
Jesus foi o primogênito de uma grande família – sete irmãos e duas irmãs (ou cinco irmãos e algumas irmãs, segundo John D. Davis, Dicionário Bíblico), alguns dos quais citados nominalmente nos Evangelhos, como é o caso de Tiago, José, Simão e Judas, mencionados em Mateus 13:55-56 e Marcos 6:3, e os demais, conhecidos pela tradição oral e através de documentos paralelos. E, como se sabe, somente em torno de Jesus houve acontecimentos especiais cercando o nascimento e a vida, visto que Ele era o Messias prometido e esperado.
Sua família pouco é citada nos relatos bíblicos. O fato é que, sendo todos judeus ortodoxos – a despeito de constituírem a família do Mestre, eles não concordavam com a sua pregação, que vinha inovar com respeito à lei mosaica, derrogando ensinamentos milenares. Veja o que Ele próprio diz, segundo registro de Marcos 6:4: Então Jesus dizia ao povo: Um profeta não fica sem honra senão na sua terra, entre os seus parentes, e na sua própria casa.
Seu pai, José, cedo desaparece dos registros sagrados e, mesmo as referências a sua mãe são escassas, limitando-se, além das cenas da primeira infância do Mestre, ao episódio das bodas de Caná da Galiléia e à famosa cena em que ela, juntamente com outras pessoas, tristemente contemplava Jesus Cristo na cruz, a mesma cena em que Jesus, lá de cima, recomendava a João que tomasse conta dela após a sua morte.
Há também a narrativa bíblica, registrada por Lucas, no capítulo 2, versículos 46 a 49 de seu evangelho, quando Jesus – ainda menino – no Templo interrogava os doutores da lei. Nota-se, já nos primeiros anos de sua vida, um certo distanciamento em relação a seus pais e irmãos: E aconteceu que, passados três dias, o acharam no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Todos que o ouviam se admiravam da sua inteligência e das suas respostas. Quando seus pais o viram, ficaram maravilhados e sua mãe lhe disse: Filho, por que procedeu assim? Seu pai e eu o estávamos procurando. Ele respondeu: E por quê? Vocês não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?
Jesus não tinha, então, mais do que doze anos.
A maneira como os evangelistas narram os episódios da vida de Jesus, acentua o caráter de sua missão – morrer pela humanidade – e relegam a segundo plano tudo o mais, inclusive suas relações familiares.
Conforme narra o evangelista Marcos, certa feita Jesus estava em uma casa, cercado por uma multidão ávida por ouvi-lo, quando sua mãe e alguns irmãos chegaram e tentaram falar com Ele, mas não conseguiram abrir caminho. Alguns dos ouvintes lhe disseram: Sua mãe e seus irmãos estão aí fora querendo falar com você. Jesus deu uma resposta aparentemente indelicada: Minha mãe e meus irmãos? Eis aqui minha mãe e meus irmãos, disse, apontando para os ouvintes. Pois aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe (3:32-35). O mesmo episódio é descrito em Mateus 12:46-50.
Digo ‘aparentemente’, porque o que se depreende da narrativa sacra é que Jesus teve pouco tempo para a sua pregação e, com isso, pouco ou nenhum lhe sobrava para os íntimos, especialmente quando o condenavam. Sua missão era universal e exigia tudo d’Ele.
Evidentemente, sua mãe e seus irmãos não compreendiam bem esse comportamento. Talvez o tenham percebido melhor após a sua morte na cruz.
A verdade é que Ele defendia uma total entrega, quando se tratava de anunciar o reino de Deus: Todo o que tiver deixado casa, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou terras por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna (Mateus 19:29).
Dentro do contexto de Marcos 3:32-35, acima mencionado, os verdadeiros irmãos de Jesus são todos aqueles que fazem a vontade de Deus.
Se isso não resolve o problema do distanciamento entre Jesus e sua família, não pergunte para mim. Lance esta dúvida para as Escrituras que, de resto, nada registram entre os doze e os trinta anos de idade do Mestre. E ponto.