A igreja dos alforriados

 

Alegre-se comigo, caro internauta. Graças a Deus que Jesus veio trazer uma nova interpretação dos ensinos bíblicos contidos no Velho Testamento.

Não fora isso, meu amigo, muitos que pensam que estão salvos iriam de cabeça para baixo para o inferno. Só não vão pela grande misericórdia da parte de Deus, confirmada por Jesus.

Os ‘evangélicos’ não aprendem, mesmo. Continuam a bater no peito, como fazia o fariseu da parábola de Jesus, quando orava assim: “Senhor, graças te dou porque não sou como os demais homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho”. E assim continuam a achar que a sua denominação é a certa ou, ao menos, a mais certa de todas. Alguns pastores chegam a convidar os descontentes para sair da igreja.

Afinal, a Igreja é dos pastores ou é de Jesus? E volto a perguntar, como fiz em outro artigo: ‘A Igreja de Jesus tem rótulo?’. Ou, em outras palavras: ‘A Igreja de Jesus tem dono?’.

A minha indignação é gerada pela interpretação errônea e radical que vem sendo dada ao texto de Gálatas que se refere ao ‘filho da escrava e ao filho da livre’. O leitor menos avisado poderia concluir que quem é filho ‘da livre’ é de Jesus e quem é filho ‘da escrava’ não é de Jesus, quando a Palavra afirma que 'Deus não faz acepção de pessoas'.

Preconceitos, discriminação e racismo à parte, vamos analisar o que, exatamente, a Bíblia fala da Igreja de Jesus e da salvação.

Primeiramente, se você tiver oportunidade de percorrer alguns textos bíblicos, vai verificar que muitos filhos famosos (de Abraão, de Isaque, de Jacó e de outros) eram ‘filhos da livre’ - ou ‘da promessa’, mas cometeram muitas atrocidades. Lembre-se da passagem em que os irmãos de José, de raiva, o venderam como escravo. Davi também era ‘filho da livre’, o que não impediu que ele adulterasse e participasse do assassinato de Urias. A sorte deles é que ‘Deus não despreza um coração quebrantado e contrito’ (Salmo 51:17) e está sempre pronto a perdoar.

Certo dia Jesus falava a uma multidão constituída em boa parte de judeus e dizia: ‘E vocês conhecerão a verdade, e a verdade os libertará. Responderam-lhe: Somos descendentes de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém. Como então você diz: "Serão livres"? Jesus replicou: Em verdade, em verdade lhes digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Ora, o escravo não fica para sempre na casa. O filho fica para sempre. Se, pois, o Filho os libertar, verdadeiramente vocês serão livres’ (João 8:32-36). Está implícito nas palavras do Mestre que o escravo, se permanece na casa depois da alforria, é exatamente por não ser mais escravo. A propósito, lembro-me de ter ouvido que muitos escravos no Brasil, ao serem alforriados, continuaram a trabalhar para os antigos patrões, pois, na prática já eram tratados como livres.

Segundo relato de São João, no capítulo 6, versículos 27 a 40 do seu Evangelho, o Mestre afirma: ‘... Porquanto esta é a vontade de meu Pai: Que todo aquele que vê o Filho e crê n'Ele, tenha a vida eterna’. Não se vislumbra qualquer tipo de exceção nas palavras de Jesus.

O apóstolo Paulo, abordando o mesmo tema, assim se expressa na primeira carta dirigida a Timóteo, capítulo 2, versículos 3 e 4: ‘Pois isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade'.

De igual modo, o apóstolo Pedro, no capítulo 3, versículo 9 de sua Segunda Epístola universal, afirma que ‘O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia, porém é longânime, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se’.

Sinceramente, não sei como muitos pregadores conseguem conciliar os textos acima com o de Gálatas, capítulo 4 – que faz referência à ‘livre’ e à ‘escrava’, senão admitindo uma alta dose de preconceito, em choque, portanto, com os ensinamentos do Mestre e do Apóstolo Paulo (autor da carta). O pior é que esses líderes espirituais se gabam de que sua igreja é constituída de 'filhos da promessa', de tal maneira que já ouvi alhures um pastor dizer de alguém que saiu de sua comunidade, mas filiou-se a outra: 'Deixemo-lo ir. Ele está entregue aos seus próprios caminhos!'.

Ora, se todos têm oportunidade de chegar ao conhecimento da verdade e, assim ser salvos, por que não o ‘filho da escrava’ que, em bom português, não é filho legítimo?

E o que dizer do fato de Jesus ter ‘vindo para o que era seu e os seus - os ‘livres’, ou ‘da promessa’ - não o terem recebido’? - São palavras do apóstolo João, no capítulo 1, versículo 11, do seu Evangelho.

E o evangelista, no versículo seguinte, completa a sua exposição, para acalmar os corações confusos e perturbados dos pecadores - daqueles que são ‘filhos da escrava’: ‘Mas, a todos quantos o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus’.

Paulo, em sua epístola aos Gálatas, capítulo 4, versículos 3 a 6, afirma: ‘Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos rudimentos do mundo, mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, debaixo de lei, para resgatar os que estavam debaixo de lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Portanto você já não é mais servo, mas filho; e se é filho, é também herdeiro por Deus’.

O mesmo Paulo, em sua carta aos Colossenses, no capítulo 3, versículo 11, refere-se a uma condição criada pelo amor de Jesus, ‘onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo ou livre, mas Cristo é tudo em todos’.

A verdade, amigo, é que todos nós que hoje somos de Jesus um dia fomos alforriados, fomos feitos filhos. Ninguém merecia. Segundo Paulo, (Gálatas 3:22) ‘... a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos que crêem.

O plano de salvação é mais fácil de entender do que querem alguns.

 

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