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Enquanto isso, algo perturbava Ahmose, o Faraó guerreiro.
Muito preocupado, convocou todos os sábios do reino e os especialistas em magia e adivinhação.
Ele havia sonhado. E os seus sonhos o estavam incomodando muito. Deveria haver uma razão para os mesmos – pareciam proféticos. Sentiria a opinião dos seus sábios. Já lhe haviam sido bastante úteis em outras ocasiões. Seus conselhos muitas vezes o levaram a alterar o curso de suas decisões, com benefícios para o reino e para o povo.
Decidiu, assim, convocá-los. Contaria os sonhos a eles e pediria que dessem a interpretação.
O fato causou enorme inquietação no palácio real, provocada em parte pela própria agitação de Ahmose.
– Meu bem – era a voz da esposa do Faraó que silenciosamente entrara em seus aposentos, – não creio que haja causa real para essa perturbação toda. Conhecendo as suas qualidades dentro e fora do palácio e durante as campanhas de conquistas e consolidação do nosso império, a minha conclusão é que nada de mais nos poderá acontecer que não seja resolvido por você. Muito menos em se tratando de um sonho.
Sentia-se que a confiança da esposa era exagerada nesse momento, como se Ahmose pudesse tudo resolver com um simples gesto.
– Penso assim também, querida. Mas confesso que os sonhos deixaram-me atordoado. Parecem avisos, advertências. Veremos o que os meus sábios têm a dizer.
E assim fez. Quando estavam todos reunidos no salão de audiências, relatou-lhes os sonhos.
– Eu estava andando à beira do Nilo, quando de repente saíam do rio sete vacas gordas e bonitas, que começavam a pastar ali mesmo. Em seguida, saíam do rio outras sete vacas, porém feias e magras. Então, algo estranho aconteceu: as vacas magras comiam as vacas gordas. Acordei e voltei a dormir. Foi quando tive outro sonho, em que brotavam dum mesmo pé sete espigas de trigo cheias e bonitas. Ao mesmo tempo, outras sete espigas, porém miúdas e queimadas do vento oriental, brotavam também. E estas devoravam as grandes e cheias.
Todos no auditório estavam atentos à narração e já, de antemão, pensando em uma interpretação sensata para os sonhos reais. Entretanto, aquilo que ouviram parecia complicado demais para os seus limitados conhecimentos sobre esse tipo de manifestação.
O que poderiam significar as vacas? Por que as magras devoravam as gordas? E o trigo? Que sentido havia em espigas comerem espigas?
– As vacas sadias e as magras – aventurou-se um dos adivinhos – representam sete príncipes de um dos países fronteiriços que tentarão invadir este país e lutarão contra sete príncipes locais.
Ahmose ouviu mas não deu o mínimo crédito àquela interpretação. Não lhe pareceu verossímil.
– Gostaria de ouvir a opinião definitiva dos meus sábios e adivinhos, que tenha o mínimo de coerência. Peço, pois, a todos que pensem, meditem e me dêem uma resposta.
O que se seguiu foi um misto de encenação e ritualismo. O ambiente estava a um tempo trágico e cômico. Alguns dos presentes criam que realmente teriam ajuda dos seus deuses, que poderiam conduzi-los a uma boa e fiel interpretação.
Para quem já viu ou ouviu relatos de cerimônias de encantamento ou de rituais através dos tempos, com seus fetiches, gestos, rezas e oblações, não é difícil imaginar o clima que, aos poucos, foi tomando forma naquele recinto.
Toda a área do salão de audiências ocupada pelos sábios, encantadores e adivinhos estava repleta de animais e instrumentos, que iam de pombas a cobras, de cabras a porcos, passando pelas galinhas e lagartos – além de facões, cutelos, taças, vasos e incensórios, coisas que pretendiam usar na tarefa de elucidar os sonhos.
Muitos deles usavam os instrumentos em si próprios, cortando-se nas mãos, nos braços e nas costas, numa horrenda cena de auto-tortura e flagelação. Entretanto, por mais que tentassem e se esforçassem, os especialistas do palácio não puderam dar ao Faraó uma interpretação adequada.
Ahmose começava a se impacientar.
– Muito bem. Já podem ir. Ficou evidenciado que vocês não têm mesmo condições de me dar a resposta. Eu diria até que são incompetentes e ineptos e que não fazem jus à posição que ocupam no palácio e nem ao que ganham.
Aqueles homens foram se retirando um a um, abatidos e envergonhados.
