à realidade. Assim, deixamo-nos governar pelo ritmo externo: a acomodação que notamos em grande parte das pessoas diante de uma realidade dura que parece insuperável assim que a percebem. O que fazermos para alterar nosso modo de reagir a ela?

        Mas ali, a seu lado, estava a dedicada esposa, para ajudá-lo a definir o curso dos seus sentimentos, externando em poucas palavras o seu próprio ponto de vista.

        Olhe, Mector, temos que agir. Não suporto mais a tensão, o clima.

        Parece que aquela interrupção no rumo de suas idéias trouxe-o de volta a realidade, como ocorre quando acordamos de um sonho mau.

        Vamos executar as coisas com calma, querida. Qual é a sua idéia? O que sugere fazermos?

       – Não sei bem. É muito difícil tomar uma decisão sobre a possível eliminação de uma pessoa, especialmente em se tratando de nosso irmão e cunhado e, o que é mais grave, do rei. Mas não creio que haja alternativa.

        Mector limitou-se a concordar com tudo. Apenas parecia ainda no torpor dos pensamentos anteriores.

        Vamos! – disse ela, como que o acordando. – Você tem que ajudar a traçar os planos. Não deixe tudo para mim.

        Pois bem. Dê-me algum tempo para pensar sobre o assunto e, tão logo tenha planejado alguma coisa mais concreta, conversaremos novamente.

 

***

        Aseph, acompanhado de sua esposa Mut e de seus dois filhos acabavam de sair calmamente de casa. Alegres e descontraídos, andavam vagarosamente. As ruas da cidade estavam mais desertas que de costume, visto que os trabalhadores em geral, com seus cavalos, camelos e mercadorias descansavam nesse dia e davam lugar a famílias felizes, vestidas de roupas leves e claras, caminhando para algum lugar no campo ou às margens do grande rio.

         Preferiram deixar os cavalos nas estrebarias e ir andando para apreciar tantos lugares convidativos e agradáveis, coisa que dificilmente faziam, visto que o Faraó sempre foi partidário de permitir aos seus súditos o menor número possível de feriados, o que limitava, de certa forma, as oportunidades para qualquer apreciação estética do lugar onde moravam.

        Ao chegarem ao ponto de destino, ali já encontraram outras pessoas que certamente planejaram fazer o mesmo que eles.

        O cientista começou a prestar mais atenção às famílias que, como ele, escolheram ali estar naquela manhã. Seus trajes, seus assuntos e sua postura eram muito semelhantes entre si. Não podiam esconder que representavam uma faixa peculiar e próspera da população.

        É curioso – disse Aseph – como os membros das classes sociais são. Acabam se aproximando entre si, formando categorias estratificadas e estanques, dificultando por isso a maior integração entre os vários grupos.

        Aseph no seu íntimo analisou que as desigualdades se originam de uma relação contraditória e se refletem na apropriação e na dominação, dando começo a um sistema social em que um grupo produz e o outro domina tudo, originando as classes operárias e as burguesas. E, inevitavelmente, tais desigualdades criam uma distância entre ambas.

        É o preço que pagamos pela posição que você ocupa junto ao Faraó e ao povo. Isso nos torna um pouco diferentes, o que faz com que a massa, infelizmente, nos considere um tanto superiores e convencidos – foi a apreciação de Mut.

        Mas não era o que pensavam as crianças, que com a maior naturalidade se aproximaram das demais, independente de saber a sua origem ou o que faziam seus pais, se partos, medos, elamitas, se senhores ou escravos, e numa perfeita harmonia, saíram correndo descalças pelas praias formadas pelo rio.

        Até logo, pai. Vamos nos juntar aos demais meninos e meninas.

        Ora, que são os folguedos infantis? É a fantasia em cima  dos castelos construídos com a ingenuidade e pureza de suas almas, endeusando gente e sofrendo – sim, sofrendo – de muito bem-querer. Na sua matemática encantada, um mais um somam um, e isso explica a ausência de preconceito em relação a crianças de classes inferiores, não apenas no episódio que aqui descrevemos, mas em todos os momentos,  em todo mundo, salvo aquelas que são literalmente estimuladas ao preconceito – pelos pais, familiares em geral ou professores .

