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- Você está dizendo que sentiu algo estranho no interior do palácio?
Ahmose se dirigia a Potifar a respeito dos estranhos acontecimentos.
Passeava pela sala do trono – como era seu costume em conversas menos formais – tentando entender a presença do capitão ali, visto que esta visita era inesperada.
- Mas não sabe exatamente o quê – continuou o monarca. – Não seria possível um erro de observação ou, digamos, uma dedução exagerada de sua parte? Ou, em outras palavras, sendo o responsável direto pela minha segurança, não estaria você excessivamente preocupado? Ao menos por ora não percebo qualquer irregularidade na conduta dos elementos que normalmente transitam por aqui.
- A menos que V. Majestade nada ache de anormal alguém entrar clandestinamente e a desoras em um lugar vedado ao comum dos moradores do palácio, como é o laboratório. Ainda mais tendo sido constatada a subtração de substância tóxica.
No decorrer do dia, Ahmose, meditando nas informações do seu capitão, reconsiderou a situação. Sem dúvida pareceu-lhe um tanto estranho o relato de Potifar e passou a levar mais a sério o acontecimento.
Quem estaria envolvido? A simples idéia de imaginar algum nome implicado nesse caso já o aborrecia. Evidentemente, deveria ser alguém bem próximo.
Chamou de volta Potifar.
- Diga sinceramente, capitão, qual é a sua avaliação do episódio?
- Majestade, sinceramente, acho que alguém está correndo grave risco neste palácio. Oxalá que não seja V. Majestade.
Em outro qualquer essa simples menção seria suficiente para deixá-lo apreensivo. Mas Ahmose, o Faraó Guerreiro, parece que nada temia. Ficou preocupado e pensativo, como não poderia deixar de ocorrer diante da situação. Finalmente falou.
- Pois bem. Peço-lhe proceder a investigações que nos conduzam a uma explicação para o que aconteceu. Ouça todos que puder ou, como se diz: ‘feche a boca e aguce os ouvidos’. Coloque seus subordinados em lugares que julgar estratégicos, para observar tudo.
Ficaram, então, calados por um tempo.
- Peço licença para me retirar. E fique V. Excia. certo de que tudo farei para que a ocorrência seja devidamente explicada.
Nos dias seguintes Potifar dedicou o seu tempo em esclarecer o mistério, a trama.
A sua experiência lhe dizia que estava sendo urdido no palácio um movimento que certamente teria graves conseqüências, caso fosse levado a efeito. E ele faria tudo ao seu alcance para neutralizar a investida do líder – ou líderes – daquela insurreição.
Assim sendo, urgia levar a efeito um muito cuidadoso - e não menos sigiloso - plano de contra-ataque. Investigações minuciosas teriam lugar dentro e fora dos limites do palácio, para identificar os envolvidos.
E perguntar, inquirir, observar, eram algumas das especialidades de Potifar.
Ele e alguns membros de sua equipe haveriam de se infiltrar nos recônditos dos corredores, dos aposentos, dos salões e também penetrariam no íntimo das conversas, das intrigas palacianas, das reuniões, dos pequenos grupos que habitualmente se juntavam para bate-papos sem compromisso.
Como fiéis sombras, ele e seus comandados seguiriam os habitués do palácio, literalmente colando-se neles tanto quanto possível.
Tendo o seu plano autorizado pelo Faraó, o capitão passou a executá-lo.
Primeiramente, deveria colocar em seus registros os nomes de todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, fossem suspeitos de participação na ocorrência.
Em seguida, caberia à sua equipe a difícil tarefa de determinar, o mais rigorosamente possível, não só quem seria ou seriam os conspiradores, como também quem seria o alvo da ação, onde e quando esta ocorreria. A dificuldade estava exatamente em catalogar os pormenores sem levantar suspeitas, muitas vezes fazendo perguntas e indagando, sem dar a conhecer o caráter reservado daquilo que pretendiam.
José a contragosto parece ter acordado para uma dura realidade: encontrava-se agora no Egito, um país estrangeiro, praticamente prisioneiro no palácio de um estranho.
O dono era, certamente, um alto dignitário local. Todos o reverenciavam como tal. Potifar afigurou-se a José um oficial poderoso, que privava das graças e dos privilégios do Faraó. Mais tarde teria oportunidade de comprovar isso.
Por outro lado, sentia também que ele próprio agradara ao seu amo. É evidente, contudo, que sua vida não seria ditada por esse fato, nem pelo apreço que seu novel patrão desfrutava, mas sim pela conduta que ele próprio pudesse adotar dali para frente.
Trabalhando no palácio do capitão em diversas atividades, José era requisitado constantemente para servir a outros moradores. Afinal, ele era escravo e só lhe restava acatar e cumprir ordens. Contudo, algo curioso acontecia ali: a simples presença do hebreu tinha o poder de provocar alterações no ambiente. Ele possuía o dom de criar prosperidade onde quer que estivesse.
E esse fenômeno começou a ocorrer no palácio. E o jovem José ponderava em seu coração sobre os acontecimentos dos últimos dias.
- Vamos repassar os últimos fatos e deles tirar uma conclusão: saí de casa com intenção de saber notícias de meus irmãos e imediatamente voltar. Entretanto, Deus tinha para mim outro plano. Conduziu-me ao Egito, colocou-me nesta casa e tem-me abençoado e dado prosperidade em tudo que faço. Todos no palácio me respeitam e trabalham com alegria.
Ele morava no palácio e em pouco tempo fez amizade com os demais servidores de Potifar, impondo-se a todos por sua aparência física, sua sabedoria e sua simpatia.
Naquele momento foi tirado de suas divagações por uma voz desconhecida.
- José, você está de folga hoje. Convido-o a conhecer melhor o palácio e suas instalações.
Quem disse isso foi Amecar, o chefe da cozinha, que era bastante antigo e estimado na casa do Capitão da Guarda Palaciana do Faraó, o suficiente para ter liberdade de se locomover ali como se fosse em sua própria casa.
Foi assim de grande proveito para José percorrer os corredores, as salas repletas de obras de arte, os diversos templos internos, acessíveis apenas aos familiares, os jardins, as fontes, as piscinas e os compartimentos reservados à sauna.
Cada coisa que via representava mais um item no conhecimento da cultura dessa espantosa civilização, que ele estava aprendendo a admirar cada vez mais.
- Desejo ser sempre seu amigo, José – revelou Amecar. – Quero ter a honra de privar de sua benevolência, já que me parece ter caído nas graças do nosso amo.
- Não pense assim, meu caro. Tenho-o como amigo, independente de tudo quanto você atribui ao meu prestígio. Amigo é amigo sempre.
Foi-lhe muito útil a companhia de Amecar naquela verdadeira incursão aos domínios domésticos de Potifar.
Havia uma outra coisa que José notara e que era sinal da bênção que vinha trazendo à casa do oficial: até as iguarias ordenadas à cozinha para servirem de alimento ao seu amo sempre eram bonitas e apetitosas. Os reservatórios de água estavam sempre impecáveis, assim como as roupas das camas dispostas nos oito aposentos, bem como nos mais de vinte cômodos da casa do Capitão da Guarda.
Que Jeová abençoava, José não tinha dúvidas. Mas, evidentemente, tudo dependia também do tirocínio e competência dele.
Um belo dia, essas evidências – que, se tomadas individualmente, não despertariam a atenção – começaram a ser notadas por Potifar, que o chamou à sua presença.
José apressou-se a atender à convocação. Preparou-se devidamente: tomou banho (coisa que fazia regularmente), barbeou-se – moda egípcia – e colocou uma túnica branca (parece que era a cor preferida do povo e dos palacianos) e foi até o lugar determinado pelo Capitão. Corredor após corredor, porta após porta, finalmente estava ali.
Viu-se diante de uma enorme porta em alto relevo, com duas folhas que se abriram pelas mãos de um guarda, deixando ver o interior.
O salão de audiências era muito bonito, além de convidativo e muito funcional. Grossas cortinas pendiam do teto, caindo até o piso, sem, contudo, deixar o ambiente pesado. No meio do salão estava uma enorme mesa oval de madeira nobre, sobre a qual repousava uma escultura em jaspe – muito comum no Egito – imitando uma esfinge. As poltronas obedeciam ao formato tradicionalmente usado: eram de espaldar alto com macios assentos revestidos de seda dourada, mais assemelhadas a tronos.
- Chegue-se, José – ordenou-lhe Potifar.
No instante seguinte, viam-se outra vez frente a frente.
Inexplicavelmente, o hebreu não sentia o mínimo constrangimento diante da figura imponente do capitão. Reconhecia, certamente, a superioridade e preeminência de seu amo, de quem era um serviçal. Talvez a explicação para se sentir tão à vontade derivasse do poder e da confiança que lhe transmitia o seu Deus.
- José, nem sei muito bem por que motivo o recolhi ao meu palácio e passei a considerá-lo como um dos meus serviçais. Mas eu o tenho observado: tudo que você faz, qualquer empreendimento que esteja a seu cargo, prospera. E isso – prosperidade, progresso, riqueza – é o que todos procuram. Você há de concordar que ignorar as evidências e recusar a sua presença seria grande tolice de minha parte.
José estava tentando entender a razão daquele prólogo.
- A verdade é que eu desejo colocá-lo como principal, como mordomo sobre a minha casa. Espero que com isso a bênção esteja sempre presente aqui. Você está disposto a aceitar a nomeação?
- Meu senhor – disse José de maneira humilde, – só tenho motivos para ser grato pela maneira como fui recebido neste país e, particularmente, em sua casa. O mínimo que posso fazer é atender ao seu pedido e colocar-me à sua disposição para o trabalho que me é oferecido.
- Você será muito bem recompensado enquanto no desempenho desse cargo. Terá também os seus aposentos particulares, dotados de todas as comodidades possíveis. Além disso, gozará acesso a todas as dependências do palácio, exceção que faço somente quanto à minha esposa que, como pode imaginar, tem direitos especiais e será objeto da máxima discrição de sua parte.
José estava perplexo. Sabia que Jeová o estava protegendo, mas não esperava tanto!
- Vá, portanto, e desempenhe a sua nova função com a certeza de minha proteção e com a bênção do seu Deus.
José pediu licença para se retirar, não sem que antes Faraó se lembrasse de uma coisa.
- Ah, é bastante conveniente uma festa de boas vindas. Ela será para comemorar a sua nomeação. Você será apresentado a todos os moradores do meu palácio e a pessoas importantes da nossa sociedade. Uma reunião íntima. Digamos: daqui a duas semanas.
A verdade é que, desde esse dia, grandes mudanças para melhor começaram a ocorrer em relação à casa, às fazendas, à família e aos bens de Potifar, capitão do Faraó. Isso explicava por que o Capitão fez questão de comemorar a nomeação com uma festa. Claro está, contudo, que a festividade era mais uma oportunidade de Potifar se exibir diante dos palacianos - muito mais que a apresentação de um simples José.
Com o novo trabalho confiado a José, Potifar ficou descansado quanto às atividades domésticas, que sabia em boas mãos, preocupando-se, tão-somente, com o pão que comia.
E José estava feliz com os últimos acontecimentos.
- Quem sabe até arranjarei uma esposa aqui no Egito!
Pithis não dormia há dias. Estava atravessando, por assim dizer, o vale da decisão.
- Já de pé tão cedo, querido? - Era a voz de sua mulher. - Você não tem conseguido dormir. O que vai pela sua cabeça? Provavelmente algo muito importante.
- Nada, meu bem. Apenas insônia. Fique descansada que isto logo passa. Continue dormindo, pois é ainda muito cedo. Vou tomar um banho e assumir o meu trabalho habitual. O Faraó encomendou para hoje alguns bolos e pães especiais.
- Está bem. Mas não deixe que nenhuma preocupação o perturbe tanto assim.
Assim como dissera, Pithis, após um rápido desjejum, saiu em direção à cozinha do palácio, onde mais uma vez desempenharia as suas funções de padeiro-mor.
Realmente, algo muito forte o perturbava. Algo que poderia mudar o rumo de sua vida e também os destinos do Egito. Vinha sendo assediado por Mector e por Usitep a participar de uma conspiração visando a assassinar Ahmose.
Depois de um cuidadoso planejamento, a irmã e o cunhado do monarca punham em ação um plano praticamente sem falhas. Mas para isso contavam, entre outras coisas, com a ambição e o caráter vacilante do padeiro-mor do palácio.
Era, sem dúvida, uma trama muita bem urdida. Participariam dela, além do casal e de Pithis, algumas outras pessoas – poucas – que, entretanto, condicionaram a sua entrada a que ficassem no anonimato.
Pithis decidira nada revelar à esposa sobre este assunto.
Que sentimento é maior: a paixão ou o ódio? Qual das duas emoções produz mais violentas reações? Qual é mais forte? Qual é mais condenável?
O que não se pode negar é que ambos acompanham o homem desde os primórdios, além de se constituírem em emoções fortíssimas.
Uma como outra levam à mentira, ao delito, à morte. Mata-se por ódio. Mata-se também por paixão. Ambas cegam, ambas despertam tremores, ambas aceleram o coração.
E é certo que esses sentimentos estão presentes nos ambientes mais diversos – nas residências, no campo, nos palácios. Aliás, com muito mais intensidade nos últimos, por uma razão muito simples: a vida inconseqüente e despreocupada dos cortesãos e palacianos favorece esse clima.
Vejamos, por exemplo, o que se passa na cabeça de Netertini, mulher de Potifar.
Antes, porém, verdade seja dita, tratava-se de uma linda mulher, ainda jovem. Pele morena, cabelos longos e negros, olhos também negros e penetrantes. O seu corpo faria qualquer homem ter divagações e sonhos inconfessáveis com ela. Suas pernas e coxas eram perfeitas e os seus contornos eram inteiramente visíveis sob as vestes quase íntimas que costumava usar no seu palácio. Seus quadris eram redondos e isentos daquela adiposidade que revela excessos laterais. Seus seios eram convidativos e saciariam de amor o mais indiferente dos mortais.
Naquele exato momento encontrava-se numa área do palácio onde os jardins e chafarizes localizados de maneira estratégica convidavam à descontração e à meditação.
Em um canto do jardim alguns jovens tocavam seus instrumentos musicais, enchendo o ar de alegres harmonias. Um pouco além, uma mesa com bebidas e várias iguarias.
Netertini relaxava o corpo e tentava repousar o espírito, embora esta tentativa estivesse lhe trazendo grande frustração. Era notório que estava muito agitada e respirava de maneira ofegante.
A razão disso era a presença de José no palácio de seu marido. Não lhe passara despercebida a beleza, o porte, a virilidade do jovem hebreu.
- Traga esse José à minha presença – ordenou à sua camareira. – Quando vier, conduza-o aos meus aposentos.
A camareira apressava-se em seguir suas ordens, quando foi chamada de volta.
- Entretanto, conserve isto em segredo. A ninguém diga nada, ou pagará com a própria vida. Você sabe que para mim isso não é muito difícil!
Diante de tal determinação, nenhuma atitude restava à camareira, a não ser cumprir imediatamente a ordem.
Assim, dirigiu-se aos escritórios de José, que estava absorto diante de alguns projetos.
O hebreu percebeu a sua aflição e pressa.
- Tenho ordens de conduzi-lo aos aposentos de minha ama – disse.
- O que será agora? – disse José intimamente. – Não é esta a primeira vez que Netertini tenta se aproximar de mim. Certamente não será para dar-me alguma ordem, visto que só acato ordens da parte de Potifar, e nem para conversar sobre amenidades.
Enrolou e guardou cuidadosamente as plantas que consultava.
- Somente indo até o seu quarto saberei de que se trata.
Não era muito difícil para José imaginar as razões da mulher de Potifar. Linda e jovem como era, esposa de um capitão muito ocupado, que cuidava muito mais das coisas do Faraó do que das próprias, buscava talvez uma aventura, talvez a satisfação de instintos, que neste momento falavam tão alto, a ponto de ela se sentir afogueada e com o coração totalmente descompassado.
Seguindo os passos da aia, José chegou às portas externas, que estavam guarnecidas por dois atentos soldados, armados de lanças.
Imediatamente, foi recebido e introduzido em um recinto oval, forrado de tapetes e cortinas de cores vivas. – Lindo! – admirou intimamente.
- Espere aqui.
Alguns minutos depois, abriram-se como que por mágica as portas que davam para a câmara interior de Netertini, que se apresentava radiosa e linda ao lado de seu leito.
Tudo ali era de muito bom gosto: a cama era, ao contrário do que imaginara José, de madeira e não de metal dourado, porém a madeira empregada era o cedro, que tinha sido importado de muito longe. Encimando-a havia um dossel branco, todo forrado e com franjas bordadas com esmero, de onde caía um véu, que fazia imaginar o ambiente reservado que ele proporcionava.
José conjeturava sobre como seriam as restantes instalações – os banheiros, o lavabo, a sauna, enfim, tudo o mais!...
E ela?!? Santo Deus! – constatara – como estava linda!
Os cabelos tinham sido objeto das mãos competentes de um verdadeiro artista; apresentavam-se num belíssimo penteado, o mesmo que seria usado por Cleópatra vários séculos depois e que, certamente, ajudaram a imortalizá-la.
Usava um par de sandálias douradas, confeccionadas em tricê de couro, que lhe deixavam em evidência a alvura e a beleza dos pés. Como roupa, apenas uma espécie de robe transparente que permitia entrever as curvas de seu corpo e de seus seios. Ostentava um belo diadema no pescoço, um peitoral cravejado de lápis-lazúli, além de dois braceletes de contas em cada braço.
Para completar o quadro, chegava às narinas de José aquele doce e delicado perfume que, por certo, custara a Potifar muito dinheiro.
Quem resistiria?
- Chegue-se mais, José. Não tenha medo de mim. Sou inofensiva. Apenas quero ter com você um clima de perfeita amizade e, evidentemente, usufruir tudo que você aparenta ter: sua força, sua resistência e sua... masculinidade.
- Que certeza você poderia ter a respeito dos meus dotes físicos? O capitão da guarda, seu marido, prefere honrar-me por minhas qualidades morais e intelectuais.
- Ele o vê com olhos de administrador, de pessoa da mais alta confiança do Faraó, e não o admira, evidentemente, pela sua beleza, mas pelo seu espírito e inteligência.
- E o que a impede de me ver por aquele ângulo? Acha, porventura, que os predicados físicos são os únicos que contam? Lembre-se que as virtudes não são patentes à primeira vista.
- Ora José, deixemos de simulação. Eu quero você. Eu preciso de você. Estou ardendo de desejo. Aproxime-se, chegue mais perto e toque meu corpo. Desde o dia em que o vi ao lado de meu marido este sentimento toma forma e é cada vez mais forte.
José inconscientemente lançou um olhar em direção à porta, considerando a necessidade de uma eventual retirada estratégica.
- Venha José, não é sempre que surge uma oportunidade como esta, em que a mulher de Potifar se oferecesse assim...
É claro que tudo aquilo estava mexendo com o espírito e com o coração de José. Entretanto, falaram mais alto o seu dever, a sua lealdade, a sua honestidade e a sua retidão.
- Não, minha cara. Honestamente, manifesto agradecimentos pela minha escolha, mas não.
A decisão de José aborreceu Netertini, acostumada que estava a ter tudo que queria.
Lembrava-se ela ainda do dia em que Potifar, então um jovem ambicioso e cheio de esperança, a pedira em casamento, após ter ela afastado sua rival, conseguindo que o Faraó transferisse o pai da mesma para uma província a leste.
A firmeza de José vinha colocar as coisas em termos bem simples – ao menos para ele.
- Potifar, seu marido – disse ele – nunca pediu contas do que acontece nesta casa em relação a mim. Não me fiscaliza, o que prova a sua confiança. Entregou em minha mão tudo o que tem. Abaixo dele, ninguém há maior do que eu neste palácio. Além disso, nenhuma coisa me vedou. Medite sobre isto: você é sua mulher e, portanto, objeto inacessível a mim. Se eu aceitasse os seus oferecimentos estaria fazendo um grande mal e certamente pecando contra o meu Deus.
E saiu, deixando a jovem desconcertada e tremendo.
O sentimento, porém, que a invadiu naquele momento, foi de ódio, sim, de um ódio profundo.
- Deixe estar, seu convencido! Você me paga – disse ela consigo mesma. - E caiu, prostrada, sobre os lençóis da cama.
Não era exatamente uma grande simpatia que determinados servidores do palácio dedicavam ao rei.
Desgostosos com alguma atitude do Faraó, continuavam a servi-lo, contudo muito mais pela posição que desfrutavam e por obrigação de seus cargos do que por afeição.
Vejamos, assim, o caráter de alguns deles.
O primeiro auxiliar do laboratório do palácio detinha a posse das chaves da porta do mesmo. Há tempos nutria profunda ira contra o rei. Certa feita, ao percorrerem montanhas calcárias na região leste do país, nas proximidades do deserto da Arábia, onde Ahmose pretendia fazer escavações para extrair pedras destinadas a construções em Tebas, o Faraó irritou-se gravemente contra ele, a ponto de dar-lhe um violento soco no queixo, que provocou fratura em seu maxilar. Todos os trabalhadores presenciaram aquela cena, que o deixou humilhado. Desde então, o cientista buscava ocasião de revidar a impetuosidade do rei.
Nikesh, por sua vez, achava que era ajudante de cozinha há já bastante tempo. Queria subir de posto. Era o homem de confiança do padeiro-mor, dotado de tão grande experiência como aquele nos segredos da gastronomia. A ele cabia, em última instância, a parte manual de preparar deliciosas massas para as refeições do palácio. Ao saber que logo que seu chefe fosse para uma posição mais alta no palácio ele seria guindado ao cargo de padeiro-mor, aceitou prontamente participar da aleivosia.
Idêntica ambição movia o secretário particular de Mector, a quem fora igualmente prometido um alto cargo – bem mais alto que o de um simples secretário.
Sim, seriam esses que, dentro em breve, estariam preparando uma desagradável surpresa para o rei.
Mais pessoas não eram necessárias.
Baseado, assim, nas ambições e aspirações pessoais de cada um e na pouca simpatia que nutriam pelo Faraó, Mector reunira secretamente seu secretário particular, o auxiliar do laboratório, Pithis, o padeiro-mor, e Nikesh, seu auxiliar, além de Usitep.
- O plano de conspiração é o seguinte: – disse ele – o Faraó vai morrer envenenado.
O veneno seria subtraído do laboratório em dia a ser ainda combinado, pelo secretário de Mector, a quem o cientista auxiliar confiaria as chaves.
- O veneno será introduzido em pães a serem especialmente confeccionados por Nikesh e oferecidos a Ahmose por Pithis.
O plano previa que, em seguida à morte do monarca, Mector conduziria à sala do trono Ahhotep I e Amenhotep, respectivamente mãe e herdeiro do “falecido”, onde anunciaria o fato, marcando a data da posse do novel Faraó. Sendo este ainda um adolescente, como ficou consignado, Mector se autoproclamaria regente do império e, ao mesmo tempo, afastaria a influência da sogra, cuja saúde, por sinal, piorava dia a dia.