
(e o vulto de José Bonifácio de Andrada e Silva)
Quarta-feira, 07 de Setembro, 1910
O episodio histórico do Ipiranga que esta data relembra, foi uma capitulação do direito divino em terras americanas. Pela primeira vez, um príncipe real, representante do absolutismo, curvou-se ante a vontade de um povo, disposto a reivindicar seus direitos à liberdade e à soberania.
De humilde servidor da nacionalidade brasileira não passou o nosso primeiro imperador, esse Bragança ambicioso e cavalheiresco, rude e entusiasta, ignorante e violento, educado para a tirania e conquistado pelo liberalismo dos princípios do século findo. Foi o instrumento inconsciente de uma transformação social inevitável, determinada pela evolução histórica.
Aconselhado pelo sensato sibaritismo paterno, sondou a impetuosa corrente que agitava a alma nacional e deixou-se levar na mesma direção. Ouviu atento os atroadores reclamos populares e conformou-se com eles, emprestando-lhes seu apoio valioso. Percebeu que a luta encetada na Bahia, em Pernambuco, no Maranhão e no Piauí, prestes a explodir também no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas, ia generalizar-se numa grande campanha sanguinenta; dispensando-lhe o seu concurso, deu-lhe um triunfo rápido, que poupou ao País um período de ódios e ruínas. Sentiu, em suma, que a independência se faria infalivelmente, vencendo todas as resistências, com rei ou sem rei, e, rematando as lutas civis com a cena derradeira colocou à cabeça estouvada a coroa imperial, que os acontecimentos em breve o obrigariam a abandonar.
O cérebro consciente e dominador que moveu esse braço automático no glorioso feito do Ipiranga?
O maior dos Andradas, o mais eminente dos paulistas, o mais ilustre dos brasileiros- José Bonifácio! Não se lhe distinguiu o vulto na famosa colina, a 7 de setembro de 1822; porém seu espírito fulgurante aclarou quanto aí sucedeu. Resplandeceu acima de todos, qual linda estrela polar a guiar maruja inexperiente e inculta. Pelo brilho do talento e do saber fascinou, deslumbrou, atraiu, arrastando num rumo certo todos os esforços num dado sentido.
Criou a monarquia constitucional, como fase de uma evolução que lentamente se havia de completar com o decorrer dos anos, a 15 de novembro de 1880.
À feliz união dos esforços de D. Pedro I e de José Bonifacio deve o Brasil não ter caído no período de anarquia que flagelou os primeiros tempos das repúblicas hispano-americanas. Tal como se realizou, a independência honra sobremaneira o nosso povo e os homens que dirigiram o magno evento nacional. Vindo na época oportuna, provou que da velha gente portuguesa os brasileiros herdamos o solido bom senso e o animo pacífico, de outras vezes manifestado em nossa historia.
A bela obra política de José Bonifacio, “filha da moral e da razão”, aí está: é “O famoso edifício inteiriço de arquitetura social” que o lúcido Patriarca procurou conservar “sem quebra”.
É o extenso Brasil unido e solidário, orgulho de seus filhos e maravilha dos séculos porvindouros.
http://blogs.estadao.com.br/cem-anos-atras/quarta-feira-07-de-setembro-de-1910/