
História de uma jovem turca que servia de “isca” para noivos. Surpreendente revelação.
Das “Mil histórias sem fim...” é esta a trigésima segunda. "Menos podem as mulheres dominar a faceirice do que a paixão". Lida esta, restam apenas novecentas e sessenta e oito.
Meu nome é Salma. Nasci na bela e gloriosa cidade de Damasco (na Síria) , mas sou de origem turca. Meu pai, que gozava de merecido prestígio entre os ricos damascenos, morreu repentinamente, ao regressar de uma caçada, deixando a família em penúria extrema. Diante daquele infortúnio, resolve minha mãe abandonar a cidade e voltar para a companhia de meus avós, donos de uma pequena casa de campo no vilarejo de Dereia, a meio caminho para Jerusalém. Farid (era este o nome de meu irmão) associou-se a um grupo de mercadores de peles e foi tentar a vida em Alexandria.
Iniciamos os preparativos para abandonar Damasco, e já estavam combinados os planos de nossa viagem, quando fomos surpreendidos pela inesperada visita de meu tio Lakdar El-Chediak, irmão de meu pai. Tio Lakdar residia no Cairo e vivia no comércio de tapetes e móveis de luxo. Era um homem baixote, já entrado em anos, de rosto largo, barba grisalha e olhos pequeninos cor de chumbo.
Informado de nossa situação (aliás, bem difícil), ofereceu-nos tio Lakdar o ouro de sua bolsa e a segurança de sua amizade, insistindo com cativante interesse para que fossemos viver no Cairo em sua companhia onde nada nos faltaria. Esquivou-se minha mãe a aceitar tão bondoso oferecimento alegando vários motivos, que me pareceram fantasiosos e quase ingênuos. Alguma coisa ela receava. Que teria, afinal, conjecturado em relação ao nosso futuro no Egito? Até hoje não cheguei a compreender.
De minha parte confesso que não me agradava viver em Dereia entre judeus fanáticos e pastores andrajosos, esquecida num lugarejo triste, sem recursos, isolada do mundo, onde a vida se arrastava ao compasso de uma torturante monotonia.
A meus olhos, portanto, tio Lakdar surgira como um anjo protetor que descesse do céu em meu auxílio, por um milagre de Allah!
- Essa linda menina (era a mim que ele assim se referia), essa linda menina não merece tão ingrata sorte! Será um crime enterrá-la numa aldeola bárbara, onde os homens se mostram mais perigosos que as víboras africanas.
E tio Lakdar, com seus blandiciosos argumentos, com mil engodos tentadores, soube afinal insinuar-se em nossa confiança e demover os receios e escrúpulos de minha mãe, assegurando que eu viveria feliz em companhia de suas filhas que eram mais ou menos da minha idade. Falou-nos com entusiasmo do Egito, terra das mil maravilhas, onde havia abundância, paz e alegria.
Concordou afinal minha mãe em separar-se de mim, e também com a minha partida para o País das Pirâmides. Liquidamos a nossa casa, vendemos nossos móveis, resgatamos todas as dívidas e tomamos os novos rumos pelos caminhos de Allah! Seguiu minha mãe para a pequenina Dereia, na orla do deserto. Sob a proteção de meu tio, em grande e luxuosa caravana, rumei para as terras férteis do Egito.
Durante a jornada, longa e não isenta de fadiga, várias vezes meditei sobre o meu futuro que se me afigurava incerto e obscuro.
Que interesse tinha meu tio em levar-me para o Cairo? Como seria eu recebida pela sua família?
Não ocultava meu tio a sua simpatia e admiração por mim. Quando nos achávamos a sós, lamentava por vezes o "haic" que me velava o rosto e, fitando-me carinhoso, murmurava embevecido:
- Como és linda, Salma! Como és linda! Louvado seja Allah! O teu semblante irradia uma simpatia inconfundível! Má-ás-malaki!
E dizendo isso, encarava-me muito direito nos olhos (aquele homem inspirava em mim um respeito medroso).
A residência do tio Lakdar, no Cairo, era constituída por um decrépito casarão amarelo, com quatro portas, triste e sombrio, abrindo cinco “mucharabiesh” carunchosos para o mercado de El-Sehdeh.
O acolhimento que tive por parte de minhas primas não foi dos mais lisonjeiros. Receberam-me de má-sombra, com palavras secas e pouco amáveis. Detestei-as desde o primeiro momento e estou certa de que elas retribuíram na mesma moeda o imenso desprezo que lhes votei.
Caso singular! Eram ambas ligeiramente parecidas comigo, principalmente nos olhos. O verde-claro dos meus, como traço característico de família, reaparecia, no mesmo tom, nos olhos de ambas. Mas (por Allah!) como estavam longe e bem longe de qualquer tipo comum de beleza!
Norah, a mais velha, era pálida e de cabelos castanhos; pintava-se muito: vermelhão nas faces; negro de antimônio por baixo dos olhos; alvaiade no pescoço e no colo; “henné” nas unhas. Tinha as maçãs do rosto salientes e era mal-feita de corpo. Preguiçosa ao extremo, passava o dia inteiro entre bocejos e lassidões de tédio. Mabruka, a segunda, ostentava um nariz arqueado, lábios grossos, olhos pestanudos empastados de “khol” e duas faces consteladas de sardas. Parecia vaidosa de seus cabelos lisos, corredios e sempre negros. Usava um corpete de veludo aberto ao peito e trazia sempre grossas argolas de prata nos tornozelos. O tom de sua voz era metálico e quase agressivo, e a cintura nada tinha de sedutora.
Não alimentei ilusões sobre a minha situação naquela casa. Aos olhos de minhas primas eu não passava de uma intrusa (perdoai-me a imodéstia que ressalta desta declaração), eu não passava de uma intrusa, repito, bem mais bonita do que qualquer delas, capaz de vencê-las aos olhos do noivo ou pretendente que aparecesse!
Além de Norah e Mabruka viviam na casa outras pessoas que merecem especial referência.
Falarei em primeiro lugar de Nayla, esposa do tio Lakdar, mulher gordíssima, de um moreno cor de terra, de cabelos negros (tingidos), de gênio rebentadiço, eternamente preocupada com manjares, doces e gulodices. Parecia ter o cérebro no estômago e comia várias vezes por dia, com a velocidade de um núbio. Depois de ingerir cinco ou seis pratos pesadíssimos, desandava a queixar-se de dores de estômago, calor na cabeça, e pontadas nas costas!
- Estou desgraçada! - lamentava batendo no peito. - Já não posso comer este ensopadinho de carneiro com cebola, pimentão, alho e creme de leite! Tudo me faz mal! Abilat-al-razt! (que infeliz sou!).
E seus soluços eram tão fortes que lhe faziam tremer as banhas do rosto redondo e cheio de espinhas.
A incrível e rabugenta Nayla (com essa mulher eu fugia de conversar) tinha um irmão, criatura estranha, que ocupava um aposento isolado no fundo do corredor. O seu nome era Mahommed Zeraik, mas as pessoas da casa só lhe chamavam pelo apelido "Sakkil" que, aliás, não parecia desgostá-lo.
Sakkil era alto, magro, de cara amarfanhada, com uma barbicha rala na ponta do queixo. Dotado de gênio bom e alegre, poderia figurar entre os faladores mais perigosos do Cairo. Arrastava a seu bel-prazer o dia inteiro em completa ociosidade a cantarolar pelos corredores e a interferir com importunações irritantes no trabalho dos servos.
Sua distração predileta era escrever versos, ou melhor, poemas intermináveis, que ele mesmo lia em voz alta, com ridícula solenidade, sentado numa almofada no meio da sala. E parecia feliz. O homem, aliás, é feliz ou infeliz por uma série de coisas que não se vêem, que não se conhecem e que não se podem dizer. Era esse o caso do irmão de minha tia.
Recordo-me ainda de uma canção delicadíssima, acentuadamente triste, com que ele nos deleitava todas as tardes, ao som de uma alaúde antes da prece do “mogreb”:
Das dores todas da vida,
Não pode haver maior dor
Que passar a vida inteira
Sem dor alguma de amor!
Tristeza, fiel tristeza,
Esposa doce e querida,
Minha cínica certeza.
Nas incertezas da vida,
A esperança...velha mentira
Que a vida prega na gente!
Passa a vida... e todo dia
A gente crê novamente!
(Soares da Cunha)
(“Mil Histórias sem Fim”)
continua ("As lindas almofadas")