capitulo
IV

 

 

Capítulo IV – Investigando o crime do Nilo

 

Mais uma manhã no dia-a-dia do Egito e, conseqüentemente, na vida de Tebas.

A maior e mais poderosa cidade do Egito é, além de capital, um imenso centro populacional. Conta mais de trezentos mil habitantes.

É, como as demais grandes cidades do mundo, uma das responsáveis não apenas pelo crescimento e fortalecimento do comércio e indústria, mas também das artes e do conhecimento. Exerce, portanto, enorme influência, que se estende para além das fronteiras.

– É uma bela cidade – pensou Aseph.

Ele acordara mais cedo que de costume e estava agora apreciando o lindo dia que começava.

Diga-se, a bem da verdade, que essa sensação de felicidade que ele estava experimentando era diretamente proporcional ao tipo de vida que levava e ao círculo restrito de que fazia parte. Eram todos eles competentes cientistas que, além de otimamente remunerados, desfrutavam grande respeito da parte de todos, inclusive do Faraó, e tinham sempre lugar de destaque em todos os eventos do reino.

Não admira, pois, essa euforia que tomava conta de Aseph.

Tivera o cuidado de, no dia anterior, avisar o seu superior de que faltaria em suas atividades rotineiras para poder comparecer ao tribunal, atendendo à convocação que lhe fora entregue, firmada por um escriba. Era ainda o julgamento daquele homem acusado de matar o patrão.

Voltou sua atenção para a cidade, que via da sacada de sua casa.

– Tebas é realmente uma bela cidade – ponderava ele, olhando pela janela.

E era, também, centro do culto a Amon, principal divindade egípcia.

Aseph seguia à risca as devoções religiosas de sua gente. Assim, como ocorria com os seus compatriotas, possuía conhecimento muito claro das verdades religiosas e da ética e também a respeito da conduta humana.

O ensino da religião nas escolas era considerado prioritário, relegando a segundo plano as demais disciplinas. Assim, a noção de pecado estava bem clara em sua mente, assim como a da necessidade da justificação e a da imortalidade da alma. Tinha, como todo o povo, idéias muito exatas sobre o culto e o respeito devidos às divindades.

Tudo isso, é evidente, envolvido em grande misticismo e comandado pelos sacerdotes que, de alguma forma, sempre exerciam influência sobre a população.

Entretanto, o que Aseph observava agora era outro aspecto importante de sua cidade – a arquitetura.

Nos bancos da escola ficara sabendo outras coisas: por exemplo, que o Faraó Mentuhotep II, muitos anos atrás e sob os auspícios do deus Amon, convertera Tebas na capital do Egito unificado, a despeito de alguns pontos do país estarem ainda ocupados por estrangeiros, como é o caso dos hicsos.

Aliás, os monumentos mais antigos existentes na cidade datam dessa época, quando os sacerdotes de Amon passaram a ter grande influência, estendendo-se a sua construção por uma área de vários quilômetros quadrados.

A propósito, o núcleo central do templo de Amon, o maior e mais importante de que Aseph tem conhecimento, foi começado por Sesostris e somente seria terminado por Ramsés II.

Este templo tem um anexo, com mais ou menos cento e quarenta metros quadrados, cuja característica principal é um corredor em hipostilo, composto de cento e vinte e duas colunas com mais de vinte e um metros de altura, divididas em nove fileiras. Vários tipos de inscrições cobrem as paredes.

Lúxor e Karnak, contíguas a Tebas, são um repositório imenso de templos e esfinges – coisa de encher de muito orgulho a população.

Ao redor dessas edificações ficam os prédios públicos e as residências dos sacerdotes, funcionários, militares, artesãos e outros. Transversalmente, situam-se a avenida das Esfinges, que se junta ao templo de Mut, e a dos Colossos, estruturada com monumentais pórticos, formados por duas pirâmides cortadas, entre as quais fica a entrada. São monumentos decorados com relevos, obeliscos e arcadas, todos trabalhados em pedra calcária, granito verde, lápis-lazúli e alabastro. As portas são de madeira nobre, com entalhes cuidadosamente gravados. Os materiais aplicados muitas vezes foram transportados da Síria, Líbano e Sinai, os principais fornecedores.

Não pôde deixar de se lembrar, ainda, de que os governantes egípcios, desde a mais remota Antigüidade, eram obcecados em construir sua própria tumba, se possível maior e mais impressionante que a do seu antecessor.

Isso estava ligado não apenas aos sentimentos de poder, de riqueza e de orgulho – que eles tinham em grande dose – mas, muito mais que isso, essas tumbas perpetuariam os seus feitos e preservariam a história de seu país.

***

Aseph respirou fundo, não conseguindo definir por quê: se de alegria por fazer parte da população dessa grande cidade, de alívio por ter chegado o dia em que compareceria perante as autoridades para prestar depoimento sobre o cadáver à beira do Nilo, ou de tristeza por ter chegado à dramática conclusão de que, infelizmente, um acontecimento novo aos poucos vinha tomando forma: a violência estava aumentando em sua cidade.

O fato evidentemente traria, com o passar do tempo, reflexos no comportamento dos cidadãos, já que estavam com medo de sair às ruas em determinadas circunstâncias, por exemplo, à noite. As equipes de guardas palacianos dedicadas à segurança da população vinham alertando exatamente nesse sentido: os riscos de sair, especialmente em horas noturnas, com tantos estrangeiros mal-encarados que estavam chegando todos os dias na cidade, atraídos pela esperança de vida melhor e pelas perspectivas de seu crescente comércio, eis que nas regiões de onde procediam praticamente não havia condições de sobrevivência e já estavam passando fome. Essa constante ameaça fazia dos moradores de Tebas verdadeiros covardes.

Mut percebeu que seu esposo andava por outros mundos, remoendo, talvez, fatos ligados ao processo.

– Em que você está pensando, querido? –  quis saber.

– Em nada especial. É que às vezes passa-me pela cabeça a idéia de que deveríamos sair da capital. Há outras localidades ao longo do Nilo – embora pequenas – onde se pode viver bem. Quem sabe uma chácara...

Uma ligeira apreensão instalou-se no coração de Mut.

– Porém – concluiu o esposo, – trata-se de alternativa impossível no momento, já que o meu trabalho concentra-se aqui.           

– Ainda bem – pensou Mut, que adorava morar na capital.

E, em voz alta, talvez com uma pitada de ironia: –  Nada de pensamentos negativos, hein!

Chegou-se a ele, carinhosamente, passou o braço esquerdo por seus ombros e deu-lhe um beijo na face.

– Tome o seu café e vá até os juizes, sem medo, sem pânico.

– Ah, é – o processo!! A verdade Mut, é que nem se sabe ainda se estamos realmente diante de um crime, embora as evidências levem a supor que sim. Não precipitemos as conclusões. Deixemos isso para as autoridades.

– Isso mesmo – concordou ela. – Você é cidadão honrado e só vai dar informações que possam ajudar a conduzir à identificação, prisão e julgamento do culpado.

Após a intervenção da esposa sentiu-se menos tenso.

Antes de sair, encaminhou-se para uma almofada, onde se sentou para fazer calmamente sua refeição matinal, com pão, sucos e frutas servidos em uma baixela.

Despediu-se então da mulher e, já mais calmo, saiu para o pátio e subiu no lombo de um fogoso cavalo que o levou até o prédio que, em data a ser ainda determinada, abrigaria o julgamento.

Pelo caminho ia encontrando pessoas que se dirigiam ao mesmo objetivo que ele.

Lá estava o Palácio da Justiça. O imponente edifício fazia jus ao nome – “palácio”. Era uma majestosa construção em dois pavimentos, que abrigava as cortes de justiça de Tebas. E os juizes não pouparam dinheiro do governo em sua construção.

Externamente, seu aspecto era o de um trapézio, com a base bem mais larga que o teto. Na fachada foram empregados grandes blocos de calcário. Este mineral era polido o suficiente para mudar-lhe a aparência que, em lugar de rústica, era fina e aristocrática. Janelas retangulares e simetricamente dispostas nos dois andares concediam à edificação aspecto a um tempo alegre e despojado, o que, porém, não lhe tirava a imponência.

Ao rés-do-chão, sobre a porta principal e também conduzidos por funcionários, escudos, brasões e bandeiras indicavam a presença dos magistrados e de representantes do reino. Dentro, paredes e pisos de granito, com delicadas aplicações de lápis-lazúli. Dispostas ao longo dos corredores, portas de madeira entalhada vedavam dos passantes o interior dos gabinetes.

Ali, à entrada, as escadarias mais pareciam um palco. O clima era de festa. Não era sempre que se podia assistir a depoimentos envolvendo um caso tão rumoroso. As pessoas do povo ficavam surpresas e chocadas quando ocorriam fatos semelhantes. Sentiam-se como que desprotegidas e vulneráveis.

Logo ao chegar, Aseph soube que as investigações  já haviam chegado em sua fase final. As evidências conduziam as autoridades a um homem simples, um coitado, que trabalhava para o falecido. Interrogado, confessara o crime. Liquidara o seu senhor exatamente da maneira que Aseph imaginara, como revide a incontáveis maus tratos que vinha recebendo do mesmo.

– É, condições sub-humanas de trabalho, escravidão. O resultado poderia ser previsto. É evidente, no entanto, que isso não justifica o homicídio –  pensou Aseph.

Penetrou no edifício. Indagou sobre a sala de audiências, entrou e acomodou-se em um lugar nos fundos. Logo deveria ser chamado para dizer o que vira.

Na realidade, nada sabia do crime em si. Quando chegou no local, o homem já estava morto.

No momento oportuno, prestou as informações que sabia sobre o caso e ali mesmo inteirou-se de que o assassino já havia sido detido. E, também, de que deveria comparecer em data posterior a ser designada.

De volta à casa, percebeu estar um tanto decepcionado com a rapidez de seu depoimento e com a austeridade com que foi conduzido o inquérito.

Imaginara algo mais emocionante.

***

Chegou, enfim, o dia do julgamento, marcado com sessenta dias de antecedência.

Nessa ocasião, não só Aseph, mas também sua esposa, estavam no auditório. Apenas os seus criados ficaram do lado de fora.

Mut estava bem vestida e muito bonita. Havia aplicado nos olhos uma suave maquiagem que realçava ainda mais seus olhos levemente amendoados. Trajava um lindo vestido de linho fino e ostentava nos braços e nos dedos jóias de cristal. Ela ali comparecera mais por curiosidade e apreensão. Ele, por ter sido arrolado como testemunha.

 – Pretendo ficar até o fim, mesmo depois do meu depoimento – diz o marido. – Quero assistir ao julgamento. Desejo apreciar a argumentação a ser desenvolvida pela acusação, a descrição dos fatos, a confissão em plenário por parte do acusado. O Estado está muito bem representado nas pessoas dos acusadores.

Mut estranhou  um pouco esse súbito interesse por temas jurídicos!... Mas nada disse.

– E ele? – questiona Aseph. – Será que vai saber se defender? Vai ser a sua palavra contra a das testemunhas. Além de que, a defesa não versará realmente sobre a sua inocência, visto que já se declarou culpado, mas colocará em evidência os possíveis motivos alegados para o assassínio do seu patrão.

Aseph estava observando o réu.

Pertencia à classe dos trabalhadores braçais – aqueles que executavam tarefas que não requeriam qualquer tipo de formação profissional, os que eram mandados por capatazes que – esses sim – pensavam por eles. O respeito social que desfrutavam os tipos da espécie era próximo de zero. O salário também.

Era, em resumo, um coitado. Certamente seria condenado à prisão perpétua, no mínimo – ou à morte por execução, no máximo!

Nessa hora começou o julgamento. Tomaram a palavra e falaram todos os envolvidos no processo. O réu, ao ser interrogado, procurou transmitir a idéia de que o fato se dera em virtude de não suportar mais ser maltratado pelo seu amo, o que o levou ao desatino de matá-lo quando ambos andavam à beira do Rio, aonde posteriormente o atirou. Fugira com pressa mas, infelizmente, foi visto e denunciado por um escriba. Acabou confessando a autoria.

– Como são morosos os procedimentos da justiça – pensava Aseph, enquanto via desenrolar diante de seus olhos as cenas próprias de um tribunal.

Ao final de mais de três horas de julgamento, veio a sentença: prisão perpétua.

O público aplaudiu a decisão, como se a detenção de um só homem tivesse o dom de tornar mais seguras as vias públicas.

Essa atitude sintetizava bem a apreensão popular em relação à sua própria segurança. O objetivo da justiça é identificar e punir o culpado pelo delito cometido, trazendo a verdade à tona e transmitindo à população a idéia de segurança e de que ela se fará sempre presente. Assim sendo, não importa se há um ou muitos culpados, mas sim a realização dos objetivos do Estado de Direito.

– Ao menos teoricamente – pensou Aseph de si para consigo, – pois se fosse um nobre que estivesse no banco dos réus, era muito provável que o desfecho fosse outro.

Nesta hipótese, o prestígio certamente desempenharia o seu papel e operaria em favor da nobreza.

Aseph até pareceu envergonhar-se um pouco – ele também era membro de uma classe privilegiada.

Neste caso particular, o povo não esperava julgamento diferente.

– O que mais poderia esperar um escravo? – argumentava consigo Aseph. – Juizes, acusadores, assistentes, todos enfim contrários a ele. Até o povo!

Ouviu-se então a voz do oficial julgador, que chamava o meirinho.

A tudo a multidão acompanhara feliz, como se estivesse assistindo a um espetáculo de arena – desses tão comuns no Egito, onde muitas vezes a vítima se defronta com inimigos bem mais poderosos. E lembrou-se da última luta a que assistira, de um javali contra dois lutadores armados de achas, redes e lanças, em que o animal, em visível inferioridade, rapidamente sucumbiu.

Assim era a vida no Egito – e talvez nos outros países: a vitória dos poderosos sobre os menos favorecidos.

Viu então aproximar-se um oficial militar, munido de uma espada e acompanhado por quatro milicianos.

– Conduza o preso à casa do cárcere real, à disposição do seu Governador, para cumprimento de sua pena – determinou o juiz.

E foi assim que aquele pobre homem foi confinado na cadeia, na ‘casa do cárcere’, à disposição do seu governador e de Potifar.

 

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