Aí – e só então – o copeiro-mor lembrou-se da promessa feita mais de dois anos atrás a José, quando dele recebera a notícia de sua reintegração nas funções.
– Senhor – disse ele ao Faraó, – espero que não me inflija outro castigo, mas devo confessar que estava encarregado de uma missão da qual me esqueci completamente. Quando eu e o padeiro-mor estivemos presos por ordem de V. Majestade, tivemos sonhos que foram corretamente interpretados por um jovem hebreu, servo do capitão da guarda, prisioneiro como nós. Um tal de José.
Ahmose redobrou a atenção.
– E, exatamente como ele profetizara, eu voltei a servi-lo como copeiro, ao passo que o padeiro foi executado. Tudo conforme a interpretação que nos foi dada. Assim, penso que seria uma boa idéia chamar esse José ao palácio, contar-lhe os seus sonhos e pedir-lhe a interpretação.
– Eu só não entendo – atalha o rei – como você foi capaz de esquecer sua promessa feita há mais de dois anos. Isso demonstra que, no fundo, você é mesmo um relapso.
Mas, como estava fortemente empenhado em desvendar o mistério que cercava os seus sonhos, o rei determinou a um oficial do palácio que procurasse saber o paradeiro de José. Se ainda estava preso ou não. Quando localizado, que fosse imediatamente determinada sua presença no palácio real. Assim poderia expor-lhe as suas preocupações.
– O que estará querendo o Faraó comigo? – indagava José para si próprio.
Como teria Ahmose ficado sabendo da existência do hebreu? Simplesmente exigia a sua presença com urgência.
– Será que Potifar queixou-se de mim? Bem, são questões cuja resposta só saberei mais tarde.
Assim, levantou-se, fez o seu desjejum, após o que foi preparar-se para a entrevista.
Barbeou-se – costume egípcio, – banhou-se longamente nas dependências da residência do carcereiro-mor, utilizou um perfume egípcio no pescoço e no peito. Colocada em seguida uma túnica branca sobre o corpo – moda que tanto apreciava nos locais – e nos pés sandálias da mesma cor, dirigiu-se ao palácio real, após ter sido liberado da prisão.
***
– Que prédio monumental! - Dizia enquanto percorria as dependências do palácio do soberano egípcio. - E as escadarias? Tudo construído com blocos de pedra da melhor qualidade. São de alabastro e lápis-lazúli, retirados, segundo meus cálculos, das minas exploradas na África e nas montanhas do Sinai. As aplicações são em cobre. Foram usados o alto e o baixo relevo. Verdadeiras obras de arte, aliás, bastante adiantada neste país.
Ao subir os últimos degraus, notou que a imensa porta principal, de madeira nobre toda entalhada, se abria. Deparou-se com o contingente policial que fazia a guarda.
– Entre, por favor. O secretário real o espera.
– Ora, ora – pensou. – Parece que todos já sabem da minha presença!!!
O secretário o antecedeu no caminho até a sala do trono. Demorou a se acostumar com a iluminação ambiente, enfraquecida pelo pouco sol que ali penetrava naquelas derradeiras horas do dia. Finalmente reconheceu – pela postura e pelas vestimentas, sentado em seu trono, o Faraó.
Era um rei bastante compenetrado que o recebia naquele momento.
Ali estava, então, Ahmose – o Faraó guerreiro – em pessoa!!! A atitude quase inconsciente de José foi ajoelhar-se.
Em seguida aproximou-se, humilde porém com dignidade, e assentou-se na poltrona indicada pelo rei.
– Soube que você tem o dom da adivinhação. Gostaria que soubesse que tive dois sonhos que têm me perturbado muito. Parecem-me sonhos proféticos e se o forem, como imagino, certamente dirão respeito ao meu reinado, ao meu povo, ao meu país.
José começou a sentir a sua responsabilidade e o peso que teria aquilo que transmitisse ao Faraó. A seu favor contava o fato de que, até o presente momento, todas as suas previsões se cumpriram ou estavam se cumprindo.
– Assim sendo – completou o monarca, – peço-lhe ouvir a narração e dizer o que significam, já que os meus especialistas não o conseguiram.
Depois de ouvir atentamente da boca do rei os sonhos já relatados e de alguns minutos de reflexão, José apressou-se a dar a eles a exata interpretação.