        Enfim, os jogos infantis tinham lugar. Eles levavam seus brinquedos, dos quais o principal eram as bolas feitas de bexigas retiradas de animais, como porcos e carneiros. Bastava um pouco de fôlego para soprá-las com a boca e eis perfeitas bolas.

        Aquele lugar era tão agradável como os outros, graças ao perfeccionismo do Faraó que, ao menos no que dizia respeito aos lugares que freqüentava, exigia das equipes de trabalho cuidados constantes.

        Com seus canteiros de folhagens e flores, seus bancos estrategicamente localizados sob palmeiras e seus bebedouros, sem dúvida que o local havia recebido um cuidadoso tratamento paisagístico. O ambiente se completava com um sem número de pássaros. Ao lado direito, um conjunto musical tirava belos sons de cítaras e flautas. À frente, uma curva do Rio formava quase um lago de águas mansas e convidativas.

        Em relação às águas do Nilo, havia recomendações especiais. Todos deveriam agir com cautela ao entrar no rio, devido à presença de crocodilos que, como guardiães, patrulhavam as suas águas.

        As imediações eram cercadas por palmeiras e papiros. Eminentemente utilitário, o papiro serve não só à fabricação de papel, como também para confeccionar sandálias, embarcações, cordas e esteiras. É também ótima matéria-prima para os paisagistas, que a usam largamente como planta ornamental, devido à originalidade de suas formas. Suas raízes secas servem de combustível. É típico das margens do Rio e dos alagados de seu delta. Dispõe de um enredado sistema de raízes, do qual se elevam numerosas hastes triangulares verdes, de dois a quatro metros de altura, chegando às vezes até a oito metros, coroadas por tufos de filamentos também verdes que caem graciosamente.

        Papai –  exclama Tutcon, seu filho mais velho – o que é que você está observando?

        Esta planta maravilhosa, meu filho. Com ela são fabricadas lâminas que se prestam a registrar não apenas as ordens emanadas do palácio, como também a nossa história, a nossa cultura, os dados compilados pelos cientistas, matemáticos e astrônomos. Além disso, serve para a confecção de cordas e tecidos, como ornamento e até como alimento para as classes pobres.

        Planta com folhas compridas de até quatro metros de comprimento – Aseph repassava mentalmente certa aula de biologia recebida nos bancos da escola – com raízes entrelaçadas, que procuram sempre os lugares úmidos ou cheios de lama para crescer. Mais alguma coisa que cresce e floresce graças à dádiva do rio Nilo.

 

***

        Tutcon e Kenate – os seus dois filhos – juntaram-se a um grupo de garotos e garotas e se afastaram um pouco da família. Corriam alegremente, gritando, rindo alto e brincando com suas bolas e bastões de madeira.

        Jogue para cá – gritava um. – Espere, pois enfiei o pé neste buraco – dizia aquela menina.

         E assim foram se aproximando da beirada do rio, num lugar todo cercado de papiros. O empurra-empurra ocasionado pela disputa os dirigia cada vez mais para perto da água.

        E foi aí que aconteceu.

        Horrorizados, perceberam que havia ali um corpo boiando, meio submerso, de bruços. A primeira idéia foi voltarem correndo para as famílias. Mas a curiosidade imperou e, antes de se retirarem, deram uma última olhada no morto.

        Era um homem de estatura mediana, cabelos pretos, roupa palaciana. Naquela posição era impossível identificar o corpo. Mas puderam notar que trazia, envolvendo seu pescoço, e portanto enforcando-o, raízes de papiro que certamente causaram a sua morte.

        Não fico mais aqui. Vou-me embora!

        Eu também.

        Entre gritos as crianças voltaram aos pais, em estado de quase choque, para relatar o que viram. Ironicamente, a cena provocava risos involuntários em algumas delas.

        Os pais conjeturavam e emitiam suas opiniões. O que teria acontecido? Qual teria sido a causa da morte?

        Acidente?

        Assassinato?

        Quem sabe?!

        A verdade é que o acontecimento acabou com os planos do feriado.

 

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