A igreja dos santos

 

(OU OS SANTOS DA IGREJA?)

 

Não se tem idéia de quantos santos há na Igreja Romana, alguns deles tradicionalmente aceitos pelos cristãos em geral, por sua vida dedicada ao evangelho e pelos milagres realizados, como é o caso de São Pedro, São Paulo, Santo Agostinho. Sabe-se, por exemplo, que somente o atual Papa João Paulo II, realizou mil duzentas e sessenta e sete beatificações e quatrocentas e cinqüenta e seis canonizações durante os vinte e poucos anos do seu pontificado.

Há uma tendência para confundir santo com milagreiro. Os dicionários definem santo como puro, imaculado, inocente, ou ainda bem-aventurado e separado. Se você consultar os textos bíblicos verá que os apóstolos, em suas epístolas, chamaram muitas vezes os cristãos de santos. A palavra hebraica geralmente usada é kadosh, que significa separado. No Novo Testamento é representada pela palavra grega hagios. Emprega-se para designar pessoas ou objetos sagrados.

Veja alguns textos:

‘Atendam aos santos (os cristãos de Jerusalém) nas suas necessidades, exerçam  a hospitalidade’ (Romanos 12:13).

‘Ora, quanto à coleta para os santos, façam vocês também o mesmo que ordenei às igrejas da Galiléia’ (I Cor 16:1).

Os trechos abaixo consideram santos todos aqueles que se converteram e ingressaram na vida cristã.

‘Revistam-se, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de coração compassivo, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade’ (Colossenses 3:12)

‘Mas, como é santo aquele que os chamou, sejam também santos em todo o procedimento’ (I Pedro 1:15).

O Velho Testamento tem o mesmo entendimento. Em Levítico, capítulo 11 versículo 44, está registrada a seguinte ordem de Deus, como se fosse uma condição para d’Ele nos aproximarmos: Sede santos porque eu sou santo.

O costume moderno de canonização tem origem nas antigas práticas romanas de publicamente prestar honra aos mártires. Desde então e por muitos séculos, o título de santo foi concedido por aclamação popular.

Posteriormente, a Igreja Romana estabeleceu um processo – o Cânon – através do qual a pessoa só é considerada santa se todas as questões envolvendo sua vida e seus milagres forem devidamente analisados e aprovados. Por essa razão, muitos, como, por exemplo, o Padre Anchieta, ainda não foram canonizados. Alguma coisa estaria impedindo a ‘luz verde’.

Por outro lado, o Dia de Todos os Santos, comemorado no primeiro dia de janeiro (modernamente chamado de Dia da Confraternização Universal), teria sido instituído pela preocupação em não esquecer nenhum santo fora do calendário.

Você pode notar que tudo que se fizer com o objetivo de considerar as pessoas santas estará sempre limitado ao conhecimento, aos sentimentos e às emoções humanas não apenas dos que se dizem testemunhas de milagres, como daqueles que irão analisar a questão com profundidade. O misticismo e a crendice também têm papel importante. Muitas vezes atribuem-se milagres, como aparições, declarações, odores, sombras ou vultos a determinadas pessoas, levando primeiramente o povo e, depois, as autoridades eclesiásticas a tratar do assunto.

A chamada Padroeira do Brasil, N. S. Aparecida, teria sido resgatada por pescadores, toda despedaçada, depois de ter desaparecido de uma igreja. Foi, então, restaurada por técnicos e artistas. A partir de então, muitos são os milagres a ela atribuídos.

As Escrituras Sagradas não registram episódios de milagres atribuídos a ninguém que não seja o próprio Deus ou a alguém atuando por ordem de Deus.

Vejamos alguns exemplos: a transformação da mulher de Ló em estátua de sal – milagre anunciado e realizado por Deus. A vara de Moisés que virava cobra – ordem de Deus. Os poderes contidos na Arca do Concerto – concedidos por Deus. A subida do profeta Elias para os céus em um carro de fogo – obra de Deus, presenciada por Eliseu. Os milagres do Novo Testamento: os de Jesus, que era o próprio Deus, os dos Apóstolos, em nome de Deus, que os separara para uma obra específica. Aliás, a Palavra sempre afirmou que Deus é que opera os milagre, seja no Velho Testamento, como mencionado acima, seja no Novo Testamento (confira em Atos 19:11, Gálatas 3:5, Hebreus 2:4). Nem mesmo José, filho de Jacó, que interpretava sonhos, atribuía a si próprio seus dons, mas a Jeová.

Isso nos leva a um dilema: se Deus é a única fonte de onipotência e poder, por que então não pedir um milagre diretamente a Ele? Ou se daria o caso de que supostos santos, escolhidos por homens, tivessem agora poder igual ao d’Ele? Se você for consultar a orientação deixada por Jesus sobre o assunto, lerá o seguinte: ‘... Respondeu-lhes Jesus: Tenham fé em Deus. Em verdade lhes digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, assim lhe será feito. Por isso digo que tudo o que pedirem em oração, creiam que o receberão, e tê-lo-ão’ (Marcos 11:23-24).

Em uma outra passagem bíblica Jesus assim orienta os discípulos: Tudo o que pedirem na oração, crendo, receberão (Mateus 21:22). Porque eu vou para o Pai e tudo quanto pedirem em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirem alguma coisa em meu nome, eu a farei. (João 14:12-14). Note que nenhum santo é colocado como intermediário, mas sim a pessoa de Jesus Cristo.

Há, ainda, outro ponto importante: o flagrante desrespeito a um dos Dez Mandamentos (o primeiro), que proíbe terminantemente construir, ter, adorar ou curvar-se diante de imagens. Veja lá em Êxodo, capítulo 20, versículos 3 a 5. Isso nos leva a uma melancólica constatação: a Igreja ainda não conseguiu se libertar do costume milenar de tentar obter lucro da religião.

Uma outra coisa que se discute é a autoridade da Igreja para decidir sobre a santificação de alguém. Embora seja um problema interno, os críticos argumentam com o fato de que ninguém está autorizado pela Bíblia, que é a Palavra de Deus, a assumir essa melindrosa e difícil função.

E, para terminar, a palavra do Mestre sobre como e a quem orar: ‘Mas você, quando orar, entre no seu quarto e, fechando a porta, ore a seu Pai que está em secreto. E o Pai, que vê em secreto, o recompensará. E, orando, não usem de vãs repetições, como os gentios, pois pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não se assemelhem a eles, porque o Pai sabe o que lhes é necessário, antes de vocês lho peçam’. (Mateus 6:6-8).

 

voltar

home