– Em primeiro lugar, gostaria de dizer a V. Majestade que não se trata de pura e simples adivinhação, mas de interpretação, que não vem propriamente de mim, mas do meu Deus, de quem me considero instrumento. Quanto aos sonhos, na verdade versam sobre um mesmo assunto. As vacas gordas representam sete anos de fartura na terra do Egito, em que as lavouras produzirão tanto, que não poderão ser consumidas de imediato. As sete vacas magras correspondem a sete anos de privação e carestia, quando haverá período de grande seca e as lavouras não produzirão, não apenas nesta terra, mas também nas regiões vizinhas.
– Eu já estava imaginando alguma coisa muito grave para o meu país.
Seguiram-se momentos de expectativa.
O Faraó guerreiro não conhecia coisas impossíveis, embora admitindo que o momento era sério. Sempre dera soluções adequadas aos inúmeros problemas do país que governava. Não era daquela vez que os julgaria intransponíveis. Sentindo, assim, que José acertara com a interpretação, decidiu continuar confiando nele.
– Alguma sugestão?
– Sugiro que V. Majestade trabalhe sobre a possibilidade de suprir o país e armazenar durante os sete anos de fartura, para poder enfrentar os subseqüentes, que serão de grande fome. Aqui no Egito isso não é impossível, visto que o Grande Rio garante a fertilidade das terras, o que não ocorre nos países vizinhos. Assim, deve providenciar pessoas idôneas que o ajudem a levar avante o plano. E para dirigir tudo, nomeie um intendente, um administrador, enfim, uma pessoa que tenha competência e conhecimento sobre abastecimento, transporte, armazenamento de gêneros em geral, em quem haja o espírito de Deus.
O Faraó a tudo ouvia, achando bons os conselhos que recebia.
– Deverá V. Majestade atribuir a essa pessoa amplos poderes e terá necessidade, também, de que os governadores das províncias tenham suas atribuições ampliadas para atender a esse plano, sempre subordinados ao administrador geral.
– Por favor, seja mais explícito. O governo administraria exatamente o quê?
– Além de estocar e contabilizar as colheitas, a minha idéia é que deverá ser cobrada dos agricultores, a título de imposto, uma parcela – digamos, vinte por cento – sobre a produção, com vistas à execução desse projeto. Como a maior parte da zona rural é constituída por pequenos plantadores, é razoável que fiquem com oitenta por cento, suficientes para a sua sobrevivência e para comercialização de parte do produto. As safras nos próximos sete anos serço muito grandes e exigirão cuidados especiais, visto que o que for obtido será de extrema importância nos anos de fome. Isso será trabalho dos administradores nomeados. Nada poderá ser desperdiçado. Não custa lembrar que o regime de águas do Nilo constitui, desde a mais remota Antigüidade, o fator básico da economia deste país. As inundações anuais, entre agosto e setembro, que tanto fertilizam as terras ribeirinhas, deverão ocorrer em breve. Portanto, não se pode perder tempo.
Tudo aquilo deixou o Faraó boquiaberto.
– Além de que o governo central poderá se encarregar da armazenagem do produto pertencente aos agricultores, cada um em sua própria comunidade, mandando construir depósitos e silos.
Como conseguira José conhecer tão bem o Egito? Como poderia alguém ter palavras tão sábias, equilibradas e exatas como as que ouvia? De onde vinha inspiração para isso?
Entretanto, considerou o Faraó, não lhe perguntaria mais nada – ao menos por ora –, visto que tal intimidade não combinava com as regras do protocolo palaciano – nem com o seu orgulho.
Aos poucos, foi-se refazendo e, já mais calmo, agradeceu e dispensou José.
Os dias seguintes foram em extremo penosos para Ahmose, que levava em conta no seu íntimo não apenas a interpretação feita por José, mas os conselhos que dele recebera sobre os anos que viriam.
Evidentemente, o próximo passo seria escolher alguém qualificado para assumir o cargo proposto pelo hebreu.
A crer na interpretação, pensava ele, tudo colaboraria para ver consolidada a sua posição como rei, como Faraó, não só diante de seus súditos como também perante os povos vizinhos.
Um jovem inteligente, sábio, competente para assumir tal cargo? Ocupar esse posto nada mais seria do que estar logo abaixo dele, Faraó. Um jovem... com tais qualidades... em quem houvesse o espírito de Deus...
Aos poucos foi-se delineando em sua mente o perfil da pessoa que deveria ser nomeada.
– José. Sim, José!
Imediatamente ordenou que reconduzissem o hebreu ao palácio com a máxima urgência.
