
O rei Tahir fica surpreso. Como se explica o caso de uma legenda que ia morrer.
Das “Mil histórias sem fim...” é esta a trigésima terceira. O desejo de parecer hábil é, muitas vezes, uma inabilidade. Lida esta, restam apenas novecentas e sessenta e sete.
Conta-se que Tahir ben Mohammed, o judicioso governador de Sidjistã, ao regressar, certa vez, de uma excursão às suas tão famosas minas de prata, viu-se obrigado a repousar com sua numerosa comitiva à sombra de um caravançará que ele próprio mandara construir entre as tamareiras do oásis de Bedi-Ezzemã.
Nas vizinhanças desse caravançará, existia uma pedra negra e lisa, cuja face era varrida, dia e noite, pelos ventos do deserto.
Observou o poderoso emir que alguém (um sábio ou um viajante misterioso) havia gravado na tal pedra estranhas figuras. Dois círculos desiguais ligados por uma curva terminada em laço. Dentro do círculo maior um triângulo com três ângulos agudos e tendo o vértice para cima. No centro desse triângulo, uma pequena cruz. O círculo menor era cortado, bem ao centro, por uma flecha cuja extremidade ia tocar num quadrilátero irregular que envolvia duas letras e um algarismo.
Ao reparar naquela singular inscrição de forma geométrica, o governador Tahir ficou intrigadíssimo. Alguma coisa aquela figura complicada deveria significar. A pessoa que a fixara ali na face negra da pedra não o fizera, de certo, por mero capricho. Algum intuito nobre e elevado o inspirara a realizar aquela obra.
O homem (todos nós bem o sabemos) vive rodeado de mistérios. A luz é um mistério; o magnetismo envolve uma infinidade de mistérios; o calor é, também, um mistério; toda a ciência é um amontoado de mistérios. Sim, mas há mistérios que podem e devem ser esclarecidos. Assim, uma legenda gravada numa pedra, deve ter uma origem, deve ser passível de uma explicação, ou melhor, de uma interpretação.
Foi, exatamente, a conclusão a que chegou o governador Tahir. A legenda de Bedi Ezzemã deveria ser esclarecida. Como aparecera ali? Quem fora o seu autor?
Integravam a comitiva do poderoso emir dois homens que gozavam de justa fama de sábios. Sempre que algum problema grave desafiava a argúcia dos islamitas o governador Tahir ben Mohammed apelava para o esclarecido auxílio dos dois ilustres conselheiros. Chamou-os, pois, e pediu-lhes que descobrissem a origem e a significação da misteriosa legenda que se destacava, entre círculos e triângulos, na pedra do caravançará.
O mais velho dos sábios foi o primeiro a falar. Era homem de uma tranqüilidade invejável. Examinou detidamente a legenda, analisando-a traço por traço. E disse, por fim, com uma convicção delicada:
- Essa figura, o Xeque do Islã não me parece original. Foi, a meu ver, copiada de um documento ou de outra inscrição. Nota-se, no círculo principal, certa hesitação no traçado e, à direita, um losango incompleto evidencia a imperícia do gravador.
Convidado a emitir o seu juízo, o segundo sábio assim falou:
- A tradução perfeita dessa legenda iria exigir muitos anos de estudo e meditação. O seu autor usou de símbolos e convenções especiais, sem o conhecimento dos quais seriam inúteis todos os nossos esforços de interpretação. Contudo, há uma particularidade que deve ser destacada. Essa inscrição é obra relativamente recente. Pela cor que apresenta nos sulcos da pedra deve ter doze ou, quando muito, quinze anos!
O governador não se satisfez com os esclarecimentos formulados por seus dignos conselheiros e determinou que se processassem cuidadosas averiguações entre os beduínos dos arredores.
Informado de que o emir estava interessado em apurar a origem de tal inscrição, apresentou-se naquele mesmo dia, no caravançará, um jovem pastor.
Tahir ben Mohammed o interrogou:
- Que sabes a respeito daquelas figuras gravadas na face negra da pedra?
Respondeu o pastor com o rosto a transluzir interior alegria:
- Senhor! Aquelas figuras foram feitas por mim! Tratava-se de uma legenda que ia morrer e desaparecer para sempre. Só havia um meio para salvá-la: era gravá-la numa pedra. Foi exatamente o que fiz.
- A legenda ia morrer? - estranhou o governador. - E como morre uma legenda?
Retorquiu o jovem pastor, com serenidade, alongando o braço:
- Essa legenda achava-se inscrita no tronco de uma árvore. Com o decorrer do tempo a árvore foi definhando; caíram-lhe as folhas; os galhos secaram. Um dia meu pai chamou-me e disse: "Meu filho! Em breve aquela árvore, outrora tão majestosa e soberba, vai ser pelo vento arrojada ao chão e reduzida a pó. Em seu tronco existe, como sabes, uma curiosa legenda formada por várias figuras. Com a morte da árvore a legenda morrerá também. Precisamos, meu filho, salvá-la. Se ela desaparecer, muitos tesouros ficarão perdidos para sempre". Para atender ao desejo de meu pai procurei salvar a legenda copiando-a nessa pedra, onde poderá resistir até ao açoite do vento.
- E que motivo levou teu pai a assim interessar-se por essa legenda? - indagou o governador.
Tornou o pastor:
- Meu pai, melhor do que eu, poderá explicar o mistério que a envolve. Vou chamá-lo.
Momentos depois o camponês voltou acompanhado de um ancião de soberba catadura.
Esse ancião era seu pai.
O poderoso emir recebeu com carinho o venerando Xeque, convidou-o a sentar-se em sua tenda, ofereceu-lhe pão, sal, frutas secas e, por fim, o interrogou sobre a origem da legenda que tanto o intrigava.
O velho islamita, que conhecia a fundo os segredos da magia, tirou de sob a túnica uma pequena esfera de cristal, colocou-a defronte do emir e disse-lhe em tom profético:
- Olhai, senhor, olhai com atenção para essa bola de cristal! Que podem os vossos olhos distinguir no mundo dos invisíveis?
O emir baixou o rosto e olhou fixamente para a bola mágica. Parecia tomado de uma estranha intranqüilidade.
Decorridos alguns instantes, ergueu o rosto e declarou:
- Vejo um homem a correr por uma estrada que parece não ter fim. Esse homem leva na mão direita um facho que espalha uma luz avermelhada. Essa luz sobe ao céu tomando uma coloração arroxeada...
- Por Allah! - interrompeu o velho, num gesto burlesco de credulidade. - A visão que acaba de vos impressionar recorda, em sua simplicidade, a singular história que deu origem a essa legenda notável que meu filho gravou na pedra.
- Que história é essa? - indagou o emir.
Depois de alguns minutos de reflexão aquele ancião narrou o seguinte:
(“Mil Histórias Sem Fim”)
continua ("O homem esquecido")