Numa dessas andanças pelas cidades do interior como funcionário do Banco do Brasil, não raro deparava com situações muitas vezes cômicas ou engraçadas, geralmente inéditas.
Na agência em Dracena, na região oeste do Estado de São Paulo, onde, entre outras funções exerci a de "Investigador de Cadastro" (coisa de bisbilhotar a vida dos clientes para atualizar as fichas cadastrais), percorria muitas vezes estabelecimentos na zona rural – apesar de que o aspecto, a aparência das pequenas cidades circunvizinhas era bastante rural.
E estava sempre informado dos "podres" dos clientes: este "era dado a mulheres"; aquele bebia "um pouco"; aquel'outro gostava de jogar "um pouco".
Tive um gerente no BB que dizia que "um pouco de cada coisa não é assim tão ruim! Muito pelo contrário...".
Muito bem. Nos fins de semana, como não é difícil adivinhar, os programas com a família (eu, minha esposa e meus dois filhos) seguiam a mesma linha: passeios a uma propriedade de amigo, ou à barranca do grande Paraná - estávamos a apenas quarenta quilômetros dele - ou a alguma chácara onde se pudesse comprar, e também chupar "no pé" laranja e ponkan.
Certo dia, quando da nossa volta para casa de uma dessas incursões, deparamos em certo lugar ermo da estrada de terra (era o que havia), com alguns cabritos sem rumo - os proprietários geralmente deixavam os caprinos à solta pelos caminhos, até que, chegando a noite, voltassem.
Abro aqui um parêntese para fazer uma confissão sobre a minha personalidade: nunca fui santo, nunca declarei que era e nunca pretendi ser. Não que eu fosse um desonesto, ladrão ou malfeitor. Pelo contrário, seguia – e ainda sigo - as boas normas de uma vida cristã. Mas você sabe, "a ocasião faz o ladrão" e, viagem práqui, viagem práli, sempre havia oportunidade de "ganhar" algumas espigas de milho verde da beira da estrada, ou uma melancia, ou uma abóbora, ou mesmo um frango... De outras vezes a ação era, na verdade, um tipo penal, sujeito até a processo e prisão, pois você sabe que até subtrair um sabonete ou uma caneta de um supermercado é motivo para levar o indivíduo à barra dos tribunais.
Foi o caso!...
Nesse dia – estava conosco um meu cunhado - o alvo era uma cabritinha nova em ponto de ser assada para um belo almoço de domingo.
E, entre pensar, falar e agir, foi tudo muito rápido: parei o jipe, meu cunhado correu, pegou a tal e colocou-a no assoalho do banco traseiro, segurando-a firmemente.
E seguimos viagem em direção a Dracena, distante cerca de dez quilômetros.
Só não contávamos com um detalhe: a bitinha berrava a plenos pulmões; como atravessar dois vilarejos que estavam em nosso caminho sem despertar suspeitas?
Foi quando eu – sempre o pai das idéias – recomendei:
- Preparem-se. Quando atravessarmos a cidade, todos vocês devem berrar como a cabrita berra todas as vezes que ela berrar para enganar a assistência. Vai ser meio estranho para quem ouvir, mas certamente conseguiremos passar.
E foi um bééé... bééé...bééé...
Assim foi no primeiro vilarejo e novamente no segundo.
De vez em quando o animalzinho fazia uma forcinha a mais e tentava fugir, o que meu cunhado impedia, fazendo a sua parte de força.
Dessa maneira, conseguimos chegar à chácara do "seu Zezinho" – um pilantra de marca, que deveria guardá-la até segunda ordem.
Só que não houve tempo para uma "segunda ordem": quando soubemos, a cabritinha que, segundo o "seu Zé", havia sido picada por uma cobra, "tinha morrido".
Adeus almoço e adeus bitinha...