![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()

(DINÁ E SIQUÉM)
Em um país longínquo, para onde nos transportaremos, estão acontecendo fatos marcantes, com profundos reflexos futuros na história do Egito.
Estamos agora em Canaã, o país dos hebreus, cujo Deus é Jeová, que – afirmam – os protege de todos os males.
A narrativa bíblica nos dá conta de que, muitos anos atrás, desde a criação do Jardim do Éden, Jeová – o Todo-Poderoso – tomou a incumbência de guardar e cuidar de seu povo. Assim é que o Senhor esteve presente na vida de Noé, de Enoque, de Balaão e de muitos outros vultos, sendo alguns dos últimos Saul, Moisés, Abraão, Isaque, Jacó (que teve seu nome mudado por Deus para Israel), proteção essa que permanece até os dias de hoje.
Essa constatação, entretanto, não os livrava das grandes lutas com outros clãs e com os inimigos das fronteiras, que constantemente os atormentavam e tentavam conquistá-los.
O povo de Canaã era afeito a batalhas e escaramuças e com isso se acostumou.
Parece que nada conseguiam com facilidade, o que passou a se constituir em verdadeiro instinto de sobrevivência entre as pessoas da raça.
- Somos uma grande família – diz em voz alta Israel, o patriarca cananeu, a quem Jeová pessoalmente prometera muita prosperidade, ocasião em que o seu nome foi mudado de Jacó para Israel. – Jeová abençoou-me com duas maravilhosas esposas e com doze filhos e uma filha. Além disso, cumulou-me com fazendas, gado, empregados. O que mais posso desejar?
Entre os israelitas, não só no seio das famílias mas na sociedade em geral, sempre predominou a voz dos homens. As mulheres tinham o seu papel, que era importante, como cuidar dos filhos, lavar, cozinhar, fazer negócios em nome da família. Mas nunca o direito de entrar em conversas de homens, nem afrontar o marido ou contrariá-lo em nada.
Na casa de Israel havia certa liberalidade, não só em relação à participação da esposa, mas também dos filhos nas conversas em geral.
Por isso, Léia sentiu-se à vontade para responder ao marido que, aos seus olhos, ele não estaria tratando os filhos de maneira eqüitativa.
- Eles estão comentando, Israel, que de todos os filhos é a José que você mais ama. Claro que há uma razão: ele é o filho da sua velhice. E você nunca escondeu isso. Basta dizer que José ganhou uma bela túnica, de várias cores, há poucos dias. Certamente foi presente seu.
- Léia, como sempre você parece ter razão. Há algo em José que me faz estar mais próximo dele que dos demais. Não entendo bem o porquê: se é para protegê-lo ou se há algum outro motivo oculto que ainda não consegui entender nem definir. Não sei o que poderei fazer a respeito.
- Ocorre que os irmãos estão percebendo essa predileção e se aborrecem, além de que não têm a mesma liberdade de falar com o pai como tem José.
Era esse o clima que reinava na terra de Canaã, na casa de Israel e Léia.
É claro que, numa família assim tão numerosa, não é difícil haver antagonismos, diferenças pessoais e disputas internas que, aparentemente, o patriarca conseguia controlar.
Mas nem sempre... Veja o que ocorria nas terras vizinhas, onde imperava o príncipe Hamor, pai de Siquém.
***
Siquém nasceu em berço de ouro. É nobre e filho de príncipe – o que se poderia chamar um bom partido. Seu pai, Hamor, o heveu, reina sobre as suas terras e Siquém se sente fortalecido por essa condição. Segundo o que diz o seu coração, é livre para fazer o que bem entender – Hamor sem dúvida sempre o amparará e defenderá.
Assim, gozando essa certeza e segurança, o jovem sai pelos campos de seu pai, distraidamente, como tem feito algumas vezes. É para sentir a beleza da vista, o perfume do campo, a sensação de liberdade proporcionada pela paisagem sem horizonte.
Desta vez, porém, sua atenção é chamada por algo diferente. Por algo excitante.
***
Jovem, bonita e curiosa para saber as últimas notícias da terra, Diná – a única mulher dentre os filhos de Israel – atravessava absorta os campos que separavam as terras de seu pai das dos vizinhos.
Encontrava-se agora, bem o sabia, na herdade dos heveus, cuja propriedade ficava próxima às terras de Israel, seu pai.
Bem, na verdade as de seu pai eram terras provisórias, arrendadas por Hamor ao patriarca, que possuía uma família grande e que, por isso, necessitava de bastante espaço. Eram duas esposas e treze filhos, o que para muitos poderia se constituir em problema, mas para Israel não era: adorava sua família.
Com esse objetivo saiu ela, intentando encontra-se com outras jovens com a mesma idade e com os mesmos interesses.