Dirigiu-se José, assim, à sala do trono e logo percebeu que, embora se tratasse de uma reunião informal, as poltronas estavam todas ocupadas por altos dignitários do reino.
– Venha, José, sente-se aqui. Preciso discutir melhor com você sobre um assunto de suma importância.
Imediatamente sentiu que o seu Deus estava novamente abrindo-lhe as portas. Fora chamado pelo rei, que queria tratar com ele assunto relevante. Intimamente sentiu que o seu caminho estava sendo aplanado e que brevemente voltaria a ser peça importante naquele país.
– Inicialmente, quero comunicar-lhe que gostei muito das sugestões que você fez para a preservação não só das riquezas mas também da hegemonia do Egito. Ou seja, vamos implementar o plano proposto por você com respeito à produção agrícola dos próximos anos e sua respectiva estocagem.
– Certo, Majestade. E o que mais poderia eu fazer a respeito?
– Trata-se da escolha do superintendente ou administrador. Estive rebuscando em minha memória um nome que preenchesse todos os requisitos necessários ao bom desempenho da missão e cheguei a uma conclusão.
– Lá vem novidade – pensou José.
– O homem sem dúvida é você. O mesmo Deus que lhe deu a exata interpretação dos sonhos certamente o cumulou com outros dons, como inteligência, competência e sabedoria. Pois quero que use tudo isso para o bem desta terra que, admita, o tem acolhido bem.
José, no íntimo, considerou as dúvidas que tinha sobre essa afirmação.
– Você estará, em todo o reino, abaixo apenas do poder e da figura do Faraó. No mais, terá autoridade máxima, quer em minha casa, em toda a cidade e nos confins da nação e dos territórios conquistados. Você governará todo o meu povo. Somente no trono, repito, eu serei maior que você.
Aquilo foi dito na presença de todos os príncipes e maiorais da terra que, apanhados assim de surpresa, não tiveram outra alternativa a não ser calar-se diante da decisão real.
– Alguns sinais visíveis eu lhe dou agora de tudo quanto disse. Nomeio-o Príncipe, no cargo de intendente geral, para cuidar de toda a área de abastecimento e armazenamento e relações comerciais internas e com os nossos vizinhos. Para ensejar maior e melhor aproximação sua com o povo em geral, peço-lhe que adote um nome egípcio.
José, a cada nova determinação do Faraó, ficava mais e mais emocionado e se perguntando se realmente merecia tudo aquilo.
– Que tal seria Zafenate-Panéia?
– Pois não, Majestade. Se julga de todo necessário, que seja – “Zafenate-Panéia” - embora que, no momento, nada sabia sobre o significado desse nome.
– E mais – completa o monarca – aqui está outro dos sinais. E tirou um resplandecente anel do próprio dedo, colocando-o no de José.
José notou tratar-se de um anel real de características muito especiais. Era de ouro, encimado por uma esmeralda ladeada por duas incrustações também em ouro, representando um olho e uma abelha.
– O olho, Zafenate, simboliza a sua presença em todos os lugares para bem desempenhar a sua tarefa. E a abelha, como você bem sabe, é símbolo de trabalho incansável e constante. Isso será exigido pelas suas funções.
O peso da responsabilidade parece que cada vez aumentava sobre os ombros de José.
– Quero oferecer-lhe um traje especial e peço-lhe que passe a usar semelhantes, sempre que estiver em público.
E ordenou aos camareiros que conduzissem José aos seus quartos e colocassem no Príncipe Zafenate-Panéia vestidos de linho da melhor qualidade.
E, ao pôr em seu pescoço um colar de ouro, o tom com que se dirigia a José era algo paternal.
– Vá, providencie tudo quanto determinei e volte. Nós dois sairemos pela cidade. Quero que haja reconhecimento público a você pela escolha.
E assim foi. Ahmose o fez subir no segundo carro em hierarquia. Passeavam pela cidade, enquanto todo o povo se curvava e ajoelhava perante eles.
– Vamos. Ajoelhem-se todos e reverenciem este homem. Trata-se do Príncipe Zafenate-Panéia, o novo intendente geral do Egito, pessoa que está logo abaixo do Faraó em poder.
E, à sua passagem, o povo humildemente ia cumprindo as ordens recebidas.
– Assim você está colocado sobre toda a terra do Egito – repetiu-lhe Ahmose ao voltarem para o palácio. – Eu sou o Faraó. Porém, sem você ninguém levantará a mão ou o pé em todo o reino.