
Era o último lugar que visitava naquele dia – um bar num recanto tranqüilo da cidade.
Ele era um jovem atraente, aparentando ter seus vinte e dois anos.
Entrou meio sem jeito, pois não costumava freqüentar bares, menos ainda durante a noite. Chegou-se ao balcão lentamente e dirigiu-se ao homem grandalhão que estava do lado de dentro.
- Estou procurando um homem alto – um metro e oitenta mais ou menos, cabelos grisalhos nas têmporas, com aproximadamente quarenta e cinco anos. Costuma andar de paletó, mesmo que esteja fazendo calor.
O balconista olhou para ele aparentando mistério.
- Mas quem é esse homem? Por que você o está procurando?
- Chama-se Osvaldo – é meu pai. Abandonou minha mãe quando eu tinha seis anos de idade. Nunca mais o vi. Estou aqui porque alguém, do outro lado da cidade e num bar semelhante a este, disse-me que eu o encontraria aqui com uma moça chamada Tereza.
O atendente nada disse. Apenas ficou calado. Parecia saber algo.
- E então? Você ao menos conhece essa Tereza?
- Sim – respondeu ele – porém conjugue no tempo passado. Conheci. Os dois.
O jovem, não escondendo a ansiedade, quis saber mais.
- Como no passado? Foram embora?
- Olha, andaram um tempo juntos por aqui, até que um outro rapagão levou Tereza para algum outro lugar.
- E quanto ao Osvaldo, quer dizer... o meu pai?
- Depois disso, muito abatido e contrariado, tomou rumo ignorado.
O jovem ficou triste.
- Mas, espere! – Lembrou-se o homem do bar. - Sabe a zona do cais do porto, para o lado norte da cidade? Ouvi dizer que ele ultimamente estava morando numa casa de madeira – um sobrado, na Rua do Marlim Azul. Procure ali.
O jovem tomou nota direitinho do lugar indicado. Como, porém, já havia anoitecido, procurou nas imediações um lugar para dormir.
E, já deitado, estava recordando as diligências até aqui usadas para encontrar o pai. Lembrou-se ainda de que sua mãe já não mais vivia.
De cansado, adormeceu rapidamente.
No outro dia tomou o rumo do cais.
- Rua do Marlim Azul – é aqui.
Localizou o tal sobrado, subiu as escadas de tábuas, que rangiam ao menor peso, chegou-se diante da porta e bateu.
Um senhor de idade abriu e apareceu a ele com um ar de doente.
- Que quer, jovem?
Repetiu a suposta descrição do pai - nem ele mesmo sabia exatamente qual era o aspecto atual dele. Mas parece que o velho o reconheceu.
- Sim, o Osvaldo. Aproximou-se de minha filha dizendo que queria compromisso sério, para casar, não sem antes aproveitar-se bastante dela. Por fim deu no pé.
Meu Deus! Será que o seu pai era alguém desclassificado, mulherengo, aproveitador da ingenuidade dos outros?
- Mas... onde está ele agora?
- Ah!, meu rapaz, não tenho certeza. Parece-me que saiu da cidade em direção àquela vila de pescadores, uns cinco quilômetros pela estrada da Pedreira. É só o que eu sei.
Luís – era esse o nome do jovem – saiu desconsolado. Procuraria ali e em mais outros pontos. Não descansaria até encontrá-lo. Andou por vários lugares, sempre aproveitando uma ou outra informação, mesmo que não acrescentasse quase nada.
Voltou à cidade e, por incrível que pareça, entrou naquele bar, mesmo não sendo acostumado a isso.
Sentiu um vulto ao seu lado, que se aproximou e sentou-se no outro banquinho.
- Olá, meu rapaz – disse. – Meu nome é Osvaldo.
Luís olhou para ele boquiaberto. Seria mesmo? Bem, ao menos a descrição que tinha dele correspondia.
- Você é o Osvaldo? Então você é o meu pai – falou, com um misto de alegria e desconfiança.
- Sim – disse o homem. – Não queria aparecer assim, pois abandonei sua mãe sem dar qualquer explicação. Como está ela?
- Morta – disse Luís. – E enterrada.
- Ora, sinto muito. Eu não sabia.
E Luís, como que para fazer testes, foi-lhe fazendo perguntas, a que ele respondia, mostrando conhecimento dos antecedentes da família.
Interessante. Como lhe aparecera assim de repente?
Mas, enfim, o que queria era chegar ao fim dessa busca.
- Lembro-me de quando você era ainda pequeno e eu o levava sobre os meus ombros para passear pela cidade e pela praia....