Diná nascera de Léia, a primeira esposa de Israel, ainda quando vagavam pelos vales e colinas na tentativa de volta aos seus próprios domínios, nos tempos em que Jeová ainda não tinha dado a ele o nome que tem hoje - Israel.
***
Foi essa a visão que Siquém teve: uma bela mulher, jovem, atravessando sozinha os campos de seu pai.
– Como é linda! – pensou ele. – Poderia ser minha esposa. – E simplificou: Poderia ser minha agora, só minha.
E, protegido pelas folhagens que circundavam o local, foi-se aproximando cautelosamente até uma posição em que a via bem de perto.
Na mesma hora vieram à sua mente pensamentos lascivos e pecaminosos, nos quais não estava fora de questão atirar-se – literalmente, atirar-se – sobre ela.
– Não! – refletiu. – Não posso desejar nada com ela, assim, sem mais nem menos. Seria horrível para o meu povo e também para o dela. Voltarei e falarei dela ao meu pai que, certamente, aprovará a nossa união.
Mas leitor, você há de concordar que em uma cabeça de jovem com um corpo cheio de vitalidade era muito difícil fazer conjeturas, ter cuidados, conter-se diante da oportunidade à sua frente.
E, até esse momento, de nada Diná receava, porque nada sabia dos perigos que corria.
Perigos? Depende: até que ponto se constituía em perigo ficar à mercê dos desejos de um varão?
Porque – você há de convir – poderia ser esse justamente o desejo dela: ser subjugada por um jovem forte e guerreiro, que com ela tivesse relações, já que era adulta, e a despeito dos futuros problemas que isso poderia constituir entre os clãs, problemas esses que estavam mais na esfera do “pecado” que do “crime” (tratava-se de obedecer aos mandamentos de Jeová!).
***
– Olá! – Foi a voz que ouviu.
Espantada olhou para a direita. Era Siquém que se aproximava amistosamente.
– Olá. – Respondeu. – Você me assustou. Quem é você?
– Sou Siquém, filho desta terra. Meu pai é Hamor, rei deste lugar.
E se aproximou. Chegou-se a ela, apertou-a contra seu corpo, tentou percorrer com as mãos as suas partes íntimas.
– Você é muito bonita.
– Você está me assustando! – exclamou Diná. – O que exatamente você quer?
– Quero que você seja minha... já... neste momento...
O restante da história, você bem pode imaginar. Foi coisa de minutos. Não faltaram a ele palavras de persuasão e nem a ela – quem sabe? – ouvidos e coração desejosos.
Assim, Siquém, filho de Hamor, heveu, príncipe daquela terra, ali mesmo, entre as folhagens do campo, deitou-a no chão e manteve com ela relações sexuais.
A verdade é que Siquém estava realmente apaixonado por Diná, de tal forma, que foi contar o episódio a seu pai.
- Quero me casar com ela, pai - pediu.
***
Era fato notório que os amorreus eram perversos e dados à pilhagem e à destruição. Todo cuidado era pouco. Quando Israel soube do fato os seus filhos estavam ainda no campo com o gado. Nada disse até que voltassem.
Hamor, por sua vez, pressentindo problemas, foi até Israel.
Os filhos de Israel, ao tomarem conhecimento do acontecido, entristeceram-se e ao mesmo tempo se iraram.
– A verdade – diz Hamor – é que meu filho está apaixonado por Diná e quer casar-se com ela. Isso resolveria tudo. Assim, peço que autorize o casamento de Siquém e Diná. Seria o início de um feliz relacionamento entre as nossas famílias.
– Não é tão fácil assim – pondera Israel. – O nosso povo tem leis rígidas que devem ser observadas no relacionamento com outros povos. Por exemplo: vocês estão dispostos a circuncidar todos os seus homens em obediência aos nossos costumes? É lei estabelecida pelo nosso Deus.
Hamor tremeu. Estaria o povo disposto a introduzir em seu seio tal hábito? E só para resolver o impasse entre Siquém e Diná? Hamor reuniu o seu clã.
– Assim - explicou Hamor após discorrer diante do povo sobre as exigências de Israel, – poderemos manter relações cordiais com o povo de Israel. Nossos filhos e filhas poderão casar-se com as filhas e filhos dos nossos vizinhos, povo que tem demonstrado ser pacífico e honrado.
Submetido o assunto ao referendo popular, a exigência foi aceita. Assim, todos os varões se submeteriam à circuncisão.
E sabe, leitor? A circuncisão para o povo de Israel era levada até as últimas conseqüências, ou seja, até os animais – em ocasiões especiais – eram circuncidados.
Ocorre que o episódio provocou muita tristeza e dor entre os filhos de Israel. Simeão e Levi, irmãos de Diná, não aceitaram a decisão do conselho do seu povo e decidiram fazer justiça com as próprias mãos. Tomaram as suas espadas, juntaram um bando e invadiram os acampamentos dos amorreus e mataram todos os homens que viam à sua frente. Dessa não escaparam nem Hamor e nem seu filho Siquém.
