Lucas narra no seu Evangelho um episódio de quando Jesus era ainda um menino (capítulo 2, versículo 42 e 43): Quando Jesus completou doze anos, subiram eles segundo o costume da festa e, terminados aqueles dias, ao regressarem, o menino Jesus ficou em Jerusalém sem o saberem seus pais.
No mesmo capítulo, versículo 52, o evangelista registra: E crescia Jesus em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens. E o evangelista dava a impressão de que, logo a seguir, falaria dos seus treze, quatorze, e dos demais anos. Mas não.
Lucas, em seu evangelho, no capítulo 3, versículos 21 a 23, descreve o batismo de Jesus e acrescenta: ‘Jesus, ao começar o seu ministério, tinha cerca de trinta anos, sendo (como se cuidava) filho de José’.
Há, portanto, um vácuo nos relatos da vida do Senhor.
Segundo John D. Davis (Dicionário Bíblico) e outros estudiosos do assunto, muitos manuscritos com narrações de episódios dos Evangelhos perderam-se ou foram destruídos, atribuindo-se a este fato a falta de informações sobre a vida do Salvador dos doze aos trinta anos.
Há muita especulação a respeito, arriscando alguns que Ele esteve nas montanhas, talvez do Tibet, onde foi educado, não se tendo, contudo, confirmação desse dado.
Eu tenho curiosidade – e você também há de ter – sobre o assunto: continuou o Senhor morando com seus pais, dedicando-se àquilo que sabia fazer – o ofício de carpinteiro – ou teria saído de casa ou ainda aprendido outro ofício?
A verdade é que não se esconde, simplesmente, um período tão longo de vida.
Aos seus companheiros e aos parentes, Jesus não se parecia com um ente sobrenatural, embora um tipo notável. Considerando algumas referências esparsas como as que mencionamos, poderemos ter uma pálida idéia do que foi a sua vida.
Era membro de uma família com vários irmãos e irmãs (veja Marcos 6:3). Pensam alguns que estes eram filhos de um matrimônio anterior de José, mas, pela narrativa bíblica, é de se supor que eram realmente irmãos do Senhor, filhos de Maria e José. Como quer que seja, Jesus cresceu em família, obedecendo à sua disciplina. Seu pai era carpinteiro e com este ele aprendeu o ofício. Foi educado na lei judaica, como era costume entre os seus, tendo sido bem instruído nas escrituras. Os seus ensinos, já em seu ministério público, evidenciam um espírito aberto aos assuntos da natureza.
Não há razão para se supor que Jesus tivesse uma vida de isolamento, como pensam alguns – talvez vivendo em um mosteiro. Devemos, ao contrário, imaginar que ele acompanhava os acontecimentos sociais e políticos de sua época – conturbada pelo domínio dos romanos, alvos freqüentes de revoltas por parte dos locais.
Além disso, há motivos que levam à idéia de que trabalhou como carpinteiro, mesmo após a morte de seu pai e bem além dos doze anos que tinha quando de sua ida ao templo para interrogar os doutores da lei (última referência ao Mestre, na primeira parte de sua vida). Pelo menos é o que leva a concluir o texto de Marcos 6:2-3, que narra a cena de Jesus (já após os trinta), num sábado, no templo, pregando e fazendo milagres e deixando muitas pessoas escandalizadas: Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não estão aqui entre nós suas irmãs? E escandalizavam-se dele. De resto, é fácil concluir que aos doze anos Jesus ainda era muito novo para ser realmente um carpinteiro.
O Mestre, em algum momento, começou a formar oposição à lei mosaica, defendendo uma nova maneira de reagir diante de diversas situações, como as agressões, o adultério, os juramentos, o amor ao próximo, etc., contrariando nisso o Velho Testamento, que pregava a ‘lei de talião’ – do 'olho por olho, dente por dente’. Esta atitude certamente começou a afastá-lo da família, constituída por judeus ortodoxos.
A razão pela qual os Evangelistas não narram esse período, além da falta de documentos, parece simples: estavam eles mais preocupados em registrar o ministério público do Salvador.
Mesmo assim, pode-se imaginar, com base nas próprias Escrituras, que muitos milagres, sinais e prodígios feitos por Jesus não foram registrados (veja Mateus 11:20-23, 13:58, Marcos 6:2. Lucas 10:13, 19:37 e Atos 2:22). Para quem foi o autor do milagre da pesca maravilhosa, por exemplo, não seria difícil repeti-lo em muitas outras ocasiões, e com certeza o fez, já que viveu grande parte de sua vida na beira do mar, na companhia de pescadores. O mesmo se diga da multiplicação dos pães.
Outra coisa: fala-se muito sobre uma possível vida amorosa de Jesus com Maria Madalena, descrita nos registros bíblicos como mulher de vida fácil. Não há nenhuma confirmação digna de crédito sobre este assunto, e nem consta que Jesus se tivesse casado. Citando, como todos os Evangelistas citam, Maria Madalena várias vezes, imagino que, mesmo que houvesse algum indício desse relacionamento, este teria sido omitido do texto sacro, talvez de propósito.
'Escultura Bizantina'