E foi entrando em pormenores que, aparentemente, só poderiam ser conhecidos pelos mais íntimos.
Um dia:
- Olha, abriram uma exposição de objetos raros aqui na cidade. Você não gostaria de ir comigo até lá?
- Sim. Deve ser muito interessante.
Realmente, a exposição era muito bonita e bem organizada e contava em seu acervo peças raras e de muito valor.
- Veja só este golfinho de ouro – disse Osvaldo. – Deve valer uma fortuna. Por isso está protegido por esta redoma de vidro temperado. Isso dificultaria a ação de alguém tentando levá-lo.
- Acha que alguém tentaria fazer isso – perguntou Luís.
- Mas é claro. Sempre haverá ladrões interessados em obras de arte. Levam e vendem a preço insignificante para algum receptador.
Enfim, visitaram todo o recinto. Luís notou que Osvaldo olhava sempre para o golfinho que, parece, exercia uma enorme atração sobre ele. E olhava também de soslaio para as pessoas que estavam no salão.
A tarde veio tirá-los daquela visita descontraída e obrigou-os a voltar para o centro da cidade.
- Bem – disse Luís – vou para o meu cantinho e amanhã nos vemos novamente.
- Nada disso. Agora que nos encontramos, nada deve nos separar. Convido-o a vir comigo até o meu quarto de hotel, onde há espaço para mais um.
No princípio Luís ficou indeciso, mas depois assentiu.
E foram se seguindo dias de franca comunicação e de interação, só quebrados à noite, na hora de dormir.
Assim, a cada dia iam ambos se recolher e refazer energias para o dia seguinte.
***
Eram mais de oito horas da manhã quando Luís acordou naquele dia. Ou porque a cama era boa ou porque estava muito cansado, o fato é que nesse dia levantou-se mais tarde que de costume.
Olhou para a cama de Osvaldo. Não estava.
Olhou para os lados, levantou-se, foi até o banheiro, até a cozinha. Nada de Osvaldo.
Onde estaria? Por que não avisou que iria se ausentar? Ele não tinha nenhuma intenção de perder novamente o pai.
Bem, sairia para dar uma volta e esperaria algum tempo antes de tomar alguma providência.
No final da tarde, já meio desesperançado, voltou à casa de Osvaldo. Decidiu permanecer ali, visto que a porta não estava trancada.
No dia seguinte, nada. Comprou um jornal para ver as últimas notícias. Deparou com uma manchete em letras garrafais: “Recinto de exposição arrombado e peça principal do acervo roubada”.
- Meu Deus! – pensou ele. – Sem dúvida é o “Golfinho” de ouro. Vou até lá para confirmar.
Realmente. O lugar estava sendo investigado pela polícia, que mantinha ali alguns guardas. Quis entrar mas não lhe foi permitido.
- Foi o golfinho? – perguntou a um senhor com cara de detetive.
- Sim – respondeu aquele. – Como sabe?
- Não, eu não sei. Só estava desconfiado... pelo valor...
Seu pai! Fora ele! Seu pai era ladrão! E ele de nada desconfiou! Miserável!...
E ficou ali, abatido, como se o mundo todo tivesse ruído sobre ele. Sentou-se na beira da calçada com a cabeça entre as mãos...
- Olá, Luís, como vai?
Levantou a cabeça. Era ele.
- Então, foi você!... – E levantou-se para ir embora.
- Ei!, espere! Não é nada disso que você está pensando. Deixe-me explicar!
Luís, já machucado pela longa procura do pai e, agora, pela decepção, parou e esperou.
- Eu sou investigador de uma companhia de seguros. A minha equipe estava desconfiada de uma quadrilha de roubo de museus e eu fui encarregado de chefiar as investigações. Até que finalmente conseguimos chegar ao chefe dos bandidos, muito interessado no “Golfinho” de ouro. Mas já foi preso.
Luís acalmou-se e respirou...
- Infelizmente eu não sou seu pai; simulei que era apenas para chegar aos bandidos. Você foi usado por mim por uma coincidência – você estava no lugar certo no momento exato. E, infelizmente, nem me chamo Osvaldo...
- E as particularidades sobre a minha família? E tudo aquilo, como é que você sabia?
- Foi fácil: um pouco por dedução e mais um pouco fazendo perguntas.
Luís, de certa forma, ficou aliviado.
Mas, e o seu pai?
- Continue procurando o seu pai, meu amigo. Quem procura sempre acha. Se ele estiver vivo, com certeza você vai encontrá-lo. Adeus. – E abraçou-o afetuosamente, como um pai o faria.