
Lembro-me de que já escrevi várias histórias envolvendo a minha vida e a vida de pessoas internadas no InCor.
É o caso, por exemplo, da minha amiguinha que veio da Bahia para receber um coração novo (“Minha amiguinha”). É o caso também da minha conversa com aquele pai aflito que queria saber notícias de seu filhinho - o que só poderia conseguir horas mais tarde... (“Ele tem cuidado de vós...”).
Mas sobre o porquê da minha ligação com algumas pessoas ainda não escrevi.
Tudo começou com uma dor persistente do lado direito do peito (não do lado esquerdo, como seria de se supor, visto que o coração bate mais forte do lado esquerdo).
Quando eu saía, era uma lástima! Para percorrer os pouco mais de trezentos metros de minha casa até o Metrô eu tinha que parar duas, três ou mais vezes até a dor diminuir.
Pois bem: estava calmamente em um hotel em Águas de Lindóia, quando senti aquela dor com bastante intensidade. E era ainda o primeiro dia da minha permanência que deveria ser de cinco dias. Quando estava sentado, melhorava um pouco. Deitado, piorava. Assim, durante aquela primeira noite, sentei-me e me deitei várias vezes.
O que deveria fazer? Passei a noite cogitando sobre como proceder no dia seguinte...
Quando amanheceu, estava decidido: voltaria imediatamente para São Paulo em busca de tratamento.
O proprietário do hotel viu a minha situação e quis ajudar:
- Se você quiser posso ceder um funcionário do hotel para ir dirigindo o seu carro até São Paulo.
Eu, com toda a valentia de que sou capaz, respondi que não era preciso. Eu mesmo dirigiria.
Cheguei ao nosso apartamento, tomei um banho e, sozinho e a pé, fui até o Pronto Socorro do Hospital da Beneficência Portuguesa.
Imediatamente fui internado, com infarto em andamento, já se instalando.
Fiquei ali internado por quinze dias, sob terapia intensiva. Só pude sair quando os exames de sangue que apontavam os níveis de enzimas voltaram ao normal.
Ali fui muito bem tratado. O monitoramento era permanente.
Voltei para casa, desta vez no meu carro, dirigido pelo meu filho.
Tenho uma filha que é médica. Ela me orientou: “pai, quando você sentir as dores, coloque um Exordil debaixo da língua. Só que isso não é suficiente: à primeira nova dor, volte ao pronto socorro cardíaco”.
Resolvi tratar melhor a questão: marquei consulta com médico do InCor, da USP, que é o maior centro de tratamento de moléstias cardíacas da América do Sul.
As dores voltavam de vez em quando, e eu colocava, conforme orientação, um Exordil sublingual. Levei todas essas informações ao meu médico.
- Se você voltar a sentir a dor no peito venha para cá imediatamente – orientou-me.
Depois de uns quinze dias tive outra crise, que me levou novamente à UTI.
Saído dela, voltei ao médico, conforme orientação que me deu.
Iniciado o acompanhamento no InCor, com exames, radiografias, etc., ele me comunicou: “o seu caso é de operação. Provavelmente uma revascularização miocárdica (as famosas pontes...). O que o Sr. acha da idéia?”
Eu, como sempre confiei cegamente nos profissionais da medicina e estico o braço até para ser cortado, respondi:
- Pois bem, podemos marcar a data do internamento e a cirurgia.
Acabei me submetendo a três pontes: safena (veia da perna), mamária (veia do peito) e radial (veia do braço).
O mais interessante é que o órgão que mais sofre em uma cirurgia como a que fiz não é o coração, mas sim os pulmões. Estes é que são paralisados durante a operação, não sei bem por que – talvez para facilitar a cirurgia. É colocado um tal de “dreno pleural”, que permanece por um tempo (talvez um dia) saindo do peito e que é retirado com o paciente já no quarto. Quando a intervenção terminou e passou o efeito da anestesia, eu simplesmente não conseguia respirar: os pulmões estavam pequenos e murchos.
Uma das partes mais importantes da convalescença em um caso como o meu é o trabalho fisioterápico feito para reativar a função dos pulmões e fazê-los trabalhar cem por cento.
Para mim foi uma experiência maravilhosa. Tudo transcorreu bem, não houve falha em momento algum.
Após a cirurgia, passados os dois ou três dias de recuperação voltei para casa (novamente de carro). No mesmo dia saí e fui até o Banco com a máxima naturalidade, como se nada tivesse acontecido.
Meu filho ainda perguntou: “Pai, quer que eu o leve de carro ou que eu vá junto?”
- Não, obrigado. Quero ir sozinho...