Além disso, invadiram as cidades de Hamor e tomaram as suas ovelhas e as suas vacas e os seus jumentos e o que havia de valor nas casas e no campo. Além dos seus bens, raptaram todas as crianças e as mulheres, que foram feitas prisioneiras.
Feito isso retornaram, não sem antes tomar Diná para levá-la de volta.
Israel não escondia o seu receio de que especialmente os cananeus e os ferezeus poderiam querer vingança.
– Vocês causaram um grande mal e mancharam a nossa reputação. Além disso, como somos poucos, se houver uma invasão por parte deles, certamente morreremos.
- Mas pai, nessa história toda a nossa irmã está fazendo papel de prostituta!
Israel achou melhor sair daquele lugar, levando a sua família e tudo quanto possuía para Betel – seguindo visão de Deus.
***
Esse episódio seria mais tarde lembrado por Israel no seu leito de morte no Egito, tendo assim profetizado sobre Simeão e Levi: “Simeão e Levi são irmãos; as suas espadas são instrumentos de violência... No seu furor, mataram varões e, na sua teima, arrebataram bois”.
Potifar, capitão das hostes de Ahmose, era eunuco, não se sabe se por castração ou se a expressão representava um título honorífico de ‘oficial’ (‘eunuco do Faraó’). Ficamos com a segunda hipótese, visto que tinha esposa que, como veremos mais à frente, jamais ficaria sem um homem que satisfizesse seus desejos sexuais.
Fora escolhido para exercer a chefia da guarda do palácio em acirrada disputa entre vários capitães. Era o encarregado da segurança pessoal do Faraó. Sua responsabilidade era muito grande e se estendia à integridade dos demais moradores do palácio.
Justamente meditando sobre isso, o capitão dirigiu-se ao seu gabinete de trabalho, ganhando aos poucos os corredores que o levavam ao destino.
- O rei tem se colocado em posição muito vulnerável, visto que ampliou a liberdade de locomoção dos moradores do palácio – pensava ele. – Esse fato propicia oportunidades aos adversários e facilita a ação de eventuais inimigos.
Já diante da porta de sua sala notou, nos fundos do corredor que dava para a ala dos dormitórios, um vulto que se esgueirava. Não o conseguiu identificar em razão da fraca iluminação do local.
Tratou de segui-lo rapidamente, até atingir área mais clara.
E aí viu: era o secretário particular de Mector. Na verdade – pensou Potifar repassando a cena na cabeça – ele saíra do laboratório do palácio.
- Estranho. Ele entrou ali em horário em que o laboratório está fechado. O que teria ido fazer? Trata-se de área restrita, só acessível a um grupo limitado de funcionários (cientistas, químicos e auxiliares). Além disso, onde estaria o guarda que sempre fica à porta?
Resolveu investigar. Assim, foi atrás dele e constatou que estava indo em direção aos aposentos de Mector, seu patrão.
Deixou temporariamente de segui-lo, deu meia-volta e retornou ao laboratório. Abriu a porta e iluminou a parte interna com um lampião. Deu alguns passos em seu interior e quase tropeçou em um corpo que jazia estendido no chão.
Ali estava o guarda, desacordado. Levara uma pancada na cabeça e jazia inconsciente.
Mais que depressa abaixou-se, levantou a parte superior de seu corpo e, com batidas em seu rosto e com algumas palavras, conseguiu reanimá-lo.
- Vamos, acorde.
Vendo-o já completamente desperto, quis saber o que havia acontecido.
- Não me lembro de nada – respondeu o guarda levando a mão à cabeça. – A pancada me pôs inconsciente.
- Vamos dar uma examinada no laboratório. Quem sabe descobrimos alguma coisa.
Passaram, assim, a procurar marcas de invasão.
- O que você acha que alguém subtrairia daqui? – perguntou Potifar.
- Bem, o que há basicamente no laboratório são produtos químicos das mais variadas espécies. Desde aqueles que são usados na confecção de perfumes e desinfetantes até produtos altamente tóxicos e letais.
- Parece óbvio. Por esse motivo creio que a resposta está justamente aí.
E dirigiu-se a uma prateleira no canto do cômodo, onde passou a examinar os frascos e os tubos de ensaio. Até que encontrou sobre a mesa vestígios de um pó branco.
O Capitão chegou mais perto, levou o dedo à língua e em seguida ao pó, que examinou detidamente.
- Olhe aqui – disse, – parece que o nosso homem estava muito interessado em um pouco de estricnina. Resta-nos agora o principal: saber por que necessita desse veneno ou que uso pretende fazer do mesmo.
- A estricnina – falou consigo próprio o capitão – é extraída de uma árvore nativa da Índia, do lado nordeste do Egito. A semente dessa árvore contém dois alcalóides, a estricnina e a brucina. Usada em medicina, a estricnina age como estimulante e como tônico se ingerida em doses normais. Pode, contudo, causar violentas convulsões e a morte se tomada em altas doses.
Percorreu todo a área do laboratório à procura de outros sinais daquela entrada clandestina. Então decidiu sair.
- Não conte o que aconteceu aqui para ninguém. Até que saibamos exatamente o significado de tudo, temos que guardar segredo. É possível que alguém esteja correndo risco de morte. E, muito provavelmente, alguém importante.
Dito isso, saíram ambos apressados, não sem antes fechar a porta e desfazer os sinais de sua presença ali.
José, dos hebreus, era o penúltimo filho de uma irmandade de treze.
Seu pai, Jacó, ainda jovem, fugindo da ira do irmão, Esaú, fora ter às terras do tio, Labão.
Labão tinha duas filhas, ambas em idade de se casar. A mais velha, Léia, era prendada e bem educada, predicados esses que, nela, falavam mais alto que sua beleza física. A outra se chamava Raquel, esta sim, além dos dotes naturais, era muito bonita.
O pai prometera a Jacó a mão de Raquel em troca de sete anos de trabalho. Ocorre que, no momento de cumprir o prometido, Labão deu-lhe Léia como esposa em lugar de Raquel.
Jacó, percebendo o ardil e não se conformando, protestou junto ao sogro.
- Bem – justificou-se Labão, – entre os costumes do nosso povo está o de casar primeiro a filha mais velha.
- Espero – torna Jacó – que entre os costumes do povo esteja também o de cumprir o prometido.
Foi assim que o sogro concordou em lhe dar também Raquel por outros sete anos de trabalho.
Logo que recebeu Raquel, Jacó notou que ela não podia ter filhos, visto que era estéril. Aquilo o enfadou sobremaneira.
- Por que, Jeová, tiras à minha mulher o privilégio de procriar? Bem sabes que este fato, para nosso povo, tem proporções de humilhação.
Por sua vez, Raquel queria muito ser mãe. Ver o filho nascer, crescer, poder tomar conta dele.
- Mesmo que seja só para cuidar. Darei a Jacó minha serva Bila como concubina e considerarei como meus os filhos que tiver.
E assim fez.
O certo é que, atendendo as insistentes preces de Jacó, Jeová concedeu que ele tivesse grande prole.
Léia, a primeira mulher, deu-lhe sete filhos – seis homens e uma mulher: Ruben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zebulom e Diná. Além disso Léia – que parara de procriar – entregou a Jacó sua escrava Zilpa como concubina, da qual nasceram mais dois: Gade e Aser. Da escrava Bila teve Dan e Naftali, visto que, a esse tempo, Raquel era estéril.
Como mais tarde Jeová permitiria a Raquel que engravidasse, esta deu a Jacó os dois últimos filhos: José, o penúltimo dos irmãos, e Benjamin, o caçula.
Eram, ao todo, treze irmãos.
A decisão de retornar à terra de seus pais e uma inesperada luta com um anjo no vale do rio Jaboque provocaram pelo menos duas profundas alterações na vida de Jacó: o mensageiro de Jeová mudou-lhe o nome, que passou a ser Israel; e da luta resultou-lhe, a um só tempo, ficar manco e ter a bênção divina confirmada.
Junte-se a esses o fato de que sua esposa Raquel, a quem amava mais do que as outras, faleceu prematuramente por ocasião do parto de Benjamin.
Voltemos ao jovem José.
- Sou uma pessoa muito feliz – conjeturava ele. – Vivo em um lar também feliz e sinto-me muito querido. Além disso, a bênção de Jeová é uma realidade em minha vida. E particularmente o afeto recebido de meu pai vem reforçar a alegria que sinto.
Cria que tudo deve ser visto com otimismo. Dentro da filosofia religiosa que lhe ensinara Israel, seu pai, sentia que Deus o estava preparando para uma missão fora do comum.
Recebera algumas qualidades especiais. Possuía os dons de discernimento, sabedoria e interpretação de sonhos e isso, em lugar de o alegrar, o deixava bastante apreensivo, visto que possuí-los implicava em reconhecer um encargo que parecia árduo.
Passados alguns dias, estava ele dormindo tranqüilamente e surpreendeu-se diante do que lhe parecia ser um sonho profético. A sua primeira idéia foi contá-lo a seus irmãos. Sendo bem mais jovem que eles, respeitava-os e imaginava que podia confiar neles e com eles contar quando necessitasse. Era o seu reconhecimento da própria modéstia e simplicidade e total isenção para com eles.
Ruben, o mais velho, era pessoa séria, compenetrada e digna de respeito. Merecia toda confiança do pai e era o principal responsável pelo bom andamento dos empreendimentos da família, em especial aqueles ligados à agricultura e à pecuária. O mesmo poderia ser dito dos demais, que possuíam, em maior ou menor grau, suficiente dose de seriedade.
De certa forma isso criava uma ascendência dos outros sobre ele. E da parte dele respeito e talvez admiração.
- Vou ver como estão meus irmãos para dar notícias a nosso pai e assim aproveito para contar a eles o sonho – pensou.
Alegremente, colocou sobre os ombros a túnica que ganhara e foi ao encontro deles.
Sendo o penúltimo dos filhos e ainda inexperiente, não tinha, segundo os critérios do seu povo, idade suficiente para estar no campo apascentando rebanhos e defendendo-os de ursos, raposas e outros animais. Entretanto, mal esperava o dia em que poderia também ter a sua cota de ovelhas para tomar conta e mostrar que podia fazê-lo perfeitamente.
Enquanto andava pelos pastos e bosques de seu pai ia observando a natureza.
- Como as coisas feitas por Jeová são belas e perfeitas. As árvores, as flores, os animais. Estão sujeitos à harmonia da natureza. E o homem – sim o homem, a cabeça da criação, feito para cultuar e obedecer a esse Deus maravilhoso. Obrigado, Senhor, por este lugar onde moro, pelos meus pais, pelos meus irmãos, por tudo.
A propósito, uma nação surgia e crescia em torno de Israel seu pai e que, por este fato, levaria o seu nome – o povo de Israel ou os israelitas.
Poder-se-ia dizer que era exagerado o otimismo, não apenas de José, naquele momento, ao contemplar as coisas à sua volta, como, de resto, de todos os membros do seu povo. Sim, eram o que se poderia chamar de otimistas, visto que, do ponto de vista da natureza, as terras que possuíam muito deixavam a desejar: no geral não eram tão boas e estavam numa região sujeita a secas periódicas, o que causava sérios transtornos.
Enquanto pensava, caminhava. Até que chegou ao lugar onde seus irmãos apascentavam os rebanhos da família e os cumprimentou com a saudação tão comum entre os membros do seu povo.
- Olá, meus queridos irmãos. A paz do Senhor esteja com vocês.
Notava-se pelos semblantes que seus irmãos não esperavam ver José ali.
- O que o traz tão longe assim, José? – pergunta agressivamente Issacar. – Veio bisbilhotar para levar as novas para o nosso pai?
- Desde quando e por que você nos insulta e nos provoca assim? – indaga Naftali.
Era visível nos irmãos o seu pouco apreço por José, de quem tinham ciúmes e inveja, situação até agora desapercebida deste.
- Vamos, manos – interrompe Ruben tentando contornar a situação. – Deixem-no em paz. Então, José, o que veio fazer?
- Quero levar notícias de vocês para o nosso pai. A propósito, já vi que estão bem... até demais! – completou ironicamente.
Sentou-se sob uma árvore enquanto os pastores descansavam do calor do dia ou tomavam sua refeição.
- Vou aproveitar que vocês estão aqui reunidos para contar um sonho que tive esta noite, o qual, confesso, não entendi. No sonho estávamos todos atando molhos de trigo no campo e, de repente, o meu molho ficava em pé, e todos os demais rodeavam e se inclinavam diante dele.
- ?!?!?!...
É evidente que, não apenas pelo sonho, mas porque José teve o trabalho de se deslocar de casa ao campo com a intenção de contá-lo aos irmãos, aquela declaração os deixou ainda mais aborrecidos.
- Então, – diz Issacar – deveras você reinará sobre nós? Terá domínio sobre nós?
- Diga, José – foi a vez de Judá perguntar. – O que você pensa dos direitos familiares? O que sabe sobre a primogenitura?
- É isso mesmo – completou Dã.
- Pensa que terá mais poderes do que nós? Ou do que Ruben, que é o mais velho?
- Como será isso, José? Como espera dominar-nos?
E cada vez mais tinham ódio dele – por seus sonhos e por suas palavras.
Ocorre porém que, para agravar ainda mais a rivalidade, José teve um outro sonho, que também chegou aos ouvidos dos demais. Desta vez, o sol, a lua e onze estrelas formavam um grande círculo e se inclinavam diante dele.
- Que sonho é esse, meu filho? – perguntou-lhe Israel quando soube do episódio – Por acaso você acha razoável que todos nós, eu, Léia e seus irmãos, nos inclinemos diante de você?
- Mas pai, eu apenas estou relatando o que sonhei. Não tenho intenções de assumir nenhuma postura de superioridade, nem em relação a meus irmãos e muito menos perante você e nossa mãe.
O clima no lar de José estava ficando carregado, por razões que ele próprio estava gerando. Seus irmãos o invejavam. Seu pai, porém, guardava tudo no coração. Tendo este passado por tantas situações difíceis no decorrer de sua vida, ocasiões em que sentia cada vez mais patente a presença de Deus, não poderia pensar diferente.
- Vai que Jeová esteja preparando o meu filho para alguma grande e importante missão. Depois dos acontecimentos anteriores, especialmente aquele em que Raquel, sendo estéril, pôde conceber pela graça divina e dar-me dois filhos – tudo pelo poder de Jeová, de nada mais duvido!
Algum tempo depois José foi encarregado por seu pai de ir até onde estavam os irmãos com o gado, para saber se estavam bem.
- Vá até lá, José, localize-os e procure saber como estão. Aí, volte e traga-me notícias.
José mais que depressa correu a cumprir as determinações do pai, porém não os encontrou no local onde deveriam estar.
- Vejamos – considerou José. – Fui novamente enviado por meu pai a meus irmãos, que apascentam o rebanho, em busca de notícias. Só que eles não se encontram no lugar predeterminado.
Caminhou um pouco mais.
- Meu senhor – perguntou a um camponês que morava nas imediações. – Terá visto os filhos de Israel pastoreando por aqui?
- Soube que eles foram para um lugar bem mais distante. Estão, segundo imagino, em Dotã. Foi o que ouvi dizerem.
José ponderava sobre os motivos de estarem tão longe. Talvez fosse para conseguir melhores pastagens para as ovelhas. A região era constituída de boas áreas de vegetação, mas também de vastos espaços desérticos.
Afinal de contas, os territórios próximos aos rios Tigre e Eufrates dependiam bastante das chuvas anuais para obterem água suficiente para suprir as suas necessidades e, quando suas águas baixavam, os pastores muitas vezes tinham que percorrer grandes distâncias em busca de melhores lugares para apascentar os rebanhos.
José realmente encontrou-os em Dotã. Mal se aproximara deles e os ânimos já estavam exaltados.
- Lá vem o sonhador-mor! – disse Zebulom.
- Qual será a novidade para hoje? – perguntou Naftali em tom de pilhéria.
A tal ponto chegara o rancor de seus irmãos, que eles não hesitariam em tomar qualquer atitude contra ele – por pior que fosse.
E enquanto José se aproximava confabulavam entre si sobre o que fazer com o irmão, que destino dar a ele.
- Vamos matá-lo e lançá-lo numa dessas covas. Diremos que foi comido por uma fera; e aí veremos o que será dos seus sonhos.
Ruben interveio, embora não se possa negar que ele também estava se sentindo diminuído diante de José. Assim, propôs uma solução menos radical.
- Não, meus irmãos. Não vamos tirar-lhe a vida. Isso é contra os princípios que aprendemos com o nosso pai. Somente devemos agir com violência se formos atacados. Não derramemos sangue. Vamos colocá-lo em uma destas covas, mas vivo. Ele por certo acabará morrendo de fome ou de frio ou, ainda, será devorado por algum animal.
- É uma boa idéia – interveio Dan. – Assim não teremos que manchar nossas mãos no seu sangue.
Tão logo José chegou, colocaram em execução o plano concebido, em meio a um ambiente de hostilidade e de ódio.
Avançaram sobre ele, dominando-o, e amarraram suas mãos e seus pés. Concordes sobre os detalhes, tiraram-lhe a túnica e o jogaram na cova.
- Não se esqueçam de desamarrar-lhe as cordas antes de colocá-lo na cova. Ele não conseguirá fugir.
Estavam tratando o irmão da maneira como tratariam o pior inimigo de seu povo ou de sua família. Ou não estavam eles acostumados a eliminar os adversários? Entretanto, sentiam-se aliviados e recompensados, em nada lhes importando o seu futuro!
Naquele momento, um barulho de camelos e cavalos pisoteando a areia do deserto os distraiu daquilo que, até agora, era o centro de suas atenções. Levantando os olhos, perceberam que se aproximava uma extensa caravana que, à medida que chegava mais perto, fazia sentir o tagarelar de dezenas, ou talvez centenas de caravaneiros.
Quem seriam aqueles homens?
Bem, o melhor era mastigar algumas tâmaras, colhidas ali mesmo, e esperar pacientemente que eles se aproximassem e pudessem ser identificados. Assim, sentaram-se e relaxaram.
- Espero que sejam amistosos.
- É o mínimo.
- Parece que trazem armas na cintura.
- Isso é aceitável numa travessia tão longa. Nunca se sabe que perigo está à frente e é preciso ser precavido.
- Bem – disse Dã, – isso me deixa mais descontraído, visto que nós não representamos perigo.
- Que língua falariam?
- Não creio que tenhamos problemas quanto a isso – sentenciou Ruben.
A planície era imensa e o horizonte no deserto, caracterizado por um sol crepuscular, se apresentava bem distante, assim como a própria caravana que se aproximava.
Isso ensejou aos irmãos tempo suficiente para essa troca de impressões.
- Olá, amigos – disse um dos viajantes, manejando com perfeição o dialeto dos beduínos, tão encontradiços no deserto Oriental e no Sinai. – Pedimos permissão para acampar com vocês, visto que estamos vindo de uma longa jornada e todos muito cansados, não só os homens como também os animais.
- Gostaríamos que respondessem a algumas perguntas: quem são vocês, de onde vêm e qual é o seu destino?
Os estranhos satisfizeram a curiosidade de Ruben e seus irmãos: compunham uma caravana de comerciantes ismaelitas, vindos de Gileade e de passagem para o Egito, com especiarias, bálsamo e mirra que seriam comercializados no destino. Faziam freqüentemente essa rota.
Integrados à caravana estavam também alguns negociantes midianitas, cujo principal comércio era o de escravos. Aliás, estavam levando alguns para serem vendidos no Egito.
- Muito bem, queridos manos – era Judá que, alegremente, monopolizava a atenção de todos. – Não vamos feri-lo. Afinal, é nosso irmão, nossa carne. Vamos vendê-lo a estes midianitas.
A fim de fazerem negócio, foram até a cisterna e de lá retiraram José.
- Quanto nos dão por este jovem? Podem levá-lo para trabalhar como escravo ou agregado. Ou então vendê-lo aos egípcios. Então, o que dizem?
E após discussões bastante prosaicas sobre o valor, completaram a transação.
- Da nossa parte – sugeriu Issacar – já está decidido. Vamos matar um cabrito, salpicar o sangue sobre esta túnica e em seguida pedir a um dos empregados que volte à nossa terra e a entregue a nosso pai.
Todos concordaram, menos Ruben, que ali não se encontrava no momento. Ele nada sabia sobre o desfecho do episódio. Entristeceu-lhe, pois, o coração verificar que José não estava mais na cova e mais ainda saber que provavelmente nunca mais veria o irmão.
Voltemos à terra dos hebreus, onde o ambiente era de ansiedade na casa de Israel.
Ele repassava os últimos acontecimentos do dia e estremecia ao pensar no destino de seu filho, que saíra de madrugada para obter notícias dos irmãos e ainda não regressara. Não obstante tivesse organizado várias equipes de busca, nada fora acrescentado sobre o seu paradeiro. O desaparecimento de José era uma incógnita.
- Temo por algo muito triste – pensava ele, – até mesmo uma vingança de seus irmãos.
O tempo passava e nada a respeito de José. Israel se impacientava. E Léia também. Seu marido não era mais o jovem de antigamente para sair a campo e orientar a procura de seu filho.
- Querido, vem alguém ao longe, ao pé daquela colina – alertou Léia, olhando à distância e ansiosa por notícias de José que, embora não sendo seu filho, lhe era muito querido.
- Vamos esperar que chegue mais perto.
Depois de alguns minutos de expectativa ouviu-se a voz aflita de Israel.
- Parece que são alguns de nossos empregados.
O que estava encarregado de dar a notícia chegou-se mais perto.
- Olá, Israel, a paz seja com vocês. Trazemos novas que não são muito boas.
O clima, que já era de sobressalto, tornou-se ainda mais tenso.
- Fui encarregado de entregar-lhe esta túnica que, acho, pertence a José.
Mais que depressa, Israel e Léia arrebataram a túnica das mãos do emissário, como que para tirar dúvidas sobre o seu proprietário.
Era ela, sim. A bela túnica de várias cores, cuidadosamente confeccionada por um artesão residente na propriedade, presente de Israel para José.
- Realmente, é do meu filho – confirmou suspirando.
- Como vê, está manchada de sangue.
- Quem o encarregou de me entregar esta túnica? – quis saber o patriarca.
- Os seus próprios filhos.
- Chegou a conversar com eles sobre a provável causa de tudo isso?
- Segundo eles, José deve ter sido atacado por um animal – pelo jeito, muito grande, visto que não encontraram o corpo. Pretendem esclarecer isso melhor quando estiverem de volta.
A constatação imediatamente produziu efeito. Léia sentou-se para não desmaiar. Israel rasgou as suas roupas, tal a tristeza que se abateu sobre ele.
- Jeová, o que fizeste com o meu filho, o meu predileto? O que é feito de Tuas promessas para a minha vida e para o meu povo?
E desandou num choro convulsivo. Naquela noite adormeceu soluçando. E lamentou por muitos dias.
Como que aliviados da incômoda presença de José, os irmãos acamparam para descansar.
Quando saíam para muito longe com os rebanhos, permaneciam fora de casa três, quatro dias, às vezes uma semana. Era um procedimento normal e tinha como objetivo conseguir as melhores pastagens para os rebanhos e evitar a volta diária à casa, o que seria muito cansativo.
Em relação ao desaparecimento do irmão, teriam que arranjar uma boa desculpa para dar ao pai sobre o episódio. Sendo aquele bastante jovem, seriam interrogados sobre a atitude descuidada que adotaram. Mas por ora estavam despreocupados.
Certamente que, quando novamente narrassem a história que inventaram, a confirmação do que seus pais souberam pelo mensageiro causaria neles nova reação emocional. Mas o tempo se encarregaria de fazê-los esquecer.
José marchava a pé pela areia escaldante, com as mãos atadas nas costas. A caravana se detivera por tempo superior ao esperado e, por isso, os mercadores agora tinham pressa.
A areia seca batia-lhe no rosto e nos braços, aumentando a sensação de secura e calor. O sol causticante como que penetrava em seus poros e castigava-lhe a cabeça e as costas.
Sentia-se cansado. E imaginar que somente parariam novamente dali a quatro ou cinco horas...
Nos dias seguintes a viagem continuou sem maiores incidentes. Vendo o cansaço e a prostração de José, os viajantes concordaram em desamarrá-lo e permitir-lhe servir-se pessoalmente de alimento e de água por ocasião das paradas. Isso ensejou que ele pudesse conhecer melhor alguns dos membros da caravana e até com eles conversar.
O hebreu calculava que ainda demorariam cerca de quinze a vinte dias para entrar no Egito.
Ao fim de quatro semanas de viagem, desde que ele fora vendido, avistaram ao longe as primeiras construções da capital egípcia. Era como se estivessem entrando na segurança de um oásis. Tebas era uma bela cidade, limpa e repleta de imponentes construções.
Tão logo chegaram ao destino, os midianitas trataram de procurar comprador para o escravo hebreu.
Não era comum homens de pele clara serem oferecidos como escravos. Geralmente estes estavam entre os próprios habitantes do deserto e descendiam de tuaregues ou de nômades trigueiros. Por isso, não só em razão de sua pele clara, mas também pelo seu porte e sua beleza, chamou imediatamente a atenção daqueles que se encontravam no mercado.
Através dos tempos, possuir escravos ou ter recursos para comprá-los sempre determinou o status e o prestígio das pessoas. No Egito isso não era diferente e encarregá-los daqueles serviços considerados simples, mas também pesados e cansativos, era bastante comum.
Potifar, o capitão da guarda palaciana do Faraó, estava na praça do mercado, talvez para exercer esse direito de comprar escravos e ver a sua figura ser admirada publicamente. Andou por todos os lugares, examinando os prováveis candidatos e deteve-se finalmente junto àquela caravana recém-chegada do deserto. Viu aquele escravo de pele clara e interessou-se por ele. Assim, comprou-o das mãos dos midianitas.
Ordenou então que conduzissem o hebreu até o palácio e o trouxessem à sua presença. Queria vê-lo melhor.
José, no percurso que fazia até a sala onde Potifar se encontrava, ia observando as particularidades do palácio.
Ao mesmo tempo, a ele pareceu que a seqüência de acontecimentos fazia parte de um plano com vistas ao seu futuro e, assim, o otimismo prevaleceu mais uma vez.
- Que maravilhoso palácio! Desde os pórticos de entrada, as paredes, os pisos, até às cortinas e móveis, tudo é de muito bom gosto.
Chegado diante do novo patrão, José curvou-se e aguardou.
- Muito bem, disse Potifar. Você não me parece um escravo, realmente. E nem um malfeitor ou bandido. Vou acolhê-lo provisoriamente em minha casa até que possa ter melhores informações a seu respeito. Mas note: não poderá sair dos limites do palácio. Espero que saiba corresponder à confiança que estou depositando em você.
Aquilo soou como boa notícia para José, que permaneceu calado.
Por que o capitão o tratava assim? Por que a oportunidade de se explicar? Potifar, parece, estava dando chances ao novel prisioneiro. As respostas – quais seriam?
Talvez uma oportunidade providencial, para que não se achasse tão inferiorizado e humilhado.
Entretanto, Potifar queria saber mais.
- Teria você, escravo, razões para explicar a sua presença aqui? Você que é hebreu e que se encontra tão longe de sua terra, assim como está longe o oriente do ocidente?
José sentiu que devia falar, não obstante fosse escravo, e teve então oportunidade de dar a sua versão.
- A verdade, senhor, é que fui subjugado e feito prisioneiro por meus próprios irmãos que, para se desfazerem da minha incômoda presença, venderam-me como escravo.
O Capitão ouviu, meditou por alguns segundos e resolveu aguardar os acontecimentos.