Jenin — Um campo de horrores

 

A Cruz Vermelha recebe testemunhos de ‘crimes contra a humanidade’ e denuncia que Israel a está impedindo de mover-se livremente

 

A. E. – (Jalame / Jenin) - tradução Herci

 

As organizações internacionais de defesa dos direitos humanos têm fundadas suspeitas de que Israel cometeu graves violações em Jenin. Algumas falam até de crimes contra a humanidade. ‘As acusações são muito sérias e, pelo fato de termos depoimentos unânimes, não podem ser consideradas como mero ato de propaganda’, afirmou ontem Javier Zúñiga, da Anistia Internacional, no posto militar de Jalame, seis quilômetros ao norte de Jenin. Pela primeira vez desde que o exército israelense sitiou aquela cidade palestina no dia 3 de abril, repórteres da ‘Lua Vermelha’ puderam entrar no acampamento de refugiados.

‘Temos testemunhos reiterados no sentido de sérias violações do direito humanitário internacional que requerem uma investigação exaustiva por um corpo independente’, declarou Zúñiga. Junto com outros observadores internacionais, teve que esperar três horas até que os militares israelenses os autorizassem a entrar em Jenin, em cujo campo de refugiados ocorreram os combates mais sangrentos desde que Israel iniciou sua ‘Operação Muro Defensivo’ contra os territórios autônomos palestinos. Os repórteres não foram autorizados a acompanhá-los.

Dianne Luping, advogada inglesa especializada em direitos humanos, vai além: ‘A informação preliminar de que dispomos indica que há provas de crimes de guerra. Nem só palestinos armados foram atacados’, completa Luping, que falou em seu próprio nome e fez uma compilação de denúncias de maus tratos a detentos, de famílias sepultadas sob as casas em razão de bombardeios, por falta de aviso prévio, e de disparos sobre civis que fugiam dos ataques.

O jornal El País recolheu na quarta-feira passada o testemunho de um palestino utilizado como escudo pelos soldados. ‘Obrigaram-me a chamar as pessoas no interior das casas antes de entrarem’, relatou Jaled Eskeirat, após ser liberado com marcas de golpes por todo o corpo.

Três dias depois, em Jenin, Mahmud Abu Zaman, outro residente do campo de refugiados, contou-me uma experiência similar. ‘Levavam-me na frente, para abrir as portas e pedir às pessoas que saíssem das casas. Também eu fazia de tradutor’, explicou Abu Zaman. O homem, que se dedicava à criação de canários e ovelhas, disse ter passado quatro dias com os soldados, durante os quais não lhe deram água nem comida.

Na primeira hora da manhã o exército levantou as restrições para que a ONU, a Cruz Vermelha e a agência noticiosa palestina Lua Vermelha pudessem entrar no acampamento de Jenin. A decisão foi tomada depois que o Supremo Tribunal de Israel proibiu o exército de enterrar os cadáveres.

Uma delegação, que incluía representantes dessas três instituições, e mais o prefeito de Jenin, Walid Abu Mues, e o diretor do hospital geral, Mohamed Abu Gali, conseguiu entrar. Três horas depois abandonavam o lugar 'ante as limitações impostas pelos militares', segundo declarou Abu Mues. Ao que parece, os soldados permitiram a entrada da delegação somente em alguns lugares do campo. ‘Ainda há minas e, junto a alguns corpos, também há explosivos', assegurou um porta-voz militar, como que se justificando a proibição. Mesmo assim, a Lua Vermelha localizou quinze corpos dos quais só pôde retirar oito, de acordo com a informação que veio através do prefeito. Com eles, elevam-se a 55 os cadáveres oficialmente resgatados. O número é maior, já que muitos dos mortos se encontram sob os escombros e as equipes sanitárias não puderam ter acesso a eles. Além de tudo, várias testemunhas relataram a Luping que haviam visto escavadoras militares 'cavando fossas dentro e fora do campo'. Acrescentaram que os soldados 'colocaram corpos envoltos em sacos pretos dentro das fossas, mas pouco depois voltaram para tirá-los e colocaram-nos em caminhões, que tomaram o rumo de Israel'.

Quase encerrado este artigo, vem esta outra estonteante informação:

JENIN (AFP) – A destruição no campo de refugiados palestino de Jenin, invadido pelas tropas israelense, mostra um "horror que ultrapassa o entendimento", declarou segunda-feira o enviado especial da ONU Terje Roed-Larsen.

"Está totalmente destruído, é como se um tremor de terra houvesse atingido o campo” declarou após visitar o local com os delegados das Nações Unidas e da Cruz Vermelha.

"É absolutamente inaceitável, de um horror além da imaginação”, disse à Agência France Press. Nem nossos especialistas, que estão habituados a guerras e a tremores de terra, jamais viram algo parecido".

"É totalmente inaceitável que, passados já onze dias, o governo israelense não tenha autorizado a entrada das equipes de resgate e de busca. É moralmente repugnante", acrescentou o coordenador especial das Nações Unidas no Oriente Próximo.

O exército israelense declarou o campo, que ele qualificou de “refúgio de terroristas palestinos”, como ‘zona militar fechada’, após terem ali entrado em 3 de abril. O exército impediu em seguida o acesso da imprensa, salvo a um pequeno grupo de jornalistas, mesmo assim acompanhados por soldados.

O Tsahal perdeu inteiramente o controle do campo na sexta-feira, depois de uma semana de combates encarniçados entre soldados e combatentes palestinos armados. Ele justificou sua recusa em autorizar as equipes de assistência alegando que engenhos explosivos e bombas de retardamento tornavam o acesso impossível.

Roed-Larsen refutou esse argumento, declarando que o Governo hebreu já teria autorizado os técnicos internacionais a efetuar busca de eventuais sobreviventes entre os escombros. "Isto parece mais uma desculpa", declarou.

"Vejo dois irmãos que tiram o pai das ruínas, o mau cheiro da morte é horrível. E ali estão prestes a desenterrar um garoto de doze anos, totalmente calcinado", completa o responsável da ONU.

Roed-Larsen acrescentou que a prioridade deveria ser o envio de equipes de resgate e de busca, A única ajuda atualmente vem dos próprios habitantes, que escavam as ruínas de suas casas, a despeito dos riscos de desmoronamento.

Roed-Larsen informou que sua organização tentou saber o que exatamente se passou durante os combates, já que o exército andava à caça dos militantes palestinos, que qualificaram a operação no campo de Jenin de “massacre", onde houve centenas de mortos, muitos deles executados logo após a rendição.

Ocorre que Israel rejeitou essas acusações e declarou que dezenas, e não centenas de Palestinos, morreram. Anunciou também que vinte e três de seus soldados perderam a vida, dos quais quatorze em um só dia.

Boa desculpa!!! Concorda, caro internauta?